domingo, 19 de fevereiro de 2023

[Novel] Tianbao Fuyao Lu - Capítulo 013

  


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Tradução: Foxita
Revisão: Miss Sw
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Capítulo 13 – Retorno a Pingkang



Segurando uma pilha de papéis nas mãos e carregando um peixe nas costas, Hongjun adentrou Jincheng Fang. Como ainda era cedo, Zhao Zilong estava meio adormecido contra as costas de Hongjun, sua boca de peixe se abrindo vez ou outra quando bocejava.
“Você acha que seria útil se eu pendurasse cartazes do gato desaparecido?”
“Quem poderia adivinhar que aqueles seus rabiscos horrorosos[1] são um gato?" respondeu o yao carpa.
Hongjun olhou ao redor e, aproveitando o pouco movimento na rua tão cedo pela manhã, lançou um gancho e disparou até os beirais, subindo no Pagode[2] Dayan. Ele habilmente saltou andar por andar e, quando chegou ao topo do pagode, sentou-se abraçando os joelhos.
Sob o céu azul de poucas nuvens brancas, os milhares de telhados de Chang’an eram banhados pela luz da manhã e pela brisa suave. Na Terra Divina, humanos realmente foram capazes de construir uma cidade tão esplendorosa e majestosa e o coração de Hongjun se encheu de felicidade e admiração ao contemplá-la.
Ele abaixou a cabeça e olhou a pilha de cartazes do gato desaparecido que havia desenhado antes de sair e se pegou pensando como seria fácil resolver aquilo se estivesse no Palácio Yaojin. Possuindo a habilidade de falar com aves, Qing Xiong e Chong Ming teriam apenas que enviar dois falcões para procurar; seria muito mais rápido do que Hongjun ter que fazê-lo.
“Depois de aproveitar a brisa, deveríamos voltar,” disse o yao carpa. “É tão seco aqui fora no outono, não é muito confortável.”
“Ele me parece tão lamentável,” disse Hongjun. “Não está sendo fácil, vou ajudá-lo a procurar um pouco.”
“Você não pode se solidarizar com todo mundo.”, respondeu o yao carpa.
“Se encontrarmos o gato, aqueles funcionários não serão um pouco mais legais com ele no futuro?”, perguntou Hongjun.
Graças ao yao carpa, na noite passada Hongjun tinha mais ou menos entendido os rígidos escalões em que os funcionários eram divididos e também o motivo pelo qual Li Jinglong experimentara tão pouco sucesso. Embora não pudesse entender completamente todas as nuances, compreendeu o suficiente: era porque o imperador e os funcionários do alto escalão não viam Li Jinglong com bons olhos.
“Não seja ingênuo,” disse o yao carpa. “É difícil acabar com os preconceitos das pessoas e, quando alguns quebram os padrões, seus companheiros humanos são capazes de fazer coisas mais cruéis e perversas do que a tribo yao. Qual deles morderia a própria língua para admitir que Li Jinglong tem talento? Da maneira como eu vejo, eles apenas o farão continuar procurando por seus cachorros e gatos desaparecidos.”
Hongjun pensou de repente e se perguntou em voz alta, “Exatamente por que esse gato fugiu? Alguma coisa o assustou?”
“Sua linha de pensamento é igual à minha. Eu também estava cogitando que ele pode ter visto algo que não deveria.” A voz de Li Jinglong de repente soou da sacada mais alta do Pagode Dayan. Hongjun levou um susto tão grande que quase escorregou do telhado.
Na verdade, ele e Li Jinglong tiveram a mesma ideia; subir até o ponto mais alto de Chang’an para ter uma vista de toda a cidade. Hongjun baixou o gancho para deixar Li Jinglong subir e os dois se sentaram no topo do pagode.
“Quando chegou aqui?” Hongjun tinha a consciência pesada e não conseguia parar de olhar para Li Jinglong.
Li Jinglong respondeu “Quando você disse ‘Ele me parece tão lamentável’.’”
Hongjun se sentiu extremamente envergonhado, mas Li Jinglong meramente franziu o cenho e disse, “Agora há pouco fui à mansão da Senhora Qinguo. Naquela noite, o gato viu algo e se assustou. Gatos são especialmente sensíveis a criaturas malignas, mas não se afastam com facilidade do lugar que os alimenta. Pelas ruas de Chang’an, onde um gato encontraria comida melhor do que a da casa da Senhora Qinguo? Então, acredito que o incidente foi realmente assustador a ponto de ele não querer voltar.”
“Talvez ele tenha se perdido?” perguntou Hongjun.
“Pouco provável,” respondeu Li Jinglong balançando a cabeça.
“Alguém o escondeu?” sugeriu Hongjun.
“Quem seria ousado o suficiente para furtar o gato da Senhora Qinguo?” frisou Li Jinglong. “Os Seis Exércitos procuraram por ele por dez dias inteiros e até ofereceram recompensa em todos os lugares, portanto seu paradeiro já deveria ser conhecido... Se não houve um acidente, ele deve estar escondido em algum lugar da cidade; imagino que em algum lugar próximo à mansão Qinguo. Vamos.”
Hongjun de repente sentiu que Li Jinglong era realmente muito inteligente.
Li Jinglong saltou do telhado, mas Hongjun se virou e lançou o gancho, pulando do Pagode Dayan para os telhados próximos e puxando Li Jinglong para cima consigo. Os dois se moveram ao longo dos telhados por todo o caminho e, quando chegaram ao final de um, simplesmente pularam pela abertura.
“Você acha que há muitos yaoguais em Chang’an?” Hongjun sentiu repentina curiosidade e perguntou para Li Jinglong, que andava à sua frente.
Li Jinglong respondeu: “A aura demoníaca ao redor da cidade é muito densa e já há algum tempo tem sido praticamente impossível limpá-la. Todas as noites, um bando de yaos saem perambulando descontrolados; não parece nada com a Chang’an que está vendo.”
“Como fez para sentir?", embora também tivesse certa consciência da questão, a percepção de Hongjun não era tão aguçada quanto a de Li Jinglong. À noite, depois do soar das três mil batidas[3], Chang’an parecia mudar completamente. Claramente algo estava acontecendo sem que ele soubesse e em lugares que ele desconhecia.
Li Jinglong deu um tapinha na espada em sua cintura e não respondeu.
“A espada te contou? Quantos yaoguais você acha que há em Chang’an?” Hongjun perguntou novamente.
“Dezenas de milhares” Li Jinglong olhou para Hongjun.
Hongjun se lembrou que, quando estava partindo, Chong Ming lhe disse que a cidade de Chang’an estava tomada por yaos. Porém, ele já estava aqui há um bom tempo e nunca viu nenhum. Eles se escondiam bem ou Hongjun era muito estúpido para senti-los?
“Macaco.” o yao carpa às costas de Hongjun disse de repente.
“O quê?”
Sobre o telhado do lado de fora do Mercado Leste e sem saber por onde começar a procurar, Li Jinglong e Hongjun sentiam-se perdidos. Inesperadamente, algo veio voando pela lateral e atingiu em cheio o rosto de Li Jinglong. Ambos se assustaram e rapidamente se viraram ao mesmo tempo para olhar, mas tudo que ouviram foram uns "hii hii hii" de um macaquinho que, agachado no telhado do Salão Flor de Jade localizado nos arredores do Mercado Leste, olhava para os dois.
“Isso...” bem quando Li Jinglong estava prestes a correr para enxotá-lo, Hongjun se lembrou do pobre macaco que ele tinha libertado aquele dia no mercado e então sorriu.  “Oh! É você!”
Hongjun acenou para o macaquinho que correu em sua direção arrastando uma corrente atrás de si.  Agora que fugira de seu captor, o macaco parecia mais saudável. Como ocasionalmente recebia comida de pessoas gentis, tinha em suas mãos um mantou mofado, que ofereceu seguidas vezes para que Hongjun comesse.
Hongjun não teve escolha senão aceitar aquele pedaço mofado de gratidão, repartindo-o e entregando um pedaço para o yao carpa, que ficou insatisfeito com aquele desenrolar e protestou, “Esse pão cozido...”
“Apenas coma.” Hongjun partiu o pão em pequenos pedaços e os enfiou um a um na boca do yao carpa. Em seguida, sacou uma das facas de arremesso para se desfazer das correntes no pescoço do macaquinho.
Li Jinglong disse, “Macacos mantidos por adestradores são capazes de entender a língua humana. Já que ultimamente ele tem andado livremente por aí, você deveria perguntar se ele viu o gato.”
Hongjun pensou consigo mesmo, É verdade! Rapidamente puxou seu desenho de gato feito à mão para mostrar ao macaco. Li Jinglong exclamou, “O gato que você desenhou... isso era para ser um gato?!”
A expressão de Li Jinglong se ficou sombria novamente e ele quase caiu do telhado. No pedaço de papel, Hongjun havia apenas desenhado três círculos que se interseccionavam, um rabo bambo e torto parecido com uma lagarta e duas orelhas pontudas. Parecia um yaoguai.
O macaco inclinou a cabeça e fez uma sequência de “hii hii hii”. Em seguida, fez sinal para que Hongjun o seguisse e saiu correndo.
“Sem chance!” disse o yao carpa. “Ele realmente entendeu o desenho!”
Hongjun rapidamente apanhou Zhao Zilong e, com Li Jinglong a reboque, seguiu o macaco até os arredores de Pingkang Li.  Abaixo deles, o Mercado Leste já estava aberto e fervilhava de pessoas ocupadas com seus próprios afazeres. Li Jinglong ainda estava um tanto traumatizado pelos eventos passados, por isso se afastou consideravelmente da multidão e se curvou para evitar ser visto.
Assim que o macaco parou, Hongjun avistou o alvo e soltou um “ah”.
Na beirada do telhado, entre os bordéis Liuying Chunxiao e Yishi Lan[4] de Pingkang Li, havia uma espécie de protuberância parecida com um espanador de penas brancas. Aquilo não se moveu minimamente e apenas ficou ali, deitado, aproveitando o sol.
“É ele?” Hongjun imediatamente se virou para olhar.
“Vá com calma, vá com calma!” Li Jinglong mal podia acreditar, eles realmente o tinham encontrado!
Era evidente que a sorte Hongjun era simplesmente boa demais. Embora recuperar o gato não fosse lhe trazer sensação de revanche, ainda assim seria um belo tapa na cara dos Seis Exércitos... Mas, como era possível ele conseguir resolver essa questão tão facilmente quando a cidade inteira já havia procurado pelo gato sem qualquer sorte? Para ele, isso era inacreditável.
“Quer chamar Mo Rigen e os outros?” perguntou Hongjun. “E se não for o que estamos procurando?”
O próprio Li Jinglong dissera anteriormente: se tiver a sorte de encontrar o gato, não o assuste. Eles deveriam primeiro informar os outros; quem sabe se aquele era realmente o gato certo?
Há pouco, porém, o pessoal da mansão Qinguo lhe disse que essa raça de gato era muito rara. Mesmo se procurassem por toda a cidade, talvez não conseguissem encontrar um segundo animal como aquele.
“Não há necessidade.” Li Jinglong respondeu baixo enquanto observava o gato vigilantemente. “Eles provavelmente estão de bobeira em algum lugar. Vamos apanhá-lo primeiro, não importa se é o certo ou não. Vou me esgueirar por trás, vá pela frente. Você trouxe uma rede?”
“Sim, sim.” respondeu Hongjun ficando apreensivo.
“O que quer que faça, não assuste as pessoas que estão andando lá embaixo,” instruiu Li Jinglong. “Não queremos que ele fuja novamente.”
Hongjun rapidamente concordou com a cabeça, apenas para ver Li Jinglong fazer um gesto de pressionar um pouco, curvar-se e se esgueirar em um grande círculo.
“Não precisa disso tudo, não é?” comentou o yao carpa. “É apenas um gato.”
Hongjun: “Daqui a pouco, você...”
O yao carpa cortou, “Nem pensar! Não vou ajudar vocês a cercá-lo! Se esqueceu do que eu sou?!”
Hongjun se lembrou que yaos peixes também eram peixes e, portanto, nutriam profundo horror instintivo a gatos e ursos, então acabou abandonando aquela ideia. Nesse intervalo de tempo, Li Jinglong fizera um desvio tão grande, circulando tanto ao redor, que Hongjun não podia mais vê-lo. E então, a cerca de cinquenta passos de distância, uma pequena mancha preta começou a se aproximar lentamente.
Hongjun segurou a rede, aproximando-se cautelosamente, esforçando-se ao máximo para não fazer nenhum barulho.  O gato permanecia numa posição relaxada e confortável, tomando sol no telhado. Mais perto, mais perto, conforme chegavam cada vez mais perto, o gato no meio continuava totalmente imóvel; seu flanco subia e descia a cada respiração, como se estivesse dormindo.
Quando estava a menos de um zhang de distância do gato, Li Jinglong parou e gesticulou para Hongjun, que se curvou com as duas mãos agarradas à rede e caminhou passo a passo em direção ao animal...
Naquele instante, o gato abriu os olhos e viu Li Jinglong. Os dois se encararam brevemente. Li Jinglong gritou “Vai!”
Logo em seguida, ele pulou em direção ao gato, ao passo que Hongjun abriu a rede e se aproximou correndo.
No cenário ideal imaginado por Li Jinglong, o gato se assustaria com ele e pularia na direção de Hongjun, sendo perfeitamente preso pela rede. Ao invés disso, no entanto, o gato de repente se transformou em uma sombra ágil e deslizou entre as pernas de Li Jinglong.
Li Jinglong: “!!!”
Imediatamente em seguida, Hongjun fez o mesmo, virando de lado e deslizando para baixo ao seguir no rastro do gato.
“Não fuja!” Hongjun segurou a rede e, bem quando estava prestes a apanhá-lo, seu pé escorregou no ar ao pisar em uma telha solta. Naquele instante, um pensamento cruzou sua mente...
Esse gato era esperto demais! Facilmente dera um olé nos dois!
No segundo seguinte, Hongjun caiu com força do telhado do Liuying Chunxiao em direção aos níveis inferiores do Yishi Lan. Lá embaixo, havia uma variedade de pratos ordeiramente arranjados, mas, em menos tempo do que se leva para ler esta frase, Li Jinglong o agarrou e puxou de volta.
Hongjun olhou para o beco abaixo; exatamente abaixo de si, havia uma grande panela de sopa; essa foi por pouco, foi realmente por pouco. Se tivesse simplesmente caído, provavelmente ficaria bem, mas Zhao Zilong acabaria ficando para sempre dentro daquela panela.
“Shh.” Li Jinglong levou Hongjun consigo enquanto recuava um passo, a tempo de ver o gato pular no terceiro andar do Yishi Lan, deslizar pela fresta de uma porta entreaberta e simplesmente desaparecer.
Hongjun ofegou pesadamente e disse, “Eu tentei o máximo...”
“Está tudo bem,” lhe assegurou Li Jinglong. “Nós sabemos onde ele está, então vai ser fácil. Vamos!”
Os dois saltaram, caindo levemente dos beirais. Hongjun sussurrou, “Deixe que eu vou, assim você não...”
“Não posso ser tão azarado,” Li Jinglong sussurrou de volta.
Yishi Lan era o bordel preferido dos acadêmicos na cidade de Chang’an e até o pátio lateral era elegantemente decorado. Depois de passarem pela janela, eles pousaram em um estreito corredor que levava a vários quartos, cada um com nomes como “Qiang Jin Jiu”, “Amanhecer da Primavera”, “Yu Tai Chun”[5], e assim por diante.
“Vamos nos separar para procurar,” disse Li Jinglong. “Hongjun, por favor, diga para Zhao Zilong e o macaco também virem ajudar.”
O yao carpa inicialmente recusou, mas Hongjun já o havia colocado no chão, por isso, mesmo tremendo, teve que enfiar a cabeça por uma sequência de portas entreabertas para espiar. Após receber orientação de Hongjun, o macaco rapidinho entendeu e foi verificar outro quarto.
“Depois de encontrá-lo, saia rápido e em silêncio,” disse Hongjun. “Não precisa pegá-lo” e então empurrou o yao carpa para dentro do quarto.
“Você vai pela esquerda, ou vou pela direita,” sussurrou Li Jinglong.
O sol estava na altura de três hastes de bambu[6] e as mulheres do Yishi Lan haviam ido sabe-se lá para onde enquanto Hongjun procurava em um quarto. O cheiro de cosméticos sufocava seu olfato e todos os cômodos eram luxuosa e elegantemente decorados, o que o fez supor que as mulheres daquela seção fossem todas cartão vermelho[7]. Realmente, Li Jinglong acertou em cheio; o gato havia encontrado um lugar próximo à mansão Qinguo para ficar.
Ainda se sentindo um pouco engasgado pelo mantou seco que fora obrigado comer, o yao carpa entrou em um quarto e correu para a bacia d’água. Ao beber, sentiu um gosto um pouco estranho e disse, “Água para lavar pés, ugh, que azar”, e parou. Ao olhar ao redor, de repente viu uma pintura pendurada na parede. Era uma das obras de Zhang Xuan[8], intitulada Carpa no Córrego Primaveril. Na pintura, a carpa parecia viva e realista, assim como os galhos do salgueiro pareciam balançar suavemente. Zhao Zilong estacou, encarando a imagem boquiaberto.
“Linda! Que linda!” o yao carpa se aproximou com a saliva quase escorrendo de sua boca.
Nesse exato momento, o som de garras arranhando madeira veio de trás dele. O yao carpa congelou de terror; suas escamas e pelos da perna se eriçaram conforme um som escapou de sua boca. Ele lentamente virou a cabeça, olhando para trás.
O gato-leão estava agachado em cima do armário; seus olhos, um azul e outro amarelo, focados infalivelmente nele e desprovidos de quaisquer boas intenções.
O yao carpa momentaneamente perdeu o juízo e gritou, “Ah, alguém ajude!”
Nos quartos vizinhos, Li Jinglong e Hongjun ao mesmo tempo ouviram o grito que veio do quarto do meio e imediatamente correram como uma rajada de vento.
O gato-leão já havia pulado de cima do armário na direção do yao carpa! Aterrorizado, Zhao Zilong mergulhou embaixo da cama para se esconder.
Quando Hongjun e Li Jinglong entraram às pressas após empurrarem a porta, o gato se jogou na cama com um "miau". Gritando descontroladamente, o yao carpa se contorceu e saiu pelo lado oposto. Para salvar sua vida, ele correu em agitação, balançando a cauda, e se escondeu no armário.
“Encontrei!” Li Jinglong se virou e fechou a porta para que o gato não escapasse.
Hongjun rastejou para baixo da cama para apanhar o gato, mas esta cama de madeira era diferente da que ele geralmente dormia. Esta era feita de mogno valioso, com a parte de trás encostada contra a parede, enquanto os três outros lados que se voltavam para fora estavam selados, com apenas o espaço vazio entre as grades de madeira como aberturas finas.  Hongjun viu o gato escondido na escuridão encarando-o com o par de olhos yin yang.
Li Jinglong enfiou o braço para pegar o gato, mas ele se enfiou ainda mais para dentro. Ao lado dele, Hongjun perguntou, “O que eu faço?”
O cotovelo de Li Jinglong era muito forte e ficou preso entre as grades.
Hongjun: “...”
Li Jinglong: “...”
Hongjun estendeu a mão, mas o gato apenas lambeu calmamente a próprias garras, totalmente indiferente às duas pessoas à sua frente.
“Vou levantar a cama.”
“Ele vai correr assim que você levantar,” previu Hongjun. “Levante só um pouquinho, vou deslizar por baixo para pegá-lo.”
Então, Li Jinglong usou toda sua força e com um grito de "para cima", ergueu aquela cama que pesava quatrocentos e poucos jin[9], revelando uma pequena abertura por onde uma pessoa poderia se espremer. Hongjun imediatamente aproveitou a oportunidade e rolou por ela.
Embaixo da cama não era muito espaçoso e havia ali pilhas de estacas de madeira, pergaminhos de suspensão e coisas do tipo. Naquele instante, o gato se arrepiou e se preparou para escapar, mas Hongjun estendeu a mão e o agarrou pela pata, dizendo, “Peguei!”
“Segure firme! Não deixe que fuja de novo!”, falou Li Jinglong
Justamente nesse momento, um barulho veio de fora.
“Não posso vir à noite, então só posso me contentar em te ver durante o dia...”
Li Jinglong prontamente virou a cabeça e suas pupilas se retraíam rapidamente; a voz daquele homem era bastante familiar Ele tentou ferozmente puxar o braço e, com uma súbita explosão de força, conseguiu se soltar.
Hongjun abraçou o gato e usou os joelhos para segurar a base da cama, fazendo o possível para mantê-la minimamente levantada.
“Chefe, por favor, levante a cama de novo para eu conseguir sair...”
Mas antes que ele pudesse terminar a frase, Li Jinglong rolou para baixo da cama junto dele e, ao mesmo tempo, levantou a cama, abaixando-a cuidadosamente na sequência.
Hongjun queria dizer alguma coisa, mas Li Jinglong o abraçou por trás com força e rapidamente cobriu a boca alheia com uma das mãos para que o outro não ousasse falar nada. Assim que a cama de madeira foi devolvida ao chão, a porta se abriu e os passos pesados e decididos de um homem acompanharam a voz risonha de uma mulher quarto adentro.
Os dois se sentaram na cama e o homem falou, “Naquela ocasião, Li Jinglong foi ao Liuying Chunxiao, o que provocou toda uma investigação ao Exército Longwu pelo Censorado[10]. Foi por isso que não pude vir nesses últimos dias, mas você sempre esteve em meus pensamentos.”
Hongjun arregalou os olhos e olhou de soslaio para Li Jinglong, que lentamente afrouxou a mão, posicionando um dedo sobre os lábios num gesto por silêncio e continuou a cobrir a boca do gato que estava nos braços do outro. Hongjun abraçava o gato e Li Jinglong o abraçava por trás. Espremidos nesse espaço pequeno e apertado, Hongjun sentiu o coração de Jinglong bater violentamente. Aquele peito era largo e poderoso e o corpo alheio irradiava extremo calor.
Li Jinglong tinha uma expressão hostil no rosto, pois a pessoa que viera ao Yishi Lan era, na verdade, seu superior imediato no Exército: Hu Sheng, Comandante do Exército Longwu. Inicialmente, foi justamente porque Hu Sheng não acreditou em Li Jinglong que ele foi incessantemente ridicularizado por seus colegas e até mesmo por Yang Guozhong.
Nesse momento, eles ouviam apenas Hu Sheng na cama, abraçando e beijando aquela mulher, gritando loucamente “Jin Yun” ao fazê-lo. A respiração de Jin Yun começou a ficar ofegante e os dois rolaram juntos na cama, suas palavras imediatamente se tornando dez vezes mais românticas.
Os batimentos cardíacos de Hongjun também se aceleraram. Com dezesseis anos e sem ter tido ainda diversas experiências na vida, aqui estava ele, sendo abraçado por trás por Li Jinglong em uma posição extremamente ambígua, enquanto escutavam os sons que vinham de cima. Aqueles sons deixaram Hongjun incrivelmente chocado, e Hu Sheng empregava todos os tipos de truques, o que o fez corar.
Ainda mais embaraçoso era que ele podia sentir a respiração de Li Jinglong ficar cada vez mais pesada e alguma coisa dura o cutucava firmemente por trás.
Hongjun engoliu em seco. O braço que o abraçava apertou inconscientemente e, por sua vez, o braço de Hongjun que abraçava o gato também se apertou. Quase sendo estrangulado, o gato estava tão desconfortável que continuava a arranhar enquanto se debatia.
Temendo que o gato fizesse algum barulho e assustasse o casal na cama, Hongjun pegou suas garras e as manteve paradas. Inesperadamente, a garra enganchou na lona áspera que cobria diversos dos objetos aleatórios sob a cama, puxando-a na direção deles.
Quando o tecido grosseiro foi movido para o lado, a cabeça de uma pessoa morta apareceu por um momento. Hongjun se afastou para trás, deixando escapar um grito involuntário.
Hongjun: “Ah!”
Li Jinglong: “!!!”
Rápido como um relâmpago, Li Jinglong primeiro cobriu a boca de Hongjun e então os olhos, protegendo-o firmemente em seus braços.
Por sorte, naquele momento Jin Yun gritou alto na cama, encobrindo a voz de Hongjun. Hu Sheng estava cada vez mais poético com suas palavras doces, então não percebeu.
Os cabelos da nuca de Hongjun se arrepiaram e ele sentiu calafrios até nos ossos; esta era a primeira vez que encarava tão de perto o rosto de uma pessoa morta e ele quase se apavorou. Depois de se recuperar um pouco, apenas ofegou descontroladamente. A própria expressão de Li Jinglong era de horror e descrença, enquanto apertava o braço alheio, indicando que Hongjun não deveria ter medo.
Na cama, Hu Sheng também ofegava. Obviamente, eles haviam acabado e ele agora conversava com Jin Yun.
Hongjun observou o rosto do cadáver e percebeu que ele parecia ter sido colocado ali há muito tempo; a boca estava aberta, a pele do rosto já secara e começava a escurecer, e o lugar onde deveriam estar os olhos eram duas órbitas vazias. Li Jinglong estendeu a mão levemente e desamarrou o pano, revelando o corpo dissecado que ainda vestia um robe branco e estava encolhido na parte mais interna da cama numa postura assustada.
Hongjun leve e timidamente afagou o braço de Li Jinglong, percebendo que ele também estava arrepiado.
Hu Sheng sorriu. “Vou indo.”
“Você vai simplesmente partir assim?” Jin Yun relutava em se despedir.
“Voltarei outro dia para te visitar novamente,” Hu Sheng abraçou Jin Yun e deu-lhe um beijo estalado no rosto. Ele vestiu as roupas, empurrou a porta e Jin Yun o acompanhou até a saída.
Não muito tempo depois, os dois finalmente saíram de baixo da cama. Li Jinglong não conseguia parar de ofegar e, ao encontrar o olhar de Hongjun, seus olhos estavam cheios de perplexidade.
Hongjun disse, “O que vamos fazer?”
Li Jinglong pensou por um momento e disse, “É melhor não demorarmos aqui. Esse assunto é de grande importância, devemos primeiro nos certificar de não os assustar.”
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Notas de tradução
[1] No original em mandarim é algo como “fantasma desenhando talismã”, que significa basicamente algo muito, muito ruim.
[2] Modelo arquitetônico amplamente usado em templos orientais; tipo de torre com múltiplas beiradas construída com vários andares, cada um destes com seu telhado.
[3] Três mil batidas: acontece no pôr do sol, como forma de anunciar a chegada da noite.
[4] Yishi Lan: outro bordel, supostamente mais digno e erudito. A tradução literal seria algo como “Jardim do Poeta Inclinado”.
[5] São basicamente referências a poemas. (i) Qiang Jin Jiu: famoso poema de Li Bai sobre beber vinho - é também o nome de uma novel danmei simplesmente maravilhosa; (ii) Amanhecer da Primavera: poema de Meng Haoran sobre as paisagens da primavera; (iii) Yu Tai Chun: não parece corresponder a um poema, mas parece ser erro de digitação de Feitian, pois há uma flor chamada Yu Tang Chun - magnólia rosa - e existem diversos poemas sobre ela.
[6] Altura de três hastes de bambu: cerca de 10:00h a.m.
[7] Cartão vermelho: as mulheres mais belas e caras do bordel.
[8] Zhang Xuan: famoso pintor da corte da dinastia Tang, mais conhecido por suas pinturas de mulheres e bebês. Nenhuma de suas obras originais sobreviveu até os dias de hoje, mas existem cópias de algumas das mais famosas. Exemplo de pintura em seu estilo.

[9] Aproximadamente 600g cada jin, então 240kg.
[10] Censorado: departamento da Dinastia Tang encarregado de investigações internas.

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