sexta-feira, 28 de agosto de 2026

[Novel] Mingwang Huanshi Lu - Capítulo 017

 



Capítulo 17 - Liwan



Enquanto pedalava com Chi Xiaoduo na garupa, Xiang Cheng pensou um pouco e disse: "Qi Wei… ele guarda rancor de mim. Se for um incômodo para você, peço a ele que me ajude a conseguir um certificado de trabalho.”


“Ah? Sem problemas, não é incômodo nenhum”, disse Chi Xiaoduo. “Wang Ren é um grande amigo meu, mas senti que o Qiqi foi muito gentil com você… que tipo de rancor ele tem?”


Xiang Cheng respondeu: “Algo que aconteceu na geração anterior.”


Chi Xiaoduo percebeu imediatamente que não deveria fazer mais perguntas, então assentiu.


O China Plaza era o local mais movimentado da região; estendendo-se dos andares de lojas no subsolo até o último andar, era, sem dúvida, uma das áreas comerciais mais prósperas de Guangzhou. À noite, o local brilhava com uma profusão de luzes e fervilhava com uma multidão de pessoas. Os dois subiram até o terceiro andar. Xiang Cheng conferiu o endereço que havia anotado e localizou a loja em questão; a fachada estava em reforma, coberta por uma lona com estampas de desenhos animados. Parecia que as obras estavam quase concluídas, restando apenas definir a data de inauguração.


Aproveitando que as pessoas ao redor não prestavam atenção, Xiang Cheng levantou a lona, abaixou-se e entrou. Chi Xiaoduo ficou do lado de fora vigiando.


Pouco depois, Chi Xiaoduo levantou a lona e viu Xiang Cheng pendurado no teto, com a parte superior do corpo enfiada no duto de ventilação.


“Vamos”, disse Xiang Cheng ao pular para baixo, segurando um rolo de talismãs em papel branco nas mãos.


Os dois saíram da garagem e entraram no metrô.


Às nove da noite, Xiang Cheng parou para olhar o mapa das estações. Da Estação do Parque dos Mártires, pegariam a Linha 1 no Parque Renmin em direção à Rua Changshou. O local estava lotado; Xiang Cheng protegeu Chi Xiaoduo à sua frente, guardou com cuidado o rolo de talismãs no bolso do casaco e respondeu: “Não fique nervoso, não é nada de mais.”


“Para que serve isso?” Chi Xiaoduo perguntou.


Xiang Cheng sussurrou ao pé do seu ouvido: “Quando estão construindo edifícios, usam esses talismãs de exorcismo selados no concreto para garantir a segurança da obra e evitar mortes acidentais entre os trabalhadores.”


Chi Xiaoduo não se lembrava de já ter visto algo assim e questionou: “Todo prédio tem isso?”


Xiang Cheng balançou a cabeça e respondeu: “Alguns têm, outros não. Certos construtores de Hong Kong que acreditam nisso mandam selar talismãs de proteção, e até amuletos para atrair bons negócios e vender bem os imóveis. Se houver algum yaoguai morando por perto há muito tempo, o talismã acaba absorvendo o yao qi.”


“Que tipo de yao é esse?” Chi Xiaoduo perguntou.


“O qi é muito fraco, então é um yao bem comum”, respondeu Xiang Cheng. “Vamos encontrá-lo agora. Não tenha medo; yaos comuns não são páreo para mim.”


Chi Xiaoduo assentiu. Os dois desembarcaram na estação da Rua Changshou; já passava das nove horas e havia pouquíssimas pessoas na Rua Changshou Oeste.


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng: “?”


“Liwan Plaza?” Os pelos da nuca de Chi Xiaoduo se arrepiaram.


“Liwan Plaza… hmm, o que tem ele?” Xiang Cheng olhou para cima; do lado de fora de um dos andares do centro comercial, um minúsculo ponto branco cintilava fracamente — era a fênix branca de Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo perguntou: “Será que um yaoguai pode estar escondido aqui?”


“É possível”, disse Xiang Cheng. “Você está com medo?”


O Liwan Plaza era o lugar assombrado mais aterrorizante das lendas urbanas de Guangzhou. Se fosse para vir sozinho, Chi Xiaoduo não daria nem meio passo ali dentro nem que o matassem a pancadas; esqueça a noite, não viria nem mesmo em pleno meio-dia.


“Não estou com medo.” Chi Xiaoduo espiou a entrada por trás de Xiang Cheng. Xiang Cheng se virou para olhá-lo, e Chi Xiaoduo disse trêmulo: “Eu realmente não estou com medo. Bem, na verdade, eu só tenho medo de fantasmas; yaoguai são apenas um fenômeno natural — não há nada para se temer lá dentro.”


Xiang Cheng disse: “Que tal eu entrar e dar uma olhada, enquanto você espera lá fora e toma um café?”


“Aí é que eu morreria de medo mesmo!” Chi Xiaoduo disse, encolhendo-se ao lado de Xiang Cheng. “E se der dez da noite e você não tiver saído, e todas as lojas da rua já estiverem fechadas? Como é que a gente faz?”


Xiang Cheng riu e disse: “Fique bem atrás de mim.”


Ele carregava uma bolsa tiracolo e a colocou atravessada no corpo de Chi Xiaoduo, dizendo: “Se ficar com medo, é só pegar o que encontrar aí dentro e jogar.”


Chi Xiaoduo não sabia se ria ou chorava enquanto seguia Xiang Cheng para dentro.


O Liwan Plaza estava completamente vazio. Muitas lojas já tinham baixado as portas de enrolar e fechado mais cedo. Não havia ninguém no primeiro andar, e os dois subiram na escada rolante.


“Aquela loja se mudou para cá?” Chi Xiaoduo olhou ao redor, perguntando baixinho e com cuidado.


“Talvez”, respondeu Xiang Cheng. “Ou pode ser que a loja principal seja bem aqui. Você conhece as histórias do Liwan Plaza?”


“Já ouvi falar.” Chi Xiaoduo estava distraído; seus olhos vagavam de um lado para o outro enquanto ele segurava a manga de Xiang Cheng. Xiang Cheng virou a mão para segurar a de Chi Xiaoduo; os dedos deles se roçaram antes de se entrelaçarem — dedos firmemente unidos, exatamente como um casal durante um passeio.


Chi Xiaoduo: “……”


“Ainda está com medo?” Xiang Cheng perguntou.


“Não estou com medo”, respondeu Chi Xiaoduo, enquanto ajustava discretamente o cinto; pensando: Não estou com medo, mas estou de pau duro… Droga, esse gesto é tão íntimo — mas a sensação é tão boa. Era a primeira vez na vida que ele entrelaçou os dedos com um homem de quem gostava. E, de fato, assim que deram as mãos, ele sentiu o tesão bater.


Mudando de assunto, Chi Xiaoduo perguntou: “Eu achava que só o pessoal de Guangzhou conhecia essa história, não sabia que tinha ficado tão famosa assim.”


Xiang Cheng respondeu: “Temos um boletim interno no departamento de exorcismo; é uma publicação mensal chamada ‘Negócios de Exorcismo', usada pelas organizações locais para se comunicarem. Uma das edições mencionou o incidente do Liwan Plaza.”


“Por causa de uma entidade maligna”, respondeu Xiang Cheng.


A escada rolante parou bruscamente; Chi Xiaoduo quase soltou um grito, mas Xiang Cheng simplesmente segurou sua mão e o conduziu para cima, dizendo: "Li sobre isso numa revista mensal, então não sei os detalhes exatos. Na Dinastia Qing, as Treze Fábricas¹ precisavam purificar a área, então ‘prenderam’ um dragão aqui — cravando-o diretamente nas veias da terra — para que aqueles que faziam negócios sobre o corpo do dragão pudessem prosperar."


Chi Xiaoduo ficou levemente boquiaberto. Os dois chegaram ao terceiro andar, e um atendente de uma loja de cristais logo ali perto acabou de fechar as portas e saiu.


“O corpo do dragão”, disse Xiang Cheng, “se estende desde o lugar onde pegamos o metrô até chegar aqui, incluindo aquelas ruas de pedestres que vocês costumam frequentar. Se o comércio ali é tão próspero, é por causa da energia do veio da terra. E bem abaixo deste lugar fica a boca do dragão.”


Chi Xiaoduo e Xiang Cheng olharam juntos para o saguão; estava completamente vazio, envolto em uma atmosfera silenciosa, porém sinistra. As luzes do teto piscaram e se apagaram, fazendo com que Chi Xian Duo apertasse com força a mão de Xiang Cheng e perguntou: “Então é por causa da boca do dragão que aqui é assombrado?”


"A boca do dragão é o ponto de maior hostilidade. Depois que aquele dragão morreu, ele foi pregado aqui por centenas de anos, retendo uma fúria que não podia ser dissipada e que se concentrou neste local", disse Xiang Cheng. “Ouvi dizer que, na época em que cavaram as fundações, encontraram caixões aqui?”


“Isso, isso!” Chi Xiaoduo abraçou a bolsa esportiva de Xiang Cheng contra o peito, e disse, com os cabelos em pé: “Os moradores antigos de Guangzhou — especialmente os que vivem neste bairro — costumam falar sobre isso. Dizem que oito caixões foram desenterrados bem embaixo do saguão.”


“Eles serviam para ser pendurados nos dentes do dragão e conter sua fúria”, explicou Xiang Cheng. “Os cadáveres em seu interior serviam de alimento para o dragão maligno. Mais tarde, os operários da construção os destruíram; sem ter mais o que comer, o dragão maligno naturalmente começou a causar problemas.”


Chi Xiaoduo estava extremamente nervoso, mas, com Xiang Cheng ao seu lado, a situação não parecia tão aterrorizante. Ele perguntou: “Então… ouvi dizer que oito pessoas morrem aqui todos os anos… isso é verdade?”


Xiang Cheng balançou a cabeça negativamente. Chi Xiaoduo perguntou: “Existe alguma maneira de quebrar a maldição?”


“Demolir tudo e construir um templo por cima”, disse Xiang Cheng enquanto caminhava silenciosamente com Chi Xiaoduo pelo corredor do terceiro andar. “Do contrário, só dá para vender cristais e jades, já que ambos ajudam a afastar espíritos malignos.”


Ao ouvirem passos se aproximando, Xiang Cheng e Chi Xiaoduo entraram rapidamente na saída de emergência e fecharam a porta.


O som de passos foi se aproximando cada vez mais até que, num piscar de olhos, todas as luzes do andar se apagaram. Chi Xiaoduo quase soltou um grito, mas Xiang Cheng gesticulou com a mão, pedindo para ele olhar para fora.


Através da janela transparente da porta de emergência, os dois viram um segurança com uma lanterna na mão, apagando as luzes daquele andar.


Com as luzes apagadas, o ambiente mergulhou na escuridão, e Chi Xiaoduo começou a sentir um certo medo. Xiang Cheng ligou a lanterna do celular, e os dois subiram para o quarto andar pela escada rolante parada.


Chi Xiaoduo apontou nervosamente para o canto superior direito.


No canto sudeste do quinto andar, havia uma luz fraca saindo de uma loja, acompanhada por um som muito sutil. Os dois subiram em passos rápidos, e Chi Xiaoduo olhou para dentro através da porta de ferro.


Era uma loja de cristais. O balcão interno tinha a forma do ideograma porta (门), com a abertura voltada para a entrada do estabelecimento. Havia balcões compridos de ambos os lados.


Os cristais estavam expostos nos balcões de vidro, enquanto atrás deles havia vários amuletos de proteção vermelhos pendurados; sobre os balcões, ficavam estátuas bastante estranhas. Havia uma placa do lado de fora e, com a pouca iluminação, dava para ler: Loja Especializada em Cristais e Jades Honghao.


Uma televisão pequena estava pendurada no interior da loja, exibindo um antigo filme cantonês em preto e branco, em volume baixo. O local estava completamente vazio; a luz oscilante da tela projetava um brilho sobre os rostos dos dois homens, criando uma atmosfera verdadeiramente sinistra.


Xiang Cheng deu um passo para trás, e Chi Xiaoduo acompanhou o seu olhar, erguendo os olhos em direção ao batente na parte superior da porta. Não havia nada ali. Xiang Cheng deu mais alguns passos para o lado e, sem que ele precisasse dizer uma única palavra, Chi Xiaoduo entendeu o que estava acontecendo.


Quase todas as lojas da galeria tinham espelhos Baguá encardidos pendurados na porta; apenas esta não tinha.


Xiang Cheng tirou o Cajado Subjugador de Yao e a Corda de Amarração de Yao da bolsa de Chi Xiaoduo, parou ao lado da porta e se escondeu do lado de fora.


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng fez um sinal para que ele batesse e garantiu que estava ali. Chi Xiaoduo assentiu, ajustou a alça da mochila esportiva e bateu na porta.


“Tem alguém aí?” Chi Xiaoduo perguntou.


Ninguém respondeu lá de dentro. Chi Xiaoduo sacudiu levemente o portão de segurança, mas Xiang Cheng fez um gesto de “shhh”, indicando que não deviam fazer muito barulho para não chamar a atenção do segurança no saguão.


“Tem alguém aí?” Chi Xiaoduo chamou de novo. "Chefe? Vim comprar uma coisa!"


Xiang Cheng colocou a mão na testa. Chi Xiaoduo sentiu que sua pergunta tinha sido um pouco boba e, no momento em que ia dar um passo para trás, uma mão surgiu de trás do balcão mais próximo. Logo em seguida, uma cabeça despontou e uma pessoa se levantou, encarando-o fixamente.


Chi Xiaoduo levou um enorme susto; precisou de muito esforço para não gritar, e uma sensação de formigamento percorreu seu couro cabeludo.


Era um jovem com a boca projetada para a frente, um queixo simiesco e olhos avermelhados por ter ficado acordado até tarde.


“Estou aqui para… comprar uma coisa.” Chi Xiaoduo não sabia bem o que dizer, então improvisou uma desculpa às pressas.


O jovem apertou um botão, a porta de enrolar metálica subiu e Chi Xiaoduo entrou abaixado.


𓆝 𓆟 𓆞


Do lado de fora, Xiang Cheng deu a volta, abaixou-se e entrou pela tubulação de ventilação do corredor. Ele removeu a grade de ferro que dava para a parte externa do prédio e a colocou delicadamente de lado.


O céu estava coberto por nuvens escuras e sem lua; ele estava a uma altura de cerca de seis andares. Xiang Cheng olhou para baixo e viu Si Gui voando em sua direção. Ele pegou a Corda de Amarrar Yao e colocou uma das pontas no bico do pássaro. Si Gui segurou o cordão vermelho, dando uma volta pelo lado de fora. Xiang Cheng rastejou para fora do duto de ventilação e pisou com cautela no cano de escoamento externo, ela era frágil e não oferecia muita sustentação.


Ele caminhou pela calha e avançou lentamente até os fundos da loja de cristais. Ao avistar uma pequena janela, seus dedos se contraíram; enfiou o braço inteiro pela fresta, tateou até encontrar o cabo de força da televisão e o arrancou da tomada.


Em seguida, escalou de volta para dentro do corredor de emergência, retornando para a porta coberto de poeira.


𓆝 𓆟 𓆞


Do lado de dentro, Chi Xiaoduo fingia examinar os cristais no balcão, todos com preços a partir de 10 mil yuans.


“Para que servem estes cristais?” Chi Xiaoduo perguntou.


O atendente levantou a cabeça, olhou para Chi Xiaoduo e tornou a abaixá-la, começando a dar explicações com um tom cheio de solenidade. Ele tirou um cristal negro da vitrine e o exibiu sob a luz ultravioleta azulada que banhava toda a loja, deixando a atmosfera genuinamente assustadora.


“Este aqui é para ser usado em conjunto com isto”, disse o atendente, retirando da parede atrás de si uma bolsinha de talismã. “Cristais de quartzo preto representam o entardecer e a noite, e podem afastar espíritos malignos de você. Ao frequentar lugares como hospitais ou casas noturnas, a pessoa fica muito suscetível a doenças. Se você o levar e o alimentar com o seu próprio sangue, ele vai te curar de doenças e transferi-las para o corpo de outra pessoa. Com o que você trabalha? Está procurando algo para qual finalidade?”


A gentileza da atendente ajudou a aliviar um pouco a tensão. Chi Xiaoduo perguntou: “Vocês têm algo que possa fazer alguém se apaixonar por mim?”


“Temos sim”, respondeu o atendente. “Esse quartzo rosa aqui. Você está tentando roubar alguém de outra pessoa ou apenas começar um relacionamento? A pessoa por quem você está interessado já tem um(a) parceiro(a)?”


Chi Xiaoduo pensou consigo mesmo: esse yaoguai leva os negócios a sério até demais, precisa mesmo fazer esse tipo de pergunta? E respondeu: “Acho que… não.”


O atendente estava obviamente acostumado a lidar com clientes indecisos em suas respostas, e respondeu: “Esta é a Raposa de Nove Caudas de quartzo rosa hibisco, também chamada de ‘Olhos de Raposa’. Se você não tem certeza se a pessoa amada tem um(a) parceiro(a), leve este. Coloque um fio de cabelo seu e outro da pessoa dentro da bolsinha de brocado, junte com o cristal e carregue sempre com você quando saírem juntos. Só tome muito cuidado para a pessoa nunca ver.”


“Já esta é a Fada da Flor de Pêssego”, continuou o atendente. “Ela acompanha o quartzo rosa estrela e é usada para encontros, ajudando a encontrar o par ideal. É adequada para quem ainda não tem alguém em mente, pois atrai a sorte no amor rapidamente. Este é um cristal do tipo gelo, que combina com o deus serpente, mas a outra pessoa não pode ter um parceiro.”


Chi Xiaoduo pensava apreensivo: por que o Xiang Cheng ainda não entrou? E perguntou casualmente: “Tem algum efeito colateral?”


“Como assim?” O atendente pensou por um momento e piscou os olhos com cansaço, dizendo: “Não tem efeitos colaterais. Você só precisa nos fornecer os dados de nascimento (Oito Caracteres²) seu nome, além dos dados da pessoa de quem você gosta — se houver uma. Fora isso, não há nenhum efeito colateral.”


“Melhor deixar para lá”, disse Chi Xiaoduo. “Não trouxe dinheiro suficiente.”


Foi exatamente nesse momento que Xiang Cheng entrou na loja. A expressão do atendente mudou na hora; ele estendeu a mão e deu um tapa violento para baixo. Chi Xiaoduo estava preparado; assim que a mão desceu, ele recuou a tempo. Num instante, viu a mão do atendente se transformar numa pata peluda que se chocou contra o balcão de vidro, estilhaçando-o em pedaços com um estrondo alto.


“Diga ao seu chefe para sair”, disse Xiang Cheng. “Precisamos conversar.”


O rosto do atendente transformou-se instantaneamente no de um macaco, que rosnou para Xiang Cheng. Chi Xiaoduo escondeu-se atrás de Xiang Cheng; este fez um movimento rápido com a mão, e o Cajado Subjugador de Yao se estendeu!


A reviravolta foi num piscar de olhos. O atendente tentou fugir para os fundos da loja, mas Xiang Cheng foi ainda mais rápido: pisou no balcão e o despedaçou num pontapé. Usando mãos e pés, o atendente subiu no balcão e saltou em direção à televisão posicionada no alto. Sob o olhar de Chi Xiaoduo, ele mergulhou para dentro da televisão! O programa na tela terminou num piscar de olhos — um clarão de luz branca brilhou — e, em seguida, tudo ficou escuro.


Xiang Cheng veio bem em seu encalço e, sem nem ao menos virar a cabeça para olhar, arremessou o Cajado Subjugador de Yao, cravando-o na TV. A tela afundou, emitindo um zumbido contínuo. O cajado começou a tremer sem parar enquanto uma luz dourada irrompia ao seu redor.


Uma corrente elétrica percorreu rapidamente o cabo do aparelho, atravessou a parede e disparou para o pequeno cômodo nos fundos da loja, escapando pela ponta da fiação que Xiang Cheng havia desconectado da tomada.


Num piscar de olhos, Xiang Cheng recolheu o braço, e um silvo estridente ecoou de dentro do cabo. A Corda de Amarração Yao, armada em emboscada no interior do cômodo, transformou-se em uma rede inescapável que caiu camada sobre camada, aprisionando a névoa negra e revelando um monstro em decomposição. Xiang Cheng puxou Chi Xiaoduo e avançou a passos largos em sua perseguição.


“Diga ao seu chefe para sair”, disse Xiang Cheng ao yao macaco, enquanto puxava duas cadeiras para que ele e Chi Xiaoduo se sentassem, acendendo um cigarro sem a menor pressa.


O rosto inteiro do yao macaco estava em decomposição, e ele tinha duas orelhas assustadoramente grandes, semelhantes às de uma borboleta. Ele rugiu furiosamente para eles, exibindo toda a gengiva, o que realmente assustou Chi Xiaoduo.


Xiang Cheng pegou um maço de talismãs amarelos na bolsa de Chi Xiaoduo e separou três com a ponta dos dedos.


“Eu falo!” O yao macaco cobriu a cabeça bruscamente com os dois braços. Em seguida, revelou um olho vermelho-sangue entre os braços e disse, com uma expressão feroz: “Prometa que vai me soltar depois que eu falar!”


“Você já está morto”, respondeu Xiang Cheng. “Você não é como um yao comum, não posso deixar você ir.”


“Eu não… eu não estou morto…”disse o yao macaco com voz angustiada.


“Tá bom, eu te solto. Onde tá o seu chefe?” Xiang Cheng pegou o celular e disse: “Me dê o número dele.”


“Eu não sei!” O yao macaco respondeu. “Eu nunca vi a forma humana dele! Ele não tem forma humana!”


Xiang Cheng perguntou: “Onde ele mora?”


O yao macaco disse: “Não sei! Não faço a menor ideia!”


Xiang Cheng trocou um olhar com Chi Xiaoduo. Chi Xiaoduo sentia como se seu mundo tivesse virado de cabeça para baixo; ele estava tão atordoado que não conseguia nem falar. Parecia ter sido transportado para um filme sobrenatural com efeitos especiais absurdamente realistas — a sensação era muito mais intensa do que o choque que sentira ao ver o guiche no vídeo anteriormente. Diante daquela experiência real, uma onda de náusea e tontura acabou tomando conta dele.


“Quando ele vem à loja?” Xiang Cheng perguntou.


Chi Xiaoduo tremia de ansiedade, sentindo tanto um medo terrível quanto uma profunda pena do yao macaco. O rosto da criatura já tinha se decomposto a ponto de expor o osso, e ele não fazia a menor ideia de como aquilo havia acontecido.


“Dói?” Chi Xiaoduo perguntou.


O yao macaco ofegava incessantemente, com os olhos movendo-se rapidamente de um lado para o outro.


Chi Xiaoduo tirou uma garrafa de água mineral da bolsa e disse: “O seu rosto está infeccionado.”


Xiang Cheng fez um sinal para que ele o limpasse. Então, Chi Xiaoduo despejou a água mineral com cuidado no rosto do yao macaco. O yao macaco inclinou a cabeça para trás e bebeu a água sem parar — estava claramente com sede.


"Quando você conheceu o Chefe pela primeira vez?" perguntou Xiang Cheng.


A garganta do yao macaco se moveu vigorosamente; ele bebeu por dez segundos ou mais antes de finalmente recuperar o fôlego.


“Lá embaixo”, respondeu o yao macaco, hesitante. “De noite. Estava tudo escuro.”


Chi Xiaoduo ficou confuso e virou-se para olhar para Xiang Cheng. Xiang Cheng perguntou: “O chefe tem o mesmo cheiro que ele? Observe com atenção e confirme claramente.”


Xiang Cheng colocou uma das mãos no ombro de Chi Xiaoduo. Naquele instante, Chi Xiaoduo sentiu algo emanar do próprio corpo, pois o  yao macaco começou a farejar o ar sem parar, como se estivesse sentindo o seu cheiro.


O yao macaco assentiu com a cabeça.


Xiang Cheng perguntou: “O seu chefe tem nome?”


O yao macaco balançou a cabeça negativamente e apontou para o chão.


Chi Xiaoduo achou a situação do yao macaco verdadeiramente deplorável; o yao macaco estava com a pele em carne viva e machucada por inteiro, e perguntou: “Podemos tratar os ferimentos dele?”


Xiang Cheng estreitou os olhos, balançou a cabeça, recolheu a Corda de Amarração Yao e se levantou: “Vamos embora.”


Chi Xiaoduo foi saindo e olhou para trás. O yao macaco continuava ali, sozinho, sentado nos fundos da loja de cristais, enxugando as lágrimas com tristeza.


“O que está acontecendo afinal?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Não é um yao comum”, disse Xiang Cheng. “Ele foi corrompido por qi demoníaco; não há cura.”


“E quanto aos ferimentos externos? Não podemos levá-lo a um hospital veterinário para limpá-lo?” Chi Xiaoduo perguntou. “Talvez tratar as feridas externas ajudasse um pouco.”


Xiang Cheng disse: “Vou perguntar à Organização amanhã.”


“O que ele quis dizer com ‘lá embaixo’?” Chi Xiaoduo perguntou novamente. “Será que é na garagem subterrânea?”


“Talvez seja ainda mais fundo.” Xiang Cheng parou de andar.


Sob um céu arredondado e uma terra retangular, todo o Liwan Plaza parecia girar continuamente na noite silenciosa. O subsolo do saguão assemelhava-se a um abismo escuro sob o chão.


Xiang Cheng e Chi Xiaoduo passaram furtivamente pelo segurança que cochilava na entrada; Os anéis de fumaça do cigarro de Xiang Cheng voaram em direção às câmeras, enquanto Chi Xiaoduo, agindo com cautela, estendeu a mão pela janela da guarita e pegou silenciosamente a lanterna que estava sobre a mesa.


“Precisamos levar uma fonte de luz conosco a partir de agora”, disse Xiang Cheng, acendendo a lanterna e liderando o caminho para o subsolo. Si Gui voou até eles; Xiang Cheng levantou o capuz de Chi Xiaoduo, e Si Gui acomodou-se lá dentro.


“A-Huang, proteja o Xiaoduo”, disse Xiang Cheng para Si Gui, que estava aninhado no capuz.


Si Gui esticou a cabeça de pássaro para fora e olhou ao redor.


“Vocês não preparam nenhuma fonte de luz antes de sair para missões noturnas?” Chi Xiaoduo perguntou, curioso.


“A-Huang costuma iluminar o caminho para mim”, respondeu Xiang Cheng, “mas é fácil atrair a atenção de yaoguai desse jeito, e a Pérola Luminosa acabou sendo quebrada por um yaoguai na última vez que fui a Chengdu.”


“Há quantos anos você trabalha com isso?”


Os dois desceram pela escada de emergência.


“Comecei a aprender a capturar yao com meu pai quando tinha sete anos”, disse Xiang Cheng, que ia à frente. “Já faz vinte e um anos.”


“Você viaja muito a trabalho?” Chi Xiaoduo perguntou. “Eu achava que as pessoas dessa área fossem todas ricas.”


“Não gosto de resolver problemas para figurões”, respondeu Xiang Cheng, liderando o caminho. “Me sinto um peixe fora d’água lidando com gente rica. Na cabeça deles, pagar o seu dinheiro dá o direito de exigir que você resolva tudo para eles. Não gosto de tratar a caça aos yao como uma simples transação comercial, sem contar que muitos ricos são cruéis.”


Chi Xiaoduo não compreendeu totalmente as palavras de Xiang Cheng. Eles desceram até o primeiro nível subterrâneo, onde não havia mais passagens que levassem para baixo. Xiang Cheng abriu a porta; o ambiente subterrâneo estava banhado por uma luz branca e fria. Uma loja de conveniência ainda estava aberta, e um funcionário abastecia as prateleiras.


“Não tem mais caminho”, disse Chi Xiaoduo.


Xiang Cheng entrou na loja de conveniência. O atendente virou a cabeça para olhar para ele.


“Me dá um maço de Hongmei”, disse Xiang Cheng.


“Não tem”, respondeu o atendente. “Dá uma olhada no que tem na prateleira.”


“Fuma um melhorzinho”, disse Chi Xiaoduo, sabendo que Hongmei custava apenas cinco yuans o maço. “Pega um maço de Marlboro.”


O atendente veio abrir a caixa registradora. Chi Xiaoduo pagou a conta e olhou para Xiang Cheng; este lhe fez um sinal de cabeça para que ficasse tranquilo — não era um yaoguai.


“Como é que se sai daqui?” Xiang Cheng perguntou.


“É só subir”, disse o atendente. “Os elevadores ali da frente estão funcionando.”


Xiang Cheng perguntou: “Tem alguma saída pelos fundos?”


O atendente respondeu enquanto contava o troco: “Não vá por aquele caminho.”


Chi Xiaoduo olhou para o lado e viu uma porta fechada.


“Onde está o seu chefe?” Xiang Cheng perguntou.


O atendente deu de ombros e disse: “O chefe está no exterior. E ele deixou avisado: quem usar a porta dos fundos, assume as consequências por conta própria.”


“Alguém costuma passar por aquela porta?” Xiang Cheng perguntou novamente.


“Havia algumas pessoas antes; ouvi dizer que os clientes que levam as coisas sem pagar sempre saem pela porta dos fundos”, disse o atendente.


Xiang Cheng pegou os cigarros e caminhou até a porta dos fundos com Chi Xiaoduo. Ele a empurrou e apontou a lanterna, revelando uma escada que descia.


“Desconfio que aquele atendente saiba de alguma coisa”, disse Chi Xiaoduo.


“É uma pessoa comum”, respondeu Xiang Cheng. “Ele não sabe de nada, mas o chefe dele com certeza sabe.”


“Além de alguém como eu”, perguntou Chi Xiaoduo, “existem outros que sabem sobre o sobrenatural?”


“Tem muito mais”, disse Xiang Cheng. “Geralmente, há pessoas que entram em contato com eles, e aquelas capazes de hipnotizar fazem o possível para induzi-los ao transe. Algumas pessoas envolvidas em eventos muito profundos e com históricos extremamente complexos às vezes se lembram de algo, mas não conseguem descrever com clareza. No entanto, na maioria das vezes, elas não dizem nada a ninguém.”


Ao terminarem de descer as escadas, depararam-se com uma sala de concreto completamente vazia. Xiang Cheng apontou a lanterna para todos os cantos: não havia nada. No meio do cômodo, contudo, havia um buraco. Os dois se aproximaram da abertura e iluminaram para baixo, revelando uma profundidade impressionante.


Bem no fundo do buraco, havia uma única gota de líquido negro.


“Suba nas minhas costas”, disse Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo estava pendurado nas costas de Xiang Cheng, que desceu a escada até o fundo do buraco com rapidez e agilidade.


O buraco dava em um corredor muito longo; e eles já se encontravam no terceiro nível do subsolo do Liwan Plaza. Xiang Cheng segurou a mão de Chi Xiaoduo, e os dois avançaram em direção ao fim daquele corredor escuro e silencioso. O medo começou a tomar conta de Chi Xiaoduo, cuja mente não parava de fantasiar cenas dignas de filmes de terror como “Alien” — imaginando que, a qualquer segundo, alguma criatura grotesca saltaria sobre eles vinda do teto.


“Ouça um pouco de música e relaxe”, disse Xiang Cheng. “Será que tem alguma música no meu celular?


Chi Xiaoduo sorriu, pegou o celular de Xiang Cheng, escolheu uma música, colocou os fones de ouvido e entregou um deles a Xiang Cheng.


Dessa vez, começou a tocar “Bad Romance”, da Lady Gaga. A voz rouca³ e marcante entoando o “Gaga, ooh-la-la” parecia ecoar por todo o túnel.


“Quem está cantando é homem ou mulher?” Xiang Cheng perguntou.


Chi Xiaoduo: “Você pode considerá-la uma mulher.”


Xiang Cheng e Chi Xiaoduo seguiram pela passagem, de mãos dadas, enquanto a canção de ritmo marcante da Lady Gaga ressoava no túnel. Ambos sentiram uma leve vontade de balançar a cabeça acompanhando a batida.


“ZhuaZhua, O-La La La…”


“O que é que ela tá cantando? Não entendo nada”, disse Xiang Cheng.


“O importante é o som ser bom.”


“Não é ruim.” Xiang Cheng acompanhou a melodia, balançando a cabeça no ritmo, e disse: “É perfeito para ouvir enquanto se exorciza demônios.”


Eles saíram do túnel e chegaram a um lugar ainda mais estranho. Era uma sala aberta de formato irregular; com metade da estrutura em concreto armado na alvenaria bruta e a outra metade em paredes de terra totalmente disformes. Parecia que alguém tinha começado a construir um porão ali e, no meio da obra, largou tudo e saiu correndo, deixando para trás aquele espaço metade concreto, metade terra natural.


O lado aberto era uma encosta, reforçada em todos os lados por estacas de madeira.


Xiang Cheng tirou os fones de ouvido e disse: “Aqui foi onde os oito caixões foram colocados.”


“O quê?” Chi Xiaoduo pareceu perplexo. Xiang Cheng acenou com a mão, sinalizando para que ele ficasse no centro e abrisse os braços.


Ainda imerso na melodia e no ritmo da canção, Xiang Cheng agitou seu Cajado Subjugador de Yao, curvou o corpo e começou a correr, desenhando um círculo ao redor de Chi Xiaoduo. Em seguida, inclinou-se de lado e deu voltas arrastando a arma pelo chão. Curioso, Chi Xiaoduo olhou para baixo e viu que Xiang Cheng parecia ter desenhado algum tipo de círculo mágico no solo.


Logo em seguida, Chi Xiaoduo ficou parado no lugar. Xiang Cheng ergueu uma das mãos na direção dele e pressionou levemente para baixo.


Com um zumbido alto, os traços desenhados no chão começaram a brilhar. Chi Xiaoduo sentiu que algo havia mudado em Xiang Cheng; era como se uma besta mística tivesse emergido de seu corpo. Seus olhos permaneceram fixos, e não era Xiang Cheng, mas sim a besta mística quem encarava Chi Xiaoduo. Esse tipo de tensão começou a amedrontá-lo inevitavelmente, mas durou apenas um instante — logo em seguida, pareceu haver algum tipo de força que foi compelida a se libertar de seu corpo.


Chi Xiaoduo olhou para as próprias mãos. Seus braços emanavam uma leve névoa negra, que flutuava em direção às profundezas do corredor de terra.


“Estamos nos aproximando daquele demônio”, disse Xiang Cheng. “Me dá a bolsa. A partir de agora, fique atrás de mim.”


“Existe alguma diferença entre um demônio e um yao?” Chi Xiaoduo perguntou.


“São muito diferentes.” Xiang Cheng caminhou à frente, pegando a bolsa de Chi Xiaoduo, e explicou: “Yaos são criaturas vivas, enquanto demônios são um tipo de ressentimento.”


“Demônios não têm forma física?” Chi Xiaoduo perguntou.


Xiang Cheng disse: “A aglomeração de demônios quase sempre surge de forma natural. Ela se condensa em uma força maligna e, depois que essa força ganha forma, passa a emanar poder, escolhendo plantas e animais adequados para transformá-los em yao.”


“O verdadeiro demônio se instala como parasita na criatura mais poderosa que conseguir encontrar”, completou Xiang Cheng.


“E como é que se mata uma coisa dessas?” Chi Xiaoduo perguntou. “Demônios reencarnam depois de morrer?”


Xiang Cheng fez um gesto que significava “dissipar” e explicou: "Exorcizar significa subjugá-lo e usar seu próprio poder para dissipá-lo. Nós o dispersamos, não o afugentamos.”


“Ahhh——”, Chi Xiaoduo entendeu tudo de uma vez.


“Então, seu verdadeiro trabalho é o exorcismo”, disse Chi Xiaoduo.


“Nós encontramos o poder que transformou um yao em yao e, então, o dissipamos”, disse Xiang Cheng. “Neutralizar calamidades humanas é o trabalho de um exorcista. Capturar yaoguai é apenas o processo; o objetivo final é encontrar a origem do demônio.”


“O que dá origem aos demônios?” Chi Xiaoduo achou que estava fazendo perguntas demais, mas não importava; suas memórias seriam apagadas de qualquer forma, então era melhor satisfazer sua curiosidade enquanto podia.


“Pela dor”, disse Xiang Cheng. “A dor do céu e da terra, a dor dos seres vivos, a dor dos humanos.”


“O céu e a terra também sentem dor?” Chi Xiaoduo perguntou.


Xiang Cheng assentiu e disse: “Há muitas coisas que eu também não compreendo.”


Chi Xiaoduo pisou em alguma coisa e a conversa parou de repente. A sola do seu sapato ficou toda pegajosa; ao levantar o pé para olhar, viu uma substância parecida com piche. Xiang Cheng iluminou o chão com a lanterna, acompanhando o rastro que levava até o fim do corredor.


Os dois saíram por uma abertura e entraram em um túnel gigantesco, onde a água fluía e jorrava com força.


"Estas são as tubulações de esgoto subterrâneas da cidade de Guangzhou", disse Chi Xiaoduo, e sua voz ecoou por toda a área.


Os vestígios semelhantes a asfalto haviam desaparecido e, após percorrerem o túnel, caminhos complexos e confusos surgiram à frente deles. Eles pararam por um momento; Xiang Cheng olhou para cima e viu marcas pretas de uma substância solidificada, semelhante a asfalto, no teto do túnel.


“Por aqui”, disse Chi Xiaoduo.


“Você sabe o caminho?” Xiang Cheng perguntou.


“Acho que está escondido no duto de descarga”, disse Chi Xiaoduo. “Olhe, há marcas no teto do túnel também. Esse yaoguai — esse demônio provavelmente não tem TDAH; ele não ficaria subindo e descendo o tempo todo. É provável que tenha apenas raspado ali por causa de seu tamanho enorme.”


“Faz sentido”, concordou Xiang Cheng. “TDAH… uma analogia bem precisa. Você sabe onde tem um espaço mais amplo por aqui?”


“Claro”, disse Chi Xiaoduo. “Minha especialidade é abastecimento de água e drenagem. Você vai exorcizar alguma coisa daqui a pouco?”


Xiang Cheng ponderou e respondeu: “Vamos ver depois que o encontrarmos.”


Chi Xiaoduo conduzia Xiang Cheng, embrenhando-se pelo labirinto do esgoto subterrâneo. O cheiro ficava cada vez mais insuportável, a ponto de Chi Xiaoduo quase desmaiar; Xiang Cheng cobriu a boca de Chi Xiaoduo com a mão esquerda e apressou o passo. Os dois pararam de repente, parando bem no ponto de convergência das galerias.


Era um espaço amplo e aberto, onde toda a rede de drenagem da cidade convergia durante as chuvas fortes; uma enorme abertura marcava a entrada onde um dos dutos principais do túnel seguia em direção ao distante Rio das Pérolas.


Lá dentro, ouvia-se o som de uma cachoeira e um estrondo ensurdecedor, acompanhados por um fedor intenso. Parecia uma máquina colossal em pleno funcionamento, emitindo uma luz verde de seu interior.


Chi Xiaoduo prendeu a respiração, abraçou Xiang Cheng e, juntos, eles olharam para baixo.


Era um monstro de três metros de altura, rastejando no fundo do fosso. Estava de frente para o duto principal de drenagem, arfando pesadamente. Momentos depois, seu corpo começou a tremer violentamente, expelindo uma torrente de lama negra e viscosa. Uma luz verde, idêntica à de um farol, acendeu em seu corpo e iluminou o fosso gigantesco.


“Vou descer para dar uma olhada”, disse Xiang Cheng, com os lábios quase roçando a orelha de Chi Xiaoduo. “É aquele ali — não chegue muito perto.”


Chi Xiaoduo sussurrou: “Se eu chegar perto, ele vai me notar?”


“É bem provável”, respondeu Xiang Cheng, virando-se para descer de forma sutil e silenciosa por uma escada vertical.


O monstro soltou um rugido ensurdecedor e, mais uma vez, cuspiu outro jato de lama semelhante a piche, espalhando a sujeira por todo o chão.


Chi Xiaoduo finalmente entendeu: aquela coisa estava tossindo!


A lama preta e fedorenta era levada pelas águas sujas e, muito provavelmente, acabaria desaguando no leito do Rio das Pérolas.


Chi Xiaoduo fez um sinal para Xiang Cheng, que gesticulou para que ele não se preocupasse. No entanto, assim que Xiang Cheng estava na metade do caminho, o monstro rolou e soltou um rugido de agonia; o som foi tão estrondoso que Chi Xiaoduo quase perdeu o equilíbrio e caiu, sendo obrigado a se agachar rapidamente contra a borda da abertura.


Xiang Cheng parou bruscamente, firmando o corpo na estrutura.


Naquele exato momento, enquanto se segurava na escada inclinada, formando um ângulo com o corpo, o celular dentro do bolso de seu agasalho começou a escorregar lentamente para fora.


Chi Xiaoduo sussurrou ansiosamente: “Seu celular!”


Entre as respirações do monstro, pareceu que um pouco de lama havia ficado presa em sua garganta, criando um breve momento de silêncio.


O iPhone 6 Plus deslizou para fora do bolso de Xiang Cheng junto com o fio do fone de ouvido. Xiang Cheng segurou a escada vertical com a mão esquerda e estendeu rapidamente a mão direita, agarrando com firmeza o cabo do fone.


O cabo do fone estava conectado ao iPhone, que ficou pendurado no ar, girando lentamente.


Chi Xiaoduo soltou um suspiro de alívio. Xiang Cheng puxou o fio para cima, pretendendo fazer o aparelho dar um impulso e voar de volta para a sua mão — até que Chi Xiaoduo quase deu um grito.


Com um estalo, o plugue do fone se soltou do aparelho.


Em uma fração de segundo, o telefone mudou para o modo viva-voz — a voz estrondosa de Lady Gaga ecoou pelo túnel:


“Rara—— ahahahah, GaGa O LaLaLaLa——”


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng: “……”


────────────────────────


Notas:


1 十三行 (Shísān xíng): Um bairro e porto histórico real de Guangzhou, famoso na Dinastia Qing como o único centro autorizado de comércio internacional da China.


2 生辰八字 (shēngchén bāzì): É o mapa astrológico tradicional chinês, composto por quatro pares de caracteres que representam o ano, mês, dia e hora de nascimento de uma pessoa.


3 公鸭嗓 (gōngyā sǎng - Voz rouca/rasgada): Expressão em chinês que significa literalmente “voz de pato macho”, usada para descrever timbres vocais mais graves, rasgados ou peculiares.


────────────────────────


Flor: OMG Iphone!!!


Xiang Cheng um ótimo professor he he~


 Como os capítulos estão muito longos, vou começar a postar a cada 15 dias! 


Até mais! 



𓇼⋆.˚𓆉𓆝𓆡⋆.˚𓇼

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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

[Novel] Mingwang Huanshi Lu - Capítulo 016

 



Capítulo 16 - O Departamento de Exorcismo




Luz — havia luz por toda parte.


Espalhados por todo o canto, espíritos brilhantes voavam por toda a parte. Centenas de bilhões daquelas pequenas criaturas formavam pontos de luz branca que flutuavam e caíam suavemente como uma nevasca semelhante a algodão, preenchendo o beco inteiro.


Parecia um cenário de conto de fadas, onde cada floco de neve brilhava. Xiang Cheng, achando aquilo um tanto curioso, olhou ao redor e estendeu a mão, pegando com a ponta dos dedos indicador e polegar um daqueles pequeninos seres que dançavam pelo ar.


Era uma criatura peculiar; ao estender a mão para pegá-la, Chi Xiaoduo soltou um “ah!” e se aproximou para ver de perto. Ele descobriu que o corpo do pequeno ser era como o botão que ainda não tinha desabrochado de uma magnólia, enquanto suas asas abertas eram as próprias pétalas da flor.


O pequeno espírito debatia-se desconfortavelmente, então Xiang Cheng afrouxou os dedos, permitindo que ele voasse para longe.


A neve caía pesadamente no beco, mas não fazia frio algum. A neve parecia até se desviar de alguns pontos. Ao longo daquele beco estreito e comprido, havia três bancas de rua: duas vendiam artesanato e uma vendia jianbing guozi¹ e batatas fritas, de onde saía um cheiro exagerado de óleo vegetal que impregnava o ar.


Um alto-falante repetia sem parar: “Promoção imperdível, venha conferir! Grande queima de estoque, últimos três dias, últimos três dias…”


A atmosfera era estranha. Enquanto Chi Xiaoduo caminhava, percebeu que, surpreendentemente, nenhum floco de neve havia caído sobre ele.


No fim do beco havia um prédio de seis andares, sujo e em estado precário; bem no topo, duas torres antigas cercavam uma estreita faixa de céu azul. Havia pouquíssimas pessoas: dois punks de cabelo tingido de um amarelo espalhafatoso agachados no chão, garimpando algumas coisas, e uma garota de rabo de cavalo, com uma bolsa falsificada atravessada no peito, parada diante da barraca esperando o dono fritar um jianbing.


Os dois lados do beco estavam repletos de magnólias, e as árvores espalhavam suas flores por todo o caminho, formando a neve que os cercava.


“Não tire fotos.” Xiang Cheng entrelaçou os dedos com os de Chi Xiaoduo e entrou no beco.


Em toda a extensão daquele beco estreito, havia apenas um prédio de três andares. O fim do beco dava direto no pátio desse prédio. Ao lado do portão do pátio, havia uma placa azul retangular pendurada; no lugar onde deveria estar o número do endereço, um símbolo estranho fora desenhado com tinta vermelha. Sobre a porta, havia um espelho Bagua² pendurado e, no chão logo à frente, um pequeno santuário.


Duas placas de madeira em péssimo estado estavam penduradas na porta de madeira. A da esquerda trazia duas colunas de texto na vertical: 【Escritório do Departamento de Exorcismo da Província de Guangdong】 e 【Departamento de Gestão e Reforma de Yaoguai na Área Civil da Província de Guangdong】. Já a da direita exibia: 【Sede Regional de Guangdong do Congresso Nacional de Exorcismo】e 【Escritório do Comitê de Eventos de Exorcismo Civil


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng estava prestes a entrar quando viu um aviso afixado na porta; parou e deu um passo para trás para dar uma olhada.


Aviso:


As inscrições para os exames de 2015, para exorcistas de primeira e segunda classe  terão início em 15 de junho.


Solicita-se a todos os candidatos que preencham o formulário de inscrição com informações verídicas e apresentem duas fotos 3x4, sem acessórios na cabeça. Dirijam-se ao departamento de exorcismo local para obter o formulário e realizar a inscrição.


Um homem saiu do pátio, observando Chi Xiaoduo e Xiang Cheng com um olhar estranho.


Xiang Cheng acenou para ele; o homem franziu levemente a testa, mas não disse nada.


“Irmão, o Diretor Li já chegou?” Xiang Cheng perguntou.


O homem não respondeu nada, ignorando completamente Xiang Cheng e seu companheiro, e simplesmente foi embora.


Xiang Cheng então disse: “Vamos entrar.”


Não havia neve no pátio, e entrar ali era como entrar em outro mundo. O pátio estava varrido e limpo; na parede, estava afixado o aviso: 


【Avaliação de Limpeza e Civilidade da Filial de Guangdong do Departamento de Exorcismo】 


O guarda do portão estava sentado no pátio, ouvindo ópera cantonesa no rádio, mas levantou a cabeça para lançar um olhar a Xiang Cheng.


“Por que você trouxe uma pessoa comum?” perguntou o guarda, que era um homem idoso.


Chi Xiaoduo teve a vaga sensação de que aquele guarda lhe parecia um tanto familiar. Xiang Cheng respondeu: “Estou investigando alguns assuntos e preciso consultar o Diretor Li.”


“Sente-se lá fora”, respondeu o guarda.


Xiang Cheng disse para Chi Xiaoduo se sentar, e Chi Xiaoduo obedeceu. Enquanto esperavam, não conseguiu evitar dar umas olhadas discretas para o velho porteiro, sentindo que já o tinha visto em algum lugar. O porteiro então falou: “Pendurou as flores de magnólia quando chegou em casa?”


“Ah!” Chi Xiaoduo se lembrou de repente: aquele homem era o velhinho que vendia flores de magnólia embaixo do viaduto.


O porteiro deu um leve sorriso, fazendo com que seu rosto se enchesse de rugas profundamente marcadas.


Xiang Cheng estava prestes a impedir Chi Xiaoduo de puxar conversa, mas, ao ver que o idoso puxara assunto primeiro, disse: “Este é o Ancião Qu.”


“Olá.” Chi Xiaoduo percebeu que a situação estava um tanto incomum. O Ancião Qu afastou-se para fazer uma ligação e não lhes deu mais atenção. Ele avisou o escritório sobre a chegada de visitantes e, após desligar, tirou um cigarro do maço de forma lenta e metódica. Xiang Cheng apressou-se para se levantar e acendê-lo, mas o Ancião Qu fez um gesto com a mão recusando; assim, Xiang Cheng não teve escolha a não ser sentar-se novamente.


“Obrigado, Ancião Qu”, disse Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo: “?”


“Este lugar…”


Xiang Cheng fez um gesto de “shh”, respondendo baixinho: “Não sei.”


Chi Xiaoduo queria perguntar a ele sorrateiramente, mas ao perceber que Xiang Cheng não queria falar, só lhe restou ficar em silêncio.


“Pessoas comuns não podem simplesmente entrar num lugar como este”, disse o Ancião Qu, soltando uma baforada de fumaça enquanto olhava Chi Xiaoduo de cima a baixo. “O Beco das Magnólias, por fora, parece ficar no Distrito de Haizhu, e até dá para ver a avenida lá de fora, mas entrar vindo da avenida por conta própria é bem diferente de ser trazido por alguém. Não é o mesmo lugar onde se entra, entendeu?”


Chi Xiaoduo soltou um “ah!” e olhou do portão do pátio para fora: de fato, era possível ver a avenida lá fora, mas os pedestres na rua pareciam ignorar completamente a existência daquele beco.


Depois de esperarem por cinco minutos, o telefone do Ancião Qu tocou e, com um aceno de mão, ele disse: “Podem subir.”


Só então Xiang Cheng guiou Chi Xiaoduo para dentro da torre escura, subindo até o segundo andar.


“Espere por mim aqui um instante”, disse Xiang Cheng, batendo à porta de um dos escritórios.


De dentro, a voz de um homem respondeu: “Entre.”


Chi Xiaoduo observou o prédio em estilo antigo. No corredor do segundo andar, havia uma garota sentada diante de um cavalete de pintura, desenhando.


Na tela, estava retratado o Beco das Magnólias sob a neve pesada.


Chi Xiaoduo parou atrás dela para observar e percebeu que os olhos da garota estavam cobertos por uma faixa de tecido preto. Seus lábios eram pálidos e seu rosto carregava um ar doentio e frágil.


“Está bonito?” perguntou a garota.


“É realmente lindo”, disse Chi Xiaoduo. “Neva aqui todos os dias?”


“Não", respondeu a garota. “Apenas quando estou desenhando.”


A garota fez uma pausa pensativa e arrancou a folha de papel de cima; instantaneamente, a chuva de pétalas de magnólia parou, e todos os pequenos espíritos desapareceram no ar e o beco voltou ao seu estado original.


Enquanto a garota trocava por uma folha de papel limpa, Chi Xiaoduo, com um ar de total espanto, disse: "Deixe-me te ajudar.”


Chi Xiaoduo a ajudou a prender o papel, e a garota perguntou: “De qual estação você gosta mais?”


“Eu gosto… da primavera.” Chi Xiaoduo pegou o estilete e o lápis das mãos dela e a ajudou a apontar o lápis.


“Hum”, respondeu a garota suavemente.


“O mundo se transforma naquilo que você desenha?” Chi Xiaoduo perguntou, com a voz repleta de admiração e surpresa.


“Tudo o que eu desenho”, respondeu a garota, “é o que as pessoas ao meu redor veem — sob a influência do meu Reino Espiritual.”


Chi Xiaoduo: “???”


Xiang Cheng empurrou a porta e saiu, sinalizando para Chi Xiaoduo que ele podia entrar.


𓆝 𓆟 𓆞 


No escritório, as quatro paredes eram pintadas de verde na metade inferior e cinza na superior. Um homem na faixa dos cinquenta anos, estava sentado, usando óculos de aro quadrado com armação preta, ostentando uma barriga de cerveja, vestindo um pijama hospitalar e segurando uma garrafa térmica enquanto se levantava para servir água.


Chi Xiaoduo: “……”


Meu Deus, isso é um hospício?! Chi Xiaoduo sentiu como se ele próprio estivesse perdendo o juízo.


“Olá, Diretor”, disse Xiang Cheng. “Xiaoduo, pode se sentar.”


O Diretor Li observou Xiang Cheng com uma expressão indecifrável por trás das lentes dos óculos. Xiang Cheng disse: "Peço desculpas; foi realmente uma presunção da minha parte vir desta vez.”


O Diretor Li ignorou Xiang Cheng e fez um sinal com a mão para Chi Xiaoduo: “Venha cá.”


Chi Xiaoduo olhou apreensivo para Xiang Cheng, que não o impediu. O Diretor Li tirou os óculos e começou a examinar Chi Xiaoduo de todos os ângulos possíveis, parecendo um pervertido. Chi Xiaoduo sentiu um arrepio na espinha com aquele olhar.


“Por que você trouxe ele aqui?” O Diretor Li colocou os óculos novamente, fazendo um gesto para que Chi Xiaoduo se aproximasse e se sentasse.


“Não sei bem o que fazer agora”, disse Xiang Cheng com sinceridade.


“Olha, Xiang Cheng”, disse o Diretor Li. “Você não está sob a jurisdição do nosso departamento local — a menos que transfira seu registro de residência³ para cá primeiro. O que você está fazendo é exorcizando yaos fora dos limites da província; deixando de lado a questão de ter ou não licença, porque isso por si só já vai contra as regras, huhu, você não concorda?”


Xiang Cheng respondeu: “Para conseguir o visto de residência para Guangzhou, preciso comprar uma casa, mas o metro quadrado custa mais de trinta mil, e eu não tenho condições. Já relatei minhas dificuldades ao departamento, mas até agora eles não me ajudaram a resolvê-las.”


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng continuou: “Meus colegas que trabalham na Foxconn também não têm registro de residência local.”


O Diretor Li soltou uma risadinha e disse: “Quanto a eles, há um departamento que responde por eles, ‘o monge pode fugir, mas o templo não sai do lugar’. Você, por outro lado, está por conta própria; Se aprontar alguma confusão aqui em Guangzhou e der no pé, a quem eu vou recorrer? Entende o meu ponto?”


“Vamos deixar a questão da sua residência para depois. Onde está o seu certificado de qualificação?” O Diretor Li perguntou, dando de ombros como se estivesse em uma situação difícil. “Como seu certificado foi revogado, se você for pego exercendo a função sem a qualificação adequada e os superiores descobrirem quem é o responsável, eu não posso arcar com as consequências disso, não é?”


Xiang Cheng disse: “Eu não posso me filiar temporariamente à sede de Guangzhou?”


“Não, de jeito nenhum”, disse o Diretor Li, dispensando a ideia com um gesto amplo de mão. “Essa é uma regra de sabe-se lá quantos anos atrás e não funciona mais hoje em dia — não estamos mais numa época em que basta redigir uma declaração e sair vagando pelo mundo como bem entender. Agora, se você quiser atuar como exorcista em Guangzhou sem uma autorização de residência, precisa apresentar o comprovante de contribuição do seguro social dos últimos dois anos.” Dito isso, ele abriu a tampa de sua garrafa térmica para servir um pouco de água, resmungando para si mesmo: “Uma pessoa vem aqui para se vincular, outra pessoa vem aqui para se vincular… se todo mundo fosse como você, todos os exorcistas do país viriam para o Delta do Rio das Pérolas para se vincular. Diga-me você: acha que isso daria certo? Hehehe.” Ele então soltou mais algumas risadas secas.


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng disse: “Posso usar meus bens como garantia? Meu histórico de desempenho está registrado nos meus casos anteriores, e todos eles já foram enviados; o senhor pode dar uma olhada.”


O Diretor Li fez um gesto com a mão, colocou algumas folhas de chá na xícara e disse: Se você tivesse passado no exame de primeira classe, imagino que os líderes de qualquer província ou região autônoma o receberiam de braços abertos. Mas baseando-se unicamente nas suas habilidades, sem certificado algum, não importa aonde vá, ninguém vai acreditar em você. Quando chegar a hora e o comitê disciplinar vier fazer uma inspeção, como é que eu vou explicar isso para eles? Hahahaha…”


Chi Xiaoduo: “……&*%¥#.”


Xiang Cheng perguntou: “Um amigo poderia me ajudar a conseguir um certificado de trabalho?”


O Diretor Li olhou para Xiang Cheng por cima de seus óculos de aros pretos e disse: “Isso é problema seu; não nos envolvemos nisso.”


“Hum”, disse o Diretor Li, satisfeito. Em seguida, ele abriu uma gaveta e puxou uma pilha de papéis, batendo-os na mesa para alinhá-los. Disse então, com extrema compostura: “Eu estava justamente esperando encontrar alguém para investigar esse assunto. Vamos falar sobre você primeiro: sua punição da última vez foi finalmente decidida. Uma multa.”


Xiang Cheng: “……”


Chi Xiaoduo: “……”


O Diretor Li disse: “Na noite de doze de março, durante o percurso da estação de metrô da Rua Keyun até o conjunto habitacional Tangxia, você não fez este garoto cheirar o pó de Lihun. Isso constitui uma negligência grave. A pena é uma multa de 3 mil RMB mais dez moedas antigas.”


Xiang Cheng pareceu desanimado e disse: “Eu não tenho esse dinheiro agora.”


"Eu tenho", disse Chi Xiaoduo. "A culpa foi minha, eu pago! É no cartão ou em dinheiro?”


“Sem pressa”, disse o Diretor Li com uma risadinha. “Venha pagar quando tiver o dinheiro; você só poderá retirar a ficha de inscrição depois do pagamento. Pague lá embaixo — eu não sou responsável por receber o dinheiro.”


As veias saltaram na testa de Xiang Cheng; sem ousar retrucar, ele foi forçado a ficar calado.


“Chi Xiaoduo”, disse o Diretor Li com indiferença. “Hum, de acordo com a nossa investigação, quando você tinha sete anos, um demônio deixou uma marca no seu corpo.”


“Hã?!” Chi Xiaoduo ficou completamente estupefato. Xiang Cheng apressou-se em fazer um sinal para que ele ficasse calado e disse ao Diretor Li: “Eu já encontrei esse demônio.”


“Onde estão as provas?” O Diretor Li olhou severamente para Xiang Cheng.


Xiang Cheng respondeu: “É uma relação pessoal, eles são relativamente próximos.”


“O-o quê?” Chi Xiaoduo não conseguia mais ficar sentado.


“Isso não serve”, disse o Diretor Li, balançando a cabeça com um ar de pesar. “Você não pode apontar qualquer um que se aproxime dele como sendo um demônio. O que nós queremos são provas, e somente com provas e relatórios detalhados é que podemos emitir um mandado de prisão. Mesmo que você tenha encontrado o demônio, você só pode investigar, não pode agir. Seu certificado já foi revogado e você já foi multado, Xiang Cheng…”


Xiang Cheng recostou-se na cadeira, pressionando a mão contra a testa.


“……Se você fizer algo assim de novo, todas as suas memórias relevantes serão apagadas e todos os seus artefatos mágicos confiscados”, disse o Diretor Li. “É bom que você pense muito bem nisso.”


Xiang Cheng suspirou e assentiu.


“Investigar eu posso”, disse Xiang Cheng. “E se eu agir sem vazar nenhuma informação confidencial?”


“Isso só é permitido quando apropriado…”, disse o Diretor Li. “Mas você não deve assustar aquele demônio. Não me importa onde você acredita que ele esteja; você precisa primeiro apresentar provas suficientes, e só com evidências conclusivas enviaremos pessoal para agir. Você pode proteger seu amigo, mas não pode atacar de forma imprudente.”


Xiang Cheng não teve escolha a não ser dizer: “Obrigado, Diretor.”


“Não há de quê, não há de quê”, disse o Diretor Li. “Você ainda tem um futuro brilhante pela frente e, contanto que se redima prestando bons serviços, não vou responsabilizá-lo de ter trazido a pessoa envolvida para cá. Afinal, dar um aviso a ele é algo bom; se você não o tivesse avisado, o Diretor Lu teria enviado alguém…”


“Você só precisa encontrar o equilíbrio certo ao dar lembretes. Não pode deixar o garoto falar sem parar, mas também não deve contar coisas que ele não deveria saber — como quem é um demônio ou um yao. Não pode mencionar essas coisas; senão, ele pode ficar com medo. E se ele ficar com medo, fica muito mais fácil fazer a cobra sair da toca, não concorda? Você também precisa garantir que ele fique de boca fechada e, assim que a missão terminar, sua memória precisará ser apagada.”


Xiang Cheng levantou-se, e Chi Xiaoduo fez o mesmo, dizendo: “Obrigado, Diretor.”


O Diretor deu uma risadinha. então perguntou: “Diretor, posso consultar os arquivos de casos daqui?”


O Diretor Li disse: “Normalmente, isso não seria permitido. Mas, considerando que você prestou um serviço meritório à organização recentemente — e até derramou sangue por ela —, vou redigir uma autorização pessoal para você. Basta ir ao arquivo antes do fim do expediente; no entanto, não são permitidas fotografias.”


O Diretor Li escreveu a autorização com uma caligrafia elegante e a entregou a Xiang Cheng, que agradeceu repetidamente antes de sair da sala com Chi Xiaoduo.


𓆝 𓆟 𓆞 


“Ele quer…”


“Vou dar uma olhada nos arquivos primeiro”, disse Xiang Cheng em tom baixo. “Pode dar uma volta por aí, está tudo bem. Como o diretor deu a palavra, por enquanto ninguém vai te obrigar a cheirar o pó de Lihun.”


Só então Chi Xiaoduo respirou aliviado. Quando os dois saíram, a garota ainda estava pintando; ela havia feito o esboço a lápis e agora aplicava cores ao papel com delicadeza.


A primavera havia chegado ao Beco das Magnólias; o vento soprava por toda a via, trazendo o perfume das flores e a poeira iluminada pela luz do sol contra os rostos deles. As magnólias brotavam galhos e folhas como se quisessem afirmar sua presença, crescendo cada vez mais para o alto e tornando-se mais densas. Ao longo do beco, os botões plantados junto à cerca do quintal também desabrochavam lentamente, a uma velocidade perceptível a olho nu.


“Vamos”, disse Xiang Cheng em voz baixa.


𓆝 𓆟 𓆞


Quando os dois passaram pela porta do Departamento de Registros, por coincidência, havia alguém empurrando a porta para sair.


“Xiaoduo?” era um homem de óculos escuros e roupas casuais.


“Qiqi?!” Chi Xiaoduo ficou de queixo caído.


Aquele era Qi Wei, o primo* da melhor amiga de Xiaoduo. Chi Xiaoduo até já havia andado no carro esportivo dele na época em que saiu de férias com a melhor amiga.


(n/t: *primo mais velho)


“Vocês dois…” Xiang Cheng lembrou-se e continuou: “Sim, vocês dois se conhecem.”


“Xiang”, disse Qi Wei, franzindo a testa. “Por que você o trouxe aqui?”


Xiang Cheng acenou com a mão e disse: “Relaxe, ele não vai contar para ninguém de fora.”


“Entre comigo um pouco”, disse Qi Wei.


𓆝 𓆟 𓆞


Chi Xiaoduo observou os dois com apreensão, mas Xiang Cheng fez um sinal para que ele fosse dar uma volta, então Chi Xiaoduo saiu do pátio. O Ancião Qu tinha ido para sabe-se lá onde, então Chi Xiaoduo parou em frente à parede, olhando para o boletim informativo preso no quadro de avisos. Havia muitos tópicos sobre exorcistas ali, e uma grande confusão de yaoguai também estava desenhada no papel. Algumas folhas avulsas estavam fixadas mais ao lado.


Chi Xiaoduo folheou as páginas e viu que em uma delas havia um “Guiche” — exatamente aquele que Xiang Cheng havia subjugado no vídeo.


Abaixo, havia um carimbo vermelho retangular: Altamente Perigoso.


Em seguida, um carimbo azul: Subjugado, acompanhado de uma anotação feita a caneta esferográfica ao lado: Identidade do Exorcista: Desconhecida.


Chi Xiaoduo continuou folheando e viu uma enorme quantidade de ilustrações bizarras e estranhas. Algumas eram rotuladas como "Extremamente Perigoso", outras como "Perigoso" e até mesmo algumas como "Letal". No finalzinho, havia uma criatura negra semelhante a um dragão, com cauda de peixe.


Chiwen⁴


O nível de perigo estava marcado como "Desconhecido". Logo abaixo, sete caracteres haviam sido rabiscados com caneta esferográfica. Chi Xiaoduo inclinou a cabeça para olhar, mas a caligrafia era tão ilegível que era impossível decifrar o que diziam.


“Transformado em demônio… fonte de poluição.”


Ao lado do quadro de avisos, havia também uma revista desmembrada e presa com grampos no mostruário de vidro. Tinha dezenas de páginas e trazia na capa: Negócios de Exorcismo — Edição de Abril de 2015. O título da primeira página dizia: "As últimas tendências e a moda da primavera — relembrando a modelo e Exorcista de Hebei, Chang Yang."


Ao ouvir o som da tosse do Ancião Qu à distância, Chi Xiaoduo saiu silenciosamente do pátio e entrou no beco.


𓆝 𓆟 𓆞


A luz do sol entrava para dentro da sala do arquivo, iluminando as partículas de poeira que flutuavam no ar; Xiang Cheng ergueu a cabeça e percorreu as prateleiras com o olhar até encontrar a seção "Distrito de Yuexiu", onde a estante inteira estava repleta de registros de casos. Qi Wei tirou os óculos escuros e apoiou-se na janela; ao olhar para fora, viu que Chi Xiaoduo havia entrado no beco.


“Pode ser que esteja no Liwan Plaza”, disse Qi Wei. “Nós estamos ocupados com o assunto do Parque Aquático Chimelong.”


Sem nem levantar a cabeça, Xiang Cheng puxou o maço de arquivos referente ao China Plaza, deixando claro que não estava com a menor vontade de conversar com Qi Wei.


“Você está procurando o guiche?” Qi Wei perguntou. “Ouvi dizer que há um demônio manipulando tudo isso nos bastidores. A loja dele fica na China Plaza.”


Xiang Cheng colocou a pasta de volta na prateleira.


“Eles também vendem cristais, quartzo fantasma verde, quartzo rosa”, disse Qi Wei. “Ele engana criancinhas para que brinquem com elas, depois absorve a energia delas e deixa que fiquem com os cristais, oferecendo essa energia para o demônio usar.”


Xiang Cheng estreitou os olhos.


“Que tipo de demônio?” Xiang Cheng perguntou.


Qi Wei deu de ombros. Xiang Cheng pousou os registros do caso. Qi Wei continuou: “Não sei. Quanto àquele assunto da loja de desejos em que você já havia intervindo, o Ancião Lu levou pessoas para investigar depois, então a loja fechou naquele mesmo dia.”


Xiang Cheng caminhou em silêncio até outra prateleira.


Qi Wei balançou a cabeça e disse: “O paradeiro deles é desconhecido; a pista esfriou."


“Meu instinto me diz que o caso no Parque Aquático Chimelong e o da loja de desejos no China Plaza estão conectados”, disse Qi Wei, apoiando uma mão na prateleira e inclinando o corpo, voltando-se para Xiang Cheng com um ar audacioso. “Há um yao que se esconde na saída do jato de água para devorar os olhos das pessoas — ele fez três vítimas este ano —, mas, sempre que vamos procurá-lo, nunca conseguimos localizar o culpado.”


Xiang Cheng permaneceu em silêncio.


Qi Wei continuou: “Suspeitavam que fosse um macaco-d'água, mas ele corria rápido demais e não conseguiram pegá-lo.”


“Depois que as pessoas morrem, a energia residual de seus cadáveres se funde à sua energia de ressentimento, transformando-se em um yao que devora os olhos e as unhas dos humanos”, disse Qi Wei. Ele refletiu um pouco antes de prosseguir: “Eles drenaram a água e até tentaram usar eletricidade, mas não encontraram nada; agora vão tentar mais uma vez. Se ainda assim não conseguirem localizá-lo, vão desistir e deixar como está.”


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Chi Xiaoduo estava agachado no beco, examinando as mercadorias na barraca de rua de um velho. O mostruário estava montado da mesma forma que o de Xiang Cheng: um lençol vermelho estava estendido no chão, coberto com bordados de monstros decorativos e esquisitos. Havia também uma grande quantidade de artesanatos peculiares espalhados pelo tecido.


“O que é isto?” Chi Xiaoduo observou um sino com curiosidade.


“O Sino Shehun⁵”, disse o velho. “Serve para capturar yao.”


Chi Xiaoduo apontou para uma caixa. “E isto?”


O velho respondeu: “Pólen Lihun; serve para encher frascos de rapé. Você já viu um frasco de rapé antes?”


Ah! Chi Xiaoduo pensou que essa seria a oportunidade perfeita para comprar um pouco para Xiang Cheng como forma de retribuição; mas, se comprasse, será que Xiang Cheng o obrigaria a cheirá-lo? Pensando bem, era melhor deixar para lá.


“Este aqui é a Bolsa Qiankun”, disse o velhinho, apontando para o ponto exato onde os olhos de Chi Xiaoduo haviam pousado: um saquinho esfarrapado feito de pano grosso. “É o artefato do Doraemon, entendeu? Consegue guardar uma infinidade de coisas! Se o seu chefe te intimidar no trabalho ou se os seus colegas te isolarem, é só dar uma sacudida e chacoalhar a equipe inteira do escritório para dentro dele, e depois meter o pau neles do lado de fora!”


Os cantos da boca de Chi Xiaoduo tremeram num sorriso sem graça, e ele assentiu.


“Parece muito poderoso, mas quando o chefe aparecer, e aí?”


“Deixe que sintam o cheiro de um pouco de Pólen Lihun!” o velho disse. “Assim, não se lembrarão de absolutamente nada…”


Chi Xiaoduo sentiu um suor frio escorrer, concordando com aquelas palavras.


“E isto?” Chi Xiaoduo apontou para uma escultura de uma deusa.


“Uma estátua de Nuwa”, disse o velho. “Cento e vinte.”


“Para que ela serve?” Chi Xiaoduo perguntou.


O velho parecia estar provocando Chi Xiaoduo ao responder: “Leve-a para casa e reze para ela. Você pode pedir sorte no amor, e essa sorte virá imediatamente; não importa se você gosta de homens ou de mulheres!”


“Funciona mesmo?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Funciona!” O velho lançou um olhar severo a Chi Xiaoduo. “Se não funcionar, não cobro nada!” Dito isso, ele pegou a estátua de Nuwa e a colocou na mão de Chi Xiaoduo. “Quando você voltar de manhã e quando voltar à noite, reze para ela uma vez em cada ocasião! Ao rezar, certifique-se de pedir à deusa Nuwa que garanta que você encontre alguém rico! Um rapaz alto, rico e bonito, ou uma moça de pele clara, bonita e rica!”


Chi Xiaoduo pensou: Já que isso é usado por exorcistas, deve ser eficaz. “Então vou comprar uma”, disse ele, tirando 120 yuans do bolso e entregando ao velho.


O velho disse: “1,2 milhão! O que você está pensando?"


Chi Xiaoduo: “……”


“Deixa pra lá, então”, disse Chi Xiaoduo com uma risada sem graça. “Eu não trouxe todo esse dinheiro.”


Como que por mágica, o velho tirou uma maquininha de cartão da bolsa e disse: “Você pode usar UnionPay!”


Chi Xiaoduo levou a mão à testa e o velho continuou: “Você quer um pouco de Pólen Lihun?”


“Quanto custa?” Chi Xiaoduo estava à beira das lágrimas.


“150 mil por grama!” O velho disse.


Chi Xiaoduo levantou-se prontamente e disse: “Tchau.”


O velho gritou: “Ei, não vá embora! Você perguntou sobre tanta coisa e não comprou nada; está usando este velho para se divertir? Acha que não consigo derrubá-lo com um único golpe da minha bengala de confiança?!”


O corpo inteiro de Chi Xiaoduo travou ao ouvir isso, e o velho disse: “Pare aí mesmo! Ou você vende seu corpo e vem aqui me servir, ou deixa a estátua de Nuwa aqui; caso contrário, nem pense em sair!”


Chi Xiaoduo quase fez xixi nas calças, mas, felizmente, Qi Wei saiu do pátio e sorriu: “Grande imortal, pare de provocar o garoto.”


O velhinho deu uma gargalhada alta e balançou a cabeça sozinho, arrumando a estátua de Nuwa no lugar. Chi Xiaoduo, com as costas encharcadas de suor frio, correu para se esconder atrás de Qi Wei.


“O Grande Imortal Zeng achou você divertido e quer te aceitar como aprendiz”, disse Qi Wei. “Você topa?”


Chi Xiaoduo saiu de trás dele, tremendo de medo, olhou para o velho e depois voltou o olhar para Qi Wei.


O idoso que Qi Wei chamara de Grande Imortal Zeng deu uma risadinha, acenando com a mão: “Não vou tomá-lo como discípulo; o destino dele não é comigo.”


Qi Wei então pediu para Chi Xiaoduo esperar ali do lado, e os dois ficaram parados debaixo de uma magnólia.


Tanto Chi Xiaoduo quanto Qi Wei sentiram um certo constrangimento. Considerando a impressão que Chi Xiaoduo tinha dele anteriormente — a de um sujeito que sempre agia como um playboy despreocupado — vê-lo agora de terno Armani e parado sob a magnólia, Qi Wei pareceria tão sério e compenetrado — e, surpreendentemente, alguém em quem se podia confiar.


“Lembre-se de proteger o Xiang Cheng”, disse Qi Wei. “Ele é uma boa pessoa.”


“Ahn?” Chi Xiaoduo ficou sem saber se ria ou se chorava. "Não deveria ser ele a me proteger?”


Qi Wei balançou a cabeça, deu um sorriso discreto e apontou os óculos escuros na direção dele, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Nesse momento, Xiang Cheng saiu de lá de dentro segurando uma folha de papel.


Qi Wei disse: “Xiang Cheng, você deveria tirar sua carteira de motorista; pode pegar meu carro emprestado.”


Xiang Cheng balançou a cabeça, passou o braço pelos ombros de Chi Xiaoduo e disse: “Vamos nessa.”


Os dois saíram do Beco Magnolia, e Chi Xiaoduo percebeu, de repente, que haviam surgido em uma rua familiar. Ele não resistiu à vontade de olhar para trás e voltar, apenas para descobrir que havia entrado em um beco estreito, abarrotado de caixas de papelão e entulho. Era exatamente como o Ancião Qu havia dito: os dois becos não existiam no mesmo espaço! Era algo realmente mágico.


Xiang Cheng foi buscar o carro primeiro; Kuang Desheng tentou alcançá-los, mas Xiang Cheng partiu em alta velocidade com Chi Xiaoduo, não dando a Kuang Desheng qualquer chance de falar. Ao cair da tarde, Xiang Cheng e Chi Xiaoduo compraram cachorros-quentes e sentaram-se lado a lado em um banco à beira do rio para jantar.


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Sob a luz do pôr do sol, o Rio das Pérolas brilhava com um tom dourado-avermelhado; as embarcações do cruzeiro noturno estavam prestes a zarpar, e o apito distante dos navios ecoava suavemente pelo ar.


“Nos próximos dias, você precisa ficar ao meu lado”, disse Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo não havia perguntado nada durante o trajeto. Muita coisa havia acontecido naquele dia, e ele sentia a cabeça pesada e atordoada com tudo aquilo. No entanto, em meio a tantas coisas, o que realmente lhe importava, no fim das contas, era apenas uma questão: se ele teria ou não que cheirar aquele pólen.


Pela conversa e negociação de Xiang Cheng no Beco das Magnólias naquela tarde, parecia que apenas aquele departamento era extremamente rigoroso. Isso significava que, embora Xiang Cheng fosse ajudá-lo agora, ele ainda teria que enfrentar as consequências quando tudo terminasse.


“Hum.” Chi Xiaoduo não disse mais nada; apenas assentiu e respondeu: “Tudo bem.”


Xiang Cheng não fazia ideia do que passava pela cabeça dele. Na verdade, desde que saíra do Departamento de Exorcismo, seus pensamentos estavam ocupados com questões totalmente alheias aos sentimentos de Chi Xiaoduo — para ele, aquele demônio era a única prioridade.


“Eu vou te proteger”, disse Xiang Cheng.


“Tudo bem me contar isso?” Chi Xiaoduo perguntou. “Ouvi o Diretor Li dizer mais cedo que, se você não me contasse, outra pessoa teria vindo me avisar de qualquer maneira, isso é verdade?”


Xiang Cheng estava distraído com outros pensamentos por um momento, mas, após uma breve pausa, assentiu com gravidade. “Sim.”


Chi Xiaoduo franziu levemente a testa e questionou: “O departamento também avisa as pessoas comuns sobre esse tipo de coisa?”


“Vocês, que vivem na cidade, raramente se deparam com isso”, disse Xiang Cheng, “porque há muita gente nas cidades. Às vezes, se você estiver nas montanhas, em um vilarejo ou em qualquer outro lugar, e alguém passar por você e disser que há uma ameaça iminente de desastre, ou que você deve prestar atenção ao que faz e diz num futuro próximo, essas pessoas podem ter sido enviadas pelo departamento para avisá-lo.”


Chi Xiaoduo: “!!”


“Mas nem todos são assim”, disse Xiang Cheng. “Isso não elimina os vigaristas.”


“E depois que avisam?” Chi Xiaoduo perguntou de novo. “Eles conseguem resolver o problema?”


“Geralmente, eles fazem você cooperar, mas não revelam o que está realmente acontecendo. Depois, fazem o possível para enviar pessoas para resolver a questão discretamente; mas, para casos que não podem ser solucionados, não têm escolha a não ser deixar como está”, disse Xiang Cheng. “É claro que os exorcistas acabam sofrendo punições disciplinares.”


Chi Xiaoduo disse: “Então, como fui marcado por algum yaoguai, esse yaoguai quer me causar problemas, é isso? Mas eu nunca fiz nada de errado.”


Xiang Cheng pensou um pouco antes de dizer: “Não é bem assim. Quando você tinha sete anos, teve algum encontro particularmente estranho?”


Chi Xiaoduo pensou um pouco, mas realmente não conseguia se lembrar. Pediam-lhe que recordasse toda a sua infância — especialmente o que havia feito ao longo de um ano inteiro —, mas suas memórias haviam se tornado muito vagas.


“Quase se afogar enquanto nadava conta?” Chi Xiaoduo perguntou.


Xiang Cheng acenou com a mão, dispensando a ideia. Chi Xiaoduo recordou-se e disse: “Lembro-me de uma noite em que, apoiado na janela, vi muitas coisas estranhas. Havia luzes lá fora e lanternas flutuando de um lado para o outro…”


“Esse é o Festival Zhongyuan, quando os portões do reino dos fantasmas se abrem”, respondeu Xiang Cheng com seriedade, pressionando a testa com uma das mãos. “Não tem nada a ver com yaos; é obra de monges e sacerdotes taoístas.”


Chi Xiaoduo: “É mesmo? Eu achava que tinha sido só um sonho meu, porque me lembro dessa cena com uma clareza incrível. Mas por que a gente consegue ver essas coisas quando é criança e para de enxergar depois que cresce?”


“Crianças têm a chama fraca”, disse Xiang Cheng. “Ver essas coisas não é nada de mais.”


“Por quê?” perguntou Chi Xiaoduo, curioso. “E o que significa ter a chama fraca?”


“A chama”, disse Xiang Cheng, gesticulando ao apontar para o peito de Chi Xiaoduo, “refere-se à luz da sua alma. Yao e demônios, fantasmas e monstros, todo tipo de espírito maligno tem medo da luz. Pessoas com a chama fraca atraem yaoguai e fantasmas com facilidade, então acabam vendo o que não deveriam. O que mais?”


Chi Xiaoduo lembrou-se da conversa que tivera com Yang Xingjie outro dia sobre a caverna marinha da sua infância: “Quando eu era pequeno e ia à praia, às vezes me deparava com umas coisas estranhas.”


“Como o quê, por exemplo?” Xiang Cheng encarou Chi Xiaoduo, erguendo uma sobrancelha.


“Esqueci”, disse Chi Xiaoduo, coçando a cabeça. “Lembro de ter visto algo muito parecido com um yaoguai, e ele tinha morrido na praia. Fiquei morrendo de medo e o deixei para trás enquanto tentava achar alguém, mas, no fim, as pessoas disseram que era só arraia que havia sido trazida pela maré.”


Xiang Cheng entrelaçou os dedos das duas mãos e massageou as sobrancelhas com os polegares, murmurando para si mesmo: “O que diabos é, afinal? Naquele dia, nem parecia ser um demônio… Aparentava ser uma pessoa completamente normal, mas havia algo que não parecia certo…”


Chi Xiaoduo perguntou: “Quem?”


Xiang Cheng acenou com a mão, dispensando o assunto: “Deixa para lá por enquanto. Você está com sono?”


Chi Xiaoduo apressou-se em balançar a cabeça negativamente. Xiang Cheng continuou: “Pode me ajudar com uma coisa?”


Chi Xiaoduo deu uma risadinha: “Claro, o que precisa que eu faça? Quer que eu te consiga um comprovante de trabalho?”


Xiang Cheng paralisou por um segundo antes de prosseguir: “Nem tinha pensado nisso. Você consegue fazer isso?”


Chi Xiaoduo pensou um pouco e disse: “Arquitetos não conseguem, mas o pessoal da logística deve conseguir. Vou ligar para ele.”


Xiang Cheng fez um gesto com a mão e disse: “Não precisa de tanto trabalho. Basta eu ter um contrato de trabalho legítimo; até mesmo um cargo de segurança serve.”


Chi Xiaoduo caiu na gargalhada e disse: "Ser segurança seria um desperdício enorme para você.”


“Um porteiro ou segurança”, respondeu Xiang Cheng, destrancando o carro. “Eu já fui até um pato, então não estou em posição de escolher.”


Chi Xiaoduo ligou para Wang Ren. Wang Ren o repreendeu longamente, tagarelando sem parar, até que Chi Xiaoduo finalmente gritou furiosamente: “Faça isso logo! Chega de enrolação — se não, tiro meu diploma registrado da sua empresa!”


Wang Ren não teve escolha a não ser ceder: “Tá bom, tá bom.”


Chi Xiaoduo continuou: “Deixe um contrato pronto para amanhã, e amanhã mesmo eu levo ele aí para assinar.”


“Você ficou louco, Chi Xiaoduo?!” disse Wang Ren. “Uma coisa é você pedir um cargo diferente, mas o que está acontecendo com você indicando alguém para ser porteiro no meu instituto de design?!”


“Ah, pare de se preocupar com isso”, respondeu Chi Xiaoduo. “Vamos simplesmente concordar com isso e encerrar o assunto.”


Xiang Cheng achou aquilo muito divertido. Chi Xiaoduo desligou e perguntou: “Você e Qiqi… têm uma relação muito próxima?”


“Não”, Xiang Cheng balançou a cabeça.


Ao observar a expressão de Xiang Cheng, Chi Xiaoduo percebeu que havia algo ali delicado de colocar em palavras, então preferiu não insistir no assunto.


“O fato de Qi Wei provar isso ao departamento não é importante, mas resolver a situação dessa maneira é perfeito. Na verdade, o motivo pelo qual eu queria sua ajuda estava relacionado a demônios. Há um selo demoníaco em seu corpo”, disse Xiang Cheng com seriedade.


“Hum-hum”, disse Chi Xiaoduo. “O que eu preciso fazer?”


Xiang Cheng respondeu: “Nos próximos dias, vou te manter do meu lado. Quando nos aproximarmos da verdadeira forma do demônio, seu corpo captará uma leve ressonância. Vou rastrear o fluxo da sua marca demoníaca para localizá-la — mas não se preocupe, eu vou te manter em segurança.”


“Sem problemas”, concordou Chi Xiaoduo prontamente. As ações de Xiang Cheng não se tratavam apenas de protegê-lo; tratava-se de proteger todas as pessoas que viviam na Terra, então é claro que ele concordou.


Chi Xiaoduo entrou no carro. As habilidades de Xiang Cheng ao volante eram excelentes e, como uma linha passando pelo buraco de uma agulha, eles avançaram rapidamente por entre a multidão. Às oito horas em ponto, eles chegaram à China Plaza.


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Notas:


1 煎饼果子 (Jiānbǐng guǒzi): Prato tradicional de rua chinês composto por uma massa fina de crepe com ovo, molho picante/doce, ervas e uma crocante massa frita (yutiao) enrolada no centro.


2 八卦镜 (Bāguà jìng): Espelho octogonal rodeado pelos oito trigramas do I Ching. No Feng Shui e no folclore chinês, é um amuleto pendurado sobre as portas das casas para repelir maus espíritos e energias negativas (sha qi).


3 户口 (Hùkǒu): O sistema de registro de residência permanente da China.


4 鸱吻 (Chīwěn): Um dos nove filhos lendários do Dragão na mitologia chinesa. É retratado com corpo de dragão e cauda de peixe, associado ao elemento água e frequentemente esculpido nos telhados das arquiteturas tradicionais como amuleto de proteção contra incêndios.


5 摄魂铃 (Shè hún líng): traduz lit Sino Coletor de Almas.


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Flor: Agora o Chi Xiaoduo sabe de tudo~


𓇼⋆.˚𓆉𓆝𓆡⋆.˚𓇼

 

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