domingo, 26 de fevereiro de 2023

[Novel] Tianbao Fuyao Lu - Capítulo 014

  


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Tradução: Foxita
Revisão: Miss Sw
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Capítulo 14 – O Cadáver Seco Sob a Cama



Ao meio-dia, Hongjun chegou ao restaurante em que os quatro combinaram de se encontrar, um lugar chamado “Carpa Saltando sobre o Portal do Dragão”. Hongjun ainda não tinha se acalmado e disse, “Hoje... algo grande aconteceu!”
Qiu Yongsi, Mo Rigen e A-Tai haviam acabado de se sentar e todos tinham expressões desconcertadas enquanto acenavam para que ele se sentasse.
“Venha, venha, venha, conte logo. O chefe ainda não chegou?”
“Ele levou o gato de volta e falou para irmos comendo. Daqui a pouco ele vem explicar em detalhes”, falou Hongjun.
“Ele realmente o encontrou?”, Mo Rigen exclamou surpreso. 
Os três se entreolharam e então continuaram a fazer perguntas. Hongjun podia apenas contar sobre os fatos de que tinha participado: do momento em que Li Jinglong voltou ao Departamento de Exorcismo para deixar o gato; passando por quando rastrearam o cadáver que tinham descoberto; até a ocasião em que foram ao Departamento Judiciário verificar casos de pessoas desaparecidas, folheando um por um. Os acontecimentos pareciam estar profundamente interligados e por isso deveriam primeiro entender bem a situação.
“Vamos comer, estou morrendo de fome.”
O garçom falou os pratos, mas nenhum deles sabia o que era o quê. A-Tai vinha de longe e não conhecia a variedade de comidas deliciosas de Chang’an; Mo Rigen era nascido nas pradarias, então nunca tinha comido banquetes no estilo Tang e Hongjun obviamente nunca tinha experimentado nenhuma daquelas comidas.
Qiu Yongsi falou docilmente, “Vocês decidem, eu como qualquer coisa que escolherem”.
Todos estavam confusos após ouvir os nomes dos pratos. Finalmente o yao carpa ficou impaciente e fez os pedidos, abrindo e fechando a boca por detrás das costas de Hongjun enquanto falava, “Seis tigelas de sopa de faisão negro; um prato de refogado Qunxun[1]; frango ao vinagre com cebolinha; rolinhos recheados de quiabo e repolho; quatro pratos do dia; seis tigelas de arroz Yuhuang Wangmu[2]; uma porção de gelo doce para depois do jantar e um jin de Lishan Shaochun[3]. Para os pratos com peixe, não use carpa.”
“Quem?!”, o rosto do garçom ficou branco como papel. “Quem está falando?!”
“Ventriloquismo!”, encobriu Hongjun imediatamente.
“Vocês estão em quatro, mas estão pedindo comida para seis?”, o garçom perguntou ao olhar inconscientemente para o lugar vazio ao lado de A-Tai, seu rosto ainda tingido por traços de pavor.
“Estamos esperando alguém.”, falou Hongjun. “Talvez ele chegue depois dos pratos.”
“Carpas têm muitas espinhas, quem iria comer isso?", o garçom falou consigo mesmo.
“O que você disse?!”, o yao carpa atrás das costas de Hongjun ficou tão nervoso que arregalou os olhos como se tivesse sido pessoalmente ofendido.
O garçom: “???”
“Não é nada, pode continuar o que estava fazendo”, falou Hongjun, rapidamente se livrando do garçom.
Embora o garçom ainda estivesse temeroso enquanto servia os pratos, em um instante, a mesa ficou repleta de comida deliciosa e requintada. Hongjun prontamente percebeu que as refeições que comeu na estrada sequer podiam ser consideradas comida se comparadas com o banquete à sua frente. A sopa foi servida em tigelas de cerâmica que imitavam bambu; o prato Qunxun vinha em uma agradável travessa de peixe e cordeiro refogados juntos; o frango estava perfeitamente cozido, ao ponto de os óleos saírem e deixarem a carne perfeitamente suculenta; o prato Yuhuang Wangmu foi servido numa tigela com um ovo meio cozido sobre o arroz. A leve fragrância penetrou suas narinas e os quatro humanos e o peixe começaram a esvaziar a mesa como se estivessem respirando a comida.  
“Zhao Zilong já esteve em um restaurante de Chang’an antes”, falou Hongjun enquanto comia. “Ainda bem que ele aprendeu muito lá.”
“Oh?”, Mo Rigen sorriu e disse. “Como cozinheiro? Realmente não se pode julgar pela aparência.”
“Como ingrediente”, respondeu o yao carpa.
Todo mundo: “...”
Hongjun acrescentou, “Ele primeiro foi vendido no mercado, depois levado de volta para a loja e criado num tanque. Então, uma espécie de monge o comprou e o soltou e ele conseguiu sobreviver até hoje.”
O yao carpa estava cheio; enfiou a cabeça na taça e tomou uns goles de vinho, dando passos vacilantes sobre a mesa e finalmente caindo de bêbado com um barulho audível.
“Um brinde", falou A-Tai. “Hoje é por minha conta, vamos brindar à nossa nova amizade e ao chefe momentaneamente ausente...”
Os quatro ergueram suas taças. Esta era a primeira vez, desde que ingressaram no Departamento de Exorcismo, que se reuniam oficialmente para uma refeição de comemoração. Na maior parte do tempo, Hongjun não estava com eles e, como os outros três frequentemente estavam à toa, acabaram ficando bem próximos. Uma vez mais, a conversa voltou ao assunto de Li Jinglong e Hongjun vagamente respondeu algumas perguntas. No entanto, como ultimamente não vinha trabalhando com Mo Rigen e os outros, ele estava agora bastante curioso sobre seus companheiros.
“Meu pai me fez vir para Chang’an”, Hongjun pensou sobre aquilo. Antes de partir em sua jornada, foi instruído a não revelar muito sobre si e, agora, com Zhao Zilong bêbado como um peixe[4], tinha medo de falar demais, então se limitou a dizer, “Ele me mandou aqui para exorcizar todos os yaoguais em Chang’an... aham.”
A-Tai sorriu e disse, “Onde estão os yaoguais em Chang’an?”
Mo Rigen também sorriu e disse, “Se não tem nenhum yaoguai, então o que viemos fazer aqui?”
Hongjun disse, “Mas o chefe disse que há yaoguais em Chang’an, eles apenas não aparecem muito.”
Hongjun nunca tinha bebido vinho antes, esta era sua primeira vez. Como não sabia direito o que estava fazendo, bebeu como se fosse água. Mo Rigen e A-Tai pensaram que a tolerância de Hongjun fosse alta e por isso o deixaram beber. De um jin de Lishan Shaochun, Hongjun conseguiu acabar com metade. Seu cérebro estava confuso e ele se sentia um pouco tonto, então deixou a cabeça cair de lado e dormiu.
Não muito tempo depois de Hongjun apagar de bêbado, Li Jinglong chegou. Ao vê-lo assim, ficou enfurecido.
“Estamos no meio do horário de trabalho, mas vocês estão todos aqui bebendo vinho?”, falou Li Jinglong. “Até conseguiram embebedá-lo, isso...”
A-Tai se apressou em falar. “Venha, chefe, venha; sente-se aqui! Hoje é por minha conta!”.
O rosto de Li Jinglong estava profundamente carrancudo quando ele se sentou; ele não se importou que a mesa estava cheia de sobras quando começou a engolir a comida já fria. Os outros três se ocuparam de perguntar sobre o que tinha acontecido. Li Jinglong respondeu e um a um eles pararam; o que estava bebendo chá, o que estava bebendo vinho, e o que estava comendo doces, todos interromperam seus movimentos e observaram Li Jinglong.
“Tinha um cadáver embaixo da cama?”, perguntou Mo Rigen.
Li Jinglong bufou pelo nariz e disse, “Finalmente interessado? Agora há pouco fui ao Departamento Judiciário e perguntei, mas ninguém foi reportado como desaparecido nesses últimos dias.”
“Isso não está certo.”, A-Tai franziu o cenho. “Esconder um corpo embaixo da cama, qual significado disso?”
Li Jinglong respondeu calmamente, “Eu não tenho certeza se é da nossa jurisdição, eu ia justamente encontrar com vocês para discutir...”
“Definitivamente é um yaoguai!”, Mo Rigen respondeu de pronto.
“E ele ainda não fugiu.”, Qiu Yongsi sorriu e seu sorriso parecia esconder algo.
“Por quê? Pode explicar?”, Li Jinglong perguntou enquanto escolhia sem qualquer cuidado o que comer, sua testa franzida.
A-Tai olhou para Li Jinglong demoradamente antes de falar um momento depois, “Acho que eles podem te contar.”
“Não, não, você primeiro...”
“Você primeiro, você primeiro...”
Os três começaram a discutir, empurrando a tarefa uns para os outros, então Li Jinglong levantou sua voz. “Chega!”
Um momento depois, Mo Rigen falou, “O cadáver embaixo da cama apodreceria em poucos dias e as pessoas eventualmente sentiriam o mau cheiro. No entanto, se o cadáver foi especialmente desidratado antes de ser escondido... é um processo complicado, algo que não se faz normalmente. É muito mais trabalhoso que apenas enterrá-lo.”
“Então Jin Yun está escondendo o cadáver para lançar algum tipo de magia yao?”, Li Jinglong franziu o cenho.
Todos carregavam expressões estranhas ao olhar para ele. Queriam rir, mas não se atreveram. Li Jinglong achou aquilo desconcertante e perguntou, “Falei algo errado?”
Qiu Yongsi respondeu, “Uh... na verdade, chefe, acredito que a pessoa tenha sido instantaneamente transformada em um cadáver seco para produzir esse tipo de efeito.”
Li Jinglong imediatamente entendeu e murmurou, “Então é assim que acontece.”
“Ele deve ter sido sugado pelo yaoguai,”, respondeu Mo Rigen. “Quando aconteceu, o yaoguai não sabia o que fazer com o corpo, então o colocou embaixo da cama totalmente ao acaso. Provavelmente foi isso.”
Li Jinglong pensou bastante por um momento.  A-Tai olhou para os outros dois e disse, “Vamos fazer uma patrulha esta noite? Sempre senti que havia algo errado com Pingkang Li; a raposa definitivamente expôs sua cauda[5]”.
Qiu Yongsi rapidamente lançou um olhar a A-Tai, alertando-o para não revelar muita coisa.
Li Jinglong finalmente entendeu: aquela noite em que A-Tai e Qiu Yongsi foram ao bordel, tinha sido para investigar o yaoguai.
“Há yaos em Pingkang Li?”, Li Jinglong perguntou.
“Lá está infestado com energia yao.”, Qiu Yongsi começou a rir enquanto falava.
 “Os lugares com energia yao mais densa são Pingkang Li, Palácio Daming e Palácio Xingqing.”
Por um bom tempo, Li Jinglong ficou ali sentado sem dar um pio sequer.
Li Jinglong passou bastante tempo pensando sobre o assunto. Ele deveria avisar os Exércitos Shenwu e Longwu para cercar Yishi Lan e encontrar o corpo, ou deveria primeiramente procurar o yao em segredo, sem levantar suspeitas?   Considerando sua má sorte, se ele fosse prender a pessoa chamada Jin Yun, ninguém acreditaria nele e isso na verdade somente acabaria lhe causando problemas. Bem, ele também não esperava que cada um daqueles poucos subordinados fosse tão entendido nestes assuntos.
“Então esta noite terei que avaliar melhor suas habilidades", falou Li Jinglong.
Xiongdi Hongjun é capaz de pegar um yao pequeno sem problemas,” Mo Rigen falou e sorriu. “O resto de nós vai apenas servir de apoio.”
À tarde, trovejou quando começou a garoar novamente em Chang’an. Com passos rápidos, Li Jinglong liderava, enquanto Mo Rigen carregava um embriagado Hongjun. Sob a chuva fraca, eles correram de volta para o Departamento de Exorcismo com A-Tai e Qiu Yongsi seguindo atrás. Pelas ruas, algumas jovens mulheres procuravam abrigo da chuva. Elas cochicharam e apontaram para o grupo quando eles passaram, chamando as amigas para dar uma olhada.
Li Jinglong era alto e bonito; Mo Rigen era esguio e tinha belas feições; A-Tai era tão lindo quanto uma pérola; Qiu Yongsi era esbelto e Hongjun, nas costas de Mo Rigen, tinha um rosto incomparavelmente lindo, como jade branca. Hongjun também carregava um peixe salgado nas costas... não, uma carpa.
As jovens mulheres seguiram correndo atrás do grupo e Mo Rigen virou a cabeça para olhar, ao tempo em que A-Tai falou, “Ai, isso é realmente angustiante. Em todo lugar que vamos sempre tem esse monte de gente nos seguindo... Vamos rápido, pessoal.” 
Mais tarde, eles se reuniram no salão principal ouvindo o barulho da chuva. Li Jinglong havia amarrara o gato a uma pilastra com uma corda; ele miou algumas vezes, esforçando-se para colocar a cabeça para fora e tentando escapar da corda. Algo urgente tinha acontecido hoje, então Li Jinglong decidiu adiar a devolução do gato para o dia seguinte.
O yao carpa permanecia imóvel, deitado no quintal tomando chuva.
Hongjun estava caído de lado na mesa do salão e, enquanto Li Jinglong retirava todos os registros de casos da época de Di Renjie, os outros três pareciam ter alcançado um acordo tácito. Cada um pegou alguns registros e começou a investigar o yaoguai que se escondia em Pingkang Li.
Todavia, enquanto analisavam os registros de Di Renjie, perceberam que, embora houvesse vários arquivos sobre yaos, a maioria se referia a Luoyang, a capital divina. Havia pouquíssimos registros posteriores à transferência da capital para Chang’an pelo imperador.
“Qual yao pode sugar a energia de uma pessoa para fins de cultivo?”, perguntou Li Jinglong.
“Vários deles," Mo Rigen abaixou a cabeça para analisar o pergaminho e falou casualmente, “Raposas, cobras, flores, pinturas...”
A-Tai interveio, “Talvez este não seja o caso. E se o corpo for apenas o amante de Jin Yun?”
Todos imediatamente se arrepiaram e Qiu Yongsi falou, “Sem chance! A-Tai, você curte esse tipo de
coisa?!”
“Preferia que fosse um yao", riu A-Tai.
Li Jinglong de repente falou, “Pessoal, vocês todos vieram se apresentar ao Departamento de
Exorcismo ao mesmo tempo?”
“Nós chegamos quase ao mesmo tempo,” A-Tai respondeu com um sorriso.
“Por que sinto como se todos vocês já se conhecessem há muito tempo?", falou Li Jinglong.
Todos pararam de falar novamente. Alguns momentos depois, enquanto observava a reação do grupo,
Li Jinglong acrescentou casualmente, “Peço que continuem me orientando, principalmente esta noite.”
Os três concordaram com a cabeça e Li Jinglong olhou na direção de Hongjun, que ainda estava
bêbado. Mo Rigen estendeu a mão e o chacoalhou gentilmente, chamando, “Hongjun?”
Eles temiam que Hongjun continuasse bêbado até a noite e tentaram acordá-lo, mas o yao carpa do lado
de fora despertou primeiro. Ele se levantou trêmulo, obviamente ainda um pouco embriagado, e piscou
algumas vezes dizendo, “Nós voltamos? Hm...”
O yao carpa seguiu pelo corredor, cambaleando para frente e pra trás. O gato se animou ao vê-lo e, com um forte puxão, soltou-se do laço que estava preso em volta do seu pescoço, saltando na direção do peixe. O yao carpa ficou momentaneamente atordoado, olhou para o gato-leão e, sendo acometido pelo terror, berrou, “Socorro! O gato fugiu!”
Esse pequeno susto foi diferente do de antes e até Hongjun acordou com a barulheira. Todos viram o gato que tinha dado tanto trabalho para ser pego prestes a fugir e se apressaram em tentar apanhá-lo. Li Jinglong gritou furiosamente, “Venham para o salão!”
Antes, por medo de que o gato acabasse estrangulado, Li Jinglong não amarrou a coleira muito apertada – mas ele nunca imaginaria que o animal iria fugir daquele jeito. O yao carpa correu para dentro e o gato o seguiu, enquanto Hongjun gritava, “Rápido, fechem as portas!”
O resto deles imediatamente bateu as portas com força. O yao carpa estava tão assustado que quase se mijou enquanto se escondia de seu predador em qualquer canto. Hongjun o orientou a ficar parado, mas o pavor de seu inimigo natural havia vencido qualquer lógica em seguir aquelas ordens. Ele correu descontroladamente, primeiro saltando em alguns arquivos de casos, depois pulando sobre a mesa e, com um salto voador e um forte impulso alimentado pelo medo, com um som parecido com o de uma flecha voando pelo ar, pulou para cima do armário.
Logo depois, A-Tai e Mo Rigen saltaram para o meio, mas o gato-leão era muito ágil e com dois movimentos conseguiu seguir o yao carpa até em cima do armário.
Li Jinglong de repente percebeu um sério problema. Ele apoiou um pé na parede e estava prestes a saltar para ajudar, mas já era tarde demais.
O yao carpa berrou “minha nossa”, e saltou de volta para baixo, voando para os braços de Li Jinglong. Assim que se virou para segui-lo, o gato-leão derrubou a caixa cheia de pólen de Lihun.
Com todos assistindo, a caixa com pólen de Lihun fez um trajeto em linha reta diretamente de cima do armário até a cabeça de Hongjun e, com um som suave, o recipiente se abriu, preenchendo o ambiente com pólen.
Todo mundo: “...”
As portas e janelas estavam fechadas e assim que o pólen se dispersou pelo ar, simultaneamente todos soltaram espirros de tremer a terra, e continuaram a espirrar ininterruptamente.
“Atchim–!”
“Atchim!” 
“Atchim! Atchim! Atchim! Atchim! A-tchim!”
“Atchim!”
A-Tai, Mo Rigen, Qiu Yongsi, Hongjun e Li Jinglong espirravam descontroladamente e os espirros vinham um após o outro. Os cinco ficaram primeiramente surpresos e então confusos; permaneceram parados no salão com as mentes embaralhadas e se viraram desorientados.
“O que aconteceu?”, perguntou Hongjun atordoado. “Atchim!” 
A-Tai: “Quem sou eu? Atchim!”
Mo Rigen: “Isso... vocês todos... onde estou? Atchim!”
Qiu Yongsi: “Atchim! Espere, este xiongtai aqui? Atchim!”
Até mesmo o gato-leão espirrava sem parar – ele via o yao carpa e seus olhos se iluminavam de esperança, mas então ele espirrava e voltava a ficar totalmente atordoado. Todos tinham a impressão passageira de que as coisas estavam estranhas, mas logo voltavam para um estado de feliz ignorância, espirrando sem parar. 
“Nós devíamos sair... atchim!”, Li Jinglong soltou um espirro violento enquanto o yao carpa desceu com um salto e correu para abrir a porta.
O nariz do yao carpa era útil apenas na água e suas narinas eram muito pequenas, então normalmente as mantinha bloqueadas. Como consequência, não tinha sido afetado e, vendo que o gato não o estava perseguindo naquele momento, se apressou para abrir a porta com toda sua força.
“Rápido, saiam!”, gritou o yao carpa.
Enquanto oscilava entre confusão e lucidez, Hongjun sentiu que havia algo gritando com ele, então cambaleou para fora e se juntou aos gritos. Todos os outros lentamente conseguiram sair, um por um. 
A cabeça de Hongjun girava. Ele olhou para o yao carpa, então novamente para Li Jinglong e os outros, dando o seu melhor para se lembrar de algo, mas seu cérebro estava tomado pelo caos. Naquele momento, o gato pulou para fora, sem saber para onde ir, e o yao carpa orientou, “Hongjun! Pegue ele, rápido!”
Hongjun inconscientemente estendeu a mão e agarrou o gato. O yao carpa pegou uma pequena escova com pazinha para limpar o pólen de Lihun espalhado do lado de dentro.
“O que acabou de acontecer?”, perguntou Li Jinglong.
Os outros quatro se entreolharam, todos com expressões vazias no rosto. Não muito tempo depois, com um estalo mental, A-Tai se lembrou e disse, “Você é o chefe Li!” 
“Ah!”, falou Li Jinglong, “Isso, isso; sou Li Jinglong e este é o Departamento de Exorcismo.”
“Sim, sim!”, todos agiam como se tivessem acabado de despertar de um sonho enquanto concordavam apressadamente com a cabeça. Hongjun abraçou o gato e perguntou confuso, “Mas por que estou segurando um gato?”
“Miau?”, o gato-leão olhou furtivamente para os lados.
“O que... nós estávamos fazendo?”, perguntou Li Jinglong. 
Pontos de interrogação pareciam pairar sobre a cabeça de todos. Mo Rigen se virou lentamente, assimilando a cena no quintal, então disse, “Acho que lembro que todos viemos ao Departamento de Exorcismo nos apresentar para trabalhar”
“Nós já nos apresentamos, certo?”, falou Qiu Yongsi. “Por que eu sinto que todos já nos conhecemos. Esta não é a primeira vez que nos vemos?”
Li Jinglong falou, “Precisamos ficar calmos; alguma coisa deve ter acontecido agora há pouco...”
Do lado de dentro, o yao carpa tinha varrido todo o pólen em uma pilha e, enquanto o guardava em uma bolsa do tamanho da palma de uma mão, falou, “Vocês todos respiraram pólen de Lihun.” 
“Sim, sim!”, todos se lembraram e assentiram. Agora eles quase conseguiam relacionar causa e efeito.
Meio shichen depois, todos tinham gradualmente se recordado de algumas coisas, mas o mais importante é que tinham esquecido o que estavam fazendo antes de cheirar o pólen de Lihun. Li Jinglong e seus subordinados, cada um com a mão no queixo, estavam sentados no salão principal quebrando a cabeça.
Hesitante, o yao carpa narrou em termos gerais os eventos que envolveram a captura do gato, mas em relação a todo o resto, ele não fazia ideia do que tinha acontecido.  Então, o complicado problema que tinham que enfrentar era “não é possível se lembrar do que já foi esquecido”. 
Preso na jaula, o gato encarava faminto o yao carpa, mas não conseguia sair. 
“O que aconteceu exatamente?”, perguntou Li Jinglong franzindo o cenho.
“Talvez estivéssemos apenas tomando chá?”, falou Qiu Yongsi.
“Não, não era isso.”, Li Jinglong disse para si mesmo. “Se estávamos apenas tomando chá, por que tem tantos pergaminhos sobre a mesa? Isso é estranho;  devíamos estar trabalhando em um caso importante agora há pouco.”
“Antes, quando estávamos pegando o gato, Hongjun e eu nos escondemos embaixo da cama...” 
“Depois que bebi a água para lavar pés...”
Todos estavam quebrando a cabeça ao pensar e Li Jinglong tentou analisar os acontecimentos a partir de seus pedaços de memória fragmentada.  Hongjun murmurou para si mesmo, ainda tentando se lembrar quem ele era e de onde viera. Aos poucos, começou a se lembrar que era do Palácio Yaojin e vários detalhes de sua infância vieram à tona de uma única vez. Após um curto período de esquecimento, ele se lembrou de Chong Ming e até mesmo se lembrou da primeira vez que o encontrou.
Hongjun deixou escapar um suspiro. Quando estava prestes a falar, lembrou-se de um estranho conjunto de memórias. A voz de Li Jinglong começou a soar cada vez mais distante, até desvanecer.
Sob a intensa luz do sol e sob as sombras das folhas da árvore de guarda-sol, Hongjun sentiu que aquela cena parecia estranhamente irreal, como se tudo fosse um sonho criado pelos raios solares que corriam em linha reta. Neste sonho, sua consciência ficava mais e mais distante e, num redemoinho, o tempo retrocedeu levando-o de volta àquela tarde no Palácio Yaojin. 
Inúmeras sombras dispararam para trás num piscar de olhos e ele se encontrou paralisado em um dia do passado.
“Hongjun disse que vocês encontraram uma pessoa morta embaixo da cama...”
“Uma pessoa morta?”
Em um segundo todos se sobressaltaram, encarando fixamente o yao carpa. Ele contou a série de eventos, descrevendo tudo o que tinha visto acontecer no quarto. 
No entanto, as pupilas de Hongjun continuaram a se contrair. Depois de cheirar o pólen de Lihun, ele foi subitamente lembrado daquela noite no Palácio Yaojin, em que a primeira coisa que viu ao abrir os olhos foi a lágrima que escorria do canto do olho de Chong Ming.
Nesse momento, a memória recuou tão rápido quanto veio, retornando para a escuridão. Ele estava parado em meio às ruínas, olhando ao redor inexpressivo.
“...Eu só tenho esta criança...”
A voz de um homem estranho ressoou próxima de seu ouvido. 
 
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Notas de tradução:
[1] Refogado Qunxun: peixe e cordeiro refogados.
[2] Yuhuang Wangmu (Arroz Mãe Rainha Real Amarelo): carne e/ou ovos cozidos sobre o arroz; parecido como o lu rou fan (refogado de arroz e porco) da culinária de Taiwan, mas com alguns sabores diferentes.
[3] Lishan Shaochun: um vinho específico; um tipo de baijiu (licor chinês límpido e incolor, geralmente com teor alcoólico entre 35% e 60%). 
[4] Um provérbio parodiado pelo autor: 不省人事, [um humano] está inconsciente para 不省鱼事, um peixe está inconsciente. Na tradução para o inglês, parodiaram a expressão "bêbado como um gambá" (drunk as a skunk) para "bêbado como um peixe" (drunk as a fish).
[5] “A raposa mostrou sua cauda”: expusemos algum tipo de trama.

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