sábado, 24 de outubro de 2026

[Novel] Mingwang Huanshi Lu - Capítulo 028


Capítulo 28 - Inscrição



Com o som da água jorrando, os três saíram do lago; Chi Xiaoduo desabou na beira do lago, tossindo, enquanto Xiang Cheng pressionava seu abdômen para ajudá-lo. Chen Zhen olhou ao redor e tirou o celular do bolso; a tela piscou algumas vezes — tinha entrado água nele.


Eles estavam cercados por uma paisagem pitoresca; os três encontravam-se em um grande parque. Ouviam-se vozes ao longe, e Chen Zhen disse: "Vamos, rápido."


Encharcado, Chi Xiaoduo correu com eles para trás de uma árvore. Foi então que Xiang Cheng notou uma placa.


Chengde¹, nos arredores do Resort de Montanha.


Os três apresentavam um aspecto deplorável: a camiseta branca de Chen Zhen estava encharcada e grudada ao corpo; Chi Xiaoduo espirrou ao ser atingido pelo vento, e Xiang Cheng continuava sem camisa e de chinelos. Si Gui estava tão encharcado que parecia um pintinho molhado e estava visivelmente abatido, e o vison ao lado de Chen Zhen não conseguia parar de sacudir a cabeça para se livrar da água.


O ônibus que fazia o trajeto de ida e volta para Pequim chegou, e Chi Xiaoduo se encostou em Xiang Cheng na última fileira e pegou no sono.


“Você pode aceitá-lo como discípulo”, disse Chen Zhen casualmente, lançando um olhar para Xiang Cheng.


Xiang Cheng respondeu: “Não vou considerar isso.”


“Dessa forma, a organização não terá que lidar com ele depois”, disse Chen Zhen. “Por que não considerar?”


Xiang Cheng não respondeu, apenas observou a paisagem que passava rapidamente pela janela do ônibus.


Chen Zhen tossiu algumas vezes, cobrindo a boca com a mão; um pouco de sangue surgiu entre seus dedos.


Xiang Cheng olhou para Chen Zhen, que apenas acenou com a mão de leve, tirou um lenço de papel da bolsa e limpou o sangue que saía do nariz.


Xiang Cheng perguntou: “A Lâmpada do Coração?”


Chen Zhen assentiu, sem dizer uma palavra.


“Chegamos”, Xiang Cheng deu uma leve sacudida em Chi Xiaoduo, que saiu do ônibus parecendo atordoado e ainda meio sonolento. O carro de Chen Zhen estava estacionado no terminal, e um jovem abaixou o vidro para cumprimentá-los. Xiang Cheng conduziu Chi Xiaoduo para dentro do veículo, e ambos se acomodaram no banco de trás. Chen Zhen estava visivelmente muito cansado e acabou cochilando no banco do passageiro da frente.


“Chegamos”, disse Xiang Cheng. “Você vai ficar dormindo no carro?”


Chen Zhen disse: “Ele precisa ir embora; caso contrário, vai ser difícil para mim explicar a situação.”


Chi Xiaoduo: “O quê?”


Chi Xiaoduo ainda estava sonolento que ele nem sabia direito onde estava, apenas seguiu Xiang Cheng e Chen Zhen para fora do carro. Chen Zhen os conduziu até a entrada dos fundos de um prédio do Beco Lingjing, onde funcionava uma lanchonete fast-food. Chi Xiaoduo, totalmente atordoado, achou que fossem tomar café da manhã; no entanto, Chen Zhen os guiou por vários desvios e corredores, cumprimentou um funcionário que havia chegado cedo, pegou uma chave e abriu a porta de um escritório. Ao entrar, ele empurrou uma estante de livros, revelando uma passagem secreta. Descendo as escadas atrás da porta oculta, eles chegaram a um  porão subterrâneo.


Chi Xiaoduo estava totalmente desperto agora; o porão estava iluminado, e um piano estava encostado na parede.


Chen Zhen aproximou-se e sentou-se ao piano, enquanto Xiang Cheng e Chi Xiaoduo permaneciam no meio do ambiente.


Chen Zhen abriu a tampa empoeirada do piano e pressionou a primeira tecla com um dang. O som do piano ressoou claro e melodioso, seguido imediatamente por uma série de notas. A música foi ficando cada vez mais rápida e, no ritmo da melodia que fluía como nuvens flutuantes e águas correntes, as paredes ao redor começaram a se transformar. Elas se desmontavam, se dispersavam, recuavam e se reorganizavam rapidamente, até que a música de Chen Zhen finalmente cessou. Todo o espaço ao redor havia se transformado em um escritório completamente estranho!


A sala estava impecável e iluminada, com um carpete vermelho-escuro e janelas do chão ao teto que ofereciam uma vista panorâmica de Pequim.


Chen Zhen se levantou e abriu a porta; do lado de fora havia um saguão de escritório totalmente vazio.


Chi Xiaoduo caminhou até a janela panorâmica; lá fora, a paisagem era a de uma rua barulhenta e movimentada. Árvores de ginkgo cresciam viçosas sob o sol, irradiando uma vitalidade vigorosa. O som de campainhas de bicicleta ecoava de ambos os lados da rua, enquanto pedestres transitavam de um lado para o outro.


Ele estava no décimo segundo andar, e os prédios erguiam-se do chão, cintilando sob a luz. Ao longe, via-se a rua em Pequim; no entanto, havia uma névoa luminosa sobre a paisagem urbana.


Chen Zhen conduziu-os para fora da sala de piano.


“Preencha estes formulários”, disse Chen Zhen, esfregando o rosto com as duas mãos, completamente exausto. “Assim que terminarem, entreguem-nos na secretaria, no saguão do térreo.”


Chen Zhen entregou três formulários a Xiang Cheng e perguntou: “Você está com seu documento de identidade?”


“Não”, respondeu Xiang Cheng.


“Estou com ele aqui.” Chi Xiaoduo havia levado seu documento de identidade quando relatou o incidente à polícia, no dia anterior.


A visão de mundo de Chi Xiaoduo era incapaz de assimilar tudo o que havia acontecido nas últimas doze horas. Xiang Cheng preenchia os formulários com cuidado, enquanto Chi Xiaoduo observava ao lado. O título do formulário era: “Ficha de Cadastro Pessoal de Exorcista” e continha campos para nome, gênero, local de nascimento e filiação.


Xiang Cheng hesitou por um momento, preencheu “Xiang Jianhua” no campo destinado ao “Pai” e traçou uma linha horizontal no campo destinado à “Mãe”. Quanto às convicções políticas, escreveu “Cidadão Comum”.


No campo “Contatos Sociais”, Xiang Cheng pensou um pouco, preencheu o nome de Chi Xiaoduo e deixou o número de telefone dele. Em “Facção Familiar/Seita”, ele preencheu “Acalanatha”.


Chi Xiaoduo: “……”


Aos olhos de Chi Xiaoduo, Xiang Cheng de repente pareceu alguém de grande nobreza e distinção; sua curiosidade estava prestes a explodir, mas ele não ousava perguntar. Xiang Cheng lançou-lhe um olhar com um sorriso nos olhos. Percebendo que ele queria perguntar sobre aquilo, disse: "Acalanatha é a facção/seita de artes marciais e magia do meu pai.”


“Todo exorcista pertence a uma facção/seita específica?” Chi Xiaoduo perguntou.


Xiang Cheng balançou a cabeça e disse: "Apenas alguns. Você viu aquela lâmpada de Chen Zhen, não viu?”


Chi Xiaoduo assentiu.


“Aquela lâmpada é um tesouro deixado por Dipankara”, explicou Xiang Cheng. “É uma arma mágica herdada pela família dele. Ela é especializada em romper demônios interiores e ilusões. Chama-se Lâmpada do Coração; é como o meu Cajado de Subjugação de Yao.”


“Isso é incrível.” Chi Xiaoduo olhou para Xiang Cheng com admiração.


Xiang Cheng refletiu por um momento e disse: “Entre os exorcistas, existem muitas famílias antigas e renomadas, e as facções hereditárias são muito poderosas.”


Em seus dados pessoais, Xiang Cheng preencheu cuidadosamente os nomes de vários yaoguai, incluindo Xiangliu², a Raposa Imortal e Qiongqi³. Por fim, refletiu um pouco e acrescentou Chiwen ao final da lista, juntamente com um relato do ocorrido durante a eliminação do yaoguai em Guangzhou. Ele não explicou essa parte a Chi Xiaoduo; em vez disso, conduziu-o para fora do prédio de escritórios em direção ao elevador.


Não havia muita gente no elevador que descia. Lá dentro, uma garota estava parada, vestida da cabeça aos pés com roupas de grife e segurando uma bolsa Hermès. Ela tirou um espelho de maquiagem e observou a própria imagem. Xiang Cheng e Chi Xiaoduo apertaram o botão do térreo, e Chi Xiaoduo bocejou. Xiang Cheng perguntou: “Com sono?”


“Com fome”, disse Chi Xiaoduo.


“Vou terminar isso o mais rápido possível e te levar para comer alguma coisa”, respondeu Xiang Cheng.


Pelo espelho, a garota observou os dois, encarando a lama seca grudada nas roupas e na pele deles. A parte superior nua de Xiang Cheng estava coberta pelo lodo do fundo do Lago Ruyi⁴.


Com um ding, o elevador chegou ao sétimo andar; a garota saiu, e o elevador continuou a descer.


O saguão do térreo era um espaço de atendimento dividido em três níveis. Havia trabalhadores migrantes do interior, profissionais de escritório com pastas, além de sotaques do Nordeste, de Henan, de Guizhou e de Pequim — todos tagarelando ruidosamente, como uma panela de água fervente.


Xiang Cheng levou o formulário consigo para pegar uma senha e perguntou onde deveria entregá-lo. Chi Xiaoduo olhou curioso para o lado de fora, onde havia uma fonte e, ao redor dela, vários carros de luxo estacionados.


“Não vai demorar muito!” Xiang Cheng disse.


Chi Xiaoduo virou a cabeça e respondeu: “Sem pressa!”


O atendente carimbou o formulário de Xiang Cheng, lançou-lhe um olhar, fez uma cópia de seu documento de identidade e disse: “Assine aqui. Primeiro, você precisa pagar uma multa por negligência grave na estação de metrô da Rua Keyun, em Guangzhou — uma multa de 3 mil yuans e dez moedas antigas.”


Xiang Cheng: “……”


“Vocês até têm registros disso”, disse Xiang Cheng, com um tom de tristeza.


“O país inteiro está conectado pela internet há muito tempo”, respondeu o funcionário.


Xiang Cheng não teve escolha a não ser pegar a guia de infração para pagar a taxa, e Chi Xiaoduo passou o cartão por ele.


Ao retornar, Xiang Cheng assinou rapidamente vários formulários. O funcionário, então, orientou: “Pague as taxas no Guichê 6, aceitamos cartão. Depois, vá ao Guichê 17 para tirar uma foto.”


Chi Xiaoduo ajudou Xiang Cheng a passar o cartão novamente; no comprovante, constava “taxa de processamento para emissão de certificado”. Xiang Cheng foi até o guichê, tirou a foto e voltou com o comprovante. O funcionário examinou o documento e disse: “O sistema indica que seu certificado de qualificação foi revogado; portanto, não posso realizar o procedimento para você.”


Xiang Cheng respondeu: “O diretor Chen Zhen me pediu para preencher o formulário e tratar da emissão do certificado. Não sei de mais nada.”


“Mesmo assim, não dá”, disse o atendente. “Não é possível processar isso.”


Xiang Cheng: “O dinheiro pode ser reembolsado?”


Atendente: “O recibo já foi emitido, então o dinheiro não pode ser devolvido. Volte aqui depois que tiver o certificado.”


Xiang Cheng: “……”


Chi Xiaoduo sugeriu: “Que tal ligarmos para o Chen Zhen?”


Nesse momento, o telefone do atendente tocou. Ele atendeu, lançou um olhar para Xiang Cheng e disse: “Aguardem ali um instante — próximo.”


Os dois se afastaram para dar lugar à pessoa seguinte; tratava-se de um senhor idoso, vestindo uma camisa verde-escura e bermuda, apoiado em uma bengala surrada, que estava ali para receber um subsídio.


O som de saltos altos ecoou — tec, tec, tec — à medida que a jovem, que eles haviam visto anteriormente no elevador, se aproximava, segurando um documento com um carimbo oficial, e perguntou: “Onde está Xiang Cheng?”


Chi Xiaoduo acenou para ela, e a moça lançou o certificado na bancada; o funcionário pegou o documento, prendeu-o com um clipe ao formulário e ao recibo de Xiang Cheng, acionou o comando de impressão e emitiu um comprovante de certificação. Xiang Cheng sentiu-se aliviado e disse: “Obrigado.”


Certificado de Qualificação Temporário de Exorcista — Região de Pequim (Distrito de Hebei)


Nela estava a foto impressa de Xiang Cheng. Xiang Cheng dobrou cuidadosamente seu certificado de qualificação, guardou-o e entrou no elevador com Chi Xiaoduo.


O elevador, que subia, estava lotado. Todos permaneciam em silêncio, afastando-se instintivamente para abrir um pouco de espaço para Xiang Cheng — claramente para evitar esbarrar nele e sujar as próprias roupas —, ao mesmo tempo em que lançavam olhares curiosos para a dupla.


Chi Xiaoduo perguntou: “Todo mundo que vem a Pequim precisa solicitar esse certificado?”


Xiang Cheng assentiu e respondeu: “Isso torna as coisas um pouco mais fáceis de resolver.”


Chi Xiaoduo virou-se para observar as pessoas ao redor; havia homens e mulheres, todos encarando Xiang Cheng.


Xiang Cheng parecia não estar de muito bom humor, então Chi Xiaoduo segurou sua mão e deu uma leve balançada.


O elevador chegou ao sétimo andar. Xiang Cheng bateu à porta do escritório de Chen Zhen. Lá dentro, Chen Zhen conversava com a garota rica e estilosa que havia entregado o documento momentos antes; sobre a mesa de centro no escritório, havia um café da manhã do McDonald’s.


“Comam o café da manhã primeiro”, disse Chen Zhen para eles.


Xiang Cheng não fez cerimônia; sentou-se ao lado de Chi Xiaoduo, e ambos começaram a devorar a comida. Chi Xiaoduo, faminto, deu conta de dois hambúrgueres, enquanto Xiang Cheng devorou ​​três Big Macs e uma caixa de nuggets de frango, mantendo, ainda, uma porção de batatas fritas na mão. Enquanto comiam, ouviam a jovem falar.


A garota dizia, visivelmente contrariada: “…De qualquer forma, eu não vou concordar com isso. Já é o quarto caso só neste trimestre, e com tantas escolas assim, nem correndo de um lado para o outro sozinha dou conta de tudo. Agora você quer me arranjar um peso morto, Diretor Chen… eu não avisei…”


Chen Zhen disse, pacientemente: “Keda-xiong não vai te atrapalhar, Wanyuan. A organização apenas se preocupa com o fato de você poder correr perigo caso esteja sozinha.”


A jovem chamada Wanyuan respondeu: “Primeiro, estou ocupada demais. Segundo, não preciso que a organização arranje um casamento para mim.”


“Não se trata de um casamento arranjado”, disse Chen Zhen. “Os líderes não quiseram dizer isso — o que você está pensando, hein? Diga-me, então: se você não precisa de um assistente, quantos meses levará para concluir este caso?”


“Não dá para resolver”, disse Wanyuan, soltando um longo suspiro. Ela levantou o pulso, virando a mão de um lado para o outro para examinar suas unhas decoradas com strass.


Chen Zhen ficou em silêncio por um momento, pegou uma pilha de documentos e deu uma olhada para Chi Xiaoduo e Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo soltou um arroto.


“Xiaoduo, preencha este formulário”, disse Chen Zhen. “Prepare uma cópia.”


Wanyuan lançou um olhar para eles, mas não disse nada.


Chi Xiaoduo foi pegar o formulário. Este era diferente do de Xiang Cheng, e não passava de explicar o que ele estava fazendo em Pequim e qual era o seu trabalho. Wanyuan e Chen Zhen não disseram uma única palavra durante todo o processo. Wanyuan examinava suas unhas, e Chen Zhen folheava papéis.


“É isso, então”, disse Chen Zhen. “Ainda tenho outras coisas para resolver. Pense bem a respeito e volte amanhã.”


“Diretor Chen”, disse Wanyuan. “O senhor também precisa levar em conta a minha situação. Um monte de gente ouviu dizer que eu não sou casada e agora todo mundo está numa empolgação absurda. Minhas tias, primas e avós se juntaram todas para me arranjar um noivo de qualquer jeito, até eu finalmente me casar. Estão me empurrando todo tipo de homem: desde divorciado com filho até quarentão que trabalha em biblioteca⁵…”


Chi Xiaoduo empatizou imediatamente e disse: “É, realmente não dá para aceitar uma coisa dessas.”


“Não é?” Wanyuan disse. “Irmãozinho, você me entende.”


“Eu também não quero ser um incômodo”, disse Chen Zhen. “Se você tem namorado ou não, isso não é da minha conta — até porque eu não poderia ser seu namorado, certo? A questão é que os líderes estão entusiasmados demais. Embora eu não saiba por que eles estão tão empolgados, pelo menos os assistentes que enviaram para você têm certa experiência na área e, no mínimo, não vão te causar problemas.”


Wanyuan disse: “Não podemos falar apenas do meu trabalho; também preciso pensar no meu futuro.”


Chen Zhen acrescentou: "Resumindo, pense nisso primeiro. Não dá para julgar as coisas apenas pela aparência. O projeto no qual você se inscreveu mudou; ninguém queria que isso acontecesse, sem contar que o caso foi classificado como prioridade alta.”


Wanyuan respondeu: “Eu ainda preciso estudar para a prova, sabe? Não tenho tanto tempo assim.”


Ignorando-a, Chen Zhen fez um gesto para que Chi Xiaoduo e Xiang Cheng se aproximassem. Ele disse: “Venham comigo. Xiang Cheng, vista o meu casaco primeiro.” Dito isso, tirou uma jaqueta esportiva do armário e entregou a Xiang Cheng para que ele não ficasse sem camisa.


Chen Zhen abriu a porta de outra sala. Lá dentro, uma mesa comprida estava ocupada por um homem de meia-idade, vestindo terno, e uma senhora — de uns sessenta anos — que usava um conjunto azul-escuro com saia curta e salto alto; ela estava impecavelmente arrumada e usava um colar de pérolas com detalhes em ouro.


“Este é Xiang Cheng”, disse Chen Zhen, “e Chi Xiaoduo é amigo dele. Deixem-me explicar brevemente a situação: estes dois são o Ministro Wang e a Diretora Lin.”


Xiang Cheng assentiu. Chi Xiaoduo não se atrevia a falar nada, então apenas ficou parado ao lado dele, sentindo-se como se estivesse em um julgamento.


“Às dez da noite de anteontem, eu estava nos arredores de Huilongguan⁶, rastreando um yaoguai desconhecido e procurando algumas coisas.”


“Era um yao ou um demônio?” a senhora perguntou, encarando Xiang Cheng. “E que objeto é esse que você estava procurando?”


Embora fosse uma pergunta, a velha senhora não demonstrava a menor intenção de interrogá-los; pelo contrário, mostrava-se muito gentil.


Chi Xiaoduo reparou nos olhos dela. A pupila do olho esquerdo era prateada, e a do olho direito, dourada; ela parecia uma gata com olhos de "Yin-Yang", o que lhe causou um arrepio.


Chen Zhen disse: “Diretora Lin, dê uma olhada na ficha; ela contém o currículo e as informações dele.”


“Eu sei”, respondeu a diretora, de sobrenome Lin. “Ele é um descendente da família Xiang, de Fengdu, e filho de Xiang Jianhua.”


Nesse momento, a porta se abriu novamente e um homem alto, vestindo um terno preto, entrou. Chen Zhen acenou para ele e disse: “Keda-xiong.”


“Cheguei atrasado”, disse o homem alto com um tom áspero, acenando para os presentes antes de se sentar.


“Este é o vice-diretor do departamento de trabalho de campo, Gegentorura Keda”, disse Chen Zhen a Xiang Cheng e Chi Xiaoduo.


Keda não disse nada ao entrar; sentou-se em silêncio e examinou as informações dos dois.


“Uma relíquia de família”, respondeu Xiang Cheng.


“O quê?”  O ministro de meia-idade perguntou. “Vocês não registraram isso.”


“Um artefato mágico”, disse Xiang Cheng. “Pertencia ao meu pai.”


“Chi Xiaoduo”, disse a Diretora Lin. “Você e o Chen Zhen encontraram o paradeiro do Xiang Cheng juntos. Por que o trouxe até aqui?”


A Diretora Lin virou ligeiramente a cabeça e perguntou a Chen Zhen.


“Temo que ele tenha algum envolvimento com o incidente”, disse Chen Zhen. “Encontramos um Deus Itinerante Noturno⁷ em Caishikou, e foi ele quem revelou a localização de Xiang Cheng para o Chi Xiaoduo.”


“Por que o Deus Itinerante Noturno falaria exclusivamente com ele?” perguntou o ministro de meia-idade.


Chi Xiaoduo lembrou-se de que tanto Xiang Cheng quanto Chen Zhen haviam dito para ele não mencionar a ninguém sobre sua habilidade de ver coisas estranhas, por isso permaneceu calado.


“Aquilo é um demônio”, disse Xiang Cheng. “Não, dois demônios.”


Chen Zhen explicou: “O Deus Itinerante da Noite em Caishikou controlava um fantasma de aproximadamente 10 metros de altura — de forma semelhante à técnica tuina⁸ — para absorver o qi espiritual entre o céu e a terra.”


“Não era um fantasma”, corrigiu Xiang Cheng. “Era um Hundun⁹.”


A expressão de todos mudou levemente. Gegentorura Keda estalou os nós dos dedos, produzindo um som seco, enquanto encarava Chi Xiaoduo. Xiang Cheng continuou: “Os dois demônios vivem na área central de Pequim sob a forma de dois idosos. Um deles chama o outro de ‘Senhor Die’. Não sei qual é o objetivo deles.”


"Que tipo de ‘artefato mágico’ você estava procurando?” O tom do ministro de meia-idade era, visivelmente, pouco cortês. Ele continuou: "Caçar um demônio sozinho em pleno centro de Pequim sem sequer ter solicitado uma autorização temporária, causando uma confusão que  virou a cidade de cabeça para baixo. Você ainda fez com que o Diretor Chen tivesse que intervir para salvá-lo e ainda por cima envolveu um mortal que não tinha nada a ver com a história. Isso merece punição.”


Xiang Cheng permaneceu em silêncio. Chen Zhen fez um gesto sutil com as mãos, pedindo ao ministro para não ser tão duro com ele.


“Continue”, disse Keda, parecendo bastante interessado no assunto.


“Rastreei outro demônio de Huilongguan até a Torre do Tambor”, disse Xiang Cheng. “Encontrei um de seus locais de ritual, mas não sabia qual era o objetivo. Era uma armadilha que utilizava as veias da terra e a ressonância dos tambores para criar uma ilusão sobreposta à realidade.”


Chen Zhen acrescentou: “Era a ilusão de um pavilhão manifestado por meio de poder espiritual, localizada na base da saída de drenagem do lago no Palácio de Verão de Chengde.”


“A ilusão de um pavilhão.” Keda riu. “Interessante. Um yao também consegue criar ilusões de pavilhões?”


“Não é um yao”, corrigiu Xiang Cheng. “É um demônio que cultiva há muitos anos.”


“No entanto, de acordo com os relatórios que recebemos”, disse a Diretora Lin, “não há demônios no centro da cidade neste momento. O único registrado está escondido sob o Pequeno Palácio Potala¹⁰.”


“Talvez seja apenas aquele embaixo da Pequena Potala?" Keda perguntou.


“Impossível”, respondeu a Diretora Lin. “Há pessoal especializado monitorando o local o tempo todo.”


“Eu já passei a localização ao Chen Zhen”, disse Xiang Cheng, visivelmente contrariado. “Não enganei ninguém.”


“Você ainda não nos contou”, disse a Diretora Lin com um sorriso, “o que exatamente estava procurando?”


O ministro de meia-idade disse com desdém: “Deve ser alguns pertences antigos da família dele, nem precisa perguntar.”


Xiang Cheng permaneceu em silêncio. Chi Xiaoduo percebia que Xiang Cheng estava irritado, embora não dissesse nada. A Diretora Lin perguntou: “Vamos deixar assim por enquanto, então. E quanto ao seu amigo? O que faremos com ele agora?”


“Seguiremos o procedimento padrão”, respondeu Chen Zhen. “O que acha, Keda-xiong?”


“Hum.” Gegentorura Keda examinou os documentos com atenção e assentiu solenemente.


Xiang Cheng respirou fundo. Chi Xiaoduo os observava, sentindo um profundo desconforto — com a premonição de que, para ser silenciado, acabaria sendo morto.


“Deixemos isso de lado por agora”, concluiu a Diretora Lin enquanto arrumava seus papéis. “Um Hundun dificilmente apareceria na área urbana… ainda mais aqui em Pequim.”


Ficava evidente que ninguém acreditava plenamente em Xiang Cheng; ainda assim, ele não apresentou qualquer contestação. Quando todos se levantaram, Xiang Cheng disse, de repente: “Este demônio é incrivelmente poderoso; eu subestimei o inimigo. Não quero que a Organização cometa o mesmo erro, ou isso certamente levará a um desastre.”


Chen Zhen deu-lhe um sinal discreto com o olhar, indicando para que não continuasse, mas Xiang Cheng ignorou a advertência e continuou: “É possível que um deles — ou talvez ambos — tenha a capacidade de prever o futuro.”


Com todos ainda de pé, Xiang Cheng levantou-se, apoiou a mão sobre o ombro de Chi Xiaoduo e estalou os dedos, dizendo: “O que quer que eu pretendesse fazer, qual golpe iria usar ou qual artefato mágico tentaria ativar… o Velho Die percebia antes. Inclusive, quando me aprisionou na ilusão do pavilhão, ele chegou a dizer: ‘Espere até alguém vir resgatá-lo, para que aprenda a lição’.”


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng olhou ao redor e disse: “A precognição é uma habilidade aterrorizante.”


O ministro de meia-idade riu, olhou para os presentes e disse: “Tudo isso não passa de mera especulação.”


A Diretora Lin não disse nada. Chen Zhen pigarreou sem jeito e disse: “Então, por enquanto ficamos assim. Xiang Cheng, Chi Xiaoduo, venham comigo.”


A reunião chegou ao fim e a expressão de Xiang Cheng estava péssima. Keda fez um gesto para eles e disse: “Venham ao meu escritório.”


“Estou deixando-o aos seus cuidados”, disse Chen Zhen, fazendo um gesto para que Xiang Cheng o acompanhasse.


Keda assentiu e seguiu com Chi Xiaoduo para outra sala. Ele se espreguiçou e disse: “Sente-se.”


Chi Xiaoduo bocejou; ele mal havia fechado os olhos desde a noite anterior. Keda disse: “Deixe-me dar uma olhada na sua ficha… Chi Xiao… duo, certo? Natural de Zhuhai, na província de Guangdong.”


Chi Xiaoduo notou que havia também um frasco de rapé sobre a mesa. Keda disse: “Não precisa ter medo; não vou te fazer cheirar o Pólen Lihun. Qual é a sua relação com Xiang Cheng? Shifu e aprendiz?”


“Um amigo”, disse Chi Xiaoduo. “Será que isso vai causar algum problema para ele?”


“Não tem problema”, respondeu Keda. Seu cabelo era raspado bem curto e ele tinha um porte físico forte, aparentando ter cerca de 1,90m de altura. Ele se levantou para passar uma xícara de café instantâneo para Chi Xiaoduo. Enquanto Chi Xiaoduo mexia a xícara, Keda perguntou: “Você se sente surpreso com as coisas que aconteceram recentemente?”


Chi Xiaoduo respondeu: "É... tudo bem. Muitas vezes, nem tenho tempo para ficar surpreso."


Keda disse: “Quando você parar para pensar melhor, ainda vai se surpreender. Esse tipo de coisa, a menos que você tenha convivido com isso desde a infância, certamente leva um tempo para assimilar totalmente. Eu também era assim quando era criança.”


“Você é do Norte?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Sou da Mongólia Interior”, respondeu Keda. “Minha família fazia parte da Irmandade dos Oito Estandartes¹¹. Quando descobri que meu pai capturava demônios, fiquei morrendo de medo — cheguei até a fazer xixi nas calças!”


Keda riu de forma desinibida, deixando Chi Xiaoduo sem saber se ria ou chorava.


“E você, hein?" Keda perguntou. “Quais são seus planos para o futuro? Vai se juntar a nós nesta profissão?”


Chi Xiaoduo disse: “Eu… eu preciso perguntar ao Xiang Cheng.”


“Chen Zhen veio falar comigo especificamente para dizer que precisaremos da sua ajuda em algumas questões — embora eu não saiba exatamente como você poderia ajudar… Hoje em dia, até mesmo carregar a bolsa de um exorcista já conta como trabalho de apoio. Que tal fazermos assim: vou providenciar um adiamento para você”, disse Keda, com compreensão. “Pelos próximos seis meses, a organização não enviará ninguém para apagar suas memórias; no entanto, você precisará assinar um termo de compromisso. Se você o violar, as consequências podem não ser tão simples.”


Chi Xiaoduo disse imediatamente: “Está bem.”


Keda lhe entregou o termo de garantia para dar uma olhada e tomou o resto do seu café.


Chi Xiaoduo folheou o documento e confirmou seu conteúdo. A maior parte consistia em acordos de confidencialidade e cláusulas sobre penalidades. Caso segredos de Estado fossem vazados, ele enfrentaria uma pena de prisão de até 10 anos. Após cumprir a sentença, todas as suas memórias seriam apagadas.


“O exorcismo”, disse Chi Xiaoduo, “serve para proteger toda a sociedade. Por que vocês não contam isso a todos?”


“Confúcio não falava sobre assuntos complicados como deuses e fantasmas¹²”, explicou Keda. “Nas antigas tradições chinesas, o exorcismo simboliza o uso e a interpretação do ‘espírito’, o que também significa que as regras sociais vigentes precisam ser quebradas até certo ponto. Os humanos se esforçam ao máximo para estudar isso, mas, no momento, nossa tecnologia ainda não alcançou o nível necessário para fazer perguntas a fantasmas e deuses.”


“Além disso, quando alguém tem a oportunidade de obter um poder livre de sanções legais, naturalmente surgem pessoas inescrupulosas que buscam esse poder. Um assassino comum já é assustador, mas um assassino com poderes sobrenaturais é extremamente aterrorizante.”


Chi Xiaoduo pensou: É verdade. Se descobrissem que alguém era capaz de usar magia, a notícia certamente se espalharia por toda parte. Todas as descobertas científicas seriam redefinidas, e algumas pessoas enlouqueceriam completamente, lançando-se de forma imprudente em busca de poderes mágicos.


“Pelo bem de Xiang Cheng”, disse Chi Xiaoduo, “vou manter isso em segredo.” E, dizendo isso, assinou o termo de compromisso.


“O que você pretende fazer agora?” Keda perguntou.


Chi Xiaoduo pensou por um momento e indagou: “Chen Zhen mencionou que existe uma vaga para… equipamentos de suporte?”


“Ah”, disse Keda. “A certificação de Identificação de Fenômenos Desconhecidos e Equipamentos de Exorcismo. Nós chamamos resumidamente de Técnico de Equipamentos Exorcistas.”


“Isso, é exatamente isso!” Chi Xiaoduo disse. “É possível prestar o exame para essa certificação?”


“Espere um pouco.” Keda levantou-se e foi até a sala ao lado; ao retornar, entregou um formulário para Chi Xiaoduo olhar.


“Isso foi aprovado este ano”, disse Keda. “Foi um dos projetos de reforma e consiste, basicamente, em suporte logístico. Nosso departamento está gerenciando isso temporariamente. É preciso ter pelo menos diploma de ensino superior, e não há muitos candidatos.”


Keda respondeu: “Você quer se inscrever de imediato? Talvez fosse melhor voltar e conversar com seu parceiro antes.”


“Hmm…” Chi Xiaoduo examinou o formulário e o regulamento em anexo.


Keda continuou: “Essa certificação técnica não exige que você saiba usar magia; basta ter capacidade de analisar situações de forma abrangente e elaborar relatórios para a organização. Há um pequeno auxílio financeiro mensal, mas é uma função mais perigosa do que a de um exorcista, já que os exorcistas ao menos sabem usar magias.”


“Na verdade, trata-se principalmente de relatar a aparência, o nome e as características dos yaoguai”, disse Chi Xiaoduo. "É basicamente coletar dados para adicionar ao manual ilustrado de vocês, certo?"


Keda assentiu, e Chi Xiaoduo comentou: “Isso é ótimo. O que eu mais gosto é fazer provas.”


Keda explicou: “Há muito conteúdo para estudar, e não é uma prova fácil; além disso, não há muitos inscritos no país todo este ano. Como é uma vaga em caráter experimental, não há taxa de inscrição. Tem certeza?”


“Com certeza.” Chi Xiaoduo pensou que Xiang Cheng provavelmente não o deixaria se inscrever. Ele faria a inscrição primeiro e, se fosse aprovado, contaria a ele, fazendo uma surpresa.


“Ei”, disse Keda, abrindo um sorriso. “Gostei de ver.”


Chi Xiaoduo fez a inscrição diretamente ali com Keda. Keda instruiu: “Preencha o endereço com bastante detalhe. O material de estudo será enviado para o seu e-mail mais tarde, mas o conteúdo fornecido pela organização não é suficiente, então você também precisará procurar alguns livros por conta própria. Vou incluir também uma lista de títulos recomendados.”


“Ótimo”, disse Chi Xiaoduo. “Se eu for reprovado no exame, serei punido?”


“Claro que não”, respondeu Keda.


Chi Xiaoduo hesitou por um instante no campo “Motivo da Inscrição”. Ele pensou em escrever “para ajudar seu amigo a exorcizar coisas”, mas acabou riscando e trocou por “Pela paz mundial”. Keda caiu na gargalhada.


“Pela paz mundial”, disse Keda, pegando sua xícara e fazendo um brinde simbólico com ele.


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Notas:

 

1 避暑山庄 (Bìshǔ Shānzhuāng): Refere-se à famosa Resort de Verão de Chengde (ou Residência de Verão Imperial de Chengde), um vasto complexo de jardins e palácios imperiais localizado na província de Hebei, na China. Mais aqui

 

2 相柳 (Xiāngliǔ): Monstro serpente de nove cabeças da mitologia chinesa.

 

3 穷奇 (Qióngqí): uma criatura monstruosa que come pessoas. Mais aqui

 

4 如意湖 (Rúyì Hú): Um lago artificial. Mais aqui

 

5 Ou seja, pessoas que pretendem voltar a fazer faculdade.

 

6 回龙观 (Huǐlóngguān): Nome de uma grande área residencial e comercial localizada no norte de Pequim (distrito de Changping).

 

7 夜游神 (Yèyóushén): Na mitologia chinesa, os Deuses da Noite (ou Deuses Itinerantes Noturnos) são divindades patrulheiras do submundo que rondam as ruas durante a madrugada para fiscalizar o bem e o mal.

 

8 吐纳 (Tǔnà): Técnica tradicional de respiração e regulação de energia (qi) usada no taoísmo e nas artes marciais para cultivo espiritual.

 

9 混沌 (Hùndùn): Na mitologia chinesa, o Hundun é uma das Quatro Bestas Malignas Primordiais (Sishiong), associada ao caos, à ausência de forma e ao mal primordial.

 

10 小布达拉 (Xiǎo Bùdálā): O Pequeno Potala (Templo Putuo Zongcheng), um famoso complexo de templos budistas de estilo tibetano construído na Dinastia Qing, localizado em Chengde (próximo ao Palácio de Verão). Mais aqui

 

11 八旗子弟 (Bāqí zǐdì): Divisão administrativas e militares foram formadas nas Dinastinhas Jin e Qing , nas quais todas as famílias manchus foram alocadas. Posteriormente, mongóis e han, denominadas Oito Estandes, também foram formadas.  Mais aqui

 

12 子不语怪力乱神 (Zǐ bù yǔ guài lì luàn shén): Citação clássica famosa dos Analectos de Confúcio (Capítulo Shu Rer). Confúcio ensinou seus alunos a se manterem afastados de deuses e fantasmas, neste caso, podemos culpar Confúcio por isto também rs 


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Flor: Yo povo!


Um capítulo hoje, pois estou traduzindo o extra do meio outono 2026 que contém 4 capítulos de 20 páginas cada ✨️🥰


Amo as AUs que o autor escreve e assim mato a saudade deles >.<


E conhecemos a Bailu e o Canglong da nossa época🥰✨️


Chi Xiaoduo se juntando ao departamento


Até daqui 15 dias!



𓇼 ⋆.˚ 𓆉 𓆝 𓆡⋆.˚ 𓇼

 

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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

[Novel] Mingwang Huanshi Lu - Capítulo 027

 


Capítulo 27 - Lâmpada do Coração




Pequim, do lado de fora do Beco Lingjing.


Chen Zhen carregava uma bolsa da LV*; ele a entregou a Chi Xiaoduo e disse: “Segure isso para mim um pouco.”


(n/t: *Louis Vuitton)


Chi Xiaoduo pensou: Você também tem muito dinheiro; por que, então, Xiang Cheng é tão pobre?


“Percebi que você e Qiqi são bem ricos, apesar de serem exorcistas”, comentou Chi Xiaoduo.


“Não, todos os exorcistas são pobres”, respondeu Chen Zhen. Parecendo adivinhar o que se passava na cabeça de Chi Xiaoduo, ele explicou: “Embora os exorcistas possuam habilidades poderosas, não temos permissão para usá-las em pessoas comuns. Se alguém for pego, as consequências são gravíssimas.”


“Então, por exemplo, se eu quisesse ganhar um dinheiro extra, como faria isso?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Na maioria das vezes, não é permitido fazer bicos por conta própria”, disse Chen Zhen. “É preciso informar a organização, e o governo fornece alguns subsídios. No momento, estamos discutindo internamente como reformar o sistema, modernizar a atuação dos exorcistas e cobrar taxas limitadas por serviços de feng shui e adivinhação. Mas você sabe como é: existem superstições primitivas e charlatães do submundo, o que torna a situação confusa e difícil de gerenciar.”


Chi Xiaoduo disse: “Eu achava que esse trabalho fosse muito lucrativo.”


“O lucro não vem em forma de dinheiro”, disse Chen Zhen. “Trata-se de acumular bênçãos para si mesmo, para seus parentes e para as gerações futuras. Ganhar dinheiro hoje em dia é fácil; qualquer um consegue ganhar dinheiro facilmente, mas acumular bênçãos é difícil. Você não acha?”


“Não é fácil ganhar dinheiro”, disse Chi Xiaoduo. “Quanto a coisas como bênçãos e tal… na verdade, acho que isso é mais fácil; basta fazer uma boa ação por dia, né?”


“Se todo mundo pensasse como você”, disse Chen Zhen enquanto ligava o jipe, “não haveria tantos yaos e demônios no mundo, certo? Desculpe, estou no comando há muito tempo e gosto de usar perguntas retóricas… pode me ignorar.”


Chi Xiaoduo começou a rir.


“A organização não tem dinheiro”, disse Chen Zhen. “É assim mesmo para funcionários públicos, embora esse tipo de trabalho tenha um charme único. No fim das contas, qualquer ofício é apenas um meio de ganhar a vida.”


“Verdade”, disse Chi Xiaoduo. “Na verdade, pensando bem, eu toparia fazer isso mesmo sem receber. Posso viajar pelo mundo, mas também dominar certas habilidades e salvar o mundo.”


“‘Assim que ela viu Yang Guo¹, cometeu um erro que marcaria o resto de sua vida’”, suspirou Chen Zhen, reduzindo a velocidade do jipe. “Daqui a pouco vou precisar que você me faça um favor. Quando eu perguntar o que você está vendo, é só me dizer.”


"Vocês não têm feitiços para enxergar yaoguai?” Chi Xiaoduo perguntou, curioso.


“Se tivéssemos essa capacidade”, disse Chen Zhen, rindo, “não haveria mais necessidade de espelhos reveladores de yao. O processo para obter autorização e usar um espelho desses, mesmo que apenas uma vez, é extremamente trabalhoso. Na maior parte do tempo, só podemos contar com nossas próprias habilidades para detectá-los. Localizar yaos e demônios é a parte mais importante, mas alguns yaos não são maus. Nem todos serão exterminados.”


Chi Xiaoduo perguntou: “Xiang Cheng está em perigo?”


Chen Zhen hesitou por um momento antes de responder: "Ele não deveria correr nenhum perigo grave. Sua competência profissional é suficiente para se destacar em relação à maioria de seus colegas e, a julgar pelo seu histórico de desempenho, ele apenas tende, às vezes, a subestimar o inimigo."


Chen Zhen encostou o carro em uma via larga e pegou o rádio comunicador do painel.


“Preciso de reforços do lado de fora do Portão Xuanwu”, disse Chen Zhen.


As luzes da rua, em ambos os lados da via, apagaram-se simultaneamente. Chen Zhen desligou o motor, e os dois permaneceram em silêncio dentro do carro; Chi Xiaoduo sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao olhar pela janela.


“Que lugar é este?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Caishikou²”, disse Chen Zhen em voz baixa. “O lugar na capital onde a concentração de ‘espíritos’ é mais intensa.”


Uma rajada de vento passou, e Chi Xiaoduo sentiu que toda a situação era um tanto irreal. Ele viu vagamente uma enorme sombra negra, acompanhada por uma lufada de vento, passar lentamente pela estrada vinda de Caishikou.


Parecia uma pipa gigantesca — ou talvez um gigante.


Chi Xiaoduo descreveu a coisa: “Era um sujeito gordo que passou voando.”


Chen Zhen disse: “Espere mais um pouco.”


O gigante flutuou de volta. Desta vez, Chi Xiaoduo o viu claramente: tinha formato esférico, era translúcido e preto, com pés enormes, rastejando do lado de fora do Portão Xuanwu.


“Aquela coisa gorda é bidimensional ou tridimensional? Quantas patas ela tem?” Chen Zhen perguntou. “Tem mãos ou asas?”


“É tridimensional; quanto às asas… não vi nenhuma”, disse Chi Xiaoduo, hesitante. “Não tem mãos e possui quatro patas.”


“Qual é a aparência dela?” Chen Zhen disse. “Faça um desenho.”


O monstro enorme havia parado de se mover e estava ali, parado no meio da estrada. Enquanto desenhava, Chi Xiaoduo disse: “Parece um cachorro gordo sem cabeça, com dez metros de altura e completamente transparente.”


Chen Zhen franziu levemente a testa e, de repente, Chi Xiaoduo falou: “Ué? Tem alguém vindo para cá.”


“Como é essa pessoa?” Chen Zhen perguntou.


“É um idoso apoiado em uma bengala, segurando um leque de folhas de taboa…” disse Chi Xiaoduo.


“Este eu estou vendo”, disse Chen Zhen. “O que ele está fazendo?”


Para Chen Zhen, parecia que um velho havia surgido à beira da estrada e estava olhando para o céu; mas, para Chi Xiaoduo, o velho estava encarando aquele monstro negro, enorme e invisível.


“Ele… ele… ele… ele está sugando aquele gorducho!” Chi Xiaoduo estava apavorado.


“Shh.” Chen Zhen fez um gesto e perguntou: “Como ele está sugando isso?”


“Ele está sugando para dentro!” Chi Xiaoduo gritou. "Sugando para dentro, AHHHHH ——”


“Por onde ele está sugando?” Chen Zhen perguntou.


“Pela boca!” Chi Xiaoduo respondeu, encolhendo as pernas e segurando o xixi. “O que é isso? É tão aterrorizante…”


“Shh!” Chen Zhen disse. “Ele já terminou de sugar?”


Chi Xiaoduo: “……”


Do ponto de vista de Chi Xiaoduo, o velho absorveu lentamente todo o enorme monstro negro para dentro de seu corpo e, em seguida, abanou-se calmamente com seu leque de folhas de taboa enquanto caminhava pela Rua Caishikou.


Chen Zhen deu a partida no carro e dirigiu atrás do velho, mantendo um ritmo nem lento nem rápido.


“Já o alcançamos?” Chen Zhen perguntou.


“Você não consegue vê-lo?” Chi Xiaoduo perguntou.


Chen Zhen tocou duas vezes em seus óculos Google Glass e respondeu: “De repente, não consigo mais vê-lo. Ele deve ter ficado invisível usando poder yao; prepare-se para lhe fazer algumas perguntas.”


Chi Xiaoduo: “Eu… eu… como é que eu falo com ele?!”


“Pergunte a ele onde está Xiang Cheng.” Chen Zhen virou a cabeça, viu que a calçada estava completamente deserta e perguntou: “Ele está do lado de dentro ou do lado de fora das grades?”


Chi Xiaoduo fez um gesto indicando que já estavam perto. Chi Xiaoduo disse: “Diminua um pouco a velocidade… Olá, vovô, olá!”


O idoso caminhava tranquilamente à frente.


“Olá!” Chi Xiaoduo debruçou-se na janela e estendeu a mão para acenar para ele.


“Não toque nele”, sussurrou Chen Zhen.


“O que foi?” O velhinho disse, sem se virar. “Jovem, eu te ouvi.”


O coração de Chi Xiaoduo disparou. Embora estivesse muito nervoso, ele sentia que o velho ainda parecia normal — ou, pelo menos, sua voz era normal. A cena que ele vira pouco antes parecia a de alguém praticando exercícios de respiração; portanto, ainda estava dentro dos limites do que ele conseguia suportar.


O velho continuou sem se virar; ele parou de caminhar e estendeu a mão.


Chi Xiaoduo pegou o celular, abriu uma foto de Xiang Cheng e esperou que o velho se virasse.


O velho não se virou ao dizer: “Não olhe para os vídeos; olhe para as fotos.”


“Ah, aqui estão algumas fotos”, disse Chi Xiaoduo.


“Não as que foram tiradas com o celular, mas sim fotos reveladas”, disse o velho.


“O quê?” Chi Xiaoduo disse, confuso. “Não tenho nenhuma foto revelada aqui…”


“O que estou dizendo é que você é quem precisa olhar para as fotos”, disse o velho. “Garoto, cuide do seu Dage e não deixe ele beber.”


Chi Xiaoduo: “……”


Havia um leve sorriso na voz do velho enquanto seus dedos ressequidos tocavam suavemente o celular de Chi Xiaoduo.


O velho disse: “O sujeito ao seu lado não é boa coisa. Ele é astuto demais; não ande com eles.”


A expressão de Chen Zhen vacilou, e o velho continuou: “Não custa nada te contar: siga direto passando pelo Portão Xuanwu e você encontrará uma Torre do Tambor³ logo na saída da Rua Yandai Xie⁴. A pessoa que você procura foi levada pelo Mestre Die⁵.”


“Levado para onde?” A voz de Chi Xiaoduo tremia.


“Vá agora mesmo, talvez ainda consiga encontrar”, disse o velho. “Ao amanhecer, pode ser que ninguém mais saiba onde ele está.”


“Obrigado”, disse Chi Xiaoduo com a voz trêmula. “Obrigado.”


O som da bengala ecoou enquanto o velho se afastava lentamente, sem olhar para trás nem uma vez sequer.


“A Torre do Tambor…” Chen Zhen acelerou o carro e perguntou: “Qual era o nome dele? Senhor Die?”


“Senhor Dié, Senhor Dié”, disse Chi Xiaoduo. “Segundo tom⁵; não tenho certeza de qual é o caractere. E quem era aquela pessoa agora?”


“Eu também não sei”, respondeu Chen Zhen. “Há muitos yao na capital, especialmente ultimamente."


“Ele fez mal a alguém?” Chi Xiaoduo perguntou. “Acho que ele talvez não machuque as pessoas.”


Chen Zhen disse: “Imagino que ele tenha visto você como alguém igual a ele.”


O primeiro caractere que veio à mente de Chi Xiaoduo fora Die (耋), e não outro qualquer. Màodié, màodié⁷ — aquele velho o fez lembrar da expressão “viver até uma idade avançada antes de morrer”.


Chen Zhen deu uma volta de carro pela Rua Yandai Xie, passando sob a Torre do Tambor, e pediu a Chi Xiaoduo que saísse do veículo. Chi Xiaoduo estava um pouco receoso, mas, pelo que o velho havia dito, Xiang Cheng poderia ter sido sequestrado. Não adiantava ter medo agora; ele precisava reunir coragem para ir encontrá-lo.


Chen Zhen pulou a cerca de fora da Torre do Tambor, enquanto Chi Xiaoduo ainda tentava passar por cima de forma desajeitada. Chen Zhen disse: “Se acontecer alguma coisa, se esconda atrás de mim imediatamente.”


Chi Xiaoduo assentiu. Às duas da manhã, a Torre do Tambor estava completamente escura e silenciosa. Chen Zhen tirou uma lanterna pequena de sua bolsa da LV, ligou-a e deu uma iluminada ao redor.


Chi Xiaoduo parou diante de um tambor enorme, abaixou-se lentamente e pegou uma pena. Ele trocou um olhar com Chen Zhen, e ambos permaneceram em silêncio na escuridão. Chen Zhen ergueu a mão para tocar a superfície lisa do tambor.


“Xiang Cheng, você está aí?” Chi Xiaoduo sussurrou.


Chen Zhen fez um gesto de “shh”, sinalizando para que Chi Xiaoduo ficasse atrás dele e estendeu os dedos para dar um leve toque na superfície do tambor, que emitiu um som surdo.


°‧ 𓆝 𓆟 𓆞 ·。


Ao mesmo tempo, Xiang Cheng, que estava com as costas apoiadas na parede, abriu os olhos de repente.


°‧ 𓆝 𓆟 𓆞 ·。


“Geralmente há um compartimento oculto no meio da Torre do Tambor”, disse Chi Xiaoduo. “Será que ele está preso lá dentro?”


Chen Zhen circulou o local, enquanto o vison descia e farejava tudo ao redor. Chen Zhen perguntou: “Como se entra nesse compartimento oculto?”


“Me dá a lanterna”, disse Chi Xiaoduo.


Carregando a lanterna, Chi Xiaoduo desceu primeiro para o andar de baixo, examinou o ambiente, encontrou uma porta pequena e tentou abri-la à força, empurrando-a com o ombro. Chen Zhen fez um sinal para que ele se afastasse; o vison encolheu-se um pouco antes de passar pela fresta entre a porta e o batente. Pouco depois, ouviu-se o som da tranca sendo destravada. A porta pequena se abriu, revelando uma escada em seu interior.


Enquanto subiam as escadas, chegaram a um ponto a meio caminho entre o primeiro e o segundo andar, onde uma viga atravessava o espaço na diagonal. Chi Xiaoduo disse: “Achei.”


Chi Xiaoduo subiu pela viga. Dessa forma, eles deixaram o primeiro andar, mas não chegaram ao andar superior; em vez disso, encontravam-se agora no espaço oculto entre os dois andares. Era um local onde ninguém jamais havia entrado: a camada estrutural secreta da Torre do Tambor.


Esse andar era todo feito de vigas de madeira cruzando em todas as direções. Ao olhar para baixo, via-se o teto do andar inferior a apenas dois metros de distância.


Chen Zhen movimentou a lanterna para iluminar ao redor.


No andar oculto havia apenas um tambor velho e surrado. O vison foi rapidamente até lá, farejou a frente do tambor e esgueirou-se para dentro. O coração de Chi Xiaoduo gelou, mas o vison logo saiu pelo outro lado.


“Xiang Cheng?” Chi Xiaoduo perguntou.


Não houve resposta. Chi Xiaoduo pegou o celular e conferiu a hora: eram quatro da manhã.


“Chen Zhen?”


“Hmm.”


Chen Zhen ergueu o olhar para um talismã branco fixado em um pilar; tirou um isqueiro e uma lamparina da bolsa e acendeu a lamparina.


As pupilas de Chi Xiaoduo se contraíram e ele estremeceu de medo; Chen Zhen imediatamente o agarrou e o puxou para trás de si.


À medida que a luz amarela e brilhante da lamparina iluminava o ambiente, a disposição da câmara oculta revelava-se por completo: no alto, oito vigas que se cruzavam estavam silenciosamente cobertas por talismãs de papel pendentes, enquanto, sob os pés, oito vigas dispostas em um padrão formando o desenho do caractere chinês “井” — estavam repletas de velas de diferentes tamanhos.


Na extremidade da viga estava aquele tambor abandonado.


Diante do tambor havia um suporte de madeira, e sobre o suporte, numa postura estranha, estava apoiado um esqueleto de ossos brancos.


O coração de Chi Xiaoduo quase parou de susto; ele se apoiou nas costas de Chen Zhen, ofegante. Chen Zhen apenas lançou um olhar para aquilo antes de apagar a lanterna esférica de vidro que segurava, mergulhando a câmara oculta novamente na escuridão.


Chi Xiaoduo sentiu arrepios por todo o corpo.


Chen Zhen disse: “Não tenha medo.”


Chen Zhen passou a mão lentamente à sua frente e disse: “Esta é uma matriz de concentração de energia espiritual usada por yaoguai, e os ossos são apenas ferramentas para a matriz. Eles não ganharão vida; não se preocupe.”


Chi Xiaoduo se acalmou um pouco. Chen Zhen continuou: “O medo que as pessoas sentem do desconhecido surge justamente por não compreenderem aquilo. Uma vez que compreendem seu princípio e sua essência, o medo desaparece.”


“S… Sim.” Chi Xiaoduo sentiu que a explicação realmente amenizava seu medo, mas ele ainda estava aterrorizado a ponto de soltar gemidos de pavor e quase fazer xixi nas calças.


Chen Zhen examinou as vigas de madeira dispostas no formato do caractere chinês “井” sob seus pés e perguntou: “O que você vê?”


Chi Xiaoduo: “Eu… eu…”


“Olhe nos meus olhos”, disse Chen Zhen. “Acalme-se.”


Chen Zhen guardou a lanterna e colocou as mãos em ambos os lados da cabeça de Chi Xiaoduo, forçando-o a encontrar seu olhar. Em seguida, recitou rapidamente um encantamento, e os batimentos cardíacos de Chi Xiaoduo se acalmaram instantaneamente.


Ele viu um pequeno ponto de luz verde nas pupilas de Chen Zhen. Aquele ponto de luz verde era um reflexo — um reflexo que vinha de seu próprio olho esquerdo.


Tudo ao redor estava escuro e silencioso, e a luz na pupila de Chi Xiaoduo sobressaía de forma marcante. A respiração dele e a de Chen Zhen se misturavam enquanto ambos sustentavam o olhar um do outro. A luz verde — semelhante a um peixe nadando — girava lentamente em um padrão de Taiji nas profundezas de sua pupila.


Chen Zhen cobriu o olho direito de Chi Xiaoduo com uma das mãos e fez com que ele se virasse e ficasse posicionado atrás dele.


“Diga-me”, disse Chen Zhen, “o que você vê?”


Chen Zhen abraçou Chi Xiaoduo por trás e, com uma das mãos, traçou um círculo mágico. A visão de Chi Xiaoduo tornou-se subitamente nítida, e aquela sensação de alternância entre clareza e indefinição desapareceu. Em vez disso, o mundo à sua frente começou a brilhar intensamente por toda parte, emitindo inúmeros raios de luz.


“O corpo do esqueleto está emitindo uma luz vermelha”, disse Chi Xiaoduo. “Luz, muita luz.”


“Há algo de incomum no tambor, na extremidade da viga?” Chen Zhen perguntou. “Rápido, procure a essência disso, minha força não vai durar muito.”


“O tambor… também está brilhando.” Chi Xiaoduo ficou surpreso ao perceber que tudo brilhava: os amuletos, a viga sob seus pés e toda a Torre do Tambor. Os feixes de luz pareciam serpentinas fluidas, chegando de todas as direções e fundindo-se no tambor. Apenas a luz vermelha vinda do esqueleto central flutuava em direção ao céu.


Chi Xiaoduo descreveu a cena, e Chen Zhen imediatamente o soltou, parecendo um tanto cansado.


“Chen Zhen?”


Chen Zhen fez um gesto com a mão, indicando que ele não deveria fazer mais perguntas. Então, levantou-se: a mão esquerda na posição de “dedo-espada”, a palma da mão direita estendida e a mão esquerda apoiada sobre a palma direita.


Um “DONG” estrondoso ecoou — e todos os tambores do terceiro andar da Torre de Tambor, todos os que davam para a rua, vibraram ao mesmo tempo!


O som era ensurdecedor e fazia Chi Xiaoduo sentir como se seus pulmões estivessem vibrando com aquela sonoridade. Exatamente no momento em que toda a Torre do Tambor ressoava sob os primeiros raios do sol da manhã, o tambor danificado na extremidade da viga, na galeria superior, começou subitamente a brilhar com uma luz intensa!


“Vamos!” Chen Zhen disse, e em seguida, puxando a mão de Chi Xiaoduo, avançou correndo.


Chi Xiaoduo soltou um grito e foi arrastado por Chen Zhen, saltando para dentro da luz intensa!


°‧ 𓆝 𓆟 𓆞 ·。


Ao ouvir o som do tambor, Xiang Cheng virou a cabeça imediatamente; no entanto, fora apenas uma batida, e o mundo mergulhou no silêncio mais uma vez.


“O que aconteceu?” perguntou a voz de Chi Xiaoduo.. “Onde é este lugar?”


“Shh…” murmurou a voz de um homem.


“Xiaoduo?” Xiang Cheng perguntou.


Chi Xiaoduo permaneceu em silêncio enquanto corria em direção a Xiang Cheng, vindo do corredor escuro; incrédulo, Xiang Cheng o abraçou com força. Chi Xiaoduo envolveu o pescoço de Xiang Cheng com os braços, sem dizer nada, e apenas esfregou o rosto repetidamente contra o pescoço dele.


“Como exorcista”, disse Chen Zhen ao surgir da escuridão e acender a lanterna, “você não desconfiou que se tratava de uma barreira mágica criada por um Coração Demoníaco. Isso foi muita imprudência.”


Xiang Cheng estava tão emocionado que mal conseguia respirar. Ele segurou Chi Xiaoduo pelos ombros e o protegeu, colocando-o atrás de si, antes de franzir a testa e olhar para Chen Zhen.


Chen Zhen fez um gesto, como se estivesse saudando Xiang Cheng.


Xiang Cheng estreitou os olhos, manteve-se firme e juntou as palmas das mãos para retribuir a saudação de Chen Zhen.


“Por que você não avisou?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Meu celular ficou sem bateria”, disse Xiang Cheng, sentindo-se culpado. “Sinto muito; achei que voltaria logo.”


“O que você estava procurando?” Chen Zhen perguntou.


“Caçando um yao”, respondeu Xiang Cheng. “Quem é você?”


“O diretor do Departamento de Exorcismo do Beco Lingjing.”


“Chen Zhen?” Xiang Cheng perguntou.


"Qi Wei me pediu para vir te procurar”, disse Chen Zhen com frieza. “Não faço ideia de que bagunça vocês dois estão aprontando. Mas parece que o mais importante agora é dar um jeito de sair daqui, não é?”


“É uma técnica de parede”, respondeu Xiang Cheng; em seguida, segurou a mão de Chi Xiaoduo e disse a Chen Zhen: “O ciclo de yin e yang: ele não pode ser rompido até o momento em que o yin e o yang se cruzam. Xiaoduo, você se lembrou de tudo?”


Tendo finalmente encontrado Xiang Cheng e esgotado todas as suas forças no processo, Chi Xiaoduo perguntou: “Quanto mais você tem escondido de mim?”


A expressão de Xiang Cheng demonstrava grande constrangimento. Chi Xiaoduo reconsiderou; já que havia o encontrado, não havia necessidade de insistir mais no assunto — havia muito tempo pela frente, e as respostas para muitas coisas acabariam surgindo.


Chen Zhen acendeu sua lanterna e caminhou em direção à escuridão. Chi Xiaoduo quis chamá-lo, mas Chen Zhen desapareceu no fim do corredor. Xiang Cheng sinalizou para que Chi Xiaoduo não falasse e o ajudou a se sentar.


“Você já comeu?” Xiang Cheng perguntou. “Está com fome?”


“Eu comi um pouco, e você?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Tem água?” Xiang Cheng perguntou.


“Tenho.” Chi Xiaoduo remexeu a bolsa e encontrou uma garrafa de água mineral. Xiang Cheng bebeu tudo de um gole só, com a água escorrendo pelos cantos da boca. O vison de Chen Zhen se ergueu e ficou observando-os, imóvel.


“É um loop.” A voz de Chen Zhen veio de trás deles. Chi Xiaoduo olhou para trás e levou um susto. Obviamente, ele havia caminhado para frente, mas, no fim das contas, surgiu atrás deles.


“É uma passagem subaquática”, disse Chen Zhen. “Após ser distorcida por forças yao poderosas, o curso d'água se sobrepõe ao mundo dos sonhos.”


Xiang Cheng não respondeu; ele limpou o canto da boca com as costas da mão e envolveu Chi Xiaoduo nos braços, aconchegando-o contra o peito.


“Durma um pouco.”


Sentindo-se um pouco mais tranquilo, Chi Xiaoduo encostou-se no ombro nu e sujo de fuligem de Xiang Cheng e fechou os olhos, embora seu coração estivesse acelerado demais para que ele conseguisse pegar no sono.


“O que fazemos agora?” Chi Xiaoduo perguntou. “Podemos sair daqui?”


“Espere o momento certo”, respondeu Chen Zhen. “Assim que o sol nascer, o ciclo mudará. Se encontrarmos uma oportunidade, poderemos sair."


Xiang Cheng não respondeu.


“Você é um exorcista?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Chen Zhen te contou tudo?” Xiang Cheng perguntou em voz baixa, em meio à escuridão.


Chi Xiaoduo murmurou um “hmm”. Xiang Cheng havia se preparado para uma enxurrada de perguntas, mas Chi Xiaoduo simplesmente balançou a cabeça e não perguntou nada. O importante era que ele havia sido encontrado; em comparação, o fato de Xiang Cheng poder ser um yaoguai já não importava mais.


Chi Xiaoduo levantou a cabeça para olhar Xiang Cheng e, em seguida, olhou de soslaio para Chen Zhen, que estava sentado não muito longe dali. Chen Zhen parecia não saber o motivo de Xiang Cheng estar naquele lugar, mas não insistiu por detalhes; enquanto isso, Xiang Cheng continuava imerso em pensamentos, lançando olhares inquietos e preocupados para Chi Xiaoduo de tempos em tempos.


Chi Xiaoduo pensou: Quando voltarmos, vou torturá-lo com perguntas. E murmurou um “hmm”.


"Ele estava quase chorando enquanto te procurava", disse Chen Zhen. “Por sorte, ele tem olhos de dragão — os yao o confundiram com um dos seus.”


Xiang Cheng abaixou a cabeça novamente e examinou o olho esquerdo de Chi Xiaoduo. Sua expressão era de total impotência.


“O que exatamente aconteceu com o meu olho?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Não é nada”, respondeu Xiang Cheng. “Não pergunte sobre isso agora e não conte a ninguém; caso contrário, vai causar muitos problemas.”


Chen Zhen acrescentou com frieza: “Pelo menos você não precisa mais esconder seus assuntos dele.”


Xiang Cheng não disse nada.


Chi Xiaoduo recostou-se em Xiang Cheng, tomado por um sono profundo. Mal havia adormecido quando, pouco depois, ouviu o som de uma maré vindo do fim do longo corredor — um farfalhar que se aproximava.


“Prepare-se”, disse Chen Zhen.


Xiang Cheng sacou o Cajado de Subjugação de Yao. Sem entender bem a situação, Chi Xiaoduo observou Chen Zhen tirar de sua bolsa uma esfera de luz de vidro e colocá-la na palma da mão esquerda.


O som de farfalhar tornava-se cada vez mais intenso e a água agitava-se no fim do longo corredor; no entanto, eles conseguiam ouvir o ruído, mas não enxergar a água. Xiang Cheng e Chen Zhen posicionaram-se de costas um para o outro, com Chi Xiaoduo no meio, enquanto o silêncio reinava no corredor.


O som de água em forte correnteza tornou-se cada vez mais alto; ao ouvir um ruído de correnteza intensa, Chi Xiaoduo sentiu como se tivesse sido submerso em um fluxo invisível de água. No entanto, a passagem permanecia inalterada; o vison e o pássaro branco inspiraram profundamente ao mesmo tempo, enquanto o brilho de encantamentos irrompia ao redor de Chen Zhen e Xiang Cheng.


“Respire fundo”, disse Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo estava completamente confuso, mas respirou fundo.


“Luz brilhante sobre montanhas e mares, dez mil demônios recuem——”


“Lâmpada Ardente Infinita; que a luz brilhe sobre o mundo——”


“Quebre!” Chen Zhen e Xiang Cheng rugiram ao mesmo tempo. Num instante, o Cajado de Subjugação de Yao e a lâmpada de vidro irromperam simultaneamente em uma luz ofuscante e brilhante. Com um estrondo, Chi Xiaoduo sentiu a água fria surgir do nada e erguê-lo enquanto inundava todo o espaço; em seguida, uma força imensa o arrastou rapidamente junto com a correnteza. Chi Xiaoduo soltou uma sequência de bolhas, mas Xiang Cheng virou-se na água e o abraçou. Os três foram juntos empurrados pela correnteza poderosa para fora do canal!


“Coff…” Chi Xiaoduo engasgou com a água e esticou a mão em desespero para se agarrar a qualquer coisa, mas Xiang Cheng o mantinha seguro. Tonto e desorientados, eles foram levados pela correnteza impetuosa até que a pressão em seus ouvidos subitamente diminuiu — haviam emergido em uma vasta área aberta.


O sol da manhã começava a surgir no horizonte; Xiang Cheng, ainda segurando Chi Xiaoduo, nadava ao lado de Chen Zhen em direção à superfície dourada e cintilante do lago, logo acima de suas cabeças.


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Notas:

 

1 见杨过误终身 (Jiàn yángguò wù zhōngshēn) Esta é uma referência literária famosa. Yang Guo é o protagonista do clássico romance wuxia “O Retorno do Condor” (神雕侠侣) de Jin Yong. Esta frase se refere ao fato de que várias personagens femininas da história se apaixonam por Yang Guo e ficam solteiras para sempre por causa disso

 

2 菜市口 (Càishìkǒu): Um cruzamento histórico famoso em Pequim. Durante a dinastia Qing, servia como o principal local de execuções públicas da cidade.

 

3 鼓楼 (Gǔlóu): Edificação histórica monumental localizada na zona central de Pequim, usada nas dinastias Yuan, Ming e Qing para anunciar o tempo.

 

4 烟袋斜街 (Yāndài Xiéjiē): Uma das ruazinhas históricas (hutongs) mais antigas e conhecidas de Pequim, famosa pelo seu formato inclinado que lembra um cachimbo tradicional. Se quiser saber mais

 

5 耋先生 (Dié Xiānshēng): O jogo de palavras aqui é que “Mestre Die” soa como “Senhor Idoso/Ancião” e “Diexian”.

 

6 第二声 (dì-èr shēng): No mandarim, as palavras possuem tons específicos. Os caracteres como 耋 (dié - ancião), 蝶 (dié - borboleta) e 叠 (dié - dobrar) possuem o mesmo som, mas significados e numerais de traços totalmente diferentes.

 

7 耄耋 (màodié): Expressão chinesa que se refere a pessoas muito idosas. 耄 (mào) significa “idoso de setenta anos” (ou oitenta, dependendo da fonte) e 耋 (dié) significa “idoso de oitenta anos”. Juntos, 耄耋 (màodié) é usado para descrever alguém de idade avançada, geralmente na casa dos setenta/oitenta anos ou mais.


Flor: Quero só deixar claro, pra não ficar confuso >.< desculpem. 


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Flor: Sei que posto a cada 15 dias, mas darei uma pausa, pois vou traduzir o extra do meio outono deste ano e ele é grande!


Quem sabe consigo trazer 2 capítulos também?!


Até mais


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