sexta-feira, 25 de setembro de 2026

[Novel] Mingwang Huanshi Lu - Capítulo 024

 


—Volume 2 - Jixian —


Capítulo 24 - Rumo ao Norte


⚠️Aviso de conteúdo:

Menções de suícidio


°‧ 𓆝 𓆟 𓆞 ·。 


A luz do sol poente entrava pela janela do trem; Xiang Cheng perto da extremidade da cama, enquanto Chi Xiaoduo preparava um ninho para Si Gui e o acomodava dentro de suas roupas.


Xiang Cheng perguntou: “Por que você o trouxe?”


Chi Xiaoduo respondeu com um sorriso: “Si Gui me achou num piscar de olhos na plataforma e se encolheu no meu capuz. Não tem problema, é raro eles checarem esse tipo de coisa na cabine de leito executivo.”


Chi Xiaoduo estava recostado no corpo de Xiang Cheng, que o abraçava com os dois braços. Os dois olhavam juntos pela janela do vagão, contemplando as vastas montanhas e rios banhados pela luz do crepúsculo de verão.


“No que está pensando?” Xiang Cheng perguntou, acompanhando o balanço suave do trem.


“Estava pensando nos meus tempos de faculdade”, disse Chi Xiaoduo com um sorriso. “A última vez que andei de trem foi há quatro anos, quando me formei.”


“A faculdade foi divertida?”


“Hum”, respondeu Chi Xiaoduo. "Todo dia, quando meu amigo ia para a aula, ele também me levava de bicicleta. Teria sido ótimo se a gente tivesse se conhecido antes; assim, eu já estaria comendo há muito mais tempo as comidas deliciosas que você prepara.”


Xiang Cheng olhou distraidamente pela janela e disse: “Eu não fui para a faculdade — nem sequer frequentei o ensino fundamental.”


“Mas a sua caligrafia é tão bonita”, Chi Xiaoduo virou a cabeça e olhou para ele.


Xiang Cheng disse: “Minha mãe me ensinou a ler e escrever. Não sei pinyin e só consigo digitar usando os traços dos caracteres. O que ela me ensinou, na verdade, foram os caracteres tradicionais. Só mais tarde é que fui aprendendo, aos poucos, os caracteres simplificados.”


Chi Xiaoduo: “……”


“Por quanto tempo ela te ensinou?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Até eu completar oito anos. Depois disso, acompanhei meu pai para capturar… para caçar, e nunca mais estudei. Todo o resto veio de leituras que fiz por conta própria.” Xiang Cheng estreitou levemente os olhos, e a luz vermelha brilhava em sua testa de traços marcantes, como se ele estivesse imerso em um sonho distante.


“Você é muito inteligente”, disse Chi Xiaoduo. “Você aprendeu todos os caracteres aos oito anos, estudou por conta própria nesse meio-tempo e também possui um vasto conhecimento geral sobre o mundo.”


“Ainda não entendo muitos assuntos”, disse Xiang Cheng. “Esse é o problema de não ter frequentado muito a escola. Vocês, universitários, é que são incríveis; conseguem fazer cálculos, desenhar diagramas e também entendem de inglês, física e química. Vocês entendem tantas coisas.”


Chi Xiaoduo sorriu e disse: “Sua mãe devia ser muito inteligente também. Você se parece mais com o seu pai ou com a sua mãe?”


“Com a minha mãe.” Xiang Cheng deu um leve beliscão em Chi Xiaoduo e continuou: “Na primeira vez que fiz uma viagem longa com meu pai, ela já tinha ido embora quando voltamos para casa.”


“Ah…” Chi Xiaoduo ficou surpreso. “E depois, você conseguiu encontrar ela?”


Xiang Cheng balançou a cabeça e disse: “Eu a encontrei quando tinha dezessete anos, mas ela já havia falecido.”


Chi Xiaoduo: “……”


Chi Xiaoduo não continuou perguntando. O vagão leito estava extremamente silencioso, e o único desejo dele era que ninguém aparecesse por ali. Na hora do jantar, Chi Xiaoduo comprou refeições prontas no carrinho de serviço e sentou-se com Xiang Cheng para comer.


O clima de repente ficou pesado; Xiang Cheng também percebeu isso, então sorriu e perguntou: “E você? Quando vamos visitar sua família?”


“Minha avó já faleceu”, disse Chi Xiaoduo. “Voltei para cuidar de tudo isso durante a faculdade. Meus pais são divorciados e não faço ideia de para onde meu pai foi, não conseguimos encontrá-lo em lugar nenhum. Minha mãe se casou de novo e foi para Taiwan.”


Xiang Cheng assentiu. Chi Xiaoduo disse: “Meu pai era pescador em um vilarejo em Zhuhai¹. Mais tarde, com o desenvolvimento econômico² e a modernização da região, o governo desapropriou nossas terras. Recebemos mais de um milhão de yuans de indenização — uma quantia enorme na época, provavelmente equivalente a vários milhões hoje em dia.”


“Uma fortuna”, comentou Xiang Cheng.


“É”, disse Chi Xiaoduo. “De repente, tínhamos aquela quantia, e isso foi logo após a implementação da política de reforma e abertura. Naquela época, quem pensava em guardar dinheiro para o futuro, não é? Só agora as pessoas têm essa noção de urgência e sabem que precisam garantir o sustento na velhice e poupar dinheiro. Pescadores como meu pai viviam apenas um dia de cada vez e achavam que aquele pouco mais de um milhão de yuans seria impossível de gastar numa vida inteira.”


“E depois, o que aconteceu?” Xiang Cheng perguntou.


"Mais tarde, ele adquiriu maus hábitos e seguiu os maus exemplos de amigos que viviam situações parecidas na vila. Havia tanto dinheiro que eles não conseguiam gastar tudo, então todos iam jogar. Jogavam e jogavam, até que não sobrou mais nada.” Chi Xiaoduo deu umas mexidas na comida sem muito apetite. Acostumado com os pratos do Xiang Cheng, a refeição do trem parecia até lavagem para porcos. “Minha avó paterna deu um duro danado para criá-lo, mas no fim acabou morrendo de desgosto por causa dele. Por isso, fui morar com minha avó materna.”


“Sua avó paterna ainda está viva?” Xiang Cheng perguntou. “Não é fácil para uma pessoa idosa, então ela provavelmente depende de você.”


“Ela morreu de raiva”, disse Chi Xiaoduo. “Literalmente, ela morreu por causa da raiva que sentiu.”


Xiang Cheng: “……”


“Quando ela soube que meu pai havia desperdiçado todo o dinheiro, que os credores tinham vindo tomar a casa e que ele devia centenas de milhares de yuans, ela se enforcou”, disse Chi Xiaoduo. “Ela se enforcou no ventilador de teto. Eu não sabia de nada. Naquele dia, ouvi minha mãe discutindo com os credores e, depois, ela simplesmente saiu. Eu ainda estava brincando no meu quarto, mas, quando saí, senti um cheiro horrível. A língua da minha avó estava para fora e eu tive pesadelos por meses."


Xiang Cheng abriu a garrafa de água e serviu um pouco para Chi Xiaoduo.


“Dinheiro sem um propósito não vale de nada”, disse Xiang Cheng. “Meu pai sempre dizia que bens materiais são coisas superficiais; o que importa é o que você quer fazer da vida. Viver sem um ideal é o mesmo que ser um morto-vivo.”


Chi Xiaoduo disse: “Dizem isso, mas na prática é difícil; ninguém consegue escapar desse ciclo. Viver no campo significa ter montanhas verdes e águas límpidas, sem nada para te perturbar, mas a vida não é tão prática quanto nas grandes cidades.”


“Se você tivesse a chance de morar no campo, iria?” Xiang Cheng perguntou.


“Depende de com quem eu estivesse.” Chi Xiaoduo pensou por um momento e disse: “Também depende do trabalho que eu conseguisse encontrar. Ainda não pensei no que fazer a seguir. E eu não tenho amigos lá.”


Xiang Cheng olhou pela janela e disse calmamente: "Há coisas boas no campo. Montanhas imponentes, grandes rios, espíritos da montanha, feras selvagens, animais e a natureza; tudo isso são amigos das pessoas.”


“Você acredita que fantasmas existem?” Chi Xiaoduo mudou de assunto de repente e perguntou: “Minha avó costumava dizer que existem muitos espíritos no mundo — criaturas que sempre viveram nesta terra, observando-nos silenciosamente de todos os tipos de cantos escondidos.”


“Eu acredito.” Xiang Cheng pensou por um momento e disse: “Não sou uma pessoa culta e desconheço os princípios científicos por trás de fantasmas, deuses e espíritos, mas acredito que eles existem.”


“Hum”, disse Chi Xiaoduo com um sorriso. “Você trocou o tempo que passaríamos estudando por viagens e já esteve em muitos lugares; com certeza deve ter ouvido muitas lendas.”


Xiang Cheng guardou sua marmita e disse a Chi Xiaoduo: “Uma vez, estive em Xiangxi³…”


Chi Xiaoduo: “……”


A expressão de Chi Xiaoduo mudou instantaneamente, e ele sentiu um arrepio percorrer o couro cabeludo. Ele pensou: Eu estava errado; não deveria ter mencionado nada sobre fantasmas, deuses e espíritos. No entanto, o medo não foi páreo para a sua curiosidade, e ele até estava ansioso para ouvir a história de Xiang Cheng.


Percebendo isso, Xiang Cheng disse apressadamente: “Me desculpa, estou brincando. Esqueci que você tem medo desse tipo de coisa.”


“Eu… eu não tenho”, disse Chi Xiaoduo, com os cantos da boca tremendo. “Na verdade, não tenho medo, juro.”


Xiang Cheng foi jogar as marmitas fora. Chi Xiaoduo continuou sentado no beliche, mas ao pensar nos rumores sobre os “ganshi de Xiangxi⁴” que haviam se espalhado por toda a China, um arrepio subiu na hora pelas suas costas. Seus pensamentos vagaram dos ganshi para os zumbis de um filme cantonês e, em seguida, para fantasmas. Ele ficou cada vez mais inquieto, pensando: Porque Xiang Cheng ainda não voltou? 


A porta da cabine-leito foi aberta de repente, e Chi Xiaoduo viu um rosto azulado e escuro. Ele soltou um grito estridente de puro pavor, assustando quem estava dentro e fora do compartimento. Xiang Cheng jogou fora a bituca de cigarro imediatamente e correu para dentro, encontrando Chi Xiaoduo e um casal — um homem e uma mulher — do lado de fora.


“Você está bem?” Xiang Cheng perguntou.


“Estou bem”, disse Chi Xiaoduo, ainda abalado. “Eu só me assustei sozinho.”


“Você está bem?” O jovem estendeu a mão e tocou a testa de Chi Xiaoduo. Chi Xiaoduo, agarrado ao travesseiro, se deixou cair na cama, tentando recuperar o fôlego. 


A jovem entrou sorrindo e perguntou: "Não está se sentindo bem?”


Chi Xiaoduo tinha acabado de ver o rosto de um cadáver, mas devia ter imaginado coisas demais e apenas se assustado. Ao retornar, Xiang Cheng pegou algumas frutas e as dividiu com eles; o jovem agradeceu com um aceno de cabeça. Abraçando a coberta, Chi Xiaoduo foi se arrastando para mais perto de Xiang Cheng e perguntou: “O que você viu em Xiangxi?”


Xiang Cheng: “……”


Chi Xiaoduo disse: “Continue, conte-me o resto. Caso contrário, ficarei ainda mais assustado.”


“Fui a Xiangxi”, disse Xiang Cheng. "Ouvi dizer que alguém tinha visto um monstro nas montanhas. Ele fugiu rapidamente, como os lendários homens selvagens de Shennongjia⁵.”


“Com certeza não era isso!” Chi Xiaoduo disse.


O casal do beliche da frente olhava para os dois com curiosidade. Chi Xiaoduo insistiu: “Conta, vai! Depois que você terminar, não vou mais ficar com medo.”


Xiang Cheng pensou por um momento e respondeu: “Havia um ganshi.”


Chi Xiaoduo se encolheu rapidamente, como se seus pelos fossem se arrepiar todos de novo. Em contrapartida, o casal no beliche em frente demonstrou grande interesse, e a jovem ouvia atentamente.


“Uma vez, peguei uma carona na estrada”, começou Xiang Cheng. “Estávamos viajando de noite, era meia-noite em ponto. O motorista estava com o farol alto ligado, e a luz iluminou as costas de um grupo de pessoas que caminhava lentamente pelo acostamento. Comecei a abaixar o vidro, mas o motorista me disse para não fazer barulho, senão teríamos problemas. Aquiles eram ganshi.”


Todos: “……”


Chi Xiaoduo imaginou a cena: em uma estrada escura, um carro passava e o farol alto iluminava um grupo de pessoas que caminhavam de forma estranha pelo acostamento, sem sequer virar a cabeça para olhar para trás. Era algo totalmente arrepiante.


“Eles não andam aos pulos?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Claro que não”, respondeu Xiang Cheng. “Os joelhos deles dobram; o jeito de caminhar não é diferente do de uma pessoa normal.”


“Quantas pessoas eram, exatamente?” Chi Xiaoduo perguntou, tomado pela curiosidade.


“Seis”, respondeu Xiang Cheng. “Eram sempre apenas dez, três, seis ou nove ganshi andando na frente.”


Chi Xiaoduo apertou o cobertor; a cabeça de um pássaro surgiu debaixo dele, inclinando-se para olhar para Xiang Cheng.


O jovem riu e balançou a cabeça, sem dizer nada.


Xiang Cheng disse a Chi Xiaoduo: “O motorista falou que, se você estiver dirigindo pelo campo e encontrar um grupo assim — que caminha devagar, não olha em volta, não carrega nada nas mãos e não conversa —, nunca deve parar nem perguntar se eles precisam de ajuda.”


Assim que Xiang Cheng explicou, Chi Xiaoduo já não se sentia com tanto medo. Ele perguntou: “Mas por que eles conseguem se mover?”


Xiang Cheng explicou: “É algo semelhante a parasitas. O taoísmo possui a teoria dos ‘três cadáveres⁶’. Eles ocupam os dantians superior, médio e inferior — os cadáveres Ju, Zhi e Ji. Se você colocar esse tipo de parasita em alguém, pode usar certas plantas fixadas em longas varas de bambu e agitá-las para fazer com que os cadáveres voltem a se mover.”


“Dá para fazê-los dançar?” Chi Xiaoduo perguntou com um sorriso.


Xiang Cheng pensou um pouco e respondeu: “Nunca tentei, mas se surgir uma oportunidade a gente pode testar.”


Chi Xiaoduo perguntou: “E depois?”


“Depois, é claro que o nosso carro foi embora”, disse Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo perguntou: “O que aconteceria se o cadáver de repente virasse a cabeça para olhar para você?”


Xiang Cheng respondeu: “Não fala uma coisa dessas, é assustador demais.”


Chi Xiaoduo caiu na gargalhada e disse: “Tá bom, é brincadeira! Mas é verdade mesmo? Me fala, é verdade ou não?”


Xiang Cheng respondeu: “Eu li em uma Coletânea de Histórias.”


Todos caíram na gargalhada, e Chi Xiaoduo disse: “Você realmente gosta de ler coletâneas de histórias."


“É como um manual”, disse Xiang Cheng casualmente.


Chi Xiaoduo riu novamente.


O rapaz do casal disse: “Durante o nosso estágio, corria o boato de que o necrotério vivia perdendo corpos. Que tal eu contar uma história para vocês?”


“Cale a boca para Laoniang!" A garota ficou furiosa — como se seus pelos estivessem se arrepiando todos de uma vez.


“Tá bom, tá bom, não vou dizer nada”, disse o jovem apressadamente.


Chi Xiaoduo riu alto.


“Essa também era da Coleção de Histórias?” Chi Xiaoduo provocou Xiang Cheng cutucando Xiang Cheng com o cotovelo.


Xiang Cheng não disse nada; apenas apontou para o travesseiro, sinalizando para que ele se deitasse e parasse de falar.


O assunto foi, assim, deixado de lado por enquanto. Ao cair da noite, Chi Xiaoduo pegou seus materiais de estudo para mostrar a Xiang Cheng, cuja expressão tornou-se bastante estranha.


“Você não ia fazer a prova para guia de turismo nacional?”


“Onde você conseguiu isso?”


“O Wang Ren pegou emprestado para mim”, disse Chi Xiaoduo. “Tem até anotações sobre os pontos turísticos.”


Xiang Cheng exibiu uma expressão de total desconcerto ao dizer: “Eu realmente deveria agradecer ao Chefe Wang.”


“Não precisa agradecer”, disse Chi Xiaoduo. “Vá em frente e dê uma olhada.”


Xiang Cheng: “……”


A Xiang Cheng só restava abrir o material de estudo e lê-lo durante a viagem de trem. Chi Xiaoduo conversava com o casal no beliche em frente. O rapaz havia se formado em Guangzhou, tornado-se médico em Pequim, e retornara à Universidade de Medicina Chinesa de Guangzhou para prestar o exame de pós-graduação em regime de tempo parcial. Por coincidência, eles tinham folga em junho e, após a prova, ele levou a namorada para visitar seus pais em sua cidade natal, Luohe. Depois da visita, eles voltariam para Pequim para trabalhar.


Xiang Cheng sentiu a cabeça girar enquanto olhava para o material; ele fez um gesto com a mão e disse: “Vou parar por enquanto; não gosto de estudar.”


Chi Xiaoduo ficou encarando Xiang Cheng, e a única opção de Xiang Cheng foi continuar lendo um pouco mais.


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Às 22H, todos apagaram as luzes para dormir. A viagem até Pequim levaria trinta horas, e o preço de uma cabine com leito (classe soft-sleeper) era suficiente para comprar uma passagem de avião. Chi Xiaoduo pensou: por que se dar a esse trabalho? Não teria sido melhor simplesmente optar por ir de avião?


No entanto, estar com Xiang Cheng ainda o deixava muito feliz. Chi Xiaoduo estava deitado na cama de baixo; à noite, tudo estava silencioso. Ele se lembrou dos ganshi sobre os quais haviam conversado durante o dia e sentiu um certo medo novamente. Depois de ouvir a história de fantasma, o medo persistente era como uma dor de dente: algo que se percebia vagamente, mas que não se conseguia localizar com exatidão — nem dizer quando exatamente havia começado —, embora sempre desse a sensação de que a bexiga estava cheia.


“Si Gui…” Chi Xiaoduo acariciou com cuidado a cabeça do passarinho.


Si Gui colocou a cabeça para fora da roupa e lançou um olhar atento para Chi Xiaoduo.


Chi Xiaoduo se perguntou: que tipo de pássaro é esse? Nos tempos de estudante, ele gostava muito de observar pássaros, mas nunca tinha visto uma espécie como Si Gui. Parecia um albatroz, mas era muito pequeno, como uma versão em miniatura. Duas penas sobressaíam inclinadas de sua cauda, ​​e Chi Xiaoduo mexeu nelas com os dedos. Ele queria virar o animal para verificar se era macho ou fêmea, mas acabou recebendo um olhar fulminante de Si Gui.


Chi Xiaoduo adormeceu aninhado ao pássaro enquanto o trem seguia seu curso com um ruído constante. Tarde da noite, Xiang Cheng debruçou-se com dificuldade para fora do beliche superior, estendeu a mão para baixo e puxou o cobertor para cobrir Chi Xiaoduo.


O trem fez uma parada no meio do caminho; a luz amarela intensa da plataforma invadiu o vagão. Tudo estava silencioso, exceto pelo som de roncos vindo do beliche oposto. Através de uma fresta nas cortinas, um feixe de luz cortou o ambiente, revelando uma sombra escura.


Chi Xiaoduo arregalou os olhos no mesmo instante e viu a silhueta da cabeça de uma pessoa projetada no canto da cama, balançando de leve. Era como se alguém na plataforma estivesse espiando lá para dentro, com a cabeça bloqueando a luz que vinha de fora.


Chi Xiaoduo: “……”


Xiang Cheng não estava dormindo; ele estava encarando o teto.


A primeira reação de Chi Xiaoduo foi se sentar e virar a cabeça para olhar para trás. No instante em que olhou, pareceu que algo lá fora se afastou rapidamente. De repente, Chi Xiaoduo sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem e o coração disparou. Ele pensou: deve ter sido o fiscal, né? Ou alguém da estação vendendo ramen? Que medo.


Chi Xiaoduo queria ir ao banheiro. Quando o trem parou, ele fechou a porta e saiu da cabine para tomar um pouco de ar. Ao chegar ao corredor, viu o médico do beliche oposto entrando no trem.


"Você estava lá fora?" Chi Xiaoduo lançou-lhe um olhar enquanto se apoiava na janela e, em seguida, voltou o olhar com curiosidade para o lado de fora.


O médico lançou um olhar estranho para Chi Xiaoduo, assentiu e respondeu: “É.”


De repente, a visão de Chi Xiaoduo falhou: no vidro da janela, refletida contra a escuridão da noite, apareceu um rosto medonho, com um tom verde brilhante. Por um segundo, ele quase teve um ataque cardíaco, fazendo um esforço enorme para engolir o grito. A imagem durou só um piscar de olhos e logo sumiu.


O que foi aquilo?! Chi Xiaoduo apertou os olhos com força — ele devia estar meio sonolento… Aquela pessoa olhando pela janela agora há pouco era ele? Não… quem estava roncando?! Seria Xiang Cheng?


Chi Xiaoduo sentiu um arrepio na espinha. Será que vi um fantasma?! Droga! Chi Xiaoduo estava apavorado. De repente, outra pessoa surgiu no reflexo da janela.


“Aaaah!” Chi Xiaoduo gritou.


Xiang Cheng disse: “Não grite.”


Chi Xiaoduo estava tão assustado que suas pernas fraquejaram; ele se apoiou na janela, ofegante.


“O que houve?” Enquanto o trem começava a se mover, o fiscal se aproximou e abriu a porta do banheiro.


“Não é nada”, disse Chi Xiaoduo. “Eu… eu tive um pesadelo.”


O fiscal disse: “Fale mais baixo.”


Com as costas encharcadas de suor frio, Chi Xiaoduo entrou no banheiro. Quando saiu, Xiang Cheng estava fumando no espaço entre os vagões e acenou para ele.


“Com o que você sonhou?” Xiang Cheng perguntou. “Seus olhos estão um pouco vermelhos; deixa eu ver.”


Chi Xiaoduo se aproximou e Xiang Cheng abaixou a cabeça. Ele afastou gentilmente as pálpebras de Chi Xiaoduo com os dedos e observou atentamente suas pupilas límpidas.


O rosto de Chi Xiaoduo corou intensamente enquanto ele dizia: "Acabei de acordar, então meus olhos estão com um pouco de…”


“Não há remela nos seus olhos”, disse Xiang Cheng. “Seus cílios são longos, como os de uma garota. Você é muito bonito.”


Chi Xiaoduo ficou extremamente envergonhado e virou levemente o rosto. Xiang Cheng deu um tapinha no braço dele e franziu a testa.


“Ei”, disse Chi Xiaoduo. “Olhe ali, o que é aquilo?”


Xiang Cheng: “……”


“O quê?” Xiang Cheng olhou para fora da janela do trem.


No meio do nada, havia um garoto vestido com roupas vermelhas. Ele estava parado diante de uma casa em ruínas, virado de frente para os trilhos, observando de longe.


“Aquele garoto”, disse Chi Xiaoduo. “Você viu? O de vermelho.”


“Vi.” Xiang Cheng franziu a testa. “E o que mais?”


“A casa”, disse Chi Xiaoduo. “As luzes ainda estão acesas.”


Enquanto o trem fazia a curva, Xiang Cheng virou levemente a cabeça. Ele fechou os olhos ao entrelaçar os dedos em um selo e, então, de repente, abriu-os novamente. Suas pupilas se contraíram um pouco e, em seguida, brilharam com uma luz branca em seu interior.


Um clarão de luz branca cintilou e desapareceu; o mundo inverteu instantaneamente suas cores — como um negativo fotográfico — revelando uma sepultura na natureza selvagem distante.


Xiang Cheng: “……”


“Uma casa.” Xiang Cheng assentiu e respondeu, “vai dormir.”


Chi Xiaoduo sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao pensar no médico; acabou adormecendo encolhido, tremendo de medo. No meio da noite, ergueu a cabeça e lançou um olhar receoso para o beliche à sua frente; o médico dormia virado para a parede, completamente imóvel.


A tela de seu celular se iluminou; Xiang Cheng havia enviado uma mensagem de texto:


【Não consegue dormir?】


Chi Xiaoduo olhou para o beliche de cima, e Xiang Cheng desceu bem de mansinho, sentando-se na ponta da cama. Chi Xiaoduo fez menção de se sentar, mas Xiang Cheng fez um sinal para que ele continuasse deitado e ficasse quieto. Em seguida, pegou nos pés dele, massageando-os suavemente por cima das meias.


A sensação era tão boa… A força que ele usava estava na medida certa. Chi Xiaoduo ficou ali mexendo no celular por um tempo, sentindo que Xiang Cheng permanecia ao seu lado durante todo aquele período. Depois de algum tempo, acabou adormecendo, caindo num sono profundo.


°‧ 𓆝 𓆟 𓆞 ·。


No dia seguinte, ao acordar, Chi Xiaoduo ouviu Xiang Cheng conversando com a jovem que ocupava o beliche em frente.


“Você ronca enquanto dorme”, disse Xiang Cheng.


“Eu? Eu não ronco”, disse a jovem. “Quem ronca é o A-Gui, não é?”


A jovem deu uma cutucada provocativa no namorado, e o médico sorriu, dizendo: “Eu nunca ronco.”


“Aqui está algo para você.” Xiang Cheng abriu seu caderno, tirou uma folha de papel amarelo e a entregou à garota.


A jovem: “……”


As expressões da garota e do médico mudaram. O médico começou a rir e disse: “Bonitão Ge, para que serve isso? Você é um taoísta?”


Chi Xiaoduo: “???”


Chi Xiaoduo despertou num instante. Ele espiou debaixo da mesinha e viu Xiang Cheng segurando um pedaço de papel amarelado. A garota e o médico trocaram olhares, sem saber se pegavam ou não. Xiang Cheng permaneceu em silêncio, mantendo a mesma postura.


A jovem inclinou-se para a frente e pegou o papel.


“Os médicos existem para salvar vidas e ajudar o mundo", disse Xiang Cheng. "Você deve ser cuidadosa em tudo. Tome conta de si e aja com retidão.”


A expressão do médico não era nada boa; ele parecia querer soltar alguns palavrões, mas não ousava dizer nada. O trem parou, e o condutor veio avisar que haviam chegado a Luohe. A jovem disse “Obrigada”, e eles partiram levando suas bagagens.


"O que você acabou de dar a ela?" Chi Xiaoduo afastou o cobertor e perguntou, surpreso.


Xiang Cheng não esperava que Chi Xiaoduo já tivesse acordado e lançou-lhe um olhar.


"Meu número de telefone", respondeu Xiang Cheng.


"Por que deu seu número de telefone a ela?" Chi Xiaoduo perguntou.


“Para que possam manter contato caso surja alguma coisa”, disse Xiang Cheng, dando um tapinha no joelho de Chi Xiaoduo. “Já vai levantar? Vou lá comprar nosso café da manhã."


Chi Xiaoduo ainda estava um pouco confuso e sentia que havia algo estranho ali. Pelo que o conhecia, Xiang Cheng nunca tomava a iniciativa de puxar conversa com ninguém; até quando ia ao mercadinho comprar cigarro, limitava-se a duas palavras: “Hongmei”. Em seguida, era só o processo de contar o dinheiro e pegar o troco.


Agora, ele realmente tinha sido capaz de perguntar a uma estranha no trem: “Você ronca quando dorme?”


Chi Xiaoduo não pôde evitar sentir um certo receio ao lembrar do rapaz que roncara na noite anterior, mas, como agora era dia, o medo havia desaparecido. Além disso, ninguém mais havia embarcado para ocupar o beliche em frente ao deles.


Chi Xiaoduo remoeu aquilo de todas as formas possíveis, com a cabeça a mil por hora, até que de repente desconfiou: será que o Xiang Cheng ficou caidinho pela garota?


“Você aproveitou a chance para dar em cima dela?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Hmm.” Xiang Cheng ouvia música com um livro aberto à sua frente enquanto descascava uma maçã, os cantos da boca curvando-se levemente para cima.


Hmm! Hmm! Hmmmmmm!! Aaaaaah! O coração de Chi Xiaoduo explodiu. Quando ele estava prestes a insistir por mais detalhes, Xiang Cheng enfiou a maçã em sua boca.


Chi Xiaoduo disse: “Isso é muito imoral, sabia! Ela estava com o namorado!”


“É”, disse Xiang Cheng, distraído. “Imoral.”


Chi Xiaoduo perguntou: “Você gosta dela?”


“Não”, respondeu Xiang Cheng finalmente, virando-se para ele. “Para de caraminholas na cabeça.”


Chi Xiaoduo não teve escolha a não ser deixar o assunto para lá. Pelo jeito de Xiang Cheng, parecia mesmo que ele não dava a mínima para aquela garota. Na verdade, desde que o conhecera, Xiang Cheng nunca parecia se importar muito com ninguém, como se a palavra “amigo” não existisse no vocabulário dele e todo mundo fosse um completo estranho.


Todos, isto é, exceto Chi Xiaoduo. Mas Chi Xiaoduo continuava a suspeitar que ele era apenas um colega de quarto próximo — alguém que convivia com ele diariamente — ou que Xiang Cheng o via como um irmão mais novo de quem precisava cuidar. Alguns homens heterossexuais eram assim: agiam e tratavam seus grandes amigos como se fossem namorados, mas, no fim das contas, acabavam seguindo seus próprios caminhos para namorar outra pessoa.


O pior de tudo era que, depois de começarem a namorar, esses caras ainda arrastavam o amigo junto e, mesmo quando casavam, queriam morar na mesma rua ou comprar apartamento no mesmo prédio — algo totalmente incompreensível. Por um momento, Chi Xiaoduo desconfiou se Xiang Cheng também gostava dele, mas, se gostava, por que não se declarava logo? Ele já tinha dado indiretas mais do que óbvias.


Mas e se ele realmente o visse apenas como um irmão mais novo?


Chi Xiaoduo ficou pensando por muito tempo, sentindo-se triste, depois doce, depois irritado, e por fim, à beira da loucura. O caos reinava em seu coração, e ele detestava não poder agarrar Xiang Cheng pela gola, sacudi-lo e perguntar com força: “Você gosta de mim ou não? Se gosta, fala logo!”


Xiang Cheng: “……”


Chi Xiaoduo: “……”


“Ah, é”, disse Chi Xiaoduo. “Você tem…”


Chi Xiaoduo quase perguntou: “Você gosta de alguém?”, mas eles estavam juntos todos os dias; se Xiang Cheng gostasse de alguém, Chi Xiaoduo certamente saberia. É claro que ele não gostava de ninguém, e a resposta dele também seria que não. Chi Xiaoduo mudou de ideia rapidamente e perguntou: “Você planeja se casar, se estabelecer e constituir família?”


“Ninguém me quer”, disse Xiang Cheng.


“Eu quero você”, disse Chi Xiaoduo.


“Então, não estou com você agora?" Xiang Cheng disse, com os olhos no livro e sem sequer levantar a cabeça.


Chi Xiaoduo riu e chutou-o novamente. Xiang Cheng segurou o tornozelo de Chi Xiaoduo, impedindo-o de se mover. Chi Xiaoduo quis subir e aninhar-se nos braços dele; Xiang Cheng, então, soltou a mão e o acolheu em um abraço.


Houve incontáveis momentos em que Chi Xiaoduo simplesmente não conseguiu se segurar e esteve a ponto de perguntar: “Você tem alguém de quem gosta?”, mas era uma pergunta direta demais. Nessas horas, a cara furiosa da sua melhor amiga vinha imediatamente à sua mente: Não tome a iniciativa! De jeito nenhum! Você tem que esperar ELE falar essas últimas palavras! Você não pode dizer nada! Nada de ir atrás! Temos que acabar com essa mania de correr atrás!


Então, Chi Xiaoduo teve apenas que se conter. Diziam que, se você fosse ativo demais, ansioso demais para agradar e preocupado em perder o interesse do outro, os “homens-fênix⁷” não o levariam a sério no futuro. No entanto, Xiang Cheng não era um "homem-fênix" — embora, pela lógica de sua melhor amiga, um homem que cria um passarinho e o chama de “Fênix” era, sem dúvida alguma, um homem-fênix.


Chi Xiaoduo estava prestes a enlouquecer com os próprios pensamentos. Bem quando estava prestes a ligar para a melhor amiga, Xiang Cheng voltou de onde tinha ido fumar e disse: “Se prepare para descer.”


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Notas:

 

1 A vila que desaparece

 

2 改革开放 (Gǎigé kāifàng): A "Abertura Econômica" impulsionada por Deng Xiaoping no final dos anos 70, que transformou vilas de pescadores (como Zhuhai e Shenzhen) em grandes metrópoles.

 

3 湘西 (Xiāngxī): Região no oeste da província de Hunan, famosa na cultura chinesa por ser um berço de lendas sombrias, feitiçaria, xamanismo e a lendária prática de “guiar cadáveres” (Guǐ Shī / Jīāngshī).

 

4 O termo "ganshi" (赶尸) refere-se ao folclore chinês de Xiangxi sobre a "condução de cadáveres", em que mortos vivos eram supostamente guiados de volta às suas terras natais — uma lenda muito associada aos jiangshi (os "zumbis" ou "vampiros saltadores" do cinema cantonês/Hong Kong). Se quiserem podem ler mais aqui

 

5 神农架的野人 (Shénnóngjià de Yěrén): Shennongjia é uma reserva natural em Hubei onde, segundo rumores, vagam homens selvagens — algo semelhante ao Pé-Grande ou ao yeti. Há quem diga que se trata apenas de ursos de pelo longo, mas outros discordam...

 

6 三尸 (Sān shī): Os “Três Vermes/Parasita” ou “Três Cadáveres” da mitologia e alquimia taoista (Jū, Zhì, Jī / 踞, 踬, 跻). Na tradição taoista, são considerados espíritos/parasitas que habitam os três centros de energia (dantian) do corpo humano. Mais sobre aqui 

7 凤凰男 (Fènghuángnán): O termo homem-fênix é uma gíria chinesa popular usada para descrever rapazes de origem humilde do interior que vencem na grande cidade.

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Flor: aah fiquem logo juntos! Vocês são óbvios demais xD


Literalmente: Chong Ming é o único homem Fênix!


No próximo capítulo vamos conhecer um Chen! *-*


Até mais !



𓇼 ⋆.˚ 𓆉 𓆝 𓆡⋆.˚ 𓇼


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