sábado, 6 de maio de 2023

[Novel] Tianbao Fuyao Lu - Capítulo 021

        


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Tradução: Foxita
Revisão: Miss Sw
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Capítulo 21 – O Nome da Espada Antiga



Li Jinglong rondava do lado de fora do tribunal há cerca de um quarto de hora quando viu os oficiais saírem um por um e passarem por ele, ficando para trás apenas o Vice-Chefe do Departamento Judiciário, Huang Yong, e seu antigo superior, Hu Sheng.
Li Jinglong se endireitou, observando os dois enquanto esperava pela decisão final.
Hu Sheng olhou para Li Jinglong, mas não disse nada, enquanto calculava maneiras de remediar a situação. Ao longo dos anos, ele nunca soube muito a respeito de seu ex-subordinado e, naquela época, Li Jinglong tinha má reputação no Exército Longwu.  Em determinada ocasião, Hu Sheng perguntou confidencialmente aos funcionários do ministério por que eles não gostavam de Li Jinglong.
Seus outros subordinados eram reservados e não foram claros; de todo modo, eles não gostavam de Li Jinglong e o achavam arrogante, já outros diziam que ele tinha algumas peculiaridades. Hu Sheng não fez mais perguntas sobre o assunto. Era apenas problemático pensar em ter que fazer arranjos para Li Jinglong quando o Departamento de Exorcismo fosse reprimido. Ele o lotaria novamente no Exército Longwu?
Li Jinglong apenas permaneceu parado e em silêncio, esperando os dois homens falarem. Huang Yong e Hu Sheng pensavam a mesma coisa: aquele homem era muito lamentável. Ele já era um adulto, sua casa ancestral fora vendida e ele não tinha família. Tudo o que ele tinha era o Departamento de Exorcismo, que finalmente estava arrumado, mas que agora também seria reprimido.
Hu Sheng deu alguns passos e perguntou, “Você tem um xiongdi entre seus subordinados?”
O semblante de Li Jinglong se alterou por medo de que Hongjun tivesse feito algo errado. Quando olhou para Huang Yong, imediatamente se lembrou que estava com Hongjun quando ele chegou naquele dia. Huang Yong provavelmente contou a Hu Sheng sobre isso.
“Sim,” disse Li Jinglong. “Por quê?”
“Traga-o aqui e depois você voltará para o Exército Longwu.” disse Hu Sheng. “No quinto dia do próximo mês, a placa[1] do Departamento de Exorcismo será removida. Você terá dez dias para se mudar. Os demais serão dispensados e o Ministério do Pessoal os auxiliará a se estabelecerem.”
A mente de Li Jinglong imediatamente ressoou com um estrondo, como se algo tivesse explodido. Ele pensou que tinha ouvido errado e inexpressivamente perguntou, “O quê?”
“Não crie confusão.” disse Hu Sheng. “Eu estive nos limites das forças por causa de todos os problemas que causou nos últimos anos, então você acha que quero isso? Recomponha-se e conversaremos a respeito disso em alguns dias.”
Em seguida, Hu Sheng contornou Li Jinglong e partiu.
Huang Yong falou, “Chefe Li, eu acredito que existam yaos no mundo e confio na sua conduta. Porém, algumas coisas simplesmente não acontecem da maneira que queremos e essa é a maior dificuldade da vida. Como herdou a espada de Lorde Di, deve estar familiarizado com o princípio de ‘ocultar suas forças e aguardar seu tempo’[2]...”
Li Jinglong não ouviu o que Huang Yong disse, pois rapidamente se virou para ir atrás de Hu Sheng. Porém, quando saiu do Departamento Judiciário, não conseguiu encontrar qualquer sinal do outro homem. Perdido, ele ficou parado na rua, sentindo-se fraco e tonto, como se o mundo inteiro girasse.
Quando passou pelo saguão de entrada, no quinto período de vigília[3], Li Jinglong não sabia dizer como havia voltado para o Departamento de Exorcismo.
O Acala, envolto por uma camada de chamas e que segurava seis artefatos mágicos, o olhava calmamente. Várias xícaras e tigelas estavam espalhadas pelo pátio. O sofá do saguão havia sido levado para fora e colocado sob a árvore de guarda-sol, com algumas folhas de chá espalhadas pelo chão; pelo jeito, eles passaram algum tempo se divertindo sob a árvore de guarda-sol.
Nos quartos de todos, as lâmpadas já estavam apagadas. Aparentemente, eles foram para cama sem esperar por ele, até mesmo para evitar receberem uma nova visita que zombasse do fato de terem trocado o dia pela noite. Li Jinglong ficou parado no pátio, olhando silenciosamente a cena à sua frente.
 
Deitado no sofá, Hongjun mergulhava em um sonho estranho. No sonho, Chang'an estava cercada por um mar de sangue e por montanhas de cadáveres; estava tomada por névoa e com pessoas mortas por todos os lados, tal como aconteceu quando o peixe ao fugiu para o Palácio Daming. Um após o outro, os cadáveres estendiam as mãos em sua direção, tentando arrastá-lo.
Ele entrou em pânico e tentou ativar a Luz Sagrada Pentacromática, mas descobriu que seus meridianos já estavam vazios. Olhou ao redor, querendo voltar para o Departamento de Exorcismo. Naquele momento, porém, e sem saber por que, ele não estava pensando em Chong Ming ou Qing Xiong, mas sim em Li Jinglong.
Gritou, “Chefe? Chefe, onde você está?”
Ele cambaleou e correu pela cidade de Chang'an, repleta de cadáveres por todos os lados. A névoa negra o envolveu pelas costas, gelando-as. Ele caiu pesadamente no chão e gritou: “Li Jinglong?! Li Jinglong!”
Quando se levantou novamente, sentiu uma poderosa força no peito, que quase rompeu seu torso, causando-lhe muita dor.
“Li Jinglong—!”
“Hongjun!”
No quarto, Hongjun estava prestes a rolar para fora da cama, quando Li Jinglong o ouviu chamar seu nome. Ele imediatamente se lançou para frente e o pegou.
Hongjun acordou de repente e, quando ia gritar de novo, Li Jinglong rapidamente fez um gesto de "silêncio" e olhou para ele surpreso. Hongjun estava encharcado de suor, com os olhos bem abertos e o rosto pálido e ofegante.
Li Jinglong perguntou em voz baixa, “Pesadelo?”
Ele se ajoelhou e abraçou Hongjun, que se agarrou às roupas de Li Jinglong e enterrou a cabeça nos braços dele, suspirando longamente.
 
Naquela noite, a lâmpada do quarto de Li Jinglong ainda estava acesa.
Hongjun pegou a decocção calmante no pátio leste e passou pelo quarto de Li Jinglong, que disse, “Entre aqui e me dê um pouco disso também.”
Hongjun concordou. “Te darei um pouco quando ficar pronta.”
Hongjun ainda se lembrava do dia em que Li Jinglong o mandou para fora do quarto. Depois, ele questionou o yao carpa especificamente a respeito daquilo e o peixe lhe disse que algumas pessoas não gostavam que outros entrassem em seus quartos, então Hongjun manteve isso em mente.
“Fique um pouco comigo,” disse Li Jinglong.
Hongjun entrou descalço, apagou uma chama e acendeu a pequena fornalha de cobre perto da mesa, onde colocou uma tigela também de cobre e começou a misturar os ingredientes do remédio.
“Você sonhava muito quando era criança?” perguntou Li Jinglong.
“Não.” Hongjun balançou a cabeça. “Só comecei a ter pesadelos depois que desci as montanhas.”
“Saudade de casa?” Li Jinglong suspirou e perguntou novamente.
Ele tirou o robe, ficando vestido com suas roupas de baixo brancas como a neve.  Então, sentou-se sobre os joelhos do outro lado, de frente para Hongjun.
Delicadamente, Hongjun fervia os ingredientes na tigela com uma colher de cobre. As chamas refletiram em seus olhos jovens e heroicos, que pareciam um pouco tristes.
Ao ouvir a expressão “saudade de casa”, ele levantou os olhos para olhar para Li Jinglong e sorriu. Aquele sorriso imediatamente fez Li Jinglong, cuja vida era desesperadora, sentir as cordas em seu coração serem suavemente tocadas e ecoarem um som que se espalhou como ondas, camada após camada.
“Zhao Zilong disse que as pessoas somente dão valor às coisas depois que as perdem,” Hongjun falou sorrindo. “Estou com saudade de casa porque estou longe de lá, mas também gosto do Departamento de Exorcismo e de todos aqui.”
Com os olhos um pouco confusos, Li Jinglong perguntou, “Do que você gosta no Departamento de Exorcismo?”
“Ah, a árvore de guarda-sol.” Hongjun virou a cabeça e se inclinou para frente e acrescentou olhando para fora do quarto, “Você até me deu pinturas, me levou para brincar e me fez companhia...”
Li Jinglong respondeu em voz baixa, “Não sei por que, mas sempre sinto como se minha alma fosse gêmea da sua.”
A fragrância dos ingredientes misturados parecia ter surtido algum efeito, aliviando as preocupações de Li Jinglong. Ele não pôde deixar de olhar para o jovem à sua frente e se perguntar por que sempre teve um cuidado especial com ele.
Era por ele não ser como os outros três, cada um com seus próprios planos? Não.
Ou porque ele era lindo e fazia o coração de alguém se afeiçoar a ele? Também não.
“O que aconteceu hoje?” Hongjun olhou novamente para cima e perguntou.
Li Jinglong viu um pensamento vago nos olhos de Hongjun e de repente alcançou uma rápida conclusão. Não conseguiu evitar sorrir e compreender...
... Hongjun não entendia muitas coisas. Ao contrário das outras pessoas, ele nunca o enxergara com olhos de escárnio. Diferentemente dos oficiais do Exército Longwu, ele nunca pisou naqueles abaixo dele para bajular seus superiores[4]. Ele não tentava calcular o que as pessoas estavam pensando e tinha ainda menos vontade de bisbilhotar nos corações dos outros. Ele não se achava sábio, tampouco menospreza a si mesmo, apenas alheio ao mundo e aos sentimentos humanos.
É agradável ser amigo de pessoas simples; livre de armações e intrigas.
“Eu te causei problemas de novo?” perguntou Hongjun.
Li Jinglong estava radiante, sorrindo impotente e balançando a cabeça. Hongjun parecia confuso, incapaz de entender o que Li Jinglong estava pensando. Na verdade, ele aos poucos começou a entender a maioria das pessoas que falavam cheias de insinuações e eloquência[5]. Ele sabia que muitos neste mundo tinham jeito com as palavras.
“Você também é assim tão despreocupado em casa?” perguntou Li Jinglong. “Pregando peças e criando problemas em todos os lugares?”
“Chong Ming é muito assustador quando fica bravo,” disse Hongjun. “Quem se atreveria? É pura má sorte, só isso.”
“Um pouco.” Li Jinglong não sabia se ria ou se chorava, sentindo que, desde que conheceu Hongjun, acontecimentos azarados vinham em sequência, um após o outro, de forma muito mais acentuada do que nos últimos vinte anos.
“Nenhum de vocês entende as pessoas comuns,” disse Li Jinglong. “A vida delas é repleta de sofrimento.”
Hongjun anuiu e disse, “É verdade, pessoas comuns sofrem muito. Entre yaos mosyaos são os monstros das montanhas e guais selvagens; mos são a raiva e a dor de todas as criaturas vivas.”
Li Jinglong se perguntou: “O nome é 'Departamento de Exorcismo', por que não 'Departamento de Exorcizar Yaos?' Yaos eu já vi, mas e os mos?  Onde estão? Também estão em Chang’an?”
Hongjun pensou sobre isso e disse: “É porque a principal tarefa do Departamento de Exorcismo é dissipar os sofrimentos da Terra Divina; expulsar o mo interior de todas as criaturas vivas, dissipar os obstáculos mos que se acumularam ao longo dos anos e purificar o mundo.”
Desde que podia se lembrar, Hongjun nunca enfrentou quaisquer problemas. O calor de Chong Ming era como uma barreira, protegendo-o em todos os momentos e lugares. No entanto, apenas dois meses após deixar as Montanhas Taihang, ele descobriu que havia abundante dor e tristeza na Terra Divina, e que as alegrias e tristezas dos humanos eram muito intensas.
Pelo caminho, ele vira pobreza, morte, doença e velhice. O yao carpa lhe disse que essas eram as dificuldades do mundo[6]: nascimento, velhice, doença, morte, ressentimento e ódio, despedidas dos entes queridos, frustração em satisfazer vontades e desejos e o sofrimento do florescimento dos cinco skandhas[7]. Todos os tipos de dor se espalham pela seiva e pelo pulso do mundo, movendo-se incessantemente em ciclos e purificados por essa força sombria e poderosa.
Porém, uma vez que o liminar de purificação do céu e da terra é excedido, hostilidade se convergirá em mos.
Hongjun sempre se lembrava de 'Mara', que Qing Xiong havia mencionado antes de ser interrompido por Chong Ming. Ele estava altamente curioso sobre a existência deste mo, mas o yao carpa apenas explicou a origem dos mos e não tocou mais no assunto. 
Após a explicação de Hongjun, Li Jinglong franziu o cenho e disse: "Talvez seja esta a catástrofe da Terra Divina à qual Lorde Di se referiu."
Hongjun estudou a expressão preocupada de Li Jinglong e falou com um sorriso: “Você está sempre infeliz.”
“Não consigo ficar feliz,” respondeu Li Jinglong cansado. Quando olhou para Hongjun, novamente se sentiu melhor e sorriu aliviado, dizendo: “Mas me sinto muito melhor sempre que falo com você.”
“Você ainda não tomou a decocção.” Hongjun pegou a água fervente, despejou na tigela de cobre e dissolveu o remédio. “Eles te fizeram pagar pelos estragos? Eu ainda tenho algumas...”
Quando Hongjun estava prestes a se levantar para pegar suas pérolas, Li Jinglong disse: “Não é suficiente para cobrir os danos; esqueça isso. Vou pensar em algum outro jeito. O mais problemático é que o tribunal inteiro não gosta de mim, mas isso também é compreensível.”
“E o seu Imperador?” disse Hongjun. “O palácio é dele. Apenas peça desculpas e ele vai concordar, certo? Eu até queimei o Palácio Yaojin antes de descer as montanhas...”
Li Jinglong, “...”
Hongjun foi capaz de despertar o homem do transe com apenas um breve comentário. Não importa o que acontecesse, Li Longji era quem daria a palavra final; uma palavra sua seria mais eficaz do que qualquer outra coisa no mundo.
Li Jinglong franziu o cenho. Contanto que o imperador soubesse o que eles faziam e confiasse neles, o que os oficiais poderiam fazer? Porém, como eles persuadiriam o imperador a acreditar nesses acontecimentos? Pelo menos esta era uma solução, e eles teriam que se apressar para fazê-la antes do quinto dia do próximo mês...
“Vou pensar sobre isso de novo,” disse Li Jinglong. “A questão ainda não foi decidida. Existem yaos no palácio imperial, hmm...”
Ele tinha uma ideia tênue e vaga, e Hongjun lhe entregou a tigela de remédios. Li Jinglong sinalizou para que o outro tomasse antes, enquanto começava a pensar em uma solução. Depois que Hongjun tomou metade da tigela, Li Jinglong tomou a outra metade.
“Parece que o remédio tem... um pouco demais...” falou Hongjun atordoado.
Li Jinglong havia acabado de tomar sua parte quando viu os olhos atordoados de Hongjun, que estava prestes a cair. Li Jinglong correu para ajudá-lo, mas de repente se sentiu tonto e quase não conseguiu ficar em pé.
“Você... Hongjun...”
Li Jinglong girou e se sentou apressadamente, o que fez com que Hongjun perdesse o apoio e, já adormecido, se apoiasse em Li Jinglong.
“Que remédio é esse... espera...” o corpo inteiro de Li Jinglong já havia perdido as forças. Encostado no sofá, ele tentou agarrar freneticamente com a mão para se apoiar, mas ela escorregou e ele perdeu completamente a consciência.
 
Na manhã seguinte.
O sol brilhava no quarto. Quando A-Tai passou pelo quarto de Li Jinglong, o viu deitado na beira do sofá com as pernas ligeiramente separadas, juntamente com Hongjun, que estava deitado sobre ele.  Os dois vestiam roupas de baixo e dormiam confortavelmente.
A-Tai, “...”
“Qiu Yongsi!” A-Tai rapidamente o chamou para o pátio. Qiu Yongsi, que tinha um senso extremamente apurado para fofoca, rapidamente trotou para lá. Ao ver a cena no interior do quarto, os dois escancararam as bocas como se fossem um yao carpa.
“Chamamos Mo Rigen pra vir ver?”
“Feche a boca. O que há aí pra ver? Rápido, feche a porta do chefe.”
“Você ouviu na noite passada? Hongjun ficava chamando o nome dele! ‘Chefe! Chefe! Li Jinglong! Jinglong!’ Ou ouvi errado?”
“Isso, isso! Foi o que eu ouvi! Então era isso! Mas eles não estavam no quarto de Hongjun? O som veio da direita!”
À medida em que as vozes diminuíram, Li Jinglong acordou. Ele recobrou a consciência e olhou para baixo. Ao ver Hongjun deitado sobre seu corpo, seu coração de repente acelerou. Ele estendeu a mão, dando um tapinha nele e sussurrando, “Hongjun? Acorde!”
Hongjun dormia como uma pedra. Noite passada, enquanto conversavam, a tigela de decocção calmante ferveu demais com os ingredientes e os fez perderem a consciência após a ingestão.
Li Jinglong queria levá-lo de volta para o próprio quarto, mas todo mundo já deveria estar acordado. Além disso, se fosse visto por Zhao Zilong, temia que o yao carpa apenas acabasse fazendo barulho por nada. Para Li Jinglong, ele era o mais insuportável, então lhe restou apenas erguer Hongjun, colocá-lo no sofá e cobri-lo com uma colcha.
No salão principal, Mo Rigen torcia um escudo de couro com um alicate, A-Tai brincava com um cristal e Qiu Yongsi preparava chá. Quando Li Jinglong chegou depois de se lavar, todos prontamente perguntaram sobre os assuntos da noite passada.
Li Jinglong soltou um "hmm" e disse que não aconteceu nada sério. Ele ponderou cuidadosamente sobre o assunto enquanto recebia chá de Qiu Yongsi. A-Tai e Qiu Yongsi trocaram um olhar estranho e Mo Rigen lhes lançou um olhar interrogativo.
“Então, o caso foi concluído?” perguntou A-Tai.
“Ainda não,” disse Li Jinglong. “Vamos continuar a investigar hoje.”
O semblante de todos era de dúvida. Li Jinglong pensou sobre o assunto mais uma vez e finalmente perguntou, “Pessoal, vocês podem me ensinar mana?”
Os cantos das bocas deles se contraíram.
“Eu não quero arrastar todo mundo para baixo.” Li Jinglong afirmou com precisão. “Vocês estão certos. Como alguém comum, apenas força pura não será suficiente para capturar yaos.”
 
Quando Hongjun acordou, apenas sentiu que o cansaço dos últimos dias havia passado. Se esticando, de repente sentiu um cheiro agradável na colcha. Olhando novamente para cima, descobriu que aquele não era seu quarto. Como acabou dormindo no quarto de Li Jinglong?
“Chefe?! Chefe Li?!” chamou Hongjun. “Cadê você?”
Li Jinglong e os outros três estavam conversando no pátio quando de repente ouviram os chamados de Hongjun. Li Jinglong ficou imediatamente envergonhado e estava prestes a ir explicar, quando Mo Rigen falou com espanto “Hongjun? O que está acontecendo?”
Vestido de branco, Hongjun correu para fora e disse, “Chefe Li? O que aconteceu ontem à noite?”
A xícara na mão do yao carpa caiu com um estrondo.
Li Jinglong gesticulou para que ele parasse de falar besteiras, mas Hongjun ainda estava perdido e continuou, “Por que dormi no seu quarto? Você até me cobriu com uma colcha!”
Surpreso, Mo Rigen olhou para Li Jinglong e então para Hongjun. A-Tai e Qiu Yongsi disseram ao mesmo tempo, “Nem pensar! Como é possível?”
“Li Jinglong!” gritou o yao carpa. “O que você fez com nosso Hongjun?”
Li Jinglong não aguentava mais e rugiu, “Kong Hongjun! Você tomou uma decocção calmante! Por acaso cheirou pólen de Lihun e esqueceu? Ontem à noite, você teve um pesadelo e chamou... chamou... chamou por mim, aí você quis ferver um remédio e pegou emprestado o forno do meu quarto...”
Ao se lembrar disso, Hongjun sentiu-se culpado e assentiu, dizendo, “Estranho... por que eu chamaria você...”
“Como eu vou saber!?” rugiu Li Jinglong inexplicavelmente. “Volte e vista-se!”
“Chefe, você não precisa se explicar tão claramente.” Disse A-Tai
“Verdade, verdade,” disse Qiu Yongsi. “Todos nós entendemos.”
“Vocês não entendem nada!” Li Jinglong estava tão furioso que demorou um tempo para se acalmar.
Hongjun trocou de roupa e saiu novamente, sentando-se no corredor para comer. Ele curiosamente olhou ao redor, vendo A-Tai e Qiu Yongsi ensinando mana para Li Jinglong no pátio.
“Não há poder espiritual nos meus meridianos,” disse Li Jinglong.
“Na verdade, chefe,” disse Mo Rigen. “Como um humano, você já é bem extraordinário.”
Li Jinglong suspirou e disse, “Não é suficiente.”
Ao enfrentar a yao raposa e o peixe ao, Li Jinglong dependera de Hongjun, que o protegeu em ambas as ocasiões. Se tivesse agido de maneira precipitada, muito provavelmente teria sido engolido pelos yaoguais.
Qiu Yongsi disse, “Para conduzir a si próprio, o cérebro é o mais importante.” Assentindo, acrescentou, “mana vem em segundo lugar. Meu avô disse que você deve confiar em si mesmo para ter armas mágicas e cultivar, mas pode confiar na força bruta para fazer tudo. Se você não tiver força, mais cedo ou mais tarde morrerá nas mãos dos yaoguais
“Além disso, você tem Hongjun,” disse A-Tai.
“Certo, você tem Hongjun,” Mo Rigen e Qiu Yongsi fizeram eco.
Hongjun, “?”
Li Jinglong abaixou sua espada. Hongjun saiu do pátio e disse, “Faz muito tempo que estou curioso; que arma mágica é essa?”
Esta era a terceira vez que Hongjun estudava seriamente a espada. Em seguida disse, “Qing Xiong uma vez disse que até mesmo uma pessoa comum sem poderes pode ser exorcista se usar uma arma mágica corretamente.”
“É verdade,” disse Qiu Yongsi. “Muitos exorcistas também não possuem naturalmente veias espirituais e contam apenas com algumas armas mágicas para derrotar o inimigo... Posso ver a espada?”
Esta era a primeira vez que Qiu Yongsi, A-Tai e Mo Rigen olhavam a espada de Li Jinglong tão de perto. Li Jinglong disse: "Ela parece ter uma conexão com a faca de arremesso de Hongjun.”
Hongjun girou a faca entre os dedos e injetou poder espiritual nela. A faca de arremesso se iluminou, assim como a longa espada sem adornos.
“Oh!” todos ficaram surpresos.
Hongjun disse: “Quando a faca perfura um yaoguai, ela provavelmente é ativada em resposta à energia yao. Talvez a espada e a faca sejam forjadas do mesmo tipo de aço?”
“Talvez,” murmurou Qiu Yongsi. “Consegue fazê-la brilhar mais?”
A faca de arremesso ressoou com a espada longa, onde surgiu uma linha de caracteres que brilharam com cada vez mais intensidade.
“Esta...” Qiu Yongsi olhou para Li Jinglong e depois novamente para a espada.
Li Jinglong franziu o cenho e perguntou, “O quê?”
“Quanto pagou por ela?” perguntou Qiu Yongsi.
“Quinhentos e cinquenta mil taéis,” disse Li Jinglong.
“Mesmo se uma espada custasse cinco milhões e quinhentos mil, me dê mais dez,” disse Qiu Yongsi com um sorriso, devolvendo a espada a Li Jinglong. Dentre eles, Qiu Yongsi era quem tinha mais conhecimento sobre artefatos mágicos, então, quando disse aquilo, todos involuntariamente se endireitaram.
“Que arma mágica é esta?” perguntou Li Jinglong.
“A Espada da Sabedoria.” respondeu Qiu Yongsi.
“O quê?!” o yao carpa estava em choque.
“Você sabe a respeito dela?” perguntou Li Jinglong.
O yao carpa, “Não.”
Li Jinglong, “...”
O yao carpa, “Só achei que era um bom momento para ficar surpreso e dar o clima.”
Todos desmoronaram.
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Notas de tradução
[1] Placa, em chinês “bian” (): basicamente é uma placa horizontal inscrita.

[2] Ocultar os próprios talentos e aguardar a oportunidade certa (ouesconda sua luz debaixo do alqueire”): esconder o talento de alguém e manter um perfil discreto. Esconda seu talento e continue melhorando, para alcançar um desenvolvimento equilibrado.
[3] quinto período de vigília: 03:00-05:00 antes do amanhecer; a quinta vigília pouco antes do amanhecer.
[4] pisar naqueles abaixo dele para bajular seus superiores: No original, algo como: olhar para o prato abaixo e rastejar para cima enquanto pisa no inferior. Em resumo, rastejar sem princípios, lisonjeando o superior e pisoteando o mais novo; bajular aqueles que estão no topo e intimidar aqueles que estão por baixo. A palavra “prato” também pode significar uma habilidade de uma pessoa fraca/pobre.
[5] pessoas que falavam cheias de insinuações e eloquência: No chinês “jifeng” (), termo budista traduzível, segundo a fonte do inglês, como “lança automática”. De acordo com a wikipedia chinesa, jifeng é um termo do zen budismo que se refere a um método de diálogo cheio de significados profundos. Os mestres zen costumam usá-lo como método de ensino para confirmar o grau de estudiosos e orientar os alunos a alcançar a iluminação. Entre os artigos relacionados na wikipedia, está o “método retórico socrático”, talvez um paralelo ocidental para tentarmos entender mais ou menos o contexto (ninguém aqui da tradução é fluente em mandarim ou expert em budismo, sorry).
Segundo a nota da tradução para o inglês, “automático” refere-se à função do coração estimulada pelo método de ensino ou pela chave da verdade; já “lança” refere-se ao estado agudo de usar as sutilezas budistas.
[6] as dificuldades do mundo: Parece se referir aos oito sofrimentos do budismo. Caso alguém tenha interesse na temática, há uma linda novel danmei chamada Nan Chan que aborda essa questão.
[7] cinco skandhas: Impressão, sentimentos, percepções, atividade mental e consciência.
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