sexta-feira, 8 de maio de 2026

[Novel] Dinghai Fusheng Lu - Extra 04

 


Extra Livro Simplificado 03 - Arco de Tuoba Yan: 

Olhando para Trás em Chang’an, Bordados se Amontoam



⚠️Aviso de conteúdo:

Este conteúdo extra está disponível apenas no quarto volume da versão física simplificada.



N/T: O título 长安回望绣成堆 é uma citação direta de um poema famoso de Du Mu da dinastia Tang, chamado “过华清宫” (Passando pelo Palácio Huaqing).


⊹⊱✫⊰⊹


(Parte I)


Aquele foi um sonho muito, muito longo; no sonho, era como se ele tivesse vivido duas vidas. No instante em que a pesada porta de pedra do mausoléu imperial se fechou com um estrondo, todos acreditaram que ela jamais seria aberta novamente.


Dia após dia, o sol nascia a leste e se punha a oeste, dia e noite se alternavam, o tempo fluía em silêncio. Gavinhas de trepadeiras escalaram a Pedra do Dragão¹, e o musgo manchou as estátuas dos animais guardiões da tumba. Pássaros fizeram ninhos diante do mausoléu, e porcos-espinhos fizeram suas moradas entre as pilhas de pedras desoladas.


Com o tempo, o cinábrio sobre a Pedra do Dragão desbotou, ervas daninhas cobriram por completo a entrada do mausoléu. Ocasionalmente, crianças corriam e brincavam diante da tumba, vez ou outra lançando um olhar para a entrada escura e profunda. Com o passar do tempo, aquelas crianças que brincavam tornaram-se adultas, formaram famílias, envelheceram e viraram cinzas; uma após a outra, novas sepulturas se ergueram diante da montanha deserta.


Castigado pelo vento e pela chuva, este mausoléu subterrâneo se perdeu no tempo, com inúmeras lendas surgindo e desaparecendo sem deixar vestígios. Dizia-se que os espíritos e divindades da montanha ora guardavam uma região, ora se transformavam em demônios ferozes, que aguardavam na noite profunda por um substituto entre os viajantes; ou que, por seu temperamento violento, provocavam distúrbios e desastres, ou choravam incessantemente sob a sombra das árvores…


Até que, finalmente, não restou ninguém que pudesse reconhecer as inscrições na Pedra do Dragão diante da tumba, e o mundo dos homens mudou de dinastia. As Cinco Tribos Hu vieram e se foram, e as histórias de outrora foram completamente sepultadas sob a terra. O lado sul da Montanha Heng conheceu décadas de prosperidade; o Clã Tuoba, de Wei do Norte², estabeleceu ali sua capital, conquistando as planícies a galope e trazendo uma era de paz duradoura. O lugar recebeu o nome de Pingcheng³.


No primeiro ano da era Huangxing⁴, uma grande tempestade se abateu sobre a Montanha Heng, com raios e trovões. A chuva torrencial provocou deslizamentos de terra, inundando Pingcheng. Milhares de mu de terra diante do mausoléu desmoronaram, revelando, mais uma vez, um canto da estrutura.


Naquela solidão profunda, em um piscar de olhos, mais dez anos se passaram.


Um choro desconhecido o despertou de seu longo sono; o som era intermitente, quase imperceptível, como se estivesse lá e não estivesse.


Era a silhueta de uma criança. No início, ela produzia apenas ruídos sussurrantes, rastejando com dificuldade para dentro do mausoléu através da fenda aberta pelas enchentes. Sentava-se diante dos degraus de pedra, chorava por um ou dois ke* e depois saía pelo mesmo caminho.


(*n/t: um ke = 15 minutos, dois ke seriam 30 minutos)


A cada dez ou quinze dias, aquela criança entrava no mausoléu para chorar. A luz da lua entrava pela brecha do lado de fora, iluminando sua cabeça e projetando uma sombra solitária contra as paredes de tijolos da tumba.


“Quem é você?” Certa noite, ele finalmente não conseguiu mais se conter e perguntou de dentro do sarcófago de pedra.


A criança ficou imediatamente aterrorizada e não ousou dizer uma palavra. Só depois de muito tempo, finalmente recobrou os sentidos, confundindo-o com um andarilho que vivia na tumba, e respondeu em meio ao silêncio:


“Yuan… Yuan Hong.”


A voz era infantil e imatura, mas muito agradável aos ouvidos, carregando consigo o sopro de uma vida vibrante.


Ele ouviu a criança se levantar e dar alguns passos lentos em direção ao sarcófago de pedra, aparentemente querendo confirmar sua suspeita, então se apoiou em uma das mãos e empurrou a tampa de pedra.


“E você?” A criança chamada Yuan Hong parou de caminhar, interrompeu o choro e perguntou, timidamente.


Ele soltou um longo e profundo bocejo, como se tentasse afastar o cansaço que o acompanhava há quase um século.


“Chorando todos os dias, por que chora tanto?” Ele perguntou novamente, com um tom de curiosidade divertida. “O que há de tão bom em chorar?”


“Meu pai morreu”, disse Yuan Hong. “É claro que eu tenho que chorar.”


A tampa do sarcófago foi empurrada e ele se sentou; Yuan Hong o observava com cautela. Viu que sua armadura de cota de malha estava coberta de ferrugem, e o tecido sob a saia de combate estava impregnado de poeira. Em suas botas de guerra pretas, havia o bordado de um cervo voador, embora quase metade dos fios já tivesse se soltado.


Yuan Hong soltou vários espirros seguidos por causa da poeira.


Recém-despertado, o homem sentou-se na borda do sarcófago, curvou-se levemente e desamarrou as botas para despejar a terra que havia dentro delas.


Os olhos de Yuan Hong estavam fixos nele. Viu que sua pele tinha um tom pálido cinza-azulado e suas pupilas eram opacas e turvas, mas ainda assim carregavam um brilho vigoroso. Seus traços eram heróicos e marcantes; o cabelo estava um pouco bagunçado, preso em um coque. Sua silhueta era esguia e imponente, com um nariz de ponte alta e olhos profundos — feições que não se assemelhavam às de um homem Han.


Ele virou a cabeça, arqueou uma sobrancelha para Yuan Hong e um sorriso amigável surgiu no canto de seus lábios.


Yuan Hong: “Você… você…”


Yuan Hong deu mais um meio passo para trás, percebendo que a pessoa à sua frente não era um ser humano como ele havia imaginado.


“Não tenha medo”, disse ele a Yuan Hong, “eu não como pessoas.”


Em seguida, ele tateou dentro do caixão, como se procurasse um doce para dar a Yuan Hong e desarmar a guarda da criança, mas não encontrou nenhum. Finalmente, pegou uma pérola luminosa do tamanho da ponta de um dedo e jogou para ele.


A pérola luminosa voou de sua mão para a de Yuan Hong, como uma estrela cadente deixando um rastro de luz cintilante na noite silenciosa. Yuan Hong a pegou.


“Em que ano estamos?” Ele perguntou.


“O primeiro ano de Taihe⁵”, respondeu Yuan Hong.


Ele soltou um riso autodepreciativo. Percebendo que perguntar daquela forma não lhe traria a resposta que buscava, logo perguntou com seriedade: “Quanto tempo se passou desde a Batalha do Rio Fei?”


“Isso aconteceu há noventa e quatro anos”, respondeu Yuan Hong, com a voz trêmula.


Ele murmurou para si mesmo: “Então eu só dormi um pouquinho…”


Havia um medo impossível de esconder no tom de Yuan Hong: “Quem… quem é você, afinal?”


“Meu nome é Tuoba Yan.” Ele se virou para Yuan Hong, observando a silhueta do garoto sob o luar, enquanto respondia.


(Parte II)


O verão partiu e o outono chegou; o inverno se foi e a primavera retornou. Três anos depois.


Os pessegueiros em flor cercavam a entrada do mausoléu do Monte Heng. Tuoba Yan e Yuan Hong estavam sentados lado a lado diante da tumba.


“Yuan Hong”, disse Tuoba Yan casualmente. “Qual é a sua ambição?”


“Você já me ouviu dizer isso inúmeras vezes!” Yuan Hong respondeu impacientemente. “Minha ambição é pacificar este mundo caótico, unificar tudo sob o céu e garantir que o povo possa viver em paz e prosperidade.”


Tuoba Yan perguntou novamente: “Foram eles que o ensinaram a dizer isso ou é o que você realmente pensa?”


Yuan Hong abriu a boca para falar, mas hesitou; após um momento, disse com certa angústia: “Eu não sei.”


Yuan Hong brincava com uma pequena faca, tentando esculpir um pedaço de madeira pontiaguda, quando, de repente, fez um gesto como se fosse cutucar Tuoba Yan. Este permaneceu com as pernas cruzadas, deixando que as pétalas das flores de pessegueiro flutuassem e pousassem sobre seu corpo.


“Não tenho medo de madeira de pessegueiro”, disse Tuoba Yan seriamente a Yuan Hong, “nem adianta me espetar com isso.”


“Então do que você tem medo?” Yuan Hong perguntou, descontente. “Não acredito que não exista nada neste mundo capaz de subjugá-lo.”


Um sorriso surgiu nos lábios de Tuoba Yan, que respondeu: “Não tenho medo de nada.”


Yuan Hong deitou-se nos braços de Tuoba Yan, usando seus ombros e braços como travesseiro.


Depois de acordá-lo naquele dia, Yuan Hong, vendo que ele não tinha más intenções, passou a visitar o mausoléu subterrâneo com frequência, e Tuoba Yan nunca o expulsou.


Aquele homem parecia muito jovem, como um irmão mais velho, o que fazia com que ele, que nasceu e cresceu no palácio, sentisse uma certa admiração por um irmão mais velho.


Houve um tempo em que ele era cercado apenas por eunucos e servas, ou por velhos de cabelos brancos; quando teria ele tido alguém como Tuoba Yan ao seu lado? Dizer que ele era um “ser humano” talvez não fosse o mais adequado. Ele não respirava, tampouco possuía batimentos cardíacos. Por causa disso, Yuan Hong chegou a se inclinar contra o peito dele especificamente para escutar, acabando por aceitar o fato de que “Tuoba Yan não era humano”.


Se não é humano, o que seria então? Tuoba Yan nunca disse, e Yuan Hong também não ousava perguntar demais.


“Você deve ter medo de alguma coisa”, Yuan Hong olhou para cima e encarou Tuoba Yan.


Tuoba Yan baixou levemente a cabeça, observando o garoto em seus braços. Quando o viu pela primeira vez, Yuan Hong era muito pequeno. Ao longo de três anos, o menino cresceu gradualmente; agora, seu tamanho já não permitia que passasse pela abertura do mausoléu, obrigando-os a se encontrarem do lado de fora.


“Por que você pergunta isso?” Tuoba Yan disse com indiferença. Sua expressão era sempre fria e, mesmo quando sorria ocasionalmente, parecia um pouco artificial; porém, sua voz e seu tom eram muito calorosos.


“Você é um yaoguai”, disse Yuan Hong friamente. “Se você descer a montanha para causar danos ao meu povo, eu, como soberano desse reino, terei de agir para eliminá-lo.”


Yuan Hong pegou a adaga feita de madeira de pessegueiro e espetou o rosto de Tuoba Yan. A pele do rosto de Tuoba Yan afundou levemente, mas logo voltou ao normal.


“Do que eu tenho medo?” Tuoba Yan pôs-se a refletir sobre a própria fraqueza. O que neste mundo seria capaz de feri-lo? Por fim, disse a Yuan Hong: “Se você me esquartejar, me rasgando em vários pedaços, aí, naturalmente, não poderei continuar vivo.”


“E você já foi esquartejado alguma vez?” Yuan Hong perguntou, enquanto puxava e abria a roupa de brocado de Tuoba Yan — uma veste de estilo Hu que ele trouxe do palácio para o outro.


“Não”, respondeu Tuoba Yan. “É apenas um palpite. Se as partes do meu corpo fossem enterradas em lugares diferentes, talvez fosse muito solitário, não acha?”


Yuan Hong não se conteve e perguntou de novo: “Estou perguntando daquilo que você realmente tem medo.”


“Do que eu tenho medo?” Após dizer isso, Tuoba Yan mergulhou em um longo silêncio. Foi um silêncio tão demorado que Yuan Hong pensou que não receberia uma resposta e quase pegou no sono sob a brisa da primavera, até que, subitamente, Tuoba Yan falou:


“Tenho medo das pessoas ao meu redor envelhecerem e morrerem”, murmurou Tuoba Yan para si mesmo. “Tenho medo de que aqueles que me são próximos partam. Parentes, amigos, velhos companheiros, desaparecendo um após o outro.”


Yuan Hong lutava para recuperar os sentidos, esfregando o nariz, com uma complexa mistura de emoções brilhando em seus olhos.


Tuoba Yan deu um tapinha discreto no ombro do menino para confortá-lo.


“Está pensando na sua avó?” Ao longo desses três anos, Tuoba Yan já havia ouvido muitos segredos de Yuan Hong. Por exemplo, a avó, a Imperatriz Viúva Feng⁶, havia matado sua mãe e executado seu pai; por isso, seus sentimentos em relação à avó eram extremamente complexos.


Yuan Hong não disse nada e, aos poucos, adormeceu nos braços de Tuoba Yan. Quando o crepúsculo se aproximou, Tuoba Yan o acordou com um tapinha e disse: “Está na hora de você voltar.”


Yuan Hong levantou-se em silêncio, deixou o Monte Heng e montou a cavalo de volta para Pingcheng. Tuoba Yan, por sua vez, contorceu os pulsos e encolheu os ombros, esforçando-se para dentro do mausoléu. Ele voltou a deitar-se no caixão de pedra, embora nunca conseguisse dormir — afinal, da última vez dormiu por noventa e quatro anos; desta vez, estava com tanta energia que simplesmente não conseguia pegar no sono.


(Parte III)


Relâmpagos rasgavam o céu noturno e o som de gritos de guerra explodiu do lado de fora do Palácio Imperial de Pingcheng.


As chamas erguiam-se ferozes, sendo extinguidas num piscar de olhos, apenas para voltarem a arder em menos de um ke.


O sangue dos rebeldes escorria pelas escadarias e o campo de treinamento em frente ao palácio estava coberto de cadáveres; flechas afiadas cobriam a noite.


“Lutem até a morte, sem recuar!” Yuan Hong, empunhando a Espada do Filho do Céu, mantinha-se de pé, imponente, diante do portão principal do palácio imperial. Naquela noite, a Imperatriz Viúva Feng finalmente morreu, mas em seu rastro veio o exército rebelde, desafiando a autoridade imperial.


A Guarda Imperial lutava nos portões, fazendo o sangue correr como um rio. Do lado de fora, quase 30 mil rebeldes já haviam se reunido e, a qualquer instante, irromperiam palácio adentro para decapitar o jovem Imperador do Grande Wei.


“Majestade!” O vice-comandante da Guarda Imperial rugiu. “Fuja agora, por favor!”


Yuan Hong não moveu um único passo. Naquela noite profunda de trovões e tempestade, ele subitamente avistou uma silhueta sob o clarão dos relâmpagos.


Era Tuoba Yan.


Um choque de espanto atravessou o olhar de Yuan Hong. A chuva escorria por seu corpo alto e magro; ele ainda vestia as vestes bordadas no estilo Hu que Yuan Hong lhe dera anos atrás. As vestes marciais encharcadas colavam-se ao seu corpo, realçando os contornos de seus músculos bem definidos.


Ele empunhava uma espada de madeira de pessegueiro. Quando os rebeldes avançaram para matá-lo, bastou um único golpe para que ele derrubasse todos os que o cercavam.


“Tuoba Yan!” Yuan Hong não conseguiu conter o grito.


Os soldados que travavam um combate feroz no campo de treinamento notaram aquele guerreiro escondido na escuridão, cessando gradualmente a luta e recuando para o lado.


Tuoba Yan continuou caminhando e, ao redor de seus pés, já jaziam milhares de corpos.


“Você veio me levar embora?” Um medo profundo tomou conta de Yuan Hong. Desde o dia em que descobriu aquele morto-vivo na tumba subterrânea, uma sinistra premonição pesava em seu coração. Ele acreditava que um dia, Tuoba Yan se tornaria seu guia para a morte.


Mas naquela noite, à beira da vida e da morte, ele recebeu uma resposta inesperada.


“Não”, respondeu Tuoba Yan simplesmente. Ele deu um forte impulso com as botas de combate e voou em direção a Yuan Hong, que estava no alto, como uma flecha na escuridão da noite, aterrissando nos degraus.


Após a chuva parar, as nuvens negras começaram a se dispersar, e as poças de água tingidas de sangue no campo de treinamento refletiam o brilho da lua cheia. De repente, ouviu-se uma ordem vinda de fora do palácio: 30 mil flechas flamejantes foram apontadas simultaneamente para o céu — aguardando apenas o comando final para lançarem suas penas de fogo sobre o palácio imperial.


Tuoba Yan girou o corpo e encarou o lado de fora do palácio.


“Então, o que você veio fazer aqui?” Yuan Hong perguntou, prendendo a respiração e falando em voz baixa.


“Já faz alguns anos que você não vem me visitar”, disse Tuoba Yan. “De repente me deu vontade, e resolvi vir ver como você estava.”


“Estou muito ocupado”, respondeu Yuan Hong, impassível. Em seus olhos límpidos, refletiam-se as milhares de penas de fogo que caíam como meteoros. No instante seguinte, ambos estariam destinados a serem sepultados juntos em um mar de chamas.


Depois que um cadáver é carbonizado, ele conta como morto de verdade? Yuan Hong não obteve resposta para esse pensamento.


“Eu imaginei”, disse Tuoba Yan. Ele passou a espada de madeira para a mão esquerda e, com a direita, fez um movimento de pressão para baixo.


Num instante, o fluxo do qi entre o Céu e a Terra sofreu uma alteração estranha. As trinta mil flechas flamejantes congelaram no ar por um breve momento e, logo depois, voltaram com um estrondo alto!


Tuoba Yan assentiu levemente para Yuan Hong. Foi então que Yuan Hong, com o canto dos olhos, avistou os rebeldes em debandada, e também os incontáveis soldados da Guarda Imperial ajoelhados sobre um dos joelhos.


(Parte IV)


Era mais uma noite de primavera.


“Shifu.” Yuan Hong entrou nas profundezas do palácio.


Tuoba Yan ouviu os passos de Yuan Hong, se virou e lançou um olhar para ele.


“Está apodrecendo?” Yuan Hong parou atrás de Tuoba Yan, examinando seu corpo, enquanto Tuoba Yan desabotoava as vestes internas e externas, observando-se no espelho.


Aquela era a primeira vez que Yuan Hong via todo o corpo físico de Tuoba Yan. Sua pele era lisa e, apesar de estar morto há muito tempo, ele ainda mantinha o físico de um jovem: vigoroso e bem proporcionado.


“Apodreceu um pouco”, disse Tuoba Yan, pressionando com um dedo a lateral da cintura, onde havia uma ferida de flecha. “Em algum tempo, ela vai se curar naturalmente.”


Yuan Hong tinha vinte e seis anos este ano. Oficiais de alta patente se curvavam diante dele, e o exército, sob seu comando, saía vitorioso em todas as batalhas.


Ele estava completamente diferente da criança que fora outrora, tendo se tornado mais maduro e sereno. Somente Tuoba Yan continuava com os mesmos traços faciais e a mesma aparência de sempre.


Era como se ele jamais pudesse envelhecer. Ao se dar conta disso, Yuan Hong sentiu o coração invadido por uma mistura indescritível de emoções.


Tuoba Yan fechou a veste interna e começou a aplicar pó no corpo e no rosto, para que a sua pele tivesse a aparência da de uma pessoa viva.


“O que foi?” Tuoba Yan perguntou.


“Senti sua falta”, disse Yuan Hong, casualmente. “Vim ver como você estava.”


Yuan Hong aproximou-se da escrivaninha e viu o papel que Tuoba Yan havia estendido sobre ela; nele, estavam escritos os versos: ‘Marchando sem fim, vivo longe de você⁷’.


Ao longo desses anos, Yuan Hong também teve seus próprios filhos. Quando se exauria em disputas com os altos oficiais ou se sentia sufocado no harém, ele ia até os aposentos de Tuoba Yan para se sentar um pouco. À medida que a guerra com a dinastia Qi do Sul entrava em um impasse, as visitas de Yuan Hong tornavam-se cada vez mais frequentes.


“Shifu, eu quero mudar a capital”, disse Yuan Hong.


Desde aquela noite da batalha sangrenta em Pingcheng, Yuan Hong se dirigiu a Tuoba Yan como “Shifu”, ao que Tuoba Yan não concordou nem discordou. Embora Yuan Hong o chamasse assim, os dois não tinham uma verdadeira relação de mestre e discípulo.


“Mude se quiser”, respondeu Tuoba Yan com indiferença.


Yuan Hong perguntou: “Shifu, você virá comigo?”


Tuoba Yan não disse nem que sim, nem que não. Com um movimento brusco dos braços, vestiu sua veste externa, ignorando o olhar expectante de Yuan Hong às suas costas.


Ele inclinou levemente a cabeça, usando a luz das lamparinas para observar o rosto de Yuan Hong.


“Você cresceu”, disse Tuoba Yan.


Yuan Hong hesitou, como se quisesse dizer algo, mas se conteve. Tuoba Yan virou-se e, com a palma da mão, fez um gesto ao lado do próprio corpo para indicar uma altura, comentando com um sorriso: “No dia em que nos conhecemos, você era apenas deste tamanho. Você ainda se lembra daquela ambição que me contou?”


“Lembro”, respondeu Yuan Hong calmamente. “Eu disse que unificaria as Planícies Centrais.”


“E depois?” Tuoba Yan perguntou mais uma vez.


“Fazer com que todas as pessoas sob o céu vivam bem”, respondeu Yuan Hong.


Yuan Hong esboçou um sorriso forçado. Já fazia muito tempo que não sorria. Em seu rosto, maduro para a idade, as sobrancelhas estavam sempre franzidas. Ter enfrentado cedo demais as intrigas tortuosas da corte e as crueldades do governo fez com que estivesse sempre carregado de preocupações, como se o céu acima dele estivesse sempre coberto por um manto de nuvens escuras.


Tuoba Yan pensou seriamente por um longo tempo. Yuan Hong tirou um token de madeira sobre a qual, em caracteres dourados, se lia: “Guarda do Exército Proibido da Grande Wei”.


“Está bem, vou com você dar uma olhada”, Tuoba Yan finalmente concordou com Yuan Hong.


(Parte V)


No dia em que partiu de Pingcheng, começou a cair uma chuva fina.


Tuoba Yan vestiu a armadura do Comandante da Guarda Imperial. Sua armadura dourada realçava seu porte ereto e esguio, deixando apenas seu rosto atraente com um leve tom cinza-azulado. Sob o brilho do sol, seus olhos profundos assemelhavam-se a antigas contas de liuli, cujo brilho fora atenuado pelo passar do tempo.


Yuan Hong pensava que ele sentiria saudades do túmulo na montanha; afinal, era ali que ele havia dormido por noventa e quatro anos.


Mas Tuoba Yan não sentiu — ele apenas lançou um olhar distante para o sudoeste ao sair de Pingcheng.


“Quem está enterrado lá?” Yuan Hong aproximou-se dele.


“Ninguém”, respondeu Tuoba Yan casualmente, e então sorriu: “Tudo isso ficou no passado.”


Yuan Hong sentia grande curiosidade por ele. Será que esse amigo imortal e eternamente jovem também já teve familiares e amantes? No entanto, quando questionado sobre o passado, ele mantinha sigilo absoluto.


Yuan Hong cresceu dia após dia, governando o reino do Norte rumo à prosperidade e estabelecendo um novo império que abrangia as Planícies Centrais ao norte do Rio Yangtzé.


Tuoba Yan seguiu aquele que outrora fora um pequeno imperador até Luoyang, assumindo com lealdade o cargo de Comandante da Guarda Imperial. Não havia no mundo ninguém mais adequado para o cargo do que ele. Ele não precisava comer, nem precisava dormir; quando o imperador tratava dos assuntos de Estado, ele permanecia de pé ao seu lado; quando o imperador se recolhia para descansar, ele montava guarda à porta do quarto.


Com o tempo, as pessoas do palácio acabaram se acostumando à sua presença.


Ele não envelhecia nem morria, mas Yuan Hong, por outro lado, envelhecia. Muitos anos se passaram e Tuoba Yan continuava exatamente como antes, enquanto Yuan Hong já havia passado dos trinta anos e se tornado mais maduro.


Certa noite, uma leve chuva caiu em Luoyang. Tuoba Yan ficou sob o beiral observando a noite, enquanto Yuan Hong tossiu algumas vezes e saiu do quarto.


“Vá fazer companhia à sua esposa”, disse Tuoba Yan, voltando o olhar para Yuan Hong.


“Tive vontade de sair para caminhar um pouco”, respondeu Yuan Hong, com o manto sobre os ombros e a voz carregada de cansaço.


“É sempre bom ter a companhia da esposa”, disse Tuoba Yan, com um sorriso nos olhos.


Yuan Hong disse: “Eu queria conversar com você.”


Tuoba Yan lançou-lhe um olhar confuso. Este ano, ele se sentia mais jovem que Yuan Hong; antes, ele era um jovem, e Yuan Hong era uma criança; agora Yuan Hong era um homem adulto, enquanto a mente de Tuoba Yan parecia jamais ter mudado, exatamente como a de um irmão mais novo.


Yuan Hong sempre quis perguntar a Tuoba Yan sobre seu passado, mas todas as vezes em que as palavras chegavam à ponta da língua, por alguma razão, ele não conseguia proferi-las — e esta noite não era diferente.


“Um anel”, Yuan Hong notou o anel na mão de Tuoba Yan.


Tuoba Yan murmurou um "hum" suave em confirmação.


Yuan Hong perguntou: “Foi alguém que você amava que te deu?”


Tuoba Yan balançou a cabeça e disse: “Um exorcista chamado Chen Xing.”


“Um exorcista?” Yuan Hong perguntou.


“Meu irmãozinho”, disse Tuoba Yan, olhando para a noite chuvosa com um ar ausente. “Isso foi há cem anos.”


“Ele morreu?” Yuan Hong perguntou.


“Se ainda estiver vivo, certamente deve estar muito, muito velho”, respondeu Tuoba Yan.


“Era seu amigo?” Yuan Hong perguntou novamente.


“Sim.” Naquela noite, Tuoba Yan estava estranhamente mais falante. “Você conhece Xie An?”


Yuan Hong, naturalmente, conhecia. Havia muito tempo que, através dos livros de história, ele sentia uma profunda admiração por Xie An, Fu Jian e aquela batalha de abalar os céus e a terra no Rio Fei.


“Xie An tornou-se um imortal”, disse Tuoba Yan.


Yuan Hong assentiu levemente e perguntou em seguida: “Aquele Feng Qianjun que você me pediu para procurar da última vez, ele também é seu amigo?”


Tuoba Yan assentiu com toda a seriedade. O Feng Qianjun que ele pediu para Yuan Hong procurar já não pertencia mais ao mundo mortal; e em Jiangnan, ficava o túmulo de sua amada.


“E para onde foi Chen Xing?” Yuan Hong perguntou novamente.


“Partiu para o mar com Shulü Kong”, respondeu Tuoba Yan, após refletir um pouco. “Devem ter ido para a Montanha Imortal de Penglai, suponho? Já Xiao Shan e Lu Ying partiram para as Regiões Ocidentais e faz muitos anos que não retornam.”


Yuan Hong não pôde deixar de perguntar: “Shifu, existem realmente yao neste mundo?”


“E eu não sou um?” Tuoba Yan respondeu, com um sorriso leve.


Yuan Hong sentiu-se como se tivesse voltado à infância e explicou: “Eu quis dizer… aquelas coisas sombrias, que devoram pessoas, que trazem o caos ao mundo…”


“Nascer num tempo em que os yaos não pisam no mundo dos mortais é uma coisa boa.”


“O que está escrito neste anel?” Yuan Hong não resistiu a perguntar novamente. “É algo para te selar?”


Tuoba Yan respondeu: “Isto é um artefato mágico. Quando ele gira, é capaz de fazer o tempo voltar, permitindo que todas as coisas retornem ao passado, desfazendo o fluxo de causa e efeito para que a história se desenrole novamente.”


Tuoba Yan pousou a mão direita sobre o dedo anelar da mão esquerda, cobrindo o anel.


“O que está escrito nele?” Yuan Hong aproveitou a oportunidade do comportamento incomumente falante de Tuoba Yan naquela noite e perguntou mais uma vez.


“O tempo é infinito, e apenas a Lâmpada do Coração brilhará eternamente como a luz do dia”, respondeu Tuoba Yan, por fim.


(Parte VI)


Yuan Hong faleceu.


Aos trinta e três anos, ele liderou pessoalmente uma expedição militar⁸; e ao retornar, teve uma febre alta.


“Shifu…” Em seu leito de morte, Yuan Hong chamou Tuoba Yan para perto de si e sussurrou: “Shifu, confio o Grande Wei a…”


“Não”, sussurrou Tuoba Yan no ouvido de Yuan Hong, “Shifu está muito ocupado.”


Yuan Hong, ofegante, fitou o rosto de Tuoba Yan atentamente.


“Eu sou… o Grande Chanyu dos Quatro Mares.”


Esse título não era usado há muitos anos. Agora, todo governante do Norte podia se autointitular o Grande Chanyu.


“Eu sei”, disse Tuoba Yan.


Yuan Hong segurou a mão de Tuoba Yan, apertando o seu anel.


“Não, não pode ser”, disse Tuoba Yan novamente. “Meu discípulo, seu Shifu já o usou uma vez por você.”


Yuan Hong tremia, tossindo violentamente. Tuoba Yan pressionou sua mão sobre as costas da mão de Yuan Hong.


“Shifu… eu vou morrer”, disse Yuan Hong com dificuldade. “Salve… me salve.”


Tuoba Yan sussurrou: “Você terá um sonho muito, muito longo, meu discípulo. O seu fardo foi finalmente retirado.”


Tuoba Yan envolveu Yuan Hong num abraço e o aconchegou contra o peito. A tosse dolorosa de Yuan Hong foi se acalmando pouco a pouco, até que ele fechou os olhos. Nesse último instante, teve um sonho muito, muito longo.


Ele sonhou que morreu aos dezesseis anos e que rebeldes invadiram Pingcheng, massacrando seu povo como uma maré. O mundo mergulhou no caos mais uma vez, as terras do Norte foram devastadas e as chamas da guerra consumiam as aldeias.


Tuoba Yan saiu do mausoléu, olhou para o céu e encontrou o olhar do espírito de Yuan Hong.


O qi espiritual do Céu e da Terra fluía para o seu corpo. O espírito de Yuan Hong brilhou e o contorno tênue de uma divindade apareceu atrás dele.


Tuoba Yan ergueu a mão esquerda em direção ao céu. O anel em seu dedo anelar brilhou suavemente, como se absorvesse um poder grandioso e inesgotável do próprio céu e da terra. Em seguida, um lampejo se libertou, e a Grande Roda do Céu e da Terra começaram a girar, e o tempo voltou rapidamente: o inverno tornou-se outono, as folhas caídas voaram de volta aos galhos; os rios fluíram ao contrário e a chuva retornou às nuvens…


Tudo se apresentava como um espetáculo estranho, culminando naquela noite em que enfrentou o exército rebelde esmagador.


“Já usei uma vez, discípulo.”


Dentro do mausoléu de Changling, Tuoba Yan tomou em seus braços o cadáver de Yuan Hong. A Lâmpada do Coração já havia se dissipado daquele corpo de carne e retornou ao Céu e à Terra, partindo em busca de um novo hospedeiro.


Tuoba Yan, carregando Yuan Hong, embarcou na jornada para o Norte. Ele voltaria àquela tumba centenária e sombria.


Antes de deixar Luoyang, ele olhou mais uma vez para o oeste, na direção de Chang’an — uma nova era se aproximava, e naquelas terras nas Planícies Centrais, os primeiros raios da aurora finalmente chegariam.


—— Fim do Capítulo Extra·  Olhando Para Trás em Chang’an, Bordados se Amontoam ——


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Notas:


1 断龙石 (Duànlóngshí), literalmente “Pedra que Corta o Dragão”. É a pedra de fechamento final de uma tumba imperial, projetada para nunca mais ser aberta.


2 北魏拓跋氏 (Běiwèi Tuòbá shì): A Dinastia Wei do Norte, fundada pelo Clã Tuoba


3 平城 (Pingcheng): É a atual cidade de Datong, na província de Shanxi.


4 皇兴元年 (Huángxīng yuánnián): foi usado pelo imperador Xianwen (献文帝) da dinastia Wei do Norte (北魏), por volta do ano 467 d.C.


5 太和元年 (Tàihé yuánnián): O primeiro ano da era Taihe corresponde ao ano 477 d.C. É o auge da dinastia Wei do Norte sob o comando do próprio Yuan Hong (Imperador Xiaowen).


6 冯太后 (Féng Tàihòu): A Imperatriz Viúva Feng foi uma das mulheres mais poderosas da história chinesa. Ela governou como regente durante a infância de Yuan Hong. Historicamente, era comum que mães de herdeiros fossem forçadas ao suicídio na Dinastia Wei do Norte para evitar que o clã materno tomasse o poder (um sistema brutal chamado "matar a mãe para estabelecer o filho").


7 Este poema aparece no capítulo 12.


8 O Imperador Xiaowen (Yuan Hong) realmente faleceu aos 33 anos (em 499 d.C.), logo após uma expedição militar contra o Sul.


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Flor: Tuoba Yan 🥰😢


Eu pensei que ele ficaria com Sima Wei e o Rei Fantasma e não sozinho num mausoléu~~


Queria muito saber dos outros Reis Demônios da Seca também rs


Os extras ainda não acabaram!


Faltam agora os do Meio Outono!


Vou ver se trago todos na próxima semana! 


Até mais! 😘





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