Capítulo 16 - O Departamento de Exorcismo
Luz — havia luz por toda parte.
Espalhados por todo o canto, espíritos brilhantes voavam por toda a parte. Centenas de bilhões daquelas pequenas criaturas formavam pontos de luz branca que flutuavam e caíam suavemente como uma nevasca semelhante a algodão, preenchendo o beco inteiro.
Parecia um cenário de conto de fadas, onde cada floco de neve brilhava. Xiang Cheng, achando aquilo um tanto curioso, olhou ao redor e estendeu a mão, pegando com a ponta dos dedos indicador e polegar um daqueles pequeninos seres que dançavam pelo ar.
Era uma criatura peculiar; ao estender a mão para pegá-la, Chi Xiaoduo soltou um “ah!” e se aproximou para ver de perto. Ele descobriu que o corpo do pequeno ser era como o botão que ainda não tinha desabrochado de uma magnólia, enquanto suas asas abertas eram as próprias pétalas da flor.
O pequeno espírito debatia-se desconfortavelmente, então Xiang Cheng afrouxou os dedos, permitindo que ele voasse para longe.
A neve caía pesadamente no beco, mas não fazia frio algum. A neve parecia até se desviar de alguns pontos. Ao longo daquele beco estreito e comprido, havia três bancas de rua: duas vendiam artesanato e uma vendia jianbing guozi¹ e batatas fritas, de onde saía um cheiro exagerado de óleo vegetal que impregnava o ar.
Um alto-falante repetia sem parar: “Promoção imperdível, venha conferir! Grande queima de estoque, últimos três dias, últimos três dias…”
A atmosfera era estranha. Enquanto Chi Xiaoduo caminhava, percebeu que, surpreendentemente, nenhum floco de neve havia caído sobre ele.
No fim do beco havia um prédio de seis andares, sujo e em estado precário; bem no topo, duas torres antigas cercavam uma estreita faixa de céu azul. Havia pouquíssimas pessoas: dois punks de cabelo tingido de um amarelo espalhafatoso agachados no chão, garimpando algumas coisas, e uma garota de rabo de cavalo, com uma bolsa falsificada atravessada no peito, parada diante da barraca esperando o dono fritar um jianbing.
Os dois lados do beco estavam repletos de magnólias, e as árvores espalhavam suas flores por todo o caminho, formando a neve que os cercava.
“Não tire fotos.” Xiang Cheng entrelaçou os dedos com os de Chi Xiaoduo e entrou no beco.
Em toda a extensão daquele beco estreito, havia apenas um prédio de três andares. O fim do beco dava direto no pátio desse prédio. Ao lado do portão do pátio, havia uma placa azul retangular pendurada; no lugar onde deveria estar o número do endereço, um símbolo estranho fora desenhado com tinta vermelha. Sobre a porta, havia um espelho Bagua² pendurado e, no chão logo à frente, um pequeno santuário.
Duas placas de madeira em péssimo estado estavam penduradas na porta de madeira. A da esquerda trazia duas colunas de texto na vertical: 【Escritório do Departamento de Exorcismo da Província de Guangdong】 e 【Departamento de Gestão e Reforma de Yaoguai na Área Civil da Província de Guangdong】. Já a da direita exibia: 【Sede Regional de Guangdong do Congresso Nacional de Exorcismo】e 【Escritório do Comitê de Eventos de Exorcismo Civil】
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng estava prestes a entrar quando viu um aviso afixado na porta; parou e deu um passo para trás para dar uma olhada.
【Aviso:
As inscrições para os exames de 2015, para exorcistas de primeira e segunda classe terão início em 15 de junho.
Solicita-se a todos os candidatos que preencham o formulário de inscrição com informações verídicas e apresentem duas fotos 3x4, sem acessórios na cabeça. Dirijam-se ao departamento de exorcismo local para obter o formulário e realizar a inscrição.】
Um homem saiu do pátio, observando Chi Xiaoduo e Xiang Cheng com um olhar estranho.
Xiang Cheng acenou para ele; o homem franziu levemente a testa, mas não disse nada.
“Irmão, o Diretor Li já chegou?” Xiang Cheng perguntou.
O homem não respondeu nada, ignorando completamente Xiang Cheng e seu companheiro, e simplesmente foi embora.
Xiang Cheng então disse: “Vamos entrar.”
Não havia neve no pátio, e entrar ali era como entrar em outro mundo. O pátio estava varrido e limpo; na parede, estava afixado o aviso:
【Avaliação de Limpeza e Civilidade da Filial de Guangdong do Departamento de Exorcismo】
O guarda do portão estava sentado no pátio, ouvindo ópera cantonesa no rádio, mas levantou a cabeça para lançar um olhar a Xiang Cheng.
“Por que você trouxe uma pessoa comum?” perguntou o guarda, que era um homem idoso.
Chi Xiaoduo teve a vaga sensação de que aquele guarda lhe parecia um tanto familiar. Xiang Cheng respondeu: “Estou investigando alguns assuntos e preciso consultar o Diretor Li.”
“Sente-se lá fora”, respondeu o guarda.
Xiang Cheng disse para Chi Xiaoduo se sentar, e Chi Xiaoduo obedeceu. Enquanto esperavam, não conseguiu evitar dar umas olhadas discretas para o velho porteiro, sentindo que já o tinha visto em algum lugar. O porteiro então falou: “Pendurou as flores de magnólia quando chegou em casa?”
“Ah!” Chi Xiaoduo se lembrou de repente: aquele homem era o velhinho que vendia flores de magnólia embaixo do viaduto.
O porteiro deu um leve sorriso, fazendo com que seu rosto se enchesse de rugas profundamente marcadas.
Xiang Cheng estava prestes a impedir Chi Xiaoduo de puxar conversa, mas, ao ver que o idoso puxara assunto primeiro, disse: “Este é o Ancião Qu.”
“Olá.” Chi Xiaoduo percebeu que a situação estava um tanto incomum. O Ancião Qu afastou-se para fazer uma ligação e não lhes deu mais atenção. Ele avisou o escritório sobre a chegada de visitantes e, após desligar, tirou um cigarro do maço de forma lenta e metódica. Xiang Cheng apressou-se para se levantar e acendê-lo, mas o Ancião Qu fez um gesto com a mão recusando; assim, Xiang Cheng não teve escolha a não ser sentar-se novamente.
“Obrigado, Ancião Qu”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo: “?”
“Este lugar…”
Xiang Cheng fez um gesto de “shh”, respondendo baixinho: “Não sei.”
Chi Xiaoduo queria perguntar a ele sorrateiramente, mas ao perceber que Xiang Cheng não queria falar, só lhe restou ficar em silêncio.
“Pessoas comuns não podem simplesmente entrar num lugar como este”, disse o Ancião Qu, soltando uma baforada de fumaça enquanto olhava Chi Xiaoduo de cima a baixo. “O Beco das Magnólias, por fora, parece ficar no Distrito de Haizhu, e até dá para ver a avenida lá de fora, mas entrar vindo da avenida por conta própria é bem diferente de ser trazido por alguém. Não é o mesmo lugar onde se entra, entendeu?”
Chi Xiaoduo soltou um “ah!” e olhou do portão do pátio para fora: de fato, era possível ver a avenida lá fora, mas os pedestres na rua pareciam ignorar completamente a existência daquele beco.
Depois de esperarem por cinco minutos, o telefone do Ancião Qu tocou e, com um aceno de mão, ele disse: “Podem subir.”
Só então Xiang Cheng guiou Chi Xiaoduo para dentro da torre escura, subindo até o segundo andar.
“Espere por mim aqui um instante”, disse Xiang Cheng, batendo à porta de um dos escritórios.
De dentro, a voz de um homem respondeu: “Entre.”
Chi Xiaoduo observou o prédio em estilo antigo. No corredor do segundo andar, havia uma garota sentada diante de um cavalete de pintura, desenhando.
Na tela, estava retratado o Beco das Magnólias sob a neve pesada.
Chi Xiaoduo parou atrás dela para observar e percebeu que os olhos da garota estavam cobertos por uma faixa de tecido preto. Seus lábios eram pálidos e seu rosto carregava um ar doentio e frágil.
“Está bonito?” perguntou a garota.
“É realmente lindo”, disse Chi Xiaoduo. “Neva aqui todos os dias?”
“Não", respondeu a garota. “Apenas quando estou desenhando.”
A garota fez uma pausa pensativa e arrancou a folha de papel de cima; instantaneamente, a chuva de pétalas de magnólia parou, e todos os pequenos espíritos desapareceram no ar e o beco voltou ao seu estado original.
Enquanto a garota trocava por uma folha de papel limpa, Chi Xiaoduo, com um ar de total espanto, disse: "Deixe-me te ajudar.”
Chi Xiaoduo a ajudou a prender o papel, e a garota perguntou: “De qual estação você gosta mais?”
“Eu gosto… da primavera.” Chi Xiaoduo pegou o estilete e o lápis das mãos dela e a ajudou a apontar o lápis.
“Hum”, respondeu a garota suavemente.
“O mundo se transforma naquilo que você desenha?” Chi Xiaoduo perguntou, com a voz repleta de admiração e surpresa.
“Tudo o que eu desenho”, respondeu a garota, “é o que as pessoas ao meu redor veem — sob a influência do meu Reino Espiritual.”
Chi Xiaoduo: “???”
Xiang Cheng empurrou a porta e saiu, sinalizando para Chi Xiaoduo que ele podia entrar.
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No escritório, as quatro paredes eram pintadas de verde na metade inferior e cinza na superior. Um homem na faixa dos cinquenta anos, estava sentado, usando óculos de aro quadrado com armação preta, ostentando uma barriga de cerveja, vestindo um pijama hospitalar e segurando uma garrafa térmica enquanto se levantava para servir água.
Chi Xiaoduo: “……”
Meu Deus, isso é um hospício?! Chi Xiaoduo sentiu como se ele próprio estivesse perdendo o juízo.
“Olá, Diretor”, disse Xiang Cheng. “Xiaoduo, pode se sentar.”
O Diretor Li observou Xiang Cheng com uma expressão indecifrável por trás das lentes dos óculos. Xiang Cheng disse: "Peço desculpas; foi realmente uma presunção da minha parte vir desta vez.”
O Diretor Li ignorou Xiang Cheng e fez um sinal com a mão para Chi Xiaoduo: “Venha cá.”
Chi Xiaoduo olhou apreensivo para Xiang Cheng, que não o impediu. O Diretor Li tirou os óculos e começou a examinar Chi Xiaoduo de todos os ângulos possíveis, parecendo um pervertido. Chi Xiaoduo sentiu um arrepio na espinha com aquele olhar.
“Por que você trouxe ele aqui?” O Diretor Li colocou os óculos novamente, fazendo um gesto para que Chi Xiaoduo se aproximasse e se sentasse.
“Não sei bem o que fazer agora”, disse Xiang Cheng com sinceridade.
“Olha, Xiang Cheng”, disse o Diretor Li. “Você não está sob a jurisdição do nosso departamento local — a menos que transfira seu registro de residência³ para cá primeiro. O que você está fazendo é exorcizando yaos fora dos limites da província; deixando de lado a questão de ter ou não licença, porque isso por si só já vai contra as regras, huhu, você não concorda?”
Xiang Cheng respondeu: “Para conseguir o visto de residência para Guangzhou, preciso comprar uma casa, mas o metro quadrado custa mais de trinta mil, e eu não tenho condições. Já relatei minhas dificuldades ao departamento, mas até agora eles não me ajudaram a resolvê-las.”
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng continuou: “Meus colegas que trabalham na Foxconn também não têm registro de residência local.”
O Diretor Li soltou uma risadinha e disse: “Quanto a eles, há um departamento que responde por eles, ‘o monge pode fugir, mas o templo não sai do lugar’. Você, por outro lado, está por conta própria; Se aprontar alguma confusão aqui em Guangzhou e der no pé, a quem eu vou recorrer? Entende o meu ponto?”
“Vamos deixar a questão da sua residência para depois. Onde está o seu certificado de qualificação?” O Diretor Li perguntou, dando de ombros como se estivesse em uma situação difícil. “Como seu certificado foi revogado, se você for pego exercendo a função sem a qualificação adequada e os superiores descobrirem quem é o responsável, eu não posso arcar com as consequências disso, não é?”
Xiang Cheng disse: “Eu não posso me filiar temporariamente à sede de Guangzhou?”
“Não, de jeito nenhum”, disse o Diretor Li, dispensando a ideia com um gesto amplo de mão. “Essa é uma regra de sabe-se lá quantos anos atrás e não funciona mais hoje em dia — não estamos mais numa época em que basta redigir uma declaração e sair vagando pelo mundo como bem entender. Agora, se você quiser atuar como exorcista em Guangzhou sem uma autorização de residência, precisa apresentar o comprovante de contribuição do seguro social dos últimos dois anos.” Dito isso, ele abriu a tampa de sua garrafa térmica para servir um pouco de água, resmungando para si mesmo: “Uma pessoa vem aqui para se vincular, outra pessoa vem aqui para se vincular… se todo mundo fosse como você, todos os exorcistas do país viriam para o Delta do Rio das Pérolas para se vincular. Diga-me você: acha que isso daria certo? Hehehe.” Ele então soltou mais algumas risadas secas.
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng disse: “Posso usar meus bens como garantia? Meu histórico de desempenho está registrado nos meus casos anteriores, e todos eles já foram enviados; o senhor pode dar uma olhada.”
O Diretor Li fez um gesto com a mão, colocou algumas folhas de chá na xícara e disse: Se você tivesse passado no exame de primeira classe, imagino que os líderes de qualquer província ou região autônoma o receberiam de braços abertos. Mas baseando-se unicamente nas suas habilidades, sem certificado algum, não importa aonde vá, ninguém vai acreditar em você. Quando chegar a hora e o comitê disciplinar vier fazer uma inspeção, como é que eu vou explicar isso para eles? Hahahaha…”
Chi Xiaoduo: “……&*%¥#.”
Xiang Cheng perguntou: “Um amigo poderia me ajudar a conseguir um certificado de trabalho?”
O Diretor Li olhou para Xiang Cheng por cima de seus óculos de aros pretos e disse: “Isso é problema seu; não nos envolvemos nisso.”
“Hum”, disse o Diretor Li, satisfeito. Em seguida, ele abriu uma gaveta e puxou uma pilha de papéis, batendo-os na mesa para alinhá-los. Disse então, com extrema compostura: “Eu estava justamente esperando encontrar alguém para investigar esse assunto. Vamos falar sobre você primeiro: sua punição da última vez foi finalmente decidida. Uma multa.”
Xiang Cheng: “……”
Chi Xiaoduo: “……”
O Diretor Li disse: “Na noite de doze de março, durante o percurso da estação de metrô da Rua Keyun até o conjunto habitacional Tangxia, você não fez este garoto cheirar o pó de Lihun. Isso constitui uma negligência grave. A pena é uma multa de 3 mil RMB mais dez moedas antigas.”
Xiang Cheng pareceu desanimado e disse: “Eu não tenho esse dinheiro agora.”
"Eu tenho", disse Chi Xiaoduo. "A culpa foi minha, eu pago! É no cartão ou em dinheiro?”
“Sem pressa”, disse o Diretor Li com uma risadinha. “Venha pagar quando tiver o dinheiro; você só poderá retirar a ficha de inscrição depois do pagamento. Pague lá embaixo — eu não sou responsável por receber o dinheiro.”
As veias saltaram na testa de Xiang Cheng; sem ousar retrucar, ele foi forçado a ficar calado.
“Chi Xiaoduo”, disse o Diretor Li com indiferença. “Hum, de acordo com a nossa investigação, quando você tinha sete anos, um demônio deixou uma marca no seu corpo.”
“Hã?!” Chi Xiaoduo ficou completamente estupefato. Xiang Cheng apressou-se em fazer um sinal para que ele ficasse calado e disse ao Diretor Li: “Eu já encontrei esse demônio.”
“Onde estão as provas?” O Diretor Li olhou severamente para Xiang Cheng.
Xiang Cheng respondeu: “É uma relação pessoal, eles são relativamente próximos.”
“O-o quê?” Chi Xiaoduo não conseguia mais ficar sentado.
“Isso não serve”, disse o Diretor Li, balançando a cabeça com um ar de pesar. “Você não pode apontar qualquer um que se aproxime dele como sendo um demônio. O que nós queremos são provas, e somente com provas e relatórios detalhados é que podemos emitir um mandado de prisão. Mesmo que você tenha encontrado o demônio, você só pode investigar, não pode agir. Seu certificado já foi revogado e você já foi multado, Xiang Cheng…”
Xiang Cheng recostou-se na cadeira, pressionando a mão contra a testa.
“……Se você fizer algo assim de novo, todas as suas memórias relevantes serão apagadas e todos os seus artefatos mágicos confiscados”, disse o Diretor Li. “É bom que você pense muito bem nisso.”
Xiang Cheng suspirou e assentiu.
“Investigar eu posso”, disse Xiang Cheng. “E se eu agir sem vazar nenhuma informação confidencial?”
“Isso só é permitido quando apropriado…”, disse o Diretor Li. “Mas você não deve assustar aquele demônio. Não me importa onde você acredita que ele esteja; você precisa primeiro apresentar provas suficientes, e só com evidências conclusivas enviaremos pessoal para agir. Você pode proteger seu amigo, mas não pode atacar de forma imprudente.”
Xiang Cheng não teve escolha a não ser dizer: “Obrigado, Diretor.”
“Não há de quê, não há de quê”, disse o Diretor Li. “Você ainda tem um futuro brilhante pela frente e, contanto que se redima prestando bons serviços, não vou responsabilizá-lo de ter trazido a pessoa envolvida para cá. Afinal, dar um aviso a ele é algo bom; se você não o tivesse avisado, o Diretor Lu teria enviado alguém…”
“Você só precisa encontrar o equilíbrio certo ao dar lembretes. Não pode deixar o garoto falar sem parar, mas também não deve contar coisas que ele não deveria saber — como quem é um demônio ou um yao. Não pode mencionar essas coisas; senão, ele pode ficar com medo. E se ele ficar com medo, fica muito mais fácil fazer a cobra sair da toca, não concorda? Você também precisa garantir que ele fique de boca fechada e, assim que a missão terminar, sua memória precisará ser apagada.”
Xiang Cheng levantou-se, e Chi Xiaoduo fez o mesmo, dizendo: “Obrigado, Diretor.”
O Diretor deu uma risadinha. então perguntou: “Diretor, posso consultar os arquivos de casos daqui?”
O Diretor Li disse: “Normalmente, isso não seria permitido. Mas, considerando que você prestou um serviço meritório à organização recentemente — e até derramou sangue por ela —, vou redigir uma autorização pessoal para você. Basta ir ao arquivo antes do fim do expediente; no entanto, não são permitidas fotografias.”
O Diretor Li escreveu a autorização com uma caligrafia elegante e a entregou a Xiang Cheng, que agradeceu repetidamente antes de sair da sala com Chi Xiaoduo.
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“Ele quer…”
“Vou dar uma olhada nos arquivos primeiro”, disse Xiang Cheng em tom baixo. “Pode dar uma volta por aí, está tudo bem. Como o diretor deu a palavra, por enquanto ninguém vai te obrigar a cheirar o pó de Lihun.”
Só então Chi Xiaoduo respirou aliviado. Quando os dois saíram, a garota ainda estava pintando; ela havia feito o esboço a lápis e agora aplicava cores ao papel com delicadeza.
A primavera havia chegado ao Beco das Magnólias; o vento soprava por toda a via, trazendo o perfume das flores e a poeira iluminada pela luz do sol contra os rostos deles. As magnólias brotavam galhos e folhas como se quisessem afirmar sua presença, crescendo cada vez mais para o alto e tornando-se mais densas. Ao longo do beco, os botões plantados junto à cerca do quintal também desabrochavam lentamente, a uma velocidade perceptível a olho nu.
“Vamos”, disse Xiang Cheng em voz baixa.
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Quando os dois passaram pela porta do Departamento de Registros, por coincidência, havia alguém empurrando a porta para sair.
“Xiaoduo?” era um homem de óculos escuros e roupas casuais.
“Qiqi?!” Chi Xiaoduo ficou de queixo caído.
Aquele era Qi Wei, o primo* da melhor amiga de Xiaoduo. Chi Xiaoduo até já havia andado no carro esportivo dele na época em que saiu de férias com a melhor amiga.
(n/t: *primo mais velho)
“Vocês dois…” Xiang Cheng lembrou-se e continuou: “Sim, vocês dois se conhecem.”
“Xiang”, disse Qi Wei, franzindo a testa. “Por que você o trouxe aqui?”
Xiang Cheng acenou com a mão e disse: “Relaxe, ele não vai contar para ninguém de fora.”
“Entre comigo um pouco”, disse Qi Wei.
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Chi Xiaoduo observou os dois com apreensão, mas Xiang Cheng fez um sinal para que ele fosse dar uma volta, então Chi Xiaoduo saiu do pátio. O Ancião Qu tinha ido para sabe-se lá onde, então Chi Xiaoduo parou em frente à parede, olhando para o boletim informativo preso no quadro de avisos. Havia muitos tópicos sobre exorcistas ali, e uma grande confusão de yaoguai também estava desenhada no papel. Algumas folhas avulsas estavam fixadas mais ao lado.
Chi Xiaoduo folheou as páginas e viu que em uma delas havia um “Guiche” — exatamente aquele que Xiang Cheng havia subjugado no vídeo.
Abaixo, havia um carimbo vermelho retangular: Altamente Perigoso.
Em seguida, um carimbo azul: Subjugado, acompanhado de uma anotação feita a caneta esferográfica ao lado: Identidade do Exorcista: Desconhecida.
Chi Xiaoduo continuou folheando e viu uma enorme quantidade de ilustrações bizarras e estranhas. Algumas eram rotuladas como "Extremamente Perigoso", outras como "Perigoso" e até mesmo algumas como "Letal". No finalzinho, havia uma criatura negra semelhante a um dragão, com cauda de peixe.
【Chiwen⁴】
O nível de perigo estava marcado como "Desconhecido". Logo abaixo, sete caracteres haviam sido rabiscados com caneta esferográfica. Chi Xiaoduo inclinou a cabeça para olhar, mas a caligrafia era tão ilegível que era impossível decifrar o que diziam.
“Transformado em demônio… fonte de poluição.”
Ao lado do quadro de avisos, havia também uma revista desmembrada e presa com grampos no mostruário de vidro. Tinha dezenas de páginas e trazia na capa: Negócios de Exorcismo — Edição de Abril de 2015. O título da primeira página dizia: "As últimas tendências e a moda da primavera — relembrando a modelo e Exorcista de Hebei, Chang Yang."
Ao ouvir o som da tosse do Ancião Qu à distância, Chi Xiaoduo saiu silenciosamente do pátio e entrou no beco.
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A luz do sol entrava para dentro da sala do arquivo, iluminando as partículas de poeira que flutuavam no ar; Xiang Cheng ergueu a cabeça e percorreu as prateleiras com o olhar até encontrar a seção "Distrito de Yuexiu", onde a estante inteira estava repleta de registros de casos. Qi Wei tirou os óculos escuros e apoiou-se na janela; ao olhar para fora, viu que Chi Xiaoduo havia entrado no beco.
“Pode ser que esteja no Liwan Plaza”, disse Qi Wei. “Nós estamos ocupados com o assunto do Parque Aquático Chimelong.”
Sem nem levantar a cabeça, Xiang Cheng puxou o maço de arquivos referente ao China Plaza, deixando claro que não estava com a menor vontade de conversar com Qi Wei.
“Você está procurando o guiche?” Qi Wei perguntou. “Ouvi dizer que há um demônio manipulando tudo isso nos bastidores. A loja dele fica na China Plaza.”
Xiang Cheng colocou a pasta de volta na prateleira.
“Eles também vendem cristais, quartzo fantasma verde, quartzo rosa”, disse Qi Wei. “Ele engana criancinhas para que brinquem com elas, depois absorve a energia delas e deixa que fiquem com os cristais, oferecendo essa energia para o demônio usar.”
Xiang Cheng estreitou os olhos.
“Que tipo de demônio?” Xiang Cheng perguntou.
Qi Wei deu de ombros. Xiang Cheng pousou os registros do caso. Qi Wei continuou: “Não sei. Quanto àquele assunto da loja de desejos em que você já havia intervindo, o Ancião Lu levou pessoas para investigar depois, então a loja fechou naquele mesmo dia.”
Xiang Cheng caminhou em silêncio até outra prateleira.
Qi Wei balançou a cabeça e disse: “O paradeiro deles é desconhecido; a pista esfriou."
“Meu instinto me diz que o caso no Parque Aquático Chimelong e o da loja de desejos no China Plaza estão conectados”, disse Qi Wei, apoiando uma mão na prateleira e inclinando o corpo, voltando-se para Xiang Cheng com um ar audacioso. “Há um yao que se esconde na saída do jato de água para devorar os olhos das pessoas — ele fez três vítimas este ano —, mas, sempre que vamos procurá-lo, nunca conseguimos localizar o culpado.”
Xiang Cheng permaneceu em silêncio.
Qi Wei continuou: “Suspeitavam que fosse um macaco-d'água, mas ele corria rápido demais e não conseguiram pegá-lo.”
“Depois que as pessoas morrem, a energia residual de seus cadáveres se funde à sua energia de ressentimento, transformando-se em um yao que devora os olhos e as unhas dos humanos”, disse Qi Wei. Ele refletiu um pouco antes de prosseguir: “Eles drenaram a água e até tentaram usar eletricidade, mas não encontraram nada; agora vão tentar mais uma vez. Se ainda assim não conseguirem localizá-lo, vão desistir e deixar como está.”
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Chi Xiaoduo estava agachado no beco, examinando as mercadorias na barraca de rua de um velho. O mostruário estava montado da mesma forma que o de Xiang Cheng: um lençol vermelho estava estendido no chão, coberto com bordados de monstros decorativos e esquisitos. Havia também uma grande quantidade de artesanatos peculiares espalhados pelo tecido.
“O que é isto?” Chi Xiaoduo observou um sino com curiosidade.
“O Sino Shehun⁵”, disse o velho. “Serve para capturar yao.”
Chi Xiaoduo apontou para uma caixa. “E isto?”
O velho respondeu: “Pólen Lihun; serve para encher frascos de rapé. Você já viu um frasco de rapé antes?”
Ah! Chi Xiaoduo pensou que essa seria a oportunidade perfeita para comprar um pouco para Xiang Cheng como forma de retribuição; mas, se comprasse, será que Xiang Cheng o obrigaria a cheirá-lo? Pensando bem, era melhor deixar para lá.
“Este aqui é a Bolsa Qiankun”, disse o velhinho, apontando para o ponto exato onde os olhos de Chi Xiaoduo haviam pousado: um saquinho esfarrapado feito de pano grosso. “É o artefato do Doraemon, entendeu? Consegue guardar uma infinidade de coisas! Se o seu chefe te intimidar no trabalho ou se os seus colegas te isolarem, é só dar uma sacudida e chacoalhar a equipe inteira do escritório para dentro dele, e depois meter o pau neles do lado de fora!”
Os cantos da boca de Chi Xiaoduo tremeram num sorriso sem graça, e ele assentiu.
“Parece muito poderoso, mas quando o chefe aparecer, e aí?”
“Deixe que sintam o cheiro de um pouco de Pólen Lihun!” o velho disse. “Assim, não se lembrarão de absolutamente nada…”
Chi Xiaoduo sentiu um suor frio escorrer, concordando com aquelas palavras.
“E isto?” Chi Xiaoduo apontou para uma escultura de uma deusa.
“Uma estátua de Nuwa”, disse o velho. “Cento e vinte.”
“Para que ela serve?” Chi Xiaoduo perguntou.
O velho parecia estar provocando Chi Xiaoduo ao responder: “Leve-a para casa e reze para ela. Você pode pedir sorte no amor, e essa sorte virá imediatamente; não importa se você gosta de homens ou de mulheres!”
“Funciona mesmo?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Funciona!” O velho lançou um olhar severo a Chi Xiaoduo. “Se não funcionar, não cobro nada!” Dito isso, ele pegou a estátua de Nuwa e a colocou na mão de Chi Xiaoduo. “Quando você voltar de manhã e quando voltar à noite, reze para ela uma vez em cada ocasião! Ao rezar, certifique-se de pedir à deusa Nuwa que garanta que você encontre alguém rico! Um rapaz alto, rico e bonito, ou uma moça de pele clara, bonita e rica!”
Chi Xiaoduo pensou: Já que isso é usado por exorcistas, deve ser eficaz. “Então vou comprar uma”, disse ele, tirando 120 yuans do bolso e entregando ao velho.
O velho disse: “1,2 milhão! O que você está pensando?"
Chi Xiaoduo: “……”
“Deixa pra lá, então”, disse Chi Xiaoduo com uma risada sem graça. “Eu não trouxe todo esse dinheiro.”
Como que por mágica, o velho tirou uma maquininha de cartão da bolsa e disse: “Você pode usar UnionPay!”
Chi Xiaoduo levou a mão à testa e o velho continuou: “Você quer um pouco de Pólen Lihun?”
“Quanto custa?” Chi Xiaoduo estava à beira das lágrimas.
“150 mil por grama!” O velho disse.
Chi Xiaoduo levantou-se prontamente e disse: “Tchau.”
O velho gritou: “Ei, não vá embora! Você perguntou sobre tanta coisa e não comprou nada; está usando este velho para se divertir? Acha que não consigo derrubá-lo com um único golpe da minha bengala de confiança?!”
O corpo inteiro de Chi Xiaoduo travou ao ouvir isso, e o velho disse: “Pare aí mesmo! Ou você vende seu corpo e vem aqui me servir, ou deixa a estátua de Nuwa aqui; caso contrário, nem pense em sair!”
Chi Xiaoduo quase fez xixi nas calças, mas, felizmente, Qi Wei saiu do pátio e sorriu: “Grande imortal, pare de provocar o garoto.”
O velhinho deu uma gargalhada alta e balançou a cabeça sozinho, arrumando a estátua de Nuwa no lugar. Chi Xiaoduo, com as costas encharcadas de suor frio, correu para se esconder atrás de Qi Wei.
“O Grande Imortal Zeng achou você divertido e quer te aceitar como aprendiz”, disse Qi Wei. “Você topa?”
Chi Xiaoduo saiu de trás dele, tremendo de medo, olhou para o velho e depois voltou o olhar para Qi Wei.
O idoso que Qi Wei chamara de Grande Imortal Zeng deu uma risadinha, acenando com a mão: “Não vou tomá-lo como discípulo; o destino dele não é comigo.”
Qi Wei então pediu para Chi Xiaoduo esperar ali do lado, e os dois ficaram parados debaixo de uma magnólia.
Tanto Chi Xiaoduo quanto Qi Wei sentiram um certo constrangimento. Considerando a impressão que Chi Xiaoduo tinha dele anteriormente — a de um sujeito que sempre agia como um playboy despreocupado — vê-lo agora de terno Armani e parado sob a magnólia, Qi Wei pareceria tão sério e compenetrado — e, surpreendentemente, alguém em quem se podia confiar.
“Lembre-se de proteger o Xiang Cheng”, disse Qi Wei. “Ele é uma boa pessoa.”
“Ahn?” Chi Xiaoduo ficou sem saber se ria ou se chorava. "Não deveria ser ele a me proteger?”
Qi Wei balançou a cabeça, deu um sorriso discreto e apontou os óculos escuros na direção dele, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Nesse momento, Xiang Cheng saiu de lá de dentro segurando uma folha de papel.
Qi Wei disse: “Xiang Cheng, você deveria tirar sua carteira de motorista; pode pegar meu carro emprestado.”
Xiang Cheng balançou a cabeça, passou o braço pelos ombros de Chi Xiaoduo e disse: “Vamos nessa.”
Os dois saíram do Beco Magnolia, e Chi Xiaoduo percebeu, de repente, que haviam surgido em uma rua familiar. Ele não resistiu à vontade de olhar para trás e voltar, apenas para descobrir que havia entrado em um beco estreito, abarrotado de caixas de papelão e entulho. Era exatamente como o Ancião Qu havia dito: os dois becos não existiam no mesmo espaço! Era algo realmente mágico.
Xiang Cheng foi buscar o carro primeiro; Kuang Desheng tentou alcançá-los, mas Xiang Cheng partiu em alta velocidade com Chi Xiaoduo, não dando a Kuang Desheng qualquer chance de falar. Ao cair da tarde, Xiang Cheng e Chi Xiaoduo compraram cachorros-quentes e sentaram-se lado a lado em um banco à beira do rio para jantar.
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Sob a luz do pôr do sol, o Rio das Pérolas brilhava com um tom dourado-avermelhado; as embarcações do cruzeiro noturno estavam prestes a zarpar, e o apito distante dos navios ecoava suavemente pelo ar.
“Nos próximos dias, você precisa ficar ao meu lado”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo não havia perguntado nada durante o trajeto. Muita coisa havia acontecido naquele dia, e ele sentia a cabeça pesada e atordoada com tudo aquilo. No entanto, em meio a tantas coisas, o que realmente lhe importava, no fim das contas, era apenas uma questão: se ele teria ou não que cheirar aquele pólen.
Pela conversa e negociação de Xiang Cheng no Beco das Magnólias naquela tarde, parecia que apenas aquele departamento era extremamente rigoroso. Isso significava que, embora Xiang Cheng fosse ajudá-lo agora, ele ainda teria que enfrentar as consequências quando tudo terminasse.
“Hum.” Chi Xiaoduo não disse mais nada; apenas assentiu e respondeu: “Tudo bem.”
Xiang Cheng não fazia ideia do que passava pela cabeça dele. Na verdade, desde que saíra do Departamento de Exorcismo, seus pensamentos estavam ocupados com questões totalmente alheias aos sentimentos de Chi Xiaoduo — para ele, aquele demônio era a única prioridade.
“Eu vou te proteger”, disse Xiang Cheng.
“Tudo bem me contar isso?” Chi Xiaoduo perguntou. “Ouvi o Diretor Li dizer mais cedo que, se você não me contasse, outra pessoa teria vindo me avisar de qualquer maneira, isso é verdade?”
Xiang Cheng estava distraído com outros pensamentos por um momento, mas, após uma breve pausa, assentiu com gravidade. “Sim.”
Chi Xiaoduo franziu levemente a testa e questionou: “O departamento também avisa as pessoas comuns sobre esse tipo de coisa?”
“Vocês, que vivem na cidade, raramente se deparam com isso”, disse Xiang Cheng, “porque há muita gente nas cidades. Às vezes, se você estiver nas montanhas, em um vilarejo ou em qualquer outro lugar, e alguém passar por você e disser que há uma ameaça iminente de desastre, ou que você deve prestar atenção ao que faz e diz num futuro próximo, essas pessoas podem ter sido enviadas pelo departamento para avisá-lo.”
Chi Xiaoduo: “!!”
“Mas nem todos são assim”, disse Xiang Cheng. “Isso não elimina os vigaristas.”
“E depois que avisam?” Chi Xiaoduo perguntou de novo. “Eles conseguem resolver o problema?”
“Geralmente, eles fazem você cooperar, mas não revelam o que está realmente acontecendo. Depois, fazem o possível para enviar pessoas para resolver a questão discretamente; mas, para casos que não podem ser solucionados, não têm escolha a não ser deixar como está”, disse Xiang Cheng. “É claro que os exorcistas acabam sofrendo punições disciplinares.”
Chi Xiaoduo disse: “Então, como fui marcado por algum yaoguai, esse yaoguai quer me causar problemas, é isso? Mas eu nunca fiz nada de errado.”
Xiang Cheng pensou um pouco antes de dizer: “Não é bem assim. Quando você tinha sete anos, teve algum encontro particularmente estranho?”
Chi Xiaoduo pensou um pouco, mas realmente não conseguia se lembrar. Pediam-lhe que recordasse toda a sua infância — especialmente o que havia feito ao longo de um ano inteiro —, mas suas memórias haviam se tornado muito vagas.
“Quase se afogar enquanto nadava conta?” Chi Xiaoduo perguntou.
Xiang Cheng acenou com a mão, dispensando a ideia. Chi Xiaoduo recordou-se e disse: “Lembro-me de uma noite em que, apoiado na janela, vi muitas coisas estranhas. Havia luzes lá fora e lanternas flutuando de um lado para o outro…”
“Esse é o Festival Zhongyuan, quando os portões do reino dos fantasmas se abrem”, respondeu Xiang Cheng com seriedade, pressionando a testa com uma das mãos. “Não tem nada a ver com yaos; é obra de monges e sacerdotes taoístas.”
Chi Xiaoduo: “É mesmo? Eu achava que tinha sido só um sonho meu, porque me lembro dessa cena com uma clareza incrível. Mas por que a gente consegue ver essas coisas quando é criança e para de enxergar depois que cresce?”
“Crianças têm a chama fraca”, disse Xiang Cheng. “Ver essas coisas não é nada de mais.”
“Por quê?” perguntou Chi Xiaoduo, curioso. “E o que significa ter a chama fraca?”
“A chama”, disse Xiang Cheng, gesticulando ao apontar para o peito de Chi Xiaoduo, “refere-se à luz da sua alma. Yao e demônios, fantasmas e monstros, todo tipo de espírito maligno tem medo da luz. Pessoas com a chama fraca atraem yaoguai e fantasmas com facilidade, então acabam vendo o que não deveriam. O que mais?”
Chi Xiaoduo lembrou-se da conversa que tivera com Yang Xingjie outro dia sobre a caverna marinha da sua infância: “Quando eu era pequeno e ia à praia, às vezes me deparava com umas coisas estranhas.”
“Como o quê, por exemplo?” Xiang Cheng encarou Chi Xiaoduo, erguendo uma sobrancelha.
“Esqueci”, disse Chi Xiaoduo, coçando a cabeça. “Lembro de ter visto algo muito parecido com um yaoguai, e ele tinha morrido na praia. Fiquei morrendo de medo e o deixei para trás enquanto tentava achar alguém, mas, no fim, as pessoas disseram que era só arraia que havia sido trazida pela maré.”
Xiang Cheng entrelaçou os dedos das duas mãos e massageou as sobrancelhas com os polegares, murmurando para si mesmo: “O que diabos é, afinal? Naquele dia, nem parecia ser um demônio… Aparentava ser uma pessoa completamente normal, mas havia algo que não parecia certo…”
Chi Xiaoduo perguntou: “Quem?”
Xiang Cheng acenou com a mão, dispensando o assunto: “Deixa para lá por enquanto. Você está com sono?”
Chi Xiaoduo apressou-se em balançar a cabeça negativamente. Xiang Cheng continuou: “Pode me ajudar com uma coisa?”
Chi Xiaoduo deu uma risadinha: “Claro, o que precisa que eu faça? Quer que eu te consiga um comprovante de trabalho?”
Xiang Cheng paralisou por um segundo antes de prosseguir: “Nem tinha pensado nisso. Você consegue fazer isso?”
Chi Xiaoduo pensou um pouco e disse: “Arquitetos não conseguem, mas o pessoal da logística deve conseguir. Vou ligar para ele.”
Xiang Cheng fez um gesto com a mão e disse: “Não precisa de tanto trabalho. Basta eu ter um contrato de trabalho legítimo; até mesmo um cargo de segurança serve.”
Chi Xiaoduo caiu na gargalhada e disse: "Ser segurança seria um desperdício enorme para você.”
“Um porteiro ou segurança”, respondeu Xiang Cheng, destrancando o carro. “Eu já fui até um pato, então não estou em posição de escolher.”
Chi Xiaoduo ligou para Wang Ren. Wang Ren o repreendeu longamente, tagarelando sem parar, até que Chi Xiaoduo finalmente gritou furiosamente: “Faça isso logo! Chega de enrolação — se não, tiro meu diploma registrado da sua empresa!”
Wang Ren não teve escolha a não ser ceder: “Tá bom, tá bom.”
Chi Xiaoduo continuou: “Deixe um contrato pronto para amanhã, e amanhã mesmo eu levo ele aí para assinar.”
“Você ficou louco, Chi Xiaoduo?!” disse Wang Ren. “Uma coisa é você pedir um cargo diferente, mas o que está acontecendo com você indicando alguém para ser porteiro no meu instituto de design?!”
“Ah, pare de se preocupar com isso”, respondeu Chi Xiaoduo. “Vamos simplesmente concordar com isso e encerrar o assunto.”
Xiang Cheng achou aquilo muito divertido. Chi Xiaoduo desligou e perguntou: “Você e Qiqi… têm uma relação muito próxima?”
“Não”, Xiang Cheng balançou a cabeça.
Ao observar a expressão de Xiang Cheng, Chi Xiaoduo percebeu que havia algo ali delicado de colocar em palavras, então preferiu não insistir no assunto.
“O fato de Qi Wei provar isso ao departamento não é importante, mas resolver a situação dessa maneira é perfeito. Na verdade, o motivo pelo qual eu queria sua ajuda estava relacionado a demônios. Há um selo demoníaco em seu corpo”, disse Xiang Cheng com seriedade.
“Hum-hum”, disse Chi Xiaoduo. “O que eu preciso fazer?”
Xiang Cheng respondeu: “Nos próximos dias, vou te manter do meu lado. Quando nos aproximarmos da verdadeira forma do demônio, seu corpo captará uma leve ressonância. Vou rastrear o fluxo da sua marca demoníaca para localizá-la — mas não se preocupe, eu vou te manter em segurança.”
“Sem problemas”, concordou Chi Xiaoduo prontamente. As ações de Xiang Cheng não se tratavam apenas de protegê-lo; tratava-se de proteger todas as pessoas que viviam na Terra, então é claro que ele concordou.
Chi Xiaoduo entrou no carro. As habilidades de Xiang Cheng ao volante eram excelentes e, como uma linha passando pelo buraco de uma agulha, eles avançaram rapidamente por entre a multidão. Às oito horas em ponto, eles chegaram à China Plaza.
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Notas:
1 煎饼果子 (Jiānbǐng guǒzi): Prato tradicional de rua chinês composto por uma massa fina de crepe com ovo, molho picante/doce, ervas e uma crocante massa frita (yutiao) enrolada no centro.
2 八卦镜 (Bāguà jìng): Espelho octogonal rodeado pelos oito trigramas do I Ching. No Feng Shui e no folclore chinês, é um amuleto pendurado sobre as portas das casas para repelir maus espíritos e energias negativas (sha qi).
3 户口 (Hùkǒu): O sistema de registro de residência permanente da China.
4 鸱吻 (Chīwěn): Um dos nove filhos lendários do Dragão na mitologia chinesa. É retratado com corpo de dragão e cauda de peixe, associado ao elemento água e frequentemente esculpido nos telhados das arquiteturas tradicionais como amuleto de proteção contra incêndios.
5 摄魂铃 (Shè hún líng): traduz lit Sino Coletor de Almas.
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