Extra Livro Simplificado 01 - Arco de Xiang Shu:
Os Jovens Não Conhecem o Gosto da Tristeza
⚠️Aviso de conteúdo:
Este conteúdo extra está disponível apenas no segundo volume da versão física simplificada.
N/T: O título 少年不识愁滋味 é uma citação do famoso poema 《丑奴儿·书博山道中壁》 (Chǒunú'ér · Shū Bóshān Dàozhōng Bì) do poeta Xin Qiji, da dinastia Song.
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“Espero que o coração dele seja tão vasto quanto as pradarias de Chi Le Chuan e tão amplo quanto o céu das terras além da Grande Muralha.”
“Nesse caso, vamos chamá-lo de Shulü Kong.”
A primeira lembrança da vida de Xiang Shu era de quando tinha quatro anos: sua mãe o levou para ajudá-la no parto de uma das éguas da família. Naquele momento, ele compreendeu o que significava o “nascer”.
Se continuar assim, haverá cada vez mais cavalos na pradaria?” O pequeno Xiang Shu perguntou, confuso, à sua mãe.
“Novas vidas nascerão”, disse Xiang Yuyan, com doçura. “Assim como as velhas vidas partirão. É um ciclo que se repete sem parar, e uma nova vida nunca deixará de surgir.”
“Partir?” O pequeno Xiang Shu perguntou. “Mãe, para onde?”
Pouco tempo depois, Xiang Yuyan respondeu àquela pergunta para o filho através de sua própria partida. Xiang Shu estava dentro da tenda dourada naquele dia, folheando o pergaminho escrito por sua mãe, quando, de repente, ouviu o som de algo caindo do lado de fora.
“Mamãe! Mamãe!” Xiang Shu correu para fora em pânico.
O que se seguiu foi uma série de acontecimentos que o pegaram completamente desprevenido. A única coisa de que se lembrava era de seu pai mandando que ele esperasse dentro da tenda, enquanto os membros do clã se moviam freneticamente de um lado para o outro. Muito tempo depois, ele saiu da tenda e espiou às escondidas. Tudo o que viu foi um bando de corvos soltando grasnidos que pareciam estremecer o céu e a terra, alçando voo além dos limites de Chi Le Chuan, em direção ao fim do céu.
◈ ◈ ◈
Depois de lavar o sangue que restava em suas mãos, o pai retornou à tenda real. Ao seu redor, aglomeravam-se anciãos e líderes de todas as tribos. Após a partida de sua mãe, cada tribo se apressou, uma após a outra, querendo arranjar um novo casamento com o Rei Tiele.
Os Tiele não eram como os Han — não possuíam o costume de guardar o luto pela viuvez. Para eles, a partida de Xiang Yuyan era apenas um assunto insignificante e trivial.
Ele não chorou; foi apenas porque seu pai, Shulü Wen¹, também não chorou. Enquanto sua mãe era viva, ela o instruiu a observar e aprender com cada gesto e ação do pai; o que quer que seu pai fizesse, Xiang Shu naturalmente seguiria. Na verdade, desde o som vindo do lado de fora da tenda real até agora, quando tudo havia terminado, havia se passado apenas meio dia. Xiang Shu ainda estava atordoado; ele não compreendia o que aqueles acontecimentos significavam para ele.
Em meio ao burburinho e à agitação que fervilhavam ao redor, Shulü Wen lavou o sangue que restava de suas mãos — proveniente do enterro celestial de sua falecida esposa — e disse, pausadamente, palavra por palavra: “Não. Me. Casarei. De. Novo.”
“O Príncipe, mais cedo ou mais tarde, precisará de uma mãe”, disse um dos anciãos. “O Grande Chanyu também precisa de uma rainha para administrar e cuidar de seus assuntos.”
“Os Quatro Mares e as pradarias são todos terras do Grande Chanyu, e todas as pessoas sob o céu são todas povo do Grande Chanyu”, disse outra pessoa. “Chi Le Chuan também precisa de uma matriarca…”
“Já tomei minha decisão, não precisam dizer mais nada”, disse Shulü Wen. “Quando ainda era viva, a Rainha sempre dizia: ‘Uma vida, para sempre um par’. Embora eu tenha passado apenas alguns anos ao lado dela, para mim já foi ‘uma vida’, e Kong’er é a nossa prova. De hoje em diante, este assunto não será mais mencionado.”
Após um momento de silêncio dentro da tenda real, Shulü Wen disse novamente: “Chi Le Chuan certamente terá sua nova rainha. Kong’er também lhes dará uma resposta no futuro.”
E assim, todas as tribos dentro da tenda se dispersaram, deixando apenas Xiang Shu e seu pai sentados em silêncio.
“Sua mãe se foi”, disse o Rei Tiele, afagando a cabeça do filho. “De agora em diante, seremos só nós dois. Kong'er, durma.”
“Para onde ela foi?” O pequeno Xiang Shu, de quatro anos, perguntou cauteloso. “Quando ela volta?” No breve instante em que pôde vê-la, a última imagem que guardou foi o rosto inconsciente de sua mãe; depois disso, os membros do clã não permitiram que ele visse Xiang Yuyan novamente.
“Ela foi para um lugar que queria ir; para um lugar que deveria ir”, respondeu o Rei Tiele. “O vento deixará de soprar e a neve irá derreter. Na terra onde as flores de pessegueiro estão em plena floração, é lá que encontraremos o nosso consolo². Um dia, o Papai também terá que ir. A vida é um ciclo que se repete, gerando-se sem parar. Não é diferente disso.”
Depois que a luz dentro da tenda real se apagou, tudo ficou escuro. Naquela noite escura, Xiang Shu se deitou em sua própria cama, como de costume. Enquanto isso, na cama onde antes sua mãe e seu pai dormiam juntos, restava apenas a figura solitária do pai.
Seu pai era alto e imponente, e era o homem mais poderoso da pradaria, mas, naquele momento, suas costas pareciam incomparavelmente solitárias.
Ele ouviu o choro baixo de seu pai no silêncio da noite, um lamento sofrido, exatamente como o de um animal selvagem com a garganta sufocada.
A partir daquele dia, Xiang Shu passou a falar pouco.
Ele lia os livros deixados por sua mãe em silêncio e aprendia a cuidar de seu pai em silêncio; essas coisas eram as formas pelas quais ele podia, mesmo que só um pouco, reconectar-se com sua mãe.
Ele lembrava que sua mãe mencionara o Sul mais de uma vez — mencionou Jiangnan. Jiangnan… para o povo de Chi Le Chuan, aquele era um lugar muito, muito distante. Ele ainda era pequeno demais; tão pequeno que ainda não conseguia montar um cavalo, nem era capaz de cruzar a Grande Muralha a pé.
Mas um dia, ele iria ao Sul para ver com os próprios olhos — isso era como uma promessa entre ele e sua mãe.
Ele guardava todos esses pensamentos em seu coração e, por anos, permaneceu taciturno. Todos os dias, quando pai e filho interagiam, era como aquelas peças silenciosas no palco.
Os membros do clã queriam ir ao sul da Grande Muralha para pedir que um médico Han examinasse Xiang Shu, mas Shulü Wen apenas disse: “Deixem ele em paz, algumas pessoas simplesmente não gostam de abrir a boca; pensar mais e falar menos, qual é o grande problema nisso?”
Shulü Wen sabia que não havia nada de errado com seu filho; ele estava apenas momentaneamente atordoado porque havia perdido a mãe. Ele acreditava que seu filho conseguiria, com o tempo, seguir em frente — todo mundo precisa passar por esse tipo de coisa.
Ele também sabia que Xiang Shu não havia fechado a boca completamente. Ao menos, quando Che Luofeng vinha, Shulü Wen via seu filho falar. Naquelas ocasiões, Xiang Shu sussurrava algo para Che Luofeng, mas quando Shulü Wen passava por perto, as duas crianças paravam de falar imediatamente.
Shulü Wen não gostava muito dos Rourans. No entanto, as crianças não haviam cometido erro algum, e as gerações mais jovens não deveriam se tornar alvo da inimizade das gerações anteriores. Embora Shulü Wen não quisesse interferir na escolha de seu filho, esperava que ele se tornasse mais extrovertido, e por isso fazia questão de lhe dar mais tempo na companhia de outros meninos de sua idade.
De vez em quando, Xiang Shu levantava a cabeça e olhava para o seu pai, mas permanecia sem dizer uma palavra.
Ele cresceu, dizia Shulü Wen em seu coração, compreendendo o significado nos olhos de Xiang Shu. Meu filho é uma pessoa gentil por natureza, assim como sua mãe. Ele não se parece com mais ninguém nesta pradaria. Escondido sob sua aparência fria e indiferente, há um coração tão vasto quanto a cúpula azul que abrange tudo neste mundo.
Pensando bem por esse lado, não lhe haviam dado o nome errado.
Shulü Wen estava muito satisfeito com o filho.
◈ ◈ ◈
Aos sete anos, Xiang Shu ganhou seu primeiro cavalo, um presente oferecido como tributo pelo Rei Akele.
Shulü Wen começou a ensiná-lo a montar e a atirar, assim como artes marciais. O nível de compreensão de Xiang Shu era tão alto que ele conseguia dominar qualquer arte marcial assim que aprendia. Shulü Wen nunca tinha visto tamanho talento em todas as suas cavalgadas pelas terras além da Grande Muralha. Talvez ele tivesse herdado isso da mãe?
Durante sua vida, Xiang Yuyan também foi uma artista marcial. Embora sua chegada às terras além da Grande Muralha fosse inexplicável e ela também tivesse esquecido a maior parte do seu passado, ela ainda se lembrava de suas artes marciais. No curto intervalo de poucos anos, ela transcreveu, baseando-se em sua memória, uma grande quantidade de ilustrações de artes marciais, bem como obras de diversas escolas de pensamento das Planícies Centrais. Temendo que sua própria instrução pudesse limitar o potencial do filho, o Rei Tiele permitiu que ele estudasse por conta própria os pergaminhos deixados pela mãe. Em pouco tempo, Xiang Shu já era capaz de perseguir raposas-do-ártico e abater gansos selvagens no céu. Para se ter uma ideia, mesmo Shulü Wen levou seis anos inteiros para atingir tal nível.
◈ ◈ ◈
Até que, certa noite…
Xiang Shu, aos sete anos, levantou-se em silêncio. Pegou o arco e a aljava, calçou as botas de caça, vestiu o casaco de pele e saiu puxando um cavalo —— cujos cascos ele já havia envolvido em panos muito antes. Em poucos dias, seria o Festival do Final do Outono. Xiang Shu precisava concluir seu plano naquele dia. Na época do Festival do Final do Outono, Chi Le Chuan realizaria uma grande celebração. Sem dúvida, seu pai estaria impossibilitado de escapar de suas responsabilidades naquele momento; ele também seria incapaz de detê-lo.
“Jia!” Xiang Shu disse em voz baixa. Ele havia arquitetado esse plano por nada menos que três anos.
Che Luofeng esperava atrás de uma árvore e, assim que viu Xiang Shu, revelou-se nervoso.
“Trouxe o que combinamos?” Xiang Shu perguntou em um sussurro.
Che Luofeng entregou a Xiang Shu uma bolsa contendo alguns pesados lingotes de ouro. Xiang Shu a amarrou no dorso do cavalo e, então, acenou positivamente para Che Luofeng.
“Você pensou bem nisso?” Che Luofeng montou em seu próprio cavalo e disse a Shulü Kong: “Eu vou te acompanhar por um trecho.”
“Não me leve muito longe”, respondeu Xiang Shu, de sete anos, ainda era uma criança; ansiedade, empolgação, muitos tipos de emoções misturadas residiam nele naquele momento. No escuro, sua voz tremeu um pouco. “Você ainda precisa voltar.”
Che Luofeng perguntou: “Para onde você vai, afinal?”
“Planícies Centrais, Jiangnan”, disse o pequeno Xiang Shu enquanto incitava seu cavalo. Aquele lugar lendário parecia uma terra sagrada em seus sonhos. “O vento deixará de soprar e a neve irá derreter. Na terra onde as flores de pessegueiro estão em plena floração, é lá que encontraremos o nosso consolo.”
Os lábios de Che Luofeng se moveram, mas ele não disse nada.
A expressão do pequeno Xiang Shu era solene e serena, como a de quem parte em peregrinação. Era como se, bastasse cruzar a Grande Muralha, e ele veria flores de pessegueiro dançando na brisa e preenchendo todo o céu, bem como pomares de pêssegos e terraços por toda parte, enquanto sua mãe, com um sorriso gentil no rosto, estaria à beira do riacho, esperando por ele.
“São seis dias a cavalo daqui”, disse Xiang Shu, “e chegaremos à Grande Muralha. Depois de atravessá-la, você pode entrar nas Planícies Centrais e, de lá, viajar para o sul até Jiangnan. Entendeu?”
Xiang Shu tirou do bolso um mapa em pergaminho de pele de carneiro e, sob a luz da lua brilhante que se estendia por milhares de li, ele e Che Luofeng o examinaram juntos.
“Você ainda vai voltar?” Che Luofeng perguntou.
Xiang Shu não respondeu. Após um breve instante, ele olhou para o horizonte distante e depois para Che Luofeng; imitando as palavras que aprendera nos livros, disse a Che Luofeng: “No futuro, nos encontraremos novamente.”
“Jia!” Ele incitou seu cavalo a acelerar, desaparecendo assim que alcançou a borda da vasta pradaria.
Che Luofeng permaneceu em seu cavalo por um longo tempo, olhando fixamente para o nada. Depois disso, mudou a direção do cavalo e voltou para Chi Le Chuan.
◈ ◈ ◈
Xiang Shu partiu de Chi Le Chuan levando consigo algumas provisões e dinheiro. O tempo estava ficando mais frio com a aproximação do Festival do Final do Outono, mas ele deixava para trás o vento cortante que varria o Norte. Ao longo do caminho, ele parou na floresta de bordos carmesim, acendeu uma fogueira, descansou brevemente e, então, continuou sua jornada mais uma vez. Não importava se era dia ou noite; enquanto tivesse forças, ele avançava em direção àquela muralha que se assemelhava a um dragão enorme, estendendo-se por todo o mundo há milhares de anos.
A Grande Muralha cercava um outro tipo de mundo; aquele mundo era como uma utopia³, um lugar que as pessoas fora de seu cerco seriam para sempre incapazes de alcançar. A cada dia que cavalgava, Xiang Shu sentia-se um passo mais perto da terra dos seus sonhos.
Quando a Grande Muralha surgiu na linha do horizonte, Xiang Shu quase não conseguiu conter a excitação em seu peito. Trêmulo, desmontou do cavalo e ficou ali, atônito, contemplando as muralhas imponentes que serpenteavam por milhares de li — ela era exatamente como sua mãe descreveu: eterna e imortal.
Xiang Shu quase chorou. Ele tremeu e avançou alguns passos, ajoelhando-se no chão.
“A Grande Muralha”, murmurou para si mesmo.
Ele se ajoelhou e fez espontaneamente um gesto de reverência em direção ao Sul. Assim como quem presta reverência a Chi Le Chuan, à lendária Carosha do Norte, aos grandes rios e às grandes montanhas que correm entre o céu e a terra — com esse gesto, expressava sua veneração. Ao erguer a cabeça, tocou a testa e o peito com os dedos, depois estendeu as mãos, com as palmas voltadas para cima. Essa sequência de movimentos era o gesto ritual de respeito do povo Tiele, que significava: “Ofereço tudo o que tenho”.
Ele ficou ali parado, contemplando por um longo, longo tempo. O vento forte soprava pelas planícies e, naquele instante, na presença dessa relíquia histórica e eterna, ele teve, na verdade, um raro sentimento de saudade de casa. Embora, naquele instante, ainda não soubesse exatamente o que era aquele sentimento, seu instinto o detinha, tornando impossível dar sequer mais um passo.
Ele era como um viajante solitário; naquele instante, só existiam ele e o mundo. Mas, de repente, uma voz soou.
“Não vá para lá”, a voz de Shulü Wen soou. “Você não vai encontrar o que deseja.”
Xiang Shu virou-se e viu que a figura solitária de seu pai estava parada não muito longe dele. Seu pai deixou Chi Le Chuan e o perseguiu sem descanso. No fim, ele deteve seu filho — cujo coração era tão rebelde quanto um cavalo difícil de domar — logo antes que ele atravessasse a Grande Muralha.
O Rei Tiele, assim que soube do plano que ele tramou com Che Luofeng, deixou de lado o alvoroço do Festival do Final do Outono e partiu imediatamente em sua perseguição.
“Sua mãe morreu”, a voz pesada de Shulü Wen soou mais uma vez. “O povo não queria que você ficasse com o coração partido, por isso lhe disseram que ela voltou ao Sul para buscar tratamento.”
“Eu sei”, respondeu Xiang Shu calmamente, sem recuar, “eu sei de tudo.”
O Rei Tiele olhou para o filho em silêncio e então disse, perguntou lentamente: “Então, por qual motivo você ainda quer ir para o Sul?”
Xiang Shu desviou o olhar, evitando o olhar do pai.
“Eu não sei”, respondeu Xiang Shu.
“Pense bem antes de ir”, disse Shulü Wen. “Você quer que eu o acompanhe para subir a Grande Muralha para dar uma olhada?”
Xiang Shu não respondeu, e Shulü Wen também não repreendeu o filho por seu ato absurdo de deixar completamente para trás o pai e o povo de Chi Le Chuan.
Xiang Shu não sabia o porquê, mas estava com um pouco de medo.
Shulü Wen disse: “Deixe que as coisas do sonho permaneçam no sonho. Kong’er, espere até o dia em que você for capaz de transformar o sonho em realidade, só então vá desvendá-lo.”
Xiang Shu permaneceu parado, teimosamente, sem se mover.
Shulü Wen disse novamente: “É claro, você também pode atravessar agora mesmo. Hoje é provavelmente o que os Hans sempre chamam de “a Vontade do Céu”. Papai sabe que, uma vez que você for embora, não voltará nunca mais. Você precisa pensar bem sobre isso.”
Xiang Shu ainda não respondeu.
“Papai não vai deixar Chi Le Chuan”, disse Shulü Wen, por fim, “mas papai não vai te impedir.”
Xiang Shu olhou para seu pai. As têmporas de Shulü Wen estavam marcadas pelo vento e pela geada. Finalmente, Xiang Shu virou seu cavalo e decidiu seguir seu pai, voltando para casa. Antes de partir, como se estivesse relutante em se despedir, ele virou a cabeça e lançou um olhar para a Grande Muralha.
“Você já atravessou a Grande Muralha?” Xiang Shu perguntou.
“Sim”, respondeu Shulü Wen.
Xiang Shu perguntou: “Como é lá do outro lado?”
Shulü Wen respondeu: “Não posso dizer. Você terá que ver com seus próprios olhos no futuro. Você certamente irá para lá um dia, mas não agora.”
De repente, Xiang Shu perguntou: “Você já esteve em Jiangnan?”
“Não”, disse Shulü Wen com uma voz serena. “Eu sou o Grande Chanyu, não posso deixar meu povo por muito tempo.”
Xiang Shu mais uma vez olhou para trás e viu a Grande Muralha desaparecer gradualmente no limite da crista da montanha. Enquanto ele ainda olhava, Shulü Wen já havia gritado “Jia!” para instigar seu cavalo a partir, e Xiang Shu só pôde se apressar para alcançar seu pai. Os dois partiram em disparada de volta para Chi Le Chuan.
Naquele Festival do Final do Outono, tanto Che Luofeng quanto Xiang Shu levaram uma surra daquelas; depois disso, os dois fizeram um juramento e se tornaram Andas.
◈ ◈ ◈
Aos doze anos, a reputação de Xiang Shu como gênio das artes marciais já havia se espalhado por toda a pradaria. Ele conseguia abater o falcão mais rápido entre o céu e a terra, era capaz de alcançar o rei dos cavalos que se movia como o vento, e alguns até diziam que ele podia derrubar dragões no céu.
Quando tinha catorze anos, alguns bandidos Xianbei invadiram seu território e massacraram três Tribos Gaoche. Xiang Shu seguiu seu pai para a batalha e, a cem passos de distância, acertou o líder dos bandidos com uma única flecha, aumentando ainda mais sua fama.
Ele já não era mais o jovem de outrora; havia se tornado um homem alto e poderoso. Vestia a armadura de couro Tiele e usava apenas um protetor de coração⁴, deixando o peito e o baixo abdômen expostos. Mas ainda falava tão raramente que, perante seus companheiros de clã e seu Anda, mantinha uma atitude muito discreta e séria.
No dia em que outro grupo de bandidos apareceu, ele recebeu das mãos de seu pai um sabre lendário dos Gaoches e, então, invadiu sozinho as profundezas das montanhas com seu cavalo. Ao anoitecer, estava coberto com o sangue do inimigo enquanto caminhava lentamente para fora do desfiladeiro, usando algumas folhas de árvore para limpar as manchas de sangue do sabre.
Essa guerra tornou Shulü Kong famoso, mas Shulü Wen também sofreu ferimentos por causa dela.
Ele começou a aprender com o exemplo do pai a mediar as disputas entre as diversas tribos, passando a portar o Selo Dourado em nome do Grande Chanyu; todas as tribos sob o céu obedeciam e seguiam suas ordens.
Aos quinze anos, Xiang Shu liderou oficiais e soldados de três tribos — Tieles, Rourans e Xiongnus — numa expedição contra os Dingling.
Aos dezesseis anos, Xiang Shu finalmente repeliu os Xianbeis pela última vez, fazendo com que a influência de Chi Le Chuan se espalhasse ao norte da Grande Muralha até o fim do mundo.
◈ ◈ ◈
Os Quatro Mares e as pradarias são todas terra do Grande Chanyu, e todas as pessoas sob o céu são todos súditos do Grande Chanyu. Quando Fu Jian veio a Chi Le Chuan, ele expressou boa vontade para com o Grande Chanyu e seus grandes feitos, a fim de receber a Concessão Dourada do Pergaminho Púrpura. No entanto, Xiang Shu não lhe concedeu o Pergaminho Púrpura, pois, após algumas discussões entre as tribos, as opiniões foram surpreendentemente unânimes: as Planícies Centrais já não são mais as mesmas Planícies Centrais de antes. Um dia, o céu azul de Chi Le Chuan cobrirá a região ao sul da Grande Muralha e unificará a vasta terra, incluindo as terras dos Qin e dos Jin.
Naquela época, o tempo de Shulü Wen já havia se esgotado. Fu Jian possuía uma ambição ardente e, se ele obtivesse o edito, seria ainda mais difícil mantê-lo sob controle.
Pouco tempo depois, Shulü Wen faleceu e Xiang Shu assumiu o cargo de Grande Chanyu. Xiang Shu viu-se diante do mesmo tipo de disputa interminável de antes: os anciãos de todas as tribos queriam que ele se casasse. De repente, ele compreendeu como seu pai se sentia naqueles anos.
“Guwang se ausentará por um tempo”, disse Xiang Shu, de repente.
Imediatamente, houve silêncio por toda a tenda real; todos se entreolharam surpresos.
“Para onde?” Che Luofeng perguntou, ainda sem entender. “Anda, você acabou de assumir como o Grande Chanyu!”
“Shi Mokun assumirá temporariamente o cargo de Grande Chanyu e portará o Selo Dourado”, disse Xiang Shu. “Eu vou em busca do paradeiro daquele médico Han. É o que tenho a dizer. Podem se retirar.”
◈ ◈ ◈
Naquela mesma noite, Xiang Shu partiu de Chi Le Chuan em seu cavalo, exatamente como dez anos atrás. Desta vez, ele olhou para trás e contemplou, por um breve instante, o contorno sinuoso e contínuo das montanhas de Chi Le.
“Você está indo embora de novo”, a figura de Che Luofeng surgiu debaixo da árvore.
Xiang Shu olhou para Che Luofeng. Num piscar de olhos, já se passaram dez anos. Muitas coisas ainda pareciam ter acontecido ontem.
“Desta vez, você vai pelo menos voltar?” Che Luofeng perguntou.
“Eu não sei”, respondeu Xiang Shu.
Che Luofeng disse: “Você não está indo por causa daquele médico, nem por causa da morte do seu pai; você só quer ir para o Sul. Eu sempre soube, assim como seu pai, você quer encontrar uma esposa Han.”
Xiang Shu não respondeu, e Che Luofeng disse novamente: “Não é bom ficar aqui? Daqui a alguns anos, quando chegar a hora, poderemos ir juntos.”
“Não”, disse Xiang Shu. “Nestes últimos anos, sempre senti que do outro lado da Grande Muralha, naquele lugar onde as flores de pessegueiro florescem em abundância, há alguém à minha espera. Este pressentimento está ficando cada vez mais forte agora, e eu não posso mais esperar.”
Che Luofeng disse: “Da infância à vida adulta, você nunca esqueceu isso, o tempo todo.”
Xiang Shu pressionou os flancos do cavalo e gritou: “Jia!”
Comparada à sua voz de dez anos atrás, que tremia de nervosismo e excitação, agora era diferente; tudo havia se transformado. Sua voz tornara-se madura e firme. Os campos de amoreiras haviam se transformado no mar azul diversas vezes⁵; desta vez, ele parecia ter compreendido que seu destino havia chegado e o guiado para o seu futuro, e que esse futuro o aguardava o tempo todo.
Em pouco tempo, ele se tornara um minúsculo ponto negro em meio à tempestade naquela vasta planície. Mas apenas seis dias depois, quando escalou a Grande Muralha e viu com seus próprios olhos a terra dos seus sonhos pela primeira vez, ficou perplexo e até mesmo um pouco incapaz de aceitá-la. Ao mesmo tempo, finalmente entendeu por que seu pai lhe pediu para não ir mais longe.
Era porque, dentro da Grande Muralha, exceto pelo fato de que as montanhas ainda eram montanhas e as árvores ainda eram árvores, a paisagem, se comparada à paisagem de Chi Le Chuan, era bastante diferente. As ruínas outrora magníficas e inalcançáveis, agora estavam sob seus pés. Ao sul da Grande Muralha, havia apenas uma terra sem limites, um vento feroz que nunca cessava, assim como uma nevasca no topo da colina que chegava junto com o outono.
Altivo e distante, desolado e desconhecido.
Ele passou a noite inteira sentado na Grande Muralha, ouvindo o som de lobos vindo de um lugar distante. Olhando para o horizonte ao sul, Xiang Shu não soube dizer o que estava sentindo naquele momento. Quando olhou para trás, para o lugar de onde viera, Chi Le Chuan havia desaparecido completamente.
“Então é este o Sul?” Xiang Shu murmurou.
Ao amanhecer, ele conduziu seu cavalo e pôs os pés nas Planícies Centrais. O que viu foram apenas vilarejos incendiados e cadáveres carbonizados do povo deixados para trás após os saques, além do céu cinza-escuro.
Não havia flores de pessegueiro, nem pavilhões sobre as águas, nem telhados negros, nem paredes brancas.
Por fim, ele encontrou o povo de sua mãe. Tentou se comunicar com eles, mas eram ainda mais bárbaros e insensatos do que o povo de Chi Le Chuan. Ele matou muitas pessoas e acabou sendo aprisionado e, finalmente, foi levado para Xiangyang.
Dentro da prisão sem luz alguma, o vento havia deixado de soprar, mas os flocos de neve que entravam pela escotilha não haviam derretido.
Ele sentou-se no canto da cela, observando enquanto a lua crescente tornava-se lua cheia, e a lua cheia tornava-se minguante novamente. O tempo passava muito lentamente e, no fim, o paraíso repleto de flores de pessegueiro estilhaçou-se, restando-lhe apenas o abismo cheio de sangue e miséria.
Do início ao fim, ele se recusou a aceitar que aquilo foi apenas uma bela mentira contada por sua mãe quando ainda era viva.
Até que ele abandonou todas aquelas ideias e percebeu que suas fantasias eram uma piada estúpida.
Mas ele nunca teve medo da morte.
Pois, como seu pai dissera: A vida é um ciclo que se repete, gerando-se sem parar. Não é diferente disso.
Em meio à escuridão e à solidão, ele sentiu as flores de pessegueiro passando voando; era como o último pequeno consolo deixado a ele por aqueles que já haviam partido.
Mas, quando já estava prestes a desistir, o som de passos e a voz de um estranho ecoaram do lado de fora da cela.
Junto ao flutuar das flores de pessegueiro, um raio de luz entrou e, sob seu grande resplendor, inúmeros sonhos despedaçados foram despertados, remendados e curados.
"Abram a porta", disse Chen Xing.
—— Fim do Capítulo Extra· Os Jovens Não Conhecem o Gosto da Tristeza ——
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Notas:
1 No romance, o pai dele se chamava Shulü Wen (述律温), mas por algum motivo, neste extra, ele é chamado de Shulü Duan (述律端), não faço ideia do porquê, rsrs; vou continuar usando Shulü Wen para evitar mais confusão.
2 温柔乡 (Wēnróu xiāng), lit. ‘(meu) lar gentil’. Geralmente é usado como uma analogia para se referir a ‘alguém que é capaz de conquistar o coração de alguém’ ou ‘alguém em quem se pode encontrar conforto’.
3 Originalmente escrito como 桃花源 (Táohuāyuán), lit. ‘a Terra das Flores de Pêssego’. É uma terra lendária repleta de paz e prosperidade.
4 护心镜 (Hùxīnjìng) é um espelho de bronze embutido em algumas armaduras antigas para proteção contra flechas.
5 桑田沧海 (Sāngtián cānghǎi) é uma expressão idiomática que significa “o tempo trará mudanças ao mundo”.
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Flor: Xiang Yuyan T_T
autor para de quebrar meu coraçãozinho de vidro com a morte dela!
Me derreti com o Xiang Shu neném 🥰
Ver um pouco de como o Xiang Shu cresceu foi incrível!


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