sexta-feira, 8 de maio de 2026

[Novel] Dinghai Fusheng Lu - Extra 04

 


Extra Livro Simplificado 03 - Arco de Tuoba Yan: 

Olhando para Trás em Chang’an, Bordados se Amontoam



⚠️Aviso de conteúdo:

Este conteúdo extra está disponível apenas no quarto volume da versão física simplificada.



N/T: O título 长安回望绣成堆 é uma citação direta de um poema famoso de Du Mu da dinastia Tang, chamado “过华清宫” (Passando pelo Palácio Huaqing).


⊹⊱✫⊰⊹


(Parte I)


Aquele foi um sonho muito, muito longo; no sonho, era como se ele tivesse vivido duas vidas. No instante em que a pesada porta de pedra do mausoléu imperial se fechou com um estrondo, todos acreditaram que ela jamais seria aberta novamente.


Dia após dia, o sol nascia a leste e se punha a oeste, dia e noite se alternavam, o tempo fluía em silêncio. Gavinhas de trepadeiras escalaram a Pedra do Dragão¹, e o musgo manchou as estátuas dos animais guardiões da tumba. Pássaros fizeram ninhos diante do mausoléu, e porcos-espinhos fizeram suas moradas entre as pilhas de pedras desoladas.


Com o tempo, o cinábrio sobre a Pedra do Dragão desbotou, ervas daninhas cobriram por completo a entrada do mausoléu. Ocasionalmente, crianças corriam e brincavam diante da tumba, vez ou outra lançando um olhar para a entrada escura e profunda. Com o passar do tempo, aquelas crianças que brincavam tornaram-se adultas, formaram famílias, envelheceram e viraram cinzas; uma após a outra, novas sepulturas se ergueram diante da montanha deserta.


Castigado pelo vento e pela chuva, este mausoléu subterrâneo se perdeu no tempo, com inúmeras lendas surgindo e desaparecendo sem deixar vestígios. Dizia-se que os espíritos e divindades da montanha ora guardavam uma região, ora se transformavam em demônios ferozes, que aguardavam na noite profunda por um substituto entre os viajantes; ou que, por seu temperamento violento, provocavam distúrbios e desastres, ou choravam incessantemente sob a sombra das árvores…


Até que, finalmente, não restou ninguém que pudesse reconhecer as inscrições na Pedra do Dragão diante da tumba, e o mundo dos homens mudou de dinastia. As Cinco Tribos Hu vieram e se foram, e as histórias de outrora foram completamente sepultadas sob a terra. O lado sul da Montanha Heng conheceu décadas de prosperidade; o Clã Tuoba, de Wei do Norte², estabeleceu ali sua capital, conquistando as planícies a galope e trazendo uma era de paz duradoura. O lugar recebeu o nome de Pingcheng³.


No primeiro ano da era Huangxing⁴, uma grande tempestade se abateu sobre a Montanha Heng, com raios e trovões. A chuva torrencial provocou deslizamentos de terra, inundando Pingcheng. Milhares de mu de terra diante do mausoléu desmoronaram, revelando, mais uma vez, um canto da estrutura.


Naquela solidão profunda, em um piscar de olhos, mais dez anos se passaram.


Um choro desconhecido o despertou de seu longo sono; o som era intermitente, quase imperceptível, como se estivesse lá e não estivesse.


Era a silhueta de uma criança. No início, ela produzia apenas ruídos sussurrantes, rastejando com dificuldade para dentro do mausoléu através da fenda aberta pelas enchentes. Sentava-se diante dos degraus de pedra, chorava por um ou dois ke* e depois saía pelo mesmo caminho.


(*n/t: um ke = 15 minutos, dois ke seriam 30 minutos)


A cada dez ou quinze dias, aquela criança entrava no mausoléu para chorar. A luz da lua entrava pela brecha do lado de fora, iluminando sua cabeça e projetando uma sombra solitária contra as paredes de tijolos da tumba.


“Quem é você?” Certa noite, ele finalmente não conseguiu mais se conter e perguntou de dentro do sarcófago de pedra.


A criança ficou imediatamente aterrorizada e não ousou dizer uma palavra. Só depois de muito tempo, finalmente recobrou os sentidos, confundindo-o com um andarilho que vivia na tumba, e respondeu em meio ao silêncio:


“Yuan… Yuan Hong.”


A voz era infantil e imatura, mas muito agradável aos ouvidos, carregando consigo o sopro de uma vida vibrante.


Ele ouviu a criança se levantar e dar alguns passos lentos em direção ao sarcófago de pedra, aparentemente querendo confirmar sua suspeita, então se apoiou em uma das mãos e empurrou a tampa de pedra.


“E você?” A criança chamada Yuan Hong parou de caminhar, interrompeu o choro e perguntou, timidamente.


Ele soltou um longo e profundo bocejo, como se tentasse afastar o cansaço que o acompanhava há quase um século.


“Chorando todos os dias, por que chora tanto?” Ele perguntou novamente, com um tom de curiosidade divertida. “O que há de tão bom em chorar?”


“Meu pai morreu”, disse Yuan Hong. “É claro que eu tenho que chorar.”


A tampa do sarcófago foi empurrada e ele se sentou; Yuan Hong o observava com cautela. Viu que sua armadura de cota de malha estava coberta de ferrugem, e o tecido sob a saia de combate estava impregnado de poeira. Em suas botas de guerra pretas, havia o bordado de um cervo voador, embora quase metade dos fios já tivesse se soltado.


Yuan Hong soltou vários espirros seguidos por causa da poeira.


Recém-despertado, o homem sentou-se na borda do sarcófago, curvou-se levemente e desamarrou as botas para despejar a terra que havia dentro delas.


Os olhos de Yuan Hong estavam fixos nele. Viu que sua pele tinha um tom pálido cinza-azulado e suas pupilas eram opacas e turvas, mas ainda assim carregavam um brilho vigoroso. Seus traços eram heróicos e marcantes; o cabelo estava um pouco bagunçado, preso em um coque. Sua silhueta era esguia e imponente, com um nariz de ponte alta e olhos profundos — feições que não se assemelhavam às de um homem Han.


Ele virou a cabeça, arqueou uma sobrancelha para Yuan Hong e um sorriso amigável surgiu no canto de seus lábios.


Yuan Hong: “Você… você…”


Yuan Hong deu mais um meio passo para trás, percebendo que a pessoa à sua frente não era um ser humano como ele havia imaginado.


“Não tenha medo”, disse ele a Yuan Hong, “eu não como pessoas.”


Em seguida, ele tateou dentro do caixão, como se procurasse um doce para dar a Yuan Hong e desarmar a guarda da criança, mas não encontrou nenhum. Finalmente, pegou uma pérola luminosa do tamanho da ponta de um dedo e jogou para ele.


A pérola luminosa voou de sua mão para a de Yuan Hong, como uma estrela cadente deixando um rastro de luz cintilante na noite silenciosa. Yuan Hong a pegou.


“Em que ano estamos?” Ele perguntou.


“O primeiro ano de Taihe⁵”, respondeu Yuan Hong.


Ele soltou um riso autodepreciativo. Percebendo que perguntar daquela forma não lhe traria a resposta que buscava, logo perguntou com seriedade: “Quanto tempo se passou desde a Batalha do Rio Fei?”


“Isso aconteceu há noventa e quatro anos”, respondeu Yuan Hong, com a voz trêmula.


Ele murmurou para si mesmo: “Então eu só dormi um pouquinho…”


Havia um medo impossível de esconder no tom de Yuan Hong: “Quem… quem é você, afinal?”


“Meu nome é Tuoba Yan.” Ele se virou para Yuan Hong, observando a silhueta do garoto sob o luar, enquanto respondia.


(Parte II)


O verão partiu e o outono chegou; o inverno se foi e a primavera retornou. Três anos depois.


Os pessegueiros em flor cercavam a entrada do mausoléu do Monte Heng. Tuoba Yan e Yuan Hong estavam sentados lado a lado diante da tumba.


“Yuan Hong”, disse Tuoba Yan casualmente. “Qual é a sua ambição?”


“Você já me ouviu dizer isso inúmeras vezes!” Yuan Hong respondeu impacientemente. “Minha ambição é pacificar este mundo caótico, unificar tudo sob o céu e garantir que o povo possa viver em paz e prosperidade.”


Tuoba Yan perguntou novamente: “Foram eles que o ensinaram a dizer isso ou é o que você realmente pensa?”


Yuan Hong abriu a boca para falar, mas hesitou; após um momento, disse com certa angústia: “Eu não sei.”


Yuan Hong brincava com uma pequena faca, tentando esculpir um pedaço de madeira pontiaguda, quando, de repente, fez um gesto como se fosse cutucar Tuoba Yan. Este permaneceu com as pernas cruzadas, deixando que as pétalas das flores de pessegueiro flutuassem e pousassem sobre seu corpo.


“Não tenho medo de madeira de pessegueiro”, disse Tuoba Yan seriamente a Yuan Hong, “nem adianta me espetar com isso.”


“Então do que você tem medo?” Yuan Hong perguntou, descontente. “Não acredito que não exista nada neste mundo capaz de subjugá-lo.”


Um sorriso surgiu nos lábios de Tuoba Yan, que respondeu: “Não tenho medo de nada.”


Yuan Hong deitou-se nos braços de Tuoba Yan, usando seus ombros e braços como travesseiro.


Depois de acordá-lo naquele dia, Yuan Hong, vendo que ele não tinha más intenções, passou a visitar o mausoléu subterrâneo com frequência, e Tuoba Yan nunca o expulsou.


Aquele homem parecia muito jovem, como um irmão mais velho, o que fazia com que ele, que nasceu e cresceu no palácio, sentisse uma certa admiração por um irmão mais velho.


Houve um tempo em que ele era cercado apenas por eunucos e servas, ou por velhos de cabelos brancos; quando teria ele tido alguém como Tuoba Yan ao seu lado? Dizer que ele era um “ser humano” talvez não fosse o mais adequado. Ele não respirava, tampouco possuía batimentos cardíacos. Por causa disso, Yuan Hong chegou a se inclinar contra o peito dele especificamente para escutar, acabando por aceitar o fato de que “Tuoba Yan não era humano”.


Se não é humano, o que seria então? Tuoba Yan nunca disse, e Yuan Hong também não ousava perguntar demais.


“Você deve ter medo de alguma coisa”, Yuan Hong olhou para cima e encarou Tuoba Yan.


Tuoba Yan baixou levemente a cabeça, observando o garoto em seus braços. Quando o viu pela primeira vez, Yuan Hong era muito pequeno. Ao longo de três anos, o menino cresceu gradualmente; agora, seu tamanho já não permitia que passasse pela abertura do mausoléu, obrigando-os a se encontrarem do lado de fora.


“Por que você pergunta isso?” Tuoba Yan disse com indiferença. Sua expressão era sempre fria e, mesmo quando sorria ocasionalmente, parecia um pouco artificial; porém, sua voz e seu tom eram muito calorosos.


“Você é um yaoguai”, disse Yuan Hong friamente. “Se você descer a montanha para causar danos ao meu povo, eu, como soberano desse reino, terei de agir para eliminá-lo.”


Yuan Hong pegou a adaga feita de madeira de pessegueiro e espetou o rosto de Tuoba Yan. A pele do rosto de Tuoba Yan afundou levemente, mas logo voltou ao normal.


“Do que eu tenho medo?” Tuoba Yan pôs-se a refletir sobre a própria fraqueza. O que neste mundo seria capaz de feri-lo? Por fim, disse a Yuan Hong: “Se você me esquartejar, me rasgando em vários pedaços, aí, naturalmente, não poderei continuar vivo.”


“E você já foi esquartejado alguma vez?” Yuan Hong perguntou, enquanto puxava e abria a roupa de brocado de Tuoba Yan — uma veste de estilo Hu que ele trouxe do palácio para o outro.


“Não”, respondeu Tuoba Yan. “É apenas um palpite. Se as partes do meu corpo fossem enterradas em lugares diferentes, talvez fosse muito solitário, não acha?”


Yuan Hong não se conteve e perguntou de novo: “Estou perguntando daquilo que você realmente tem medo.”


“Do que eu tenho medo?” Após dizer isso, Tuoba Yan mergulhou em um longo silêncio. Foi um silêncio tão demorado que Yuan Hong pensou que não receberia uma resposta e quase pegou no sono sob a brisa da primavera, até que, subitamente, Tuoba Yan falou:


“Tenho medo das pessoas ao meu redor envelhecerem e morrerem”, murmurou Tuoba Yan para si mesmo. “Tenho medo de que aqueles que me são próximos partam. Parentes, amigos, velhos companheiros, desaparecendo um após o outro.”


Yuan Hong lutava para recuperar os sentidos, esfregando o nariz, com uma complexa mistura de emoções brilhando em seus olhos.


Tuoba Yan deu um tapinha discreto no ombro do menino para confortá-lo.


“Está pensando na sua avó?” Ao longo desses três anos, Tuoba Yan já havia ouvido muitos segredos de Yuan Hong. Por exemplo, a avó, a Imperatriz Viúva Feng⁶, havia matado sua mãe e executado seu pai; por isso, seus sentimentos em relação à avó eram extremamente complexos.


Yuan Hong não disse nada e, aos poucos, adormeceu nos braços de Tuoba Yan. Quando o crepúsculo se aproximou, Tuoba Yan o acordou com um tapinha e disse: “Está na hora de você voltar.”


Yuan Hong levantou-se em silêncio, deixou o Monte Heng e montou a cavalo de volta para Pingcheng. Tuoba Yan, por sua vez, contorceu os pulsos e encolheu os ombros, esforçando-se para dentro do mausoléu. Ele voltou a deitar-se no caixão de pedra, embora nunca conseguisse dormir — afinal, da última vez dormiu por noventa e quatro anos; desta vez, estava com tanta energia que simplesmente não conseguia pegar no sono.


(Parte III)


Relâmpagos rasgavam o céu noturno e o som de gritos de guerra explodiu do lado de fora do Palácio Imperial de Pingcheng.


As chamas erguiam-se ferozes, sendo extinguidas num piscar de olhos, apenas para voltarem a arder em menos de um ke.


O sangue dos rebeldes escorria pelas escadarias e o campo de treinamento em frente ao palácio estava coberto de cadáveres; flechas afiadas cobriam a noite.


“Lutem até a morte, sem recuar!” Yuan Hong, empunhando a Espada do Filho do Céu, mantinha-se de pé, imponente, diante do portão principal do palácio imperial. Naquela noite, a Imperatriz Viúva Feng finalmente morreu, mas em seu rastro veio o exército rebelde, desafiando a autoridade imperial.


A Guarda Imperial lutava nos portões, fazendo o sangue correr como um rio. Do lado de fora, quase 30 mil rebeldes já haviam se reunido e, a qualquer instante, irromperiam palácio adentro para decapitar o jovem Imperador do Grande Wei.


“Majestade!” O vice-comandante da Guarda Imperial rugiu. “Fuja agora, por favor!”


Yuan Hong não moveu um único passo. Naquela noite profunda de trovões e tempestade, ele subitamente avistou uma silhueta sob o clarão dos relâmpagos.


Era Tuoba Yan.


Um choque de espanto atravessou o olhar de Yuan Hong. A chuva escorria por seu corpo alto e magro; ele ainda vestia as vestes bordadas no estilo Hu que Yuan Hong lhe dera anos atrás. As vestes marciais encharcadas colavam-se ao seu corpo, realçando os contornos de seus músculos bem definidos.


Ele empunhava uma espada de madeira de pessegueiro. Quando os rebeldes avançaram para matá-lo, bastou um único golpe para que ele derrubasse todos os que o cercavam.


“Tuoba Yan!” Yuan Hong não conseguiu conter o grito.


Os soldados que travavam um combate feroz no campo de treinamento notaram aquele guerreiro escondido na escuridão, cessando gradualmente a luta e recuando para o lado.


Tuoba Yan continuou caminhando e, ao redor de seus pés, já jaziam milhares de corpos.


“Você veio me levar embora?” Um medo profundo tomou conta de Yuan Hong. Desde o dia em que descobriu aquele morto-vivo na tumba subterrânea, uma sinistra premonição pesava em seu coração. Ele acreditava que um dia, Tuoba Yan se tornaria seu guia para a morte.


Mas naquela noite, à beira da vida e da morte, ele recebeu uma resposta inesperada.


“Não”, respondeu Tuoba Yan simplesmente. Ele deu um forte impulso com as botas de combate e voou em direção a Yuan Hong, que estava no alto, como uma flecha na escuridão da noite, aterrissando nos degraus.


Após a chuva parar, as nuvens negras começaram a se dispersar, e as poças de água tingidas de sangue no campo de treinamento refletiam o brilho da lua cheia. De repente, ouviu-se uma ordem vinda de fora do palácio: 30 mil flechas flamejantes foram apontadas simultaneamente para o céu — aguardando apenas o comando final para lançarem suas penas de fogo sobre o palácio imperial.


Tuoba Yan girou o corpo e encarou o lado de fora do palácio.


“Então, o que você veio fazer aqui?” Yuan Hong perguntou, prendendo a respiração e falando em voz baixa.


“Já faz alguns anos que você não vem me visitar”, disse Tuoba Yan. “De repente me deu vontade, e resolvi vir ver como você estava.”


“Estou muito ocupado”, respondeu Yuan Hong, impassível. Em seus olhos límpidos, refletiam-se as milhares de penas de fogo que caíam como meteoros. No instante seguinte, ambos estariam destinados a serem sepultados juntos em um mar de chamas.


Depois que um cadáver é carbonizado, ele conta como morto de verdade? Yuan Hong não obteve resposta para esse pensamento.


“Eu imaginei”, disse Tuoba Yan. Ele passou a espada de madeira para a mão esquerda e, com a direita, fez um movimento de pressão para baixo.


Num instante, o fluxo do qi entre o Céu e a Terra sofreu uma alteração estranha. As trinta mil flechas flamejantes congelaram no ar por um breve momento e, logo depois, voltaram com um estrondo alto!


Tuoba Yan assentiu levemente para Yuan Hong. Foi então que Yuan Hong, com o canto dos olhos, avistou os rebeldes em debandada, e também os incontáveis soldados da Guarda Imperial ajoelhados sobre um dos joelhos.


(Parte IV)


Era mais uma noite de primavera.


“Shifu.” Yuan Hong entrou nas profundezas do palácio.


Tuoba Yan ouviu os passos de Yuan Hong, se virou e lançou um olhar para ele.


“Está apodrecendo?” Yuan Hong parou atrás de Tuoba Yan, examinando seu corpo, enquanto Tuoba Yan desabotoava as vestes internas e externas, observando-se no espelho.


Aquela era a primeira vez que Yuan Hong via todo o corpo físico de Tuoba Yan. Sua pele era lisa e, apesar de estar morto há muito tempo, ele ainda mantinha o físico de um jovem: vigoroso e bem proporcionado.


“Apodreceu um pouco”, disse Tuoba Yan, pressionando com um dedo a lateral da cintura, onde havia uma ferida de flecha. “Em algum tempo, ela vai se curar naturalmente.”


Yuan Hong tinha vinte e seis anos este ano. Oficiais de alta patente se curvavam diante dele, e o exército, sob seu comando, saía vitorioso em todas as batalhas.


Ele estava completamente diferente da criança que fora outrora, tendo se tornado mais maduro e sereno. Somente Tuoba Yan continuava com os mesmos traços faciais e a mesma aparência de sempre.


Era como se ele jamais pudesse envelhecer. Ao se dar conta disso, Yuan Hong sentiu o coração invadido por uma mistura indescritível de emoções.


Tuoba Yan fechou a veste interna e começou a aplicar pó no corpo e no rosto, para que a sua pele tivesse a aparência da de uma pessoa viva.


“O que foi?” Tuoba Yan perguntou.


“Senti sua falta”, disse Yuan Hong, casualmente. “Vim ver como você estava.”


Yuan Hong aproximou-se da escrivaninha e viu o papel que Tuoba Yan havia estendido sobre ela; nele, estavam escritos os versos: ‘Marchando sem fim, vivo longe de você⁷’.


Ao longo desses anos, Yuan Hong também teve seus próprios filhos. Quando se exauria em disputas com os altos oficiais ou se sentia sufocado no harém, ele ia até os aposentos de Tuoba Yan para se sentar um pouco. À medida que a guerra com a dinastia Qi do Sul entrava em um impasse, as visitas de Yuan Hong tornavam-se cada vez mais frequentes.


“Shifu, eu quero mudar a capital”, disse Yuan Hong.


Desde aquela noite da batalha sangrenta em Pingcheng, Yuan Hong se dirigiu a Tuoba Yan como “Shifu”, ao que Tuoba Yan não concordou nem discordou. Embora Yuan Hong o chamasse assim, os dois não tinham uma verdadeira relação de mestre e discípulo.


“Mude se quiser”, respondeu Tuoba Yan com indiferença.


Yuan Hong perguntou: “Shifu, você virá comigo?”


Tuoba Yan não disse nem que sim, nem que não. Com um movimento brusco dos braços, vestiu sua veste externa, ignorando o olhar expectante de Yuan Hong às suas costas.


Ele inclinou levemente a cabeça, usando a luz das lamparinas para observar o rosto de Yuan Hong.


“Você cresceu”, disse Tuoba Yan.


Yuan Hong hesitou, como se quisesse dizer algo, mas se conteve. Tuoba Yan virou-se e, com a palma da mão, fez um gesto ao lado do próprio corpo para indicar uma altura, comentando com um sorriso: “No dia em que nos conhecemos, você era apenas deste tamanho. Você ainda se lembra daquela ambição que me contou?”


“Lembro”, respondeu Yuan Hong calmamente. “Eu disse que unificaria as Planícies Centrais.”


“E depois?” Tuoba Yan perguntou mais uma vez.


“Fazer com que todas as pessoas sob o céu vivam bem”, respondeu Yuan Hong.


Yuan Hong esboçou um sorriso forçado. Já fazia muito tempo que não sorria. Em seu rosto, maduro para a idade, as sobrancelhas estavam sempre franzidas. Ter enfrentado cedo demais as intrigas tortuosas da corte e as crueldades do governo fez com que estivesse sempre carregado de preocupações, como se o céu acima dele estivesse sempre coberto por um manto de nuvens escuras.


Tuoba Yan pensou seriamente por um longo tempo. Yuan Hong tirou um token de madeira sobre a qual, em caracteres dourados, se lia: “Guarda do Exército Proibido da Grande Wei”.


“Está bem, vou com você dar uma olhada”, Tuoba Yan finalmente concordou com Yuan Hong.


(Parte V)


No dia em que partiu de Pingcheng, começou a cair uma chuva fina.


Tuoba Yan vestiu a armadura do Comandante da Guarda Imperial. Sua armadura dourada realçava seu porte ereto e esguio, deixando apenas seu rosto atraente com um leve tom cinza-azulado. Sob o brilho do sol, seus olhos profundos assemelhavam-se a antigas contas de liuli, cujo brilho fora atenuado pelo passar do tempo.


Yuan Hong pensava que ele sentiria saudades do túmulo na montanha; afinal, era ali que ele havia dormido por noventa e quatro anos.


Mas Tuoba Yan não sentiu — ele apenas lançou um olhar distante para o sudoeste ao sair de Pingcheng.


“Quem está enterrado lá?” Yuan Hong aproximou-se dele.


“Ninguém”, respondeu Tuoba Yan casualmente, e então sorriu: “Tudo isso ficou no passado.”


Yuan Hong sentia grande curiosidade por ele. Será que esse amigo imortal e eternamente jovem também já teve familiares e amantes? No entanto, quando questionado sobre o passado, ele mantinha sigilo absoluto.


Yuan Hong cresceu dia após dia, governando o reino do Norte rumo à prosperidade e estabelecendo um novo império que abrangia as Planícies Centrais ao norte do Rio Yangtzé.


Tuoba Yan seguiu aquele que outrora fora um pequeno imperador até Luoyang, assumindo com lealdade o cargo de Comandante da Guarda Imperial. Não havia no mundo ninguém mais adequado para o cargo do que ele. Ele não precisava comer, nem precisava dormir; quando o imperador tratava dos assuntos de Estado, ele permanecia de pé ao seu lado; quando o imperador se recolhia para descansar, ele montava guarda à porta do quarto.


Com o tempo, as pessoas do palácio acabaram se acostumando à sua presença.


Ele não envelhecia nem morria, mas Yuan Hong, por outro lado, envelhecia. Muitos anos se passaram e Tuoba Yan continuava exatamente como antes, enquanto Yuan Hong já havia passado dos trinta anos e se tornado mais maduro.


Certa noite, uma leve chuva caiu em Luoyang. Tuoba Yan ficou sob o beiral observando a noite, enquanto Yuan Hong tossiu algumas vezes e saiu do quarto.


“Vá fazer companhia à sua esposa”, disse Tuoba Yan, voltando o olhar para Yuan Hong.


“Tive vontade de sair para caminhar um pouco”, respondeu Yuan Hong, com o manto sobre os ombros e a voz carregada de cansaço.


“É sempre bom ter a companhia da esposa”, disse Tuoba Yan, com um sorriso nos olhos.


Yuan Hong disse: “Eu queria conversar com você.”


Tuoba Yan lançou-lhe um olhar confuso. Este ano, ele se sentia mais jovem que Yuan Hong; antes, ele era um jovem, e Yuan Hong era uma criança; agora Yuan Hong era um homem adulto, enquanto a mente de Tuoba Yan parecia jamais ter mudado, exatamente como a de um irmão mais novo.


Yuan Hong sempre quis perguntar a Tuoba Yan sobre seu passado, mas todas as vezes em que as palavras chegavam à ponta da língua, por alguma razão, ele não conseguia proferi-las — e esta noite não era diferente.


“Um anel”, Yuan Hong notou o anel na mão de Tuoba Yan.


Tuoba Yan murmurou um "hum" suave em confirmação.


Yuan Hong perguntou: “Foi alguém que você amava que te deu?”


Tuoba Yan balançou a cabeça e disse: “Um exorcista chamado Chen Xing.”


“Um exorcista?” Yuan Hong perguntou.


“Meu irmãozinho”, disse Tuoba Yan, olhando para a noite chuvosa com um ar ausente. “Isso foi há cem anos.”


“Ele morreu?” Yuan Hong perguntou.


“Se ainda estiver vivo, certamente deve estar muito, muito velho”, respondeu Tuoba Yan.


“Era seu amigo?” Yuan Hong perguntou novamente.


“Sim.” Naquela noite, Tuoba Yan estava estranhamente mais falante. “Você conhece Xie An?”


Yuan Hong, naturalmente, conhecia. Havia muito tempo que, através dos livros de história, ele sentia uma profunda admiração por Xie An, Fu Jian e aquela batalha de abalar os céus e a terra no Rio Fei.


“Xie An tornou-se um imortal”, disse Tuoba Yan.


Yuan Hong assentiu levemente e perguntou em seguida: “Aquele Feng Qianjun que você me pediu para procurar da última vez, ele também é seu amigo?”


Tuoba Yan assentiu com toda a seriedade. O Feng Qianjun que ele pediu para Yuan Hong procurar já não pertencia mais ao mundo mortal; e em Jiangnan, ficava o túmulo de sua amada.


“E para onde foi Chen Xing?” Yuan Hong perguntou novamente.


“Partiu para o mar com Shulü Kong”, respondeu Tuoba Yan, após refletir um pouco. “Devem ter ido para a Montanha Imortal de Penglai, suponho? Já Xiao Shan e Lu Ying partiram para as Regiões Ocidentais e faz muitos anos que não retornam.”


Yuan Hong não pôde deixar de perguntar: “Shifu, existem realmente yao neste mundo?”


“E eu não sou um?” Tuoba Yan respondeu, com um sorriso leve.


Yuan Hong sentiu-se como se tivesse voltado à infância e explicou: “Eu quis dizer… aquelas coisas sombrias, que devoram pessoas, que trazem o caos ao mundo…”


“Nascer num tempo em que os yaos não pisam no mundo dos mortais é uma coisa boa.”


“O que está escrito neste anel?” Yuan Hong não resistiu a perguntar novamente. “É algo para te selar?”


Tuoba Yan respondeu: “Isto é um artefato mágico. Quando ele gira, é capaz de fazer o tempo voltar, permitindo que todas as coisas retornem ao passado, desfazendo o fluxo de causa e efeito para que a história se desenrole novamente.”


Tuoba Yan pousou a mão direita sobre o dedo anelar da mão esquerda, cobrindo o anel.


“O que está escrito nele?” Yuan Hong aproveitou a oportunidade do comportamento incomumente falante de Tuoba Yan naquela noite e perguntou mais uma vez.


“O tempo é infinito, e apenas a Lâmpada do Coração brilhará eternamente como a luz do dia”, respondeu Tuoba Yan, por fim.


(Parte VI)


Yuan Hong faleceu.


Aos trinta e três anos, ele liderou pessoalmente uma expedição militar⁸; e ao retornar, teve uma febre alta.


“Shifu…” Em seu leito de morte, Yuan Hong chamou Tuoba Yan para perto de si e sussurrou: “Shifu, confio o Grande Wei a…”


“Não”, sussurrou Tuoba Yan no ouvido de Yuan Hong, “Shifu está muito ocupado.”


Yuan Hong, ofegante, fitou o rosto de Tuoba Yan atentamente.


“Eu sou… o Grande Chanyu dos Quatro Mares.”


Esse título não era usado há muitos anos. Agora, todo governante do Norte podia se autointitular o Grande Chanyu.


“Eu sei”, disse Tuoba Yan.


Yuan Hong segurou a mão de Tuoba Yan, apertando o seu anel.


“Não, não pode ser”, disse Tuoba Yan novamente. “Meu discípulo, seu Shifu já o usou uma vez por você.”


Yuan Hong tremia, tossindo violentamente. Tuoba Yan pressionou sua mão sobre as costas da mão de Yuan Hong.


“Shifu… eu vou morrer”, disse Yuan Hong com dificuldade. “Salve… me salve.”


Tuoba Yan sussurrou: “Você terá um sonho muito, muito longo, meu discípulo. O seu fardo foi finalmente retirado.”


Tuoba Yan envolveu Yuan Hong num abraço e o aconchegou contra o peito. A tosse dolorosa de Yuan Hong foi se acalmando pouco a pouco, até que ele fechou os olhos. Nesse último instante, teve um sonho muito, muito longo.


Ele sonhou que morreu aos dezesseis anos e que rebeldes invadiram Pingcheng, massacrando seu povo como uma maré. O mundo mergulhou no caos mais uma vez, as terras do Norte foram devastadas e as chamas da guerra consumiam as aldeias.


Tuoba Yan saiu do mausoléu, olhou para o céu e encontrou o olhar do espírito de Yuan Hong.


O qi espiritual do Céu e da Terra fluía para o seu corpo. O espírito de Yuan Hong brilhou e o contorno tênue de uma divindade apareceu atrás dele.


Tuoba Yan ergueu a mão esquerda em direção ao céu. O anel em seu dedo anelar brilhou suavemente, como se absorvesse um poder grandioso e inesgotável do próprio céu e da terra. Em seguida, um lampejo se libertou, e a Grande Roda do Céu e da Terra começaram a girar, e o tempo voltou rapidamente: o inverno tornou-se outono, as folhas caídas voaram de volta aos galhos; os rios fluíram ao contrário e a chuva retornou às nuvens…


Tudo se apresentava como um espetáculo estranho, culminando naquela noite em que enfrentou o exército rebelde esmagador.


“Já usei uma vez, discípulo.”


Dentro do mausoléu de Changling, Tuoba Yan tomou em seus braços o cadáver de Yuan Hong. A Lâmpada do Coração já havia se dissipado daquele corpo de carne e retornou ao Céu e à Terra, partindo em busca de um novo hospedeiro.


Tuoba Yan, carregando Yuan Hong, embarcou na jornada para o Norte. Ele voltaria àquela tumba centenária e sombria.


Antes de deixar Luoyang, ele olhou mais uma vez para o oeste, na direção de Chang’an — uma nova era se aproximava, e naquelas terras nas Planícies Centrais, os primeiros raios da aurora finalmente chegariam.


—— Fim do Capítulo Extra·  Olhando Para Trás em Chang’an, Bordados se Amontoam ——


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Notas:


1 断龙石 (Duànlóngshí), literalmente “Pedra que Corta o Dragão”. É a pedra de fechamento final de uma tumba imperial, projetada para nunca mais ser aberta.


2 北魏拓跋氏 (Běiwèi Tuòbá shì): A Dinastia Wei do Norte, fundada pelo Clã Tuoba


3 平城 (Pingcheng): É a atual cidade de Datong, na província de Shanxi.


4 皇兴元年 (Huángxīng yuánnián): foi usado pelo imperador Xianwen (献文帝) da dinastia Wei do Norte (北魏), por volta do ano 467 d.C.


5 太和元年 (Tàihé yuánnián): O primeiro ano da era Taihe corresponde ao ano 477 d.C. É o auge da dinastia Wei do Norte sob o comando do próprio Yuan Hong (Imperador Xiaowen).


6 冯太后 (Féng Tàihòu): A Imperatriz Viúva Feng foi uma das mulheres mais poderosas da história chinesa. Ela governou como regente durante a infância de Yuan Hong. Historicamente, era comum que mães de herdeiros fossem forçadas ao suicídio na Dinastia Wei do Norte para evitar que o clã materno tomasse o poder (um sistema brutal chamado "matar a mãe para estabelecer o filho").


7 Este poema aparece no capítulo 12.


8 O Imperador Xiaowen (Yuan Hong) realmente faleceu aos 33 anos (em 499 d.C.), logo após uma expedição militar contra o Sul.


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Flor: Tuoba Yan 🥰😢


Eu pensei que ele ficaria com Sima Wei e o Rei Fantasma e não sozinho num mausoléu~~


Queria muito saber dos outros Reis Demônios da Seca também rs


Os extras ainda não acabaram!


Faltam agora os do Meio Outono!


Vou ver se trago todos na próxima semana! 


Até mais! 😘





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[Novel] Dinghai Fusheng Lu - Extra 03

 


Extra Livro Simplificado 02 - Arco de Lu Ying: 

A Despedida no Portão Leste de Luntai



⚠️Aviso de conteúdo:

Este conteúdo extra está disponível apenas no terceiro volume da versão física simplificada.



N/T: O título 轮台东门送君去 é uma citação do famoso poema Bai Xue Ge Song Wu Pan Guan Gui Jing (白雪歌送武判官归京), do poeta Cen Shen, da dinastia Tang.


⊹⊱✫⊰⊹


No vasto deserto, os sinais de fogo alcançavam o céu.


“Dong—— Dong—— Dong——”


Junto à torre de vigia de barro, o sino enferrujado badalou. Os defensores de Layisu¹ assustaram-se e despertaram num instante; ao longe, viram a fumaça e a poeira subindo: um exército imenso cobria o céu e dominava a terra enquanto avançava em direção a eles. Os defensores da cidade tocaram o sino como se suas vidas dependessem disso, fazendo com que os moradores daquele vilarejo corressem para se esconder em suas casas, um após o outro.


Logo em seguida, uma chuva de flechas caiu sobre a cidade, preenchendo todo o céu. Os defensores giraram o guincho, e o portão de madeira, equipado com espigões afiados, fechou-se com um estrondo.


Lu Ying removeu a flecha de uma das vítimas. Após a flecha produzir um clang ao cair no prato, ele foi lavar as mãos imediatamente. A pessoa que ele tratava era um jovem soldado, que não parava de se contorcer enquanto jazia no leito. A bacia estava tingida de vermelho pelo sangue; Lu Ying lavou as mãos lentamente enquanto o toque distante dos sinos incitava as pessoas a buscarem refúgio.


“Lu-xiansheng!” Um homem Semu² invadiu o recinto e disse ansiosamente: “Os Dayuan³ estão chegando! Temos que ir!”


Lu Ying sinalizou para que o homem Semu olhasse para o jovem deitado: seu peito e abdômen estavam expostos, e ele balbuciava algo em meio ao coma. A flecha cravada em seu abdômen já havia sido removida, mas todo o seu corpo ainda ardia em uma febre alta.


O homem Semu estava envolto em vestes de linho, possuía um porte alto e robusto, e apoiava-se em uma bengala. Ele sacou uma espada de dentro da bengala; a lâmina reluziu com um brilho frio.


Era tarde demais. Em breve, as fortificações de Layisu seriam rompidas, e esta torre de sinalização, que existia desde a era Han, seria consumida pelas chamas da guerra.


“Pegue-o no colo, Di”, disse Lu Ying. “Leve-o para casa, deixe-o retornar para junto de seus pais.”


O homem semu chamava-se Diógenes. Ele tinha um cabelo castanho-escuro e rebelde, um par de olhos verde-turquesa, um nariz proeminente e olhos fundos, um rosto esguio, um maxilar pálido e bem barbeado, além de um pomo de adão bem definido. Ele sabia que, não importava o que fizesse, jamais convenceria Lu Ying a partir — aquele homem era mais obstinado que a própria torre de vigia. Sem escolha, Diógenes tomou o jovem nos braços e abriu a porta. Lu Ying sentou-se no quarto e bebeu um pouco de água, ouvindo os sons distantes do combate do lado de fora da cidade se aproximando cada vez mais.


Um cavaleiro de Dayuan invadiu o quarto com uma expressão cruel no rosto. Ao deparar-se com Lu Ying, vestido em suas vestes brancas, o homem abriu um sorriso mal-intencionado; guardou sua cimitarra e avançou para arrastá-lo dali. Lu Ying limitou-se a erguer a cabeça e o encarou.


Poucos instantes depois, Lu Ying empurrou a porta e saiu. Diante dele, a pequena cidade de Layisu já estava inundada de sangue, e havia cadáveres por toda parte. Os defensores mortos em combate estavam encostados contra as paredes, tingindo a parede de vermelho com seu sangue. Lu Ying estendeu a mão para sentir o pescoço de um ferido e suspirou, naquele instante, ouviu-se mais uma vez o sino que vinha da montanha.


“Xiansheng!”, gritavam as pessoas que fugiam. “Suba a montanha! Rápido, fuja! Eles estão vindo!”


Lu Ying virou a cabeça em direção às muralhas. Os muros de terra estavam quase desmoronando; os homens de Dayuan haviam começado a atear fogo, e colunas de fumaça densa subiam aos céus. As chamas queimavam ao longo das muralhas, tornando as paredes de barro incandescentes e condensando-as em fragmentos cintilantes de esmalte colorido.


◈ ◈ ◈


A vila de Layisu ocupava uma área de não mais que mil e quatrocentos mu⁴. Era um pequeno povoado de guarnição militar sob a jurisdição de Luntai. No terceiro ano da era Taichu⁵ do Imperador Wu⁶, Li Guangli atacou Luntai e, estabeleceu ali o Protetorado das Regiões Ocidentais⁷, para governar todos os estados daquela região. Luntai, na língua uigur, significa "águia-de-patas-emplumadas". Com a separação do governo durante o período dos Três Reinos, no final da Dinastia Han, e sua reunificação pela Dinastia Jin posteriormente, após o Período Taikang⁸, os Jins gradualmente perderam a força necessária para governar Luntai. Foi assim que o Protetorado das Regiões Ocidentais tornou-se, dia após dia, cada vez mais desconectado das Planícies Centrais.


Hoje em dia, após a conclusão da Revolta dos Cinco Hus, Luntai já havia se transformado em uma fortaleza habitada por pessoas de diversas etnias. Por gerações, seus defensores guardaram a fronteira das Planícies Centrais, esperando eternamente por uma ordem de substituição que nunca chegaria. Com o grande caos assolando as Planícies Centrais e a ascensão de várias forças armadas na região fronteiriça, facções surgiam e desapareciam umas após as outras; a cavalaria dayuan também atravessou o Planalto Pamir⁹ e deu início à invasão do Protetorado das Regiões Ocidentais.


“Eu prefiro morrer a me render!” gritou um defensor da cidade.


Lu Ying seguiu as pessoas e correu em direção à montanha. A montanha não era alta; na presença do Mt. Tengri¹⁰ e do Mt. Khoro¹¹, a “montanha” atrás da pequena cidade de Layisu mal passava de uma pequena encosta de terra. Nessa encosta, havia um altar a céu aberto, onde se cultuava a estátua dos uigures.


“Xiansheng!”


“Xiansheng!”


As crianças da cidade correram para se esconder atrás de Lu Ying, que parecia ser a única pessoa em quem podiam confiar.


“Onde está seu pai? E sua mãe?” Lu Ying perguntou às dezenas de crianças. “E o seu irmão mais velho?”


As crianças apontaram para a cidade e o choro foi diminuindo aos poucos. Lu Ying sabia que as famílias das crianças, homens e mulheres, tinham ido ajudar a defender a cidade. Layisu já havia acendido um sinal pedindo ajuda à cidade principal de Luntai, mas os reforços da capital eram limitados; os que chegaram não passavam de três mil homens, enquanto diante deles a cavalaria de Dayuan somava mais de dez mil.


“Xiansheng”, Diógenes, o Semu, abriu caminho pela multidão e aproximou-se de Lu Ying. “Temos que ir. Tínhamos concordado antes que não ficaríamos aqui por muito tempo.”


Lu Ying olhou para o sopé da colina; metade de Layisu já havia sido consumida por um mar de chamas.


“Vamos esperar mais um pouco”, disse Lu Ying em voz baixa. “Talvez a situação ainda possa melhorar.”


Diógenes suspirou, mas não insistiu; sentou-se ao lado de Lu Ying. As crianças se aglomeraram ao redor, sentando-se no chão junto aos joelhos de Lu Ying. Algumas encostavam a cabeça em suas pernas, e Lu Ying acariciava seus cabelos gentilmente, dando-lhes coragem.


◈ ◈ ◈


Ao cair da noite, o exército Dayuan recuou temporariamente, e uma lua crescente surgiu, sua luz fria iluminando este mundo marcado por cicatrizes.


Após romper as muralhas da cidade, a cavalaria de Dayuan recuou para fora da cidade, onde montaram acampamento para descansar e recuperar as forças. Dos dois mil defensores de Layisu, a maioria já havia tombado, restando apenas oitocentos homens. Ainda assim, mantinham-se leais e firmes ao pé da montanha, erguendo uma linha de defesa improvisada, à espera dos reforços que estavam por vir — ou do massacre total ao amanhecer.


Ouviam-se lamentos por toda parte até a segunda metade da noite, quando os gritos foram diminuindo gradativamente.


Diógenes sentou-se diante da fogueira e pôs-se a organizar suas anotações sobre as montanhas, planícies e grandes rios das Planícies Centrais. As anotações também registravam suas estradas, cidades, vilas, produtos típicos locais, como sedas, sais, jades, rouges, objetos de laca, chás e especiarias, além de criaturas sobrenaturais fantásticas e bizarras, e também seus grandes e magníficos edifícios. Este era um registro precioso que ele manteve durante três anos de aventuras pelas Planícies Centrais em meio ao caos da guerra. O Grande Império Jin do Leste já havia sido devastado pelas chamas do conflito com os bárbaros.


Ele e Lu Ying se encontraram em Dukhan¹². Ele ensinou latim a Lu Ying, enquanto Lu Ying traduzia para ele as antigas inscrições em selo das Planícies Centrais da Terra Divina. Eles viajaram juntos para Luntai e, agora, preparavam-se para partir mais uma vez, rumo ao extremo oeste.


“Xiansheng”, uma criança disse baixinho. “Rezar adianta?”


Lu Ying respondeu: “Podem orar, se quiserem. Pode não adiantar, mas ao menos a prece há de lhe trazer coragem.”


“Por que não adianta?” Outro menino perguntou. “Será que Deus não nos ouve?”


Lu Ying não respondeu. A criança que havia falado antes dirigiu-se ao menino: “Ele escuta, sim. Mas não significa que virá nos salvar.”


“Por quê? Porque não somos devotos o bastante?” Outra pessoa disse.


“Deus tem misericórdia pelo mundo”, Diógenes ergueu os olhos de suas notas e disse em um uigur rudimentar, “mas os mortais têm as tribulações dos mortais, pelas quais vocês precisam passar por conta própria. ‘Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus¹³’.”


Diógenes fechou seu caderno e olhou para Lu Ying, com os olhos carregados de uma pergunta: Quando partiremos?


Lu Ying disse para as crianças: “Vamos rezar, e talvez Deus ouça nossas palavras, tá bom?”


Então as crianças se levantaram e, na escuridão da noite, seguiram Lu Yin até a estátua. Diante dela, inúmeras lâmpadas a óleo foram acesas, e os pequenos, um a um, prostraram-se em prece.


Diógenes segurou com firmeza o pulso de Lu Ying e sussurrou: “Xiansheng, os homens de Dayuan retomarão o cerco assim que o dia amanhecer. Não virão reforços! Você não pode salvar ninguém nesta cidade! Precisa dar um jeito de proteger a si mesmo!”


Lu Ying assentiu com a cabeça e sorriu para Diógenes, que havia perdido completamente a paciência.


◈ ◈ ◈


A Estrela d'Alva subia lentamente do leste, e uma cor branca como mármore apareceu no horizonte. O som de uma trombeta foi ouvido do lado de fora da cidade —— a batalha decisiva por Layisu havia começado. Os últimos oitocentos defensores, em um ato de bravura trágica, empunharam suas armas enferrujadas e entoaram a balada das Regiões Ocidentais:


“Todas as coisas feitas de cinzas às cinzas retornarão, e o pó ao pó…”


“Eu me tornarei um com esta areia soprada, e o vento levará minha voz para a terra distante… Dai-nos o Espírito Santo que nutre a passagem do tempo, assim como a mãe terra…”


“O Pāramitā da Luz e da Sombra, ó minha divindade…”


Diante da estátua, Lu Ying disse suavemente: “Que possais tratar a todos com a mesma bondade e guiar os perdidos na travessia deste rio.”


As crianças ouviram os gritos vindos de longe, imediatamente seguidos pelos rugidos de dez mil cavalos em disparada e pelo desmoronamento das muralhas de terra. Sob o ataque de dez mil pessoas, as casas de Layisu foram facilmente destruídas, desmoronando como se atingidas por um furacão. Os cascos implacáveis estavam prestes a esmagar aquela torre de vigia que existia há quatrocentos anos; os homens de Dayuan logo brandiriam suas lâminas para massacrar crianças que sequer alcançavam a altura das rodas das carroças, haveriam de derrubar a estátua sagrada dos habitantes de Layisu e transformar todo o lugar em uma ravina sangrenta.


“Se me ouvires”, Lu Ying ergueu os olhos e disse suavemente, “eu te imploro, livra-nos do sofrimento dos mortais.”


Foi nesse exato momento que a Estrela da Manhã¹⁴ brilhou intensamente e então irrompeu em uma luz deslumbrante. O brilho leitoso da aurora desapareceu num instante, e a Via Láctea, que estava prestes a desaparecer, transformou-se em estrelas que caíram por todo o céu. Em meio ao som da trombeta, vindo da distância, surgiu o longo uivo de uma fera.


Diógenes levantou-se incrédulo e olhou para o leste.


As vestes brancas de Lu Ying flutuavam ao vento da manhã. Ele permanecia ajoelhado diante da escultura e, ao abrir os olhos, deparou-se com uma sombra enorme sob a abóbada celeste oriental.


As crianças, uma após a outra, abriram os olhos e irromperam em gritos de excitação!


Em um instante, os cavalos de Dayuan entraram em pânico, relinchando sem parar em meio ao caos.


“Eu ouvi.” A voz de um homem ecoou por todo o céu.


Um lobo gigantesco, de um azul índigo, atravessou o rio de estrelas e, em seguida, soltou um rugido. O uivo do lobo varreu tudo como um mar enfurecido. O lobo gigante tinha dez zhang* de altura e avançava pelo céu, pisando o vazio. Sob suas patas, as casas se partiam e desmoronavam como torrões de terra, e as paredes restantes que ainda não haviam caído ruíram completamente sob seu poder.


(n/t: *dez zhang é cerca de 33m; um zhang tem aprox 3,3m)


“Eu te ouvi.” A voz do homem ressoou mais uma vez. “Eu ouvi você me chamando.”


O lobo então investiu contra a formação de batalha, investindo contra a tropa de mais de dez mil cavaleiros dayuan. Todos os inimigos, naquele instante, ficaram paralisados de pavor. Soaram por toda parte os gongos de retirada e os gritos de agonia. Os renomados cavalos com que Dayuan dominava as Planícies Centrais da Terra Divina não passavam, diante da aura do lobo, de criaturas frágeis e indefesas: relinchavam de terror e disputavam em fuga desordenada. O lobo semicerrou os olhos e fitou a distância com ar preguiçoso. A circunferência de pelo branco puro ao redor do seu pescoço tornava o seu rosto mais elegante e imponente.


“Deus Lobo!” Os habitantes de Layisu ajoelharam-se e prestaram homenagem, voltados para o local onde o lobo gigante estava. A batalha chegou ao fim num instante. Os cavaleiros dayuan, pisoteando uns aos outros, debandaram como a maré baixa. O lobo gigante agarrou o líder deles e seu cavalo com a boca e os arremessou para longe. O líder dos dayuan caiu pesadamente no chão, num baque surdo de corpo se chocando contra o chão.


Lu Yin olhou para cima para a estátua no alto da encosta: era o Lobo das Montanhas Tengri, aquele que nutriu os ancestrais dos uigures.


A silhueta do Lobo Cinzento desvaneceu sob a luz do sol, deixando apenas a silhueta alta e ereta de um jovem de vinte anos. O rapaz estava com a parte superior nua, exibindo o peito e o abdômen de músculos definidos. Vestia calças marciais e carregava uma adaga na cintura. Seus cabelos estavam trançados em várias tranças finas que estavam todos presos para trás, caindo-lhe sobre a nuca. No pescoço, portava um pingente de jade e ouro atado por um cordão vermelho.


Em seus olhos, havia uma mistura de indiferença e provocação. Lançou um olhar àquele campo de batalha caótico e, em seguida, virou-se e dirigiu-se montanha acima.


“Eu te ouvi”, disse ele em direção à montanha.


“Xiao Shan”, disse Lu Ying, da montanha, “você veio, afinal.”


Lu Yin deixou Layisu e chegou à cidade de Luntai, onde comprou alguns suprimentos básicos no mercado. Dali em diante, haveria uma jornada ainda mais longa: ao lado de Diógenes, ele atravessaria o Planalto de Pamir rumo a outro império grandioso, situado nos confins do mundo, para onde aquele homem semu o guiava.


“Quem é ele?” Xiao Shan avaliou Diógenes com o olhar. Desde o instante em que reencontrou Lu Yin, ele mantinha uma certa desconfiança em relação a aquele homem.


Diógenes, por sua vez, sentia um temor profundo de Xiao Shan. Ele não sabia de onde vinha aquele lobo gigante, mas tinha certeza de que estava relacionado ao jovem que estava diante dele.


“Ele é romano”, disse Lu Ying a Xiao Shan. “Ele veio de uma terra distante para as Planícies Centrais e agora está voltando para casa. Eu o conheci em Dunhuang há quatro anos e decidi atravessar o Mar Negro com ele para conhecer sua terra natal.”


Xiao Shan examinou Lu Ying atentamente. Quatro anos haviam se passado e Lu Ying só tinha chegado até ali; ele nem sequer tinha saído das Planícies Centrais.


Lu Ying sorriu enquanto Xiao Shan o observava.


Xiao Shan, então, ajustou a sela no camelo de Lu Ying e colocou comida, água e outros suprimentos sobre ele.


“Você cresceu”, disse Lu Ying. “Está mais alto do que eu.”


Xiao Shan virou a cabeça para o lado e inclinou-a ligeiramente para olhar para Lu Ying, que estava ao seu lado.


Ele já tinha vinte anos e era mais alto do que Lu Ying, chegando até a alcançar Xiang Shu em sua juventude. A ingenuidade da infância havia desaparecido, dando lugar à determinação e à serenidade de um jovem adulto. Seu porte era o de um adulto bem formado; embora não fosse tão robusto quanto a maioria dos Xiongnu, seu corpo esguio transbordava uma força explosiva. Os contornos nítidos de seu abdômen e de sua cintura evidenciavam a agilidade e um vigor comparáveis aos de um lobo.


Pelo contrário, Lu Ying permaneceu o mesmo ao longo dos anos, sem nunca ter mudado; diante de Xiao Shan, ele passou de um ancião a um jovem.


Lu Ying disse novamente: “Você já é um adulto.”


“Sim”, respondeu Xiao Shan, “sou um adulto. Gege realizou minha cerimônia de maioridade.”


“Ver que você está bem me tranquiliza.” Lu Yin observou com atenção o rosto de Xiao Shan, e em seus olhos havia um calor afetuoso. “Agora, volte.”


“Eu não vou voltar”, disse Xiao Shan a Lu Ying. Após ajustar a sela, ele montou no camelo com agilidade e deu um tapinha no pescoço do animal, sinalizando para que Lu Ying fizesse o mesmo. Em seguida, gritou para o homem não muito distante: “Estrangeiro! Vamos partir!”


Lu Ying ainda tentou dizer algo, mas Xiao Shan o interrompeu: “Você me chamou e agora quer que eu vá embora?”


Lu Ying não teve escolha a não ser montar em seu camelo e dizer: “Eu não te chamei. Eu estava apenas fazendo uma prece aos deuses.”


“Eu sou o deus”, disse Xiao Shan, cavalgando em um ritmo calmo e constante enquanto falava com Lu Ying.


◈ ◈ ◈


A caravana de camelos, carregada com as especiarias e produtos orientais adquiridos por Diógenes, seguia pelas estradas sinuosas de montanha em direção ao planalto. A viagem transcorreu de forma surpreendentemente tranquila: não foram atacados por nenhuma alcateia de lobos. Em meio à neve e ao vento, Xiao Shan segurava as rédeas, caminhando logo atrás de Lu Ying pelos trechos mais perigosos e íngremes. Mesmo quando um único passo em falso poderia significar a queda em um abismo sem fim, os olhos de Xiao Shan permaneciam fixos em Lu Ying.


Diógenes perguntou: “Jovem, você não está com frio?”


“Você ainda prefere não usar roupas”, disse Lu Ying depois de pensar um momento. “De não vestir nada na parte de cima.” 


O corpo de Xiao Shan era envolvido por uma aura de calor, como se fosse uma estrela em chamas. Ele mantinha o hábito da infância de permanecer com a parte superior nua; se ainda vivesse isolado nas profundezas das florestas montanhosas como antes, talvez não quisesse usar sequer as calças de caçador, contentando-se em amarrar uma saia de pele ao redor da cintura e dar o assunto como resolvido.


Apesar da exposição prolongada ao sol escaldante, a pele de Xiao Shan não estava nem bronzeada nem vermelha; mantinha um tom de trigo saudável. Os ombros e as costas desse homem adulto exalavam um aroma leve e reconfortante.


Diógenes observava Xiao Shan, aproximando-se dele o máximo possível para buscar calor, mas sem invadir seu espaço pessoal. Eles haviam acendido uma fogueira dentro da caverna, esperando a nevasca passar.


“É mais confortável assim”, disse Xiao Shan a Lu Ying. “Quem nasce nas pradarias é como uma fera. Você já viu alguma fera usando roupas?”


Ele estava mais falante do que antes e se expressava com maior fluidez, embora, ocasionalmente, passasse um longo tempo resmungando em língua Xiongnu para Lu Ying, que apenas o deixava falar sozinho à vontade.


Lu Ying não quis dar explicações detalhadas a Diógenes; limitou-se a dizer que Xiao Shan foi convocado por ele.


“Eu entendo”, disse Xiao Shan um pouco impaciente  a Lu Ying. “Eu sei falar a língua do povo Semu, só não quero falar.”


Lu Ying sorriu e disse: “Você é o Grande Chanyu que comanda os Quatro Mares, é claro que entende.” 


Os lábios de Diógenes se contraíram. Ele disse: “Então você é um deus.”


“Sim”, disse Xiao Shan. “É fácil convocar um deus, mas difícil mandá-lo embora. O sacerdote me convocou, mas quando eu vou embora depende do meu humor.”


Xiao Shan observava Lu Ying com aquele olhar que lhe era tão familiar: uma mistura da dependência de quando era criança com a preocupação mútua de quem divide a vida em família. Lu Ying percebia que Xiao Shan estava se contendo — reprimindo o impulso de se aproximar e deitar-se em seu abraço. Ele queria provar a si mesmo e a Lu Ying que já não era mais um menino; era um homem.


“E quanto a eles?” Lu Ying perguntou, iniciando um novo tópico de conversa.


“Eles estão todos lá”, disse Xiao Shan. “Gege está em Karakorum e às vezes vai para o Sul. Depois de deixar o Qinglu, eles decidiram ficar além da Grande Muralha.”


Lu Ying disse: “Não é bom para o Grande Chanyu deixar seu território tão facilmente.”


Xiao Shan retrucou: “Por que não? Nada vai acontecer mesmo.”


Aquela frase: “de qualquer forma, não há nada para fazer” tinha claramente o tom de Chen Xing. Lu Ying achou divertido; sabia que a alfabetização e a fala de Xiao Shan haviam sido ensinadas majoritariamente por Chen Xing, por isso sua entonação carregava o sotaque do povo Han.


“Todas as terras entre os Quatro Mares são território do Grande Chanyu”, disse Xiao Shan. “Todos os povos sob o céu são súditos do Grande Chanyu. Eu disse a eles que iria inspecionar meus domínios e visitar meu povo, e então parti. Ninguém tem o direito de me impedir.”


“Você está nos seguindo há muito tempo, não é?” Lu Ying disse calmamente.


Xiao Shan permaneceu em silêncio. Quatro anos atrás, ele já veio uma vez; naquela ocasião, Lu Ying estava em Dunhuang e não permitiu que ele o seguisse. Agora, passados quatro anos, os sentimentos de Lu Ying pareciam ter mudado.


“Você é uma pessoa cheia de conflitos”, disse Xiao Shan de repente. “Lu Ying, você está muito confuso.”


Lu Ying: “……”


Lu Ying percebeu de repente que Xiao Shan já não era mais o Xiao Shan de antigamente; ele havia realmente amadurecido, não apenas na aparência, mas também no interior.


Antes, Xiao Shan lhe obedecia em tudo. Era dócil e manso diante dele, mas feroz como um lobo com os estranhos. No entanto, neste reencontro, ele havia se tornado uma pessoa independente.


Esta foi a primeira vez que Lu Ying ouviu Xiao Shan fazer tal avaliação dele.


“Xiang Shu te ensinou muitas coisas”, disse Lu Ying com um sorriso.


“Não, ele não me ensinou”, respondeu Xiao Shan. “Foi algo que eu mesmo aprendi.”


Lu Yin sorriu e adicionou um pouco de lenha à fogueira.


Xiao Shan virou a cabeça e fitou os flocos de neve que flutuavam do lado de fora da caverna e disse: “Você queria ensiná-los ou não queria salvá-los?”


Lu Yin não entendeu e perguntou: “O quê?”


Xiao Shan sentou-se casualmente em frente à fogueira, brincando com a adaga na mão, e repetiu: “Estou falando do povo de Layisu.”


Lu Yin pensou um pouco e disse: "Não sei. Por que você diz que vivo em conflito?"


Diógenes continuava a fazer suas anotações. Em seu caderno, havia agora o retrato de um jovem com a parte superior nua, tão realista que parecia vivo — era justamente Xiao Shan.


“Aquela era uma guerra de mortais”, disse Lu Ying. “Deuses não devem interferir; nascimento, velhice, doença e morte, o mundo não é nada além disso. Sem a presença de yaoguai, aquele não era o meu campo de batalha.”


Xiao Shan disse: “Mas você me convocou.”


Lu Ying respondeu: “Quando os homens estão desesperados, sempre depositam suas fantasias nos deuses.”


Xiao Shan: “Então, eu deveria ter vindo ou não?”


Lu Ying pensou por um instante e disse: “A decisão é sua.”


Xiao Shan: “Se eu não tivesse vindo, todo o povo de Layisu teria morrido.”


Lu Ying assentiu e disse: “Sim, é assim que deveria ser.”


Xiao Shan: “Se eu não tivesse vindo, você os teria salvado?”


Lu Ying disse: “Logicamente, eu não poderia quebrar as regras para salvá-los, mas não tenho certeza.”


Xiao Shan: “É por isso que eu disse que você é uma pessoa conflituosa.”


“Layisu acabará caindo, mais cedo ou mais tarde. Se não cair hoje, cairá amanhã. Luntai será ocupada, o Protetorado das Regiões Ocidentais será tomado, e nem mesmo Dunhuang escapará. As chamas da guerra avançarão em direção a Shazhou e, em seguida, varrerão a Rota da Seda. Somente quando uma nova era chegar, o Clã Tuoba¹⁵ conseguirá reconquistá-la. Você não pode salvar Layisu, nem alterar o seu destino.” Xiao Shan despejou as palavras como uma rajada de flechas.


Lu Yin perguntou: “Você já… consegue ver o futuro através dos sonhos?”


Xiao Shan não respondeu, com um ar de total indiferença. Aquelas palavras causaram em Lu Yin um impacto muito maior do que o espanto diante do crescimento de Xiao Shan. O “Dao” que Lu Yin passara a vida inteira perseguindo, Xiao Shan o alcançara com tamanha facilidade!


“É por isso que você é uma pessoa conflituosa”, repetiu Xiao Shan.


Lu Ying admitiu, respondendo: “Você tem razão, por isso não fui para Kushinagar¹⁶, e sim escolhi ir a Roma. Meus desejos mundanos ainda não foram extintos.”


“O que é Kushinagar?” Xiao Shan perguntou, intrigado.


“É o lugar onde o Buda entrou em parinirvana”, respondeu Lu Ying por fim. “Durma, amanhã temos que seguir viagem.”


Xiao Shan apoiou a cabeça no próprio braço e fechou os olhos, mas sua percepção permanecia atenta a tudo ao seu redor, como se temesse acordar e descobrir que Lu Ying havia partido novamente sem avisar — assim como quatro anos atrás em Dunhuang, quando Lu Ying, com apenas um sonho, fez com que Xiao Shan dormisse por três dias e três noites sem perceber.


Naquele dia, Xiao Shan, assim como nesta noite, teimosamente se recusava a partir. Por isso, Lu Ying o fizera acreditar que havia dormido, acordado e levado Lu Ying de volta ao Sul. No entanto, Xiao Shan acordou no instante em que avistou a Grande Muralha em seu sonho, apenas para descobrir que ainda estava deitado na caverna de Dunhuang, enquanto Lu Ying já havia desaparecido sem deixar vestígios.


Desta vez, porém, Xiao Shan não se permitiu sucumbir ao mundo dos sonhos. Ele se esforçou para distinguir o sonho da realidade até que, na manhã seguinte, partiram novamente sob o vento e a neve que começavam a ceder. Adentraram o coração do Planalto Pamir, atravessaram o Mar Negro e seguiram em direção a Roma.


“Eu não sonho com coisas que nunca vi”, disse Xiao Shan a Lu Ying.


“Não se preocupe”, Lu Ying sorriu. “Desta vez, não te fiz sonhar.”


Xiao Shan tentou mais uma vez distinguir entre sonho e realidade através de sua conversa com Diógenes, e confirmar que não havia sido deixado para trás por Lu Ying.


“Que tipo de lugar é Roma?” Xiao Shan perguntou a Diógenes.


“A terra de todas as nações”, disse Diógenes. “A pedra fundamental do mundo civilizado.”


Xiao Shan sabia que Lu Ying também nunca tinha estado em Roma; ele não poderia criar um sonho que nem mesmo o criador de sonhos tivesse visto.


“Ele é um estudioso”, Lu Ying explicou a Xiao Shan. “Passou a vida inteira querendo encontrar o sentido último do mundo.”


“Uma teoria…”, disse Diógenes. “Meu ancestral foi um matemático famoso; ele estudava os números, mas eu estudo outro tipo, um tipo de…”


O conhecimento de Diógenes sobre a língua han era claramente limitado; ele pensava e repensava, mas tinha dificuldade em descrever sua área de estudo em han.


“Filosofia”, Lu Ying definiu com precisão.


“Sim”, disse Diógenes. “Tenho buscado amargamente, tanto no Ocidente quanto no Oriente.”


“A era da filosofia já passou”, “comentou Xiao Shan, casualmente. “Se você tivesse nascido seiscentos anos antes, talvez Laozi pudesse ter respondido aos seus pensamentos. Ele foi um santo e também um filósofo.”


Diógenes não esperava que aquele jovem, vestido como um bárbaro, conhecesse Laozi. Imediatamente, ele disse: “Encontrei muitas das obras dele, só que…”


“‘O Dao não possui benevolência; trata todas as coisas como cães de palha¹⁷’”, recitou Xiao Shan, ainda brincando com sua adaga em uma mão enquanto a outra conduzia o camelo pelo planalto sob a nevasca. “Exatamente como Lu Ying insiste em fazer.”


“Você leu muitos livros”, comentou Lu Ying com um sorriso. “Não posso mais julgá-lo com os meus olhos de antigamente.


Quando era criança, Xiao Shan detestava ler. No entanto, após assumir o cargo de Grande Chanyu, por algum motivo desconhecido, ele subitamente desenvolveu interesse pelos livros. Assim, sem que Chen Xing soubesse, ele terminou de ler todas as obras que havia na tenda.


“Houve também outro sábio antigo, chamado Confúcio”, acrescentou Diógenes.


“Kong Qiu¹⁸ se preocupava com o mundo presente”, disse Xiao Shan, ignorando o comentário anterior de Lu Ying para responder a Diógenes. “Lao Dan (Laozi) se ocupava com o vazio. Mozi, Zhuangzi, Xunzi, Han Feizi¹⁹… vocês ainda têm muito o que aprender.”


Diógenes assentiu. Contudo, nesta vida, ele não teria mais a oportunidade de retornar às Planícies Centrais; teria de deixar essa missão para os seus descendentes.


“Eu também sei que Zhuangzi teve um sonho”, disse Xiao Shan a Lu Ying. “No sonho, ele se transformou em uma borboleta, mas, ao acordar, não sabia se era a borboleta que havia se transformado nele, ou se era ele que tinha se tornado a borboleta. O que é verdade e o que é mentira? É como os seus sonhos, os meus sonhos e os sonhos de todo o mundo: são, ao mesmo tempo, reais e ilusórios.”


“Todas as coisas não passam de ilusão”, Lu Yin sorriu levemente. "Você está com medo de que o nosso reencontro também não passe de um sonho?"


“Eu preciso ser muito cuidadoso”, respondeu Xiao Shan.


◈ ◈ ◈


Eles chegaram ao Mar Negro; diante daquela imensidão de água, Xiao Shan pensou que ali fosse o fim do mundo. Quando ele decidiu deixar Chi Le Chuan, a resposta de Xiang Shu foi: “Vá, o mundo é muito maior do que você imagina. Chen Xing e eu também deixaremos nossa terra natal um dia.”


“Onde fica Roma?” Xiao Shan perguntou.


Diógenes respondeu: “Todos os caminhos levam a Roma. Por enquanto, só podemos ver a estrada; a verdadeira Roma ainda está muito longe.”


Roma era o ápice de um tipo de prosperidade completamente diferente do mundo vibrante e diversificado das Planícies Centrais. Se Jiankang era um paraíso celestial, como um palácio entre as nuvens, Roma era um suntuoso complexo de edifícios magníficos. Esta cidade gigantesca, com uma população de quase quatro milhões de habitantes, erguia-se à beira do Mediterrâneo, na Península Balcânica, proclamando sua solenidade a todo o mundo ocidental e ecoando, à distância de dezenas de milhares de li, a grandiosidade da Terra Divina, no coração do Oriente.


Era a primeira vez que Xiao Shan presenciava uma paisagem tão exótica e, embora estivesse preparado, ainda assim se sentia um tanto impressionado.


“Bem-vindos a Roma: o grande império, o outro mundo”, disse Diógenes. Ele se virou para os dois e fez uma reverência formal, estendendo a mão em um gesto de convite. “Devo me apresentar ao Imperador para relatar minha jornada. Por favor, fiquem à vontade na cidade; minha casa está no ponto marcado no mapa.”


Diógenes, apoiando-se em seu cajado e ainda coberto pela poeira da estrada, partiu em direção ao palácio imperial. No ano em que deixou Roma, ele tinha apenas dezenove anos; ao retornar, já completara vinte e sete.


◈ ◈ ◈


“Para onde vamos?” Xiao Shan perguntou a Lu Ying.


“Eu não sei. O que você acha?” Lu Ying respondeu.


Pela primeira vez em muito tempo, Lu Ying também se via mergulhado em incerteza. Ao longo daquela jornada, eles contemplaram o majestoso templo de Ahura Mazda* e conheceram os povos exóticos da costa do Mar Negro; agora, ao chegar a Roma, até mesmo o Deus Cervo sentia como se tudo aquilo fosse um sonho irreal.


(n/t: *é a divindade do Zoroastrismo persa)


Lu Ying olhou para Xiao Shan e disse: “Você decide.”


“Foi você quem quis vir para cá”, disse Xiao Shan.


“Sim”, admitiu Lu Ying. “Eu sempre fui uma pessoa indecisa, então vou seguir o que você disser.”


Xiao Shan deu um tapinha na própria barriga e disse: “Então vamos comer. Estou com fome.”


◈ ◈ ◈

Lu Ying começou a rir. Eles entraram na cidade e encontraram uma pousada; para sua surpresa, o latim de Xiao Shan era muito mais fluente que o seu. Roma era um ponto de encontro para pessoas com as mais variadas cores de olhos e cabelos, exatamente como a Chang'an da dinastia Han descrita nos registros históricos.

Ali, a Rota da Seda chegava ao seu ponto final; a partir dali, as mercadorias seguiam de Roma para Veneza, unindo-se a uma jornada de comércio marítimo ainda mais vasta. Xiao Shan acomodou Lu Ying no aposento e, em seguida, os dois foram a uma taverna, onde pediram cerveja e pratos típicos romanos.

“Saúde?” Xiao Shan disse, brindando com Lu Ying.


Beber também era algo que Lu Ying nunca lhe ensinara, mas agora Xiao Shan já sabia fazer de tudo. Ele se comunicava com naturalidade, sem qualquer traço daquela expressão defensiva de quando era criança; era como se, aos seus olhos, não houvesse diferença entre os seres — para ele, os povos das Regiões Ocidentais, os semu, os romanos e os han eram todos iguais.


“Saúde”, respondeu Lu Ying, rindo ao encostar sua caneca de cerveja na de Xiao Shan.


Xiao Shan deu um gole e, no mesmo instante, cuspiu a bebida, assim como Lu Ying.


Os dois: “……”


Os dois olharam para a bebida, depois um para o outro, e caíram na gargalhada ao mesmo tempo.


“Parece mijo de cavalo”, disse Xiao Shan, resignado. “A cor também é parecida.”


Lu Yin apoiou a testa numa das mãos, enquanto com a outra começava a comer o pão romano típico da região. Já Xiao Shan continuava a devorar carne como sempre fizera, manuseando com agilidade o garfo e a faca enquanto discutia com Lu Ying a melhor forma de saborear a refeição. Pouco depois, a taverna encheu-se de música e dança. Alguém pôs-se a tocar um instrumento de cordas, e os dois fizeram uma pausa na conversa para ouvir um pouco.


"No mundo mortal", disse Lu Ying, "depois desta viagem, ainda sinto que meus desejos mundanos não se dissiparam."


Xiao Shan respondeu: "Então, você pretende voltar?"


“Eu não sei”, respondeu Lu Ying, observando o brilho do garfo de estanho em sua mão. “Xiao Shan, como você alcançou o Dao²⁰?”


“Eu? Alcançar o Dao?” Xiao Shan ergueu as sobrancelhas, como se tivesse ouvido uma piada. “Eu não alcancei nada. E mesmo que tivesse alcançado, eu não teria a menor ideia de como aconteceu.”


“No entanto”, disse Lu Ying, “você quase provou o Grande Dao. Do contrário, seria incapaz de enxergar o futuro através dos sonhos. Mesmo o Kun, que outrora serviu de montaria para Zhuangzi, conseguiu chegar, no máximo, a este estágio. Poderia alguém cujo coração mortal ainda não se extinguiu ser capaz de ver através do Grande Dao?”


“Eu já disse, não sei”, respondeu Xiao Shan. “Nunca me importei com isso.”


Xiao Shan era jovem demais; pela contagem humana, acabara de completar vinte anos. Lu Ying não sabia o que havia acontecido com ele durante seus dias além da Grande Muralha; talvez tivesse aprendido lições sobre o mundo dos homens muito mais profundas do que as ensinadas nas montanhas de Carosha; talvez tivesse obtido de Xiang Shu e Chen Xing uma força ainda mais poderosa, o que lhe permitisse vislumbrar a verdadeira natureza do céu e da terra.


Ou talvez nada tivesse acontecido; simplesmente, de forma natural, Xiao Shan adquiriu a capacidade de contemplar o passado, o presente e o futuro.


Lu Ying fez muitas perguntas a Xiao Shan, mas ele apenas respondeu calmamente que era assim mesmo. Ele não havia tentado escapar do mundo mortal, nem se dedicado ao cultivo com qualquer apego particular; tudo havia se desenrolado naturalmente.


“Ei.” Um saxão²¹ se aproximou, batendo uma caneca de cerveja na mesa diante dos dois e derramando espuma.


“Quem é você?” perguntou o saxão, sorrindo para Lu Ying. “O que faz aqui? Um oriental? Nunca vi alguém como você.”


As feições de Lu Ying eram delicadas e elegantes; Xiao Shan estava de costas para os outros clientes. A combinação dos dois — um homem estrangeiro acompanhado por um jovem oriental — atraía a atenção de todos na taverna.


“Ele é um sacerdote”, respondeu Xiao Shan, ignorando o olhar de Lu Ying. Ele tentou dar mais um gole na cerveja, constatando que realmente não conseguia beber aquilo.


“Sacerdote?” O saxão, visivelmente embriagado, e com forte cheiro de álcool, perguntou: “Dos seus deuses orientais? Qual deus? Entre tantos, quem é o seu deus?”


Lu Yin olhou para Xiao Shan e, de repente, sorriu: “O deus está bem aqui.”


“Ah… hereges…”


Xiao Shan observava Lu Yin atentamente. O saxão, balbuciando palavras desconexas e incompreensíveis, estendeu a mão para agarrar o pulso de Lu Yin — e no instante seguinte soltou um grito.


A taverna mergulhou no caos. Xiao Shan continuava sentado, brincando com a faca de mesa em uma das mãos; com a outra o garfo, trespassara a mão do saxão, pregando-a sobre a mesa. Os companheiros do saxão logo acorreram, e todos se lançaram ao mesmo tempo contra Xiao Shan. Ele, então, finalmente se ergueu com ar preguiçoso e, usando apenas uma das mãos, arremessou um deles pela janela.


Lu Ying: “Nós seremos procurados pela guarda.”


As tropas de patrulha de Roma logo surgiram. Xiao Shan agarrou a mão de Lu Ying e o puxou para saltar pela janela; em seguida, girou o corpo e arremessou um lingote de ouro para dentro, como pagamento pela refeição.


Lu Yin já não corria assim havia muito tempo. Em tudo o que fazia, sempre agia com calma e método. Mas, quando Xiao Shan lhe agarrou a mão, sentiu o coração disparar.


Um sorriso se espalhou pelo rosto de Xiao Shan, seus caninos brancos revelando sua natureza de lobo. Ele arrastou Lu Ying consigo, correndo pelas ruas de Roma até chegarem a um beco escuro. Xiao Shan parou, olhou para Lu Ying e então caiu na gargalhada.


Lu Ying suspirou, impotente.


“Às vezes, até os deuses só podem fugir”, disse Xiao Shan casualmente. Os dois vagavam sem rumo pelas ruas de Milão²² quando, de repente, o som de sinos ecoou de um palácio distante, e dos magníficos palácios de Roma, canções melodiosas preencheram o ar, como música celestial.


Xiao Shan olhou para o horizonte e disse: “Eles estão rezando.”


“Sim”, respondeu Lu Ying, “Eles têm seus deuses.”


Os dois permaneceram na penumbra das casas. Naquele instante, toda a cidade movimentada pareceu parar. Xiao Shan ainda segurava a mão de Lu Ying, contemplando as montanhas distantes.


Lu Ying não se soltou de Xiao Shan; ao contrário, virou a cabeça para contemplar o contorno de seu queixo, seu perfil e sua ponte nasal alta e bem definida.


“O que será desta cidade no futuro?” Lu Ying perguntou. “Eles dizem que somos hereges.”


Xiao Shan compreendeu o que Lu Ying queria dizer; ele fechou os olhos e mergulhou em um breve devaneio.


“Eu vejo o seu passado, consumido pelas chamas”, disse Xiao Shan, com uma expressão concentrada, o perfil de seu rosto esculpido em linhas belas e perfeitas. “E vejo o seu futuro, destruído em meio ao caos das guerras.”


Dito isso, Xiao Shan abriu os olhos e disse a Lu Ying, com toda a seriedade: “É apenas isso.”


Os dois, de mãos dadas, caminharam lentamente pelas ruas. O canto cessou, e Lu Ying comentou: “Esta é a nossa primeira vez aqui; talvez seja também a última.”


Xiao Shan perguntou: “Depois daqui, para onde você quer ir?”


Lu Ying permaneceu em silêncio. Ele observou os enormes banhos públicos de Roma, repletos de moradores locais entrando e saindo, e sugeriu: “Vamos entrar e dar uma olhada.”


Xiao Shan assentiu e seguiu Lu Ying para dentro de um dos banhos públicos de Roma. Lá dentro, por toda parte, homens adultos banhavam-se nas águas quentes, acompanhados de jovens. Os dois asiáticos atraíram muitos olhares curiosos.


Os moradores locais conversavam em voz alta em latim nos banhos, alguns batendo papo, outros expressando seus sentimentos amorosos. Xiao Shan corou levemente, mas ele e Lu Ying entenderam a maior parte do que diziam.


“Eu já vi o suficiente”, disse Lu Ying.


“Viu o quê?” Xiao Shan perguntou. Ele estava sentado à beira da banheira, deixando que Lu Ying permanecesse imerso na água, como se fosse um sacerdote sob a proteção divina.


“Vi o mundo mundano”, respondeu Lu Ying. “Quero ir embora daqui amanhã.”


“Como quiser”, disse Xiao Shan, observando os romanos no balneário com indiferença. Ele acrescentou casualmente, em chinês: “Onde quer que você esteja, o seu deus estará lá também.”


Lu Ying disse: “Preciso realizar o meu Dao. Antes disso, ainda há algumas coisas que quero resolver.”


Xiao Shan baixou o olhar para Lu Ying e, por fim, disse: “Foi você quem me convocou. Como seu deus, é natural que eu o acompanhe até o fim.”


◈ ◈ ◈


Seis meses depois, em Kushinagar.


Xiao Shan vestia um manto, mas mantinha o peito e o abdômen à mostra, como de costume. Ele conduzia o camelo através de montanhas e rios, escoltando Lu Ying até aquela vasta planície.


Na planície, campos verdes se estendiam até onde a vista alcançava, pontilhados por inúmeras flores. No centro da planície, erguia-se apenas um pequeno templo, em frente ao qual havia um jardim com oito árvores²³ plantadas.


“Chegamos”, disse Lu Ying. “Leve toda a bagagem com você. Esta é Kushinagar. Eu ficarei aqui.”


Xiao Shan respondeu: “Eu ainda não disse que vou embora.”


“Você tem que ir embora, quer queira ou não”, disse Lu Ying. “Nosso destino termina aqui. Eu lhe dei tudo o que podia. O que mais você quer?”


Xiao Shan chegou diante do jardim e ergueu o olhar para o portal do templo. Contornou o grande portão, mas descobriu que, atrás dele, não havia templo algum — o que existia, isolado no meio da vastidão da planície, era apenas uma porta solitária, marcada pelo tempo.


Há mil anos, o Buda entrou em nirvana neste local.


“Embora eu não saiba como você obteve a sua iluminação”, disse Lu Ying, “eu também preciso cuidar do que é importante. Eu seguirei o meu próprio Dao; você, volte para o lugar ao qual pertence.”


Xiao Shan retornou à frente do jardim e lançou um olhar a Lu Ying. Em seguida, libertou os camelos, deixando que partissem levando consigo toda a bagagem.


Lu Ying caminhou em direção àquela porta, contemplou as árvores Shala que cercavam os quatro pontos cardeais e, dando as costas a Xiao Shan, sentou-se em posição de ajoelhamento diante do portal.


“Como se alcança o Dao?” Xiao Shan perguntou.


“Esperando que esta porta se abra”, respondeu Lu Ying.


Xiao Shan assentiu e sentou-se de pernas cruzadas do lado de fora do Jardim de Shala.


Lu Ying disse: “Adeus, Xiao Shan. Se o nosso destino ainda não tiver chegado ao fim na próxima vida.”


“Hum”, murmurou Xiao Shan. “Vá em frente e alcance a iluminação. Não vou incomodá-lo.”


O vento soprou através do Jardim de Shala, e o pôr do sol, como ouro derretido, derramou-se sobre o corpo de Lu Ying.


“Por que você ainda não desistiu? Quer me ver passar vergonha? Quanto tempo pretende esperar aqui?” Lu Ying sabia que, se simplesmente o ignorasse, chegaria o dia em que Xiao Shan perderia a paciência e iria embora. Talvez voltasse para visitá-lo depois de algum tempo, e esses intervalos se tornariam cada vez mais longos, até que ambos se transformassem em poeira e seus hunpos fossem absorvidos pelo ciclo do samsara, lançados em direção a uma nova vida.


Neste mundo, os encontros são breves e as despedidas são eternas; o Dao é constante e inabalável


No entanto, Xiao Shan não realizou o seu desejo. Apenas sua resposta ressoou, simples e direta, como se aquele fosse o seu próprio Dao já alcançado: “Por mil anos, por dez mil anos. Até a eternidade.”


—— Fim do Capítulo Extra·  A Despedida no Portão Leste de Luntai ——


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Notas:

 

1 Um pequeno distrito localizado a cerca de 20 km a oeste de Bügür(Luntai).

 

2 色目人 (Sèmùrén), este é um termo histórico usado na China (especialmente na Dinastia Yuan) para se referir a estrangeiros da Ásia Central ou do Ocidente (literalmente “pessoas de olhos coloridos”).

 

3 大宛 (Dàyuān) ou os ‘Grandes Jônios’ era o exônimo chinês para um país que existia no Vale de Fergana, na Ásia Central, descrito nas obras históricas chinesas dos Registros do Grande Historiador e do Livro de Han. geralmente é pronunciado wǎn, mas neste caso, é pronunciado yuān, e é simplesmente uma transliteração do sânscrito Yavana ou do páli Yona, usado ao longo da antiguidade na Ásia para designar os gregos (jônios).

 

Flor: Manterei a transliteração chinesa.

 

4 (mǔ): Unidade de medida chinesa de área 1400 mu ≈ 93 hectares.

 

5 太初 (Tàichū) foi um nome de reinado que durou apenas 4 anos, de 101 a.C. a 104 a.C.

 

6 武帝 (Wǔdì) refere-se a Liu Che, o sétimo imperador da dinastia Han.

 

7 西域都 (Xīyù Dūhùfǔ) O Protetorado das Regiões Ocidentais foi uma administração imperial imposta pela dinastia Han entre o século II a.C. e o século II d.C. a muitos estados menores e anteriormente independentes, conhecidos como Regiões Ocidentais. O termo Regiões Ocidentais referia-se principalmente às áreas a oeste do Passo de Yumen, especialmente a Bacia do Tarim. Essas áreas foram posteriormente consideradas como Altishahr (sul de Xinjiang, excluindo a Zungária).

 

8 太康 (Tàikāng) foi outro nome de reinado durante a Dinastia Jin, de 280 d.C. a 289 d.C.

 

9 帕米高原 (Pàmǐ'ěr Gāoyuán) faz fronteira com Xinjiang e o Tadjiquistão; é uma das cordilheiras mais altas do mundo.

 

10 天山 (Tianshan) Tengri Tagh, ou 天山 (Montanhas Celestiais) em chinês, é outra cordilheira da Ásia Central, localizada ao norte do Monte Pamir.

 

11 Khoro Tagh, ou 霍拉山 (Montanha Huola) em chinês, está localizada ao norte de Chaidu-gol (um importante rio cuja nascente fica na encosta centro-sul de Tengri) e é considerada um braço da cordilheira central de Tengri. Não existe uma tradução oficial para o nome; obtive-o de um artigo acadêmico.

 

12 Dukhan é conhecida como 沙洲 (Shazhou) em chinês. Era um nome antigo da cidade de Dunhuang, localizada no oeste da China. Costumava ser uma das principais paradas da Rota da Seda.

 

13 上帝的上帝,撒的归恺 (Ràng shàngdì de guī shàngdì, Kǎisā de guī Kǎisā) citação direta do Novo Testamento da Bíblia: Mateus 22:21.

 

14 Outro nome para Vênus quando vista no leste antes do amanhecer.

 

15 拓跋家 (Tuòbá jiā) o Clã Tuoba. Eles foram os fundadores da dinastia Wei do Norte (386–534 d.C.)

 

16 拘尸那城 (Jūshīnà chéng) Kushinagar — cidade sagrada budista na Índia, onde Buda faleceu e atingiu o paranirvana.

 

17 天道不仁,以万物为刍 (Tiāndào bùrén, yǐ wànwù wéi chúgǒu) esta é uma das frases mais famosas do Tao Te Ching (Capítulo 5).

 

18 孔丘 (Kǒng Qiū): Nome pessoal de Confúcio. Flor: acho que já fiz uma nota sobre ele~

 

19 子百家 (As Cem Escolas de Pensamento): Mozi = Moísmo (universalismo/defesa), Zhuangzi = Daoísmo (liberdade espiritual), Xunzi = Confucionismo heterodoxo (natureza humana/rituais) e Han Feizi (legalismo).


20 得道 (Dédào): "Alcançar o Caminho" ou atingir a iluminação/imortalidade.

 

21 撒克 (Sākèxùn rén): Saxão, povo germânico que migrou para as ilhas britânicas depois da queda de Roma. Mas na Roma do século IV-V, mercenários e viajantes saxões podiam ser encontrados.

 

22 (Mǐlán), historicamente, no final do Império Romano, Milão (Mediolanum) serviu como capital e residência imperial.

 

23 八棵 (Bā kē shù): As Oito Árvores Shala (Sal). Segundo as escrituras, o Buda deitou-se entre dois pares de árvores Sala quando entrou no Nirvana.


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Flor: Capítulo difícil de traduzir, desculpe caso esteja confuso😭


Lu Ying e Xiao Shan 🥰


Vê-los juntos aquece meu coração 


“Parece mijo de cavalo” foi a pérola do capítulo ! Kkkkkkkkk





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