Capítulo 13 - Lihun
A luz do sol da primavera brilhava forte e quente, e ao cair da noite, Chi Xiaoduo, Wang Ren e o estagiário sob a supervisão de Wang Ren se reuniram para organizar os locais que haviam escolhido para o dia e elaborar um resumo.
Enquanto Wang Ren falava sem parar, Chi Xiaoduo lutava para se manter acordado, perguntando-se por que Xiang Cheng ainda não havia chegado para buscá-lo — quando, de repente, avistou Xiang Cheng do lado de fora da janela, empoleirado no galho de uma grande figueira-de-bengala, espiando para dentro.
Chi Xiaoduo: “……”
Aquele era o terceiro andar, então Chi Xiaoduo acenou apressadamente para ele, gesticulando para que descesse logo. Xiang Cheng fez um sinal de “entendido” e escorregou pelo tronco da árvore. Wang Ren continuava falando quando, de repente, soltou um “que porra” ao ver a silhueta ágil e atlética de Xiang Cheng.
“Chi Xiaoduo!” Wang Ren gritou, correndo atrás dele.
A reunião tinha acabado e Chi Xiaoduo estava prestes a dar no pé, mas acabou sendo pego por Wang Ren de novo.
“Já marquei o encontro para você”, disse Wang Ren. “Não importa o que aconteça, você tem que ir a este jantar hoje! Foi muito difícil para o Xingjie conseguir uma folga, e ele está esperando por você esse tempo todo!”
Os cantos da boca de Chi Xiaoduo se contraíram; Xiang Cheng aguardava do lado de fora do pátio, montado em sua bicicleta e observando os dois. Wang Ren pediu que trouxessem o carro e disse: “Xiang Cheng, você pode voltar primeiro; eu e o Peixinho Mola ainda temos algumas coisas para resolver.”
Xiang Cheng assentiu, mas Chi Xiaoduo protestou: “Eu não——!”
“Para onde?” Xiang Cheng perguntou, olhando para baixo, e então disse a Wang Ren: “Eu o levo até lá. Chefe Wang, pode ir para casa; vai ficar tudo bem.”
Wang Ren hesitou por um momento antes de lhe dar um endereço. Xiang Cheng disse: “Vamos.”
AAAAAHHHH — O rosto inteiro de Chi Xiaoduo estava sombrio. Ele teria mesmo que ir a um encontro às cegas acompanhado do Xiang Cheng? Xiang Cheng pegou a bolsa dele e a colocou nas costas. Chi Xiaoduo sentou no guidão da bicicleta, e eles partiram.
“Não conheço muito bem o caminho, para que lado fica?” Xiang Cheng perguntou. “Está cansado do trabalho?”
Chi Xiaoduo ficou bastante envergonhado. O céu ainda não tinha escurecido, e o pôr do sol tingia o Rio das Pérolas de dourado e vermelho. Xiang Cheng pedalava a bicicleta levando Xiaoduo, passando sob a sombra das árvores ao longo da ciclovia da Avenida Binjiang.
“Deixa eu olhar o GPS.” Chi Xiaoduo pegou o celular e viu uma mensagem de texto de Wang Ren:
【Peixe-mola, não seja burro, pensa bem. O Xiang Cheng nem sequer tem emprego; ele rompeu com o clube anteontem mesmo. Acabei de saber que ele veio do interior para a cidade para trabalhar, e além de tudo é hétero. Essa gente sabe muito bem da própria situação e tenta de tudo quanto é jeito arrumar um teto em cidade grande. Resumindo, ele provavelmente percebeu que você gosta dele e vai te usar por um tempo. Assim que arrumar um emprego, vai te dar um pé na bunda. Você acha mesmo que vocês dois têm algum assunto em comum?】
Chi Xiaoduo respondeu: 【Chega, você não sabe nada sobre ele!】
Chi Xiaoduo digitou rapidamente uma linha de texto, mas parou e a apagou; Ele sabia que Wang Ren só estava tentando ajudar, e não adiantava nada discutir com ele; o importante era ele mesmo ter certeza do que queria.
O grande xis da questão é que nem o próprio Chi Xiaoduo tinha certeza do que queria. Afinal, não importava o quanto refinasse os pensamentos, no fim das contas Xiang Cheng era hétero — e tentar "dobrar" um hétero nunca era uma boa ideia. Além disso, se por um acaso do destino ele não conseguisse, a tragédia sobrava todinha para o lado dele. Pensando bem agora, talvez fosse melhor arrumar um namorado o quanto antes, até para ter alguém com quem contar.
Para um peixe-mola que martelava um assunto tão pequeno infinitas vezes na cabeça, aquilo era insuportável de aceitar. A pessoa de quem ele gostava era o Xiang Cheng; e, embora o Yang Xingjie parecesse um cara bem legal, seria terrivelmente injusto com ele do ponto de vista moral!
Além disso, se ele levar Xiang Cheng a um encontro às cegas, significava que ele inevitavelmente descobriria que Chi Xiaoduo era gay.
Xiang Cheng ainda vestia aquele traje surrado de trabalhador migrante; ele lançou um olhar para Chi Xiaoduo, que estava mexendo no celular. Chi Xiaoduo estava um pouco hesitante, sem saber se ele tinha visto a mensagem.
“Aonde você foi hoje?” Chi Xiaoduo perguntou, sentindo-se um pouco culpado enquanto tentava encontrar algum assunto.
“Ao Distrito de Yuexiu, à Praça Shangxiajiu”, disse Xiang Cheng. “Descobri que os sapatos e as roupas vendidos ao longo da Rua Zhuangyuan eram muito baratos.”
“A qualidade lá é só razoável”, respondeu Chi Xiaoduo. “Os estudantes gostam de ir lá, a qualidade é quase a mesma das lojas do Taobao.”
“E você?” Xiang Cheng perguntou em resposta.
“Fiquei olhando para desenhos o dia inteiro”, disse Chi Xiaoduo. “Como é que você foi parar em cima da árvore?”
“O guarda da portaria não me deixou entrar”, respondeu Xiang Cheng. “Achou que eu tinha vindo do canteiro de obras.”
Xiaoduo de repente se lembrou do passarinho e comentou: “Ah, é mesmo, e o seu passarinho…”
Xiang Cheng segurava o guidão com uma das mãos e, com a outra, tirou o boné surrado da cabeça. Com um ”xiu”, o pássaro voou para fora; Chi Xiaoduo não conseguiu encontrá-lo a tarde toda — descobriu que ele estava fazendo ninho dentro do boné de Xiang Cheng!
“Meus pais o deixaram para mim”, disse Xiang Cheng.
O passarinho prateado voou em círculos ao redor da bicicleta e pousou no ombro de Chi Xiaoduo. Chi Xiaoduo estendeu a mão para pegá-lo, mas ele voou para longe.
“Qual é o nome dele?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Si Gui¹”, respondeu Xiang Cheng.
Que nome estranho, pensou Xiaoduo, e perguntou curioso: “Por que esse nome?”
“Sem ver os céus e a terra, não pensarei em voltar para casa.”
Banhados pelo brilho quente e suave do pôr do sol, Xiang Cheng e Chi Xiaoduo seguiam pela curva da Avenida Haizhu e se misturaram ao fluxo intenso de trânsito e pedestres da cidade ao entardecer.
“Meu pai estava sempre viajando a trabalho”, disse Xiang Cheng. “Quando eu era pequeno, ficava muito sozinho em casa. A mamãe costumava esperar por ele, enquanto Si Gui o acompanhava; assim, depois de ver a imensidão do mundo, volte para casa logo… Chi Xiaoduo, é aqui?”
A bicicleta parou em frente ao Restaurante Guangzhou. Xiang Cheng olhou para cima e disse: “Pode ir comer, fico te esperando aqui fora.”
“Vem comigo”, disse Xiaoduo. “Na verdade, nem é ninguém importante. É só um assunto pessoal.”
Xiang Cheng respondeu: “Minhas roupas não estão apresentáveis; só receberia olhares de desprezo se entrasse.”
Chi Xiaoduo sabia que Xiang Cheng não queria entrar por causa das roupas e disse: “Não tem problema. Se o garçom te olhar torto, você xinga ele e pronto! Esses restaurantes tradicionais e populares como este não tratam os clientes assim.”
Xiang Cheng sorriu, estacionou a bicicleta e entrou com Chi Xiaoduo. Ao contrário do que ele esperava, ninguém o olhou torto, embora ele ainda se sentisse um pouco desconfortável. Já lá dentro, Chi Xiaoduo quis chamar Yang Xingjie, mas Xiang Cheng não queria dividir a mesa com eles; ele insistiu em comer em uma mesa separada, ali perto, e esperar que terminassem a conversa.
Chi Xiaoduo não insistiu. Xiang Cheng sentou-se a uma mesa no canto, e um garçom veio anotar seu pedido. Como não entendia cantonês, Xiang Cheng perguntou: “O quê? Você fala mandarim?”
“Qual chá o senhor gostaria: Pu’er, crisântemo ou Tieguanyin²?”, perguntou o garçom.
Xiang Cheng perguntou: “É pago? Posso pedir só água quente?”
Num piscar de olhos, Chi Xiaoduo reapareceu do nada e disse: “Traga um bule de Pu’er para ele.”
Xiang Cheng: “……”
Num poiscar de olhos, Chi Xiaoduo flutuou para longe para cumprimentar Yang Xingjie, que estava parado um pouco mais adiante, de cabeça baixa, mexendo no celular.
Yang Xingjie pediu para ele fazer o pedido. Assim como no primeiro encontro, trocaram aquelas conversinhas fiadas de sempre sobre como o trabalho é cansativo: piadinhas de que ser funcionário público é ser tão explorado que dá até vontade de pedir esmola, que no instituto de projetos é onde está o dinheiro de verdade, hahaha, hehehe, aquele papo furado padrão. Depois de marcar suas escolhas no cardápio, Chi Xiaoduo disse: “Hoje o jantar é por minha conta! Moça, por favor, pode anotar aqui—”
Yang Xingjie perguntou: “Com o que você tem se ocupado ultimamente?”
“Trabalhando.”
“E seus pais?”
“Os dois estão no exterior”, respondeu Chi Xiaoduo. “Depois que se divorciaram, cada um foi viver a sua própria vida.”
“Você mora sozinho?”
Chi Xiaoduo: “Divido a casa com um amigo.”
“Em qual faculdade você se formou?”
Tá me fazendo um interrogatório³?, pensou Chi Xiaoduo. Yang Xingjie percebeu e disse, sem jeito: “Estou acostumado demais a fazer esse tipo de pergunta — desculpe.”
Chi Xiaoduo achou a situação engraçada. Yang Xingjie continuou: “Sobre o que te perguntei da última vez, já pensou a respeito?”
Chi Xiaoduo não esperava por uma pergunta tão direta ao ponto. Ficou vermelho feito um pimentão na mesma hora, morrendo de vergonha. Quem é que pergunta um negócio desses assim? Se ele dissesse que já tinha decidido, eles começariam a namorar hoje mesmo? Chi Xiaoduo respondeu, sem graça: “Bom, isso…”
O coração de Chi Xiaoduo estava uma verdadeira bagunça. Se ele pudesse namorar o Xiang Cheng, iria atrás dele sem pensar duas vezes, mas Xiang Cheng era hétero — além disso, depois de levar tanta bronca do Wang Ren, Chi Xiaoduo já estava ficando traumatizado. Yang Xingjie parecia uma opção a se considerar, mas agir dessa forma não seria super injusto com ele?
“Sem problemas”, disse Yang Xingjie, compreensivo. “A gente conversa sobre isso na próxima vez que sairmos.”
Dizendo isso, Xingjie serviu um pouco de chá para Chi Xiaoduo e perguntou: “De onde você é?”
“Zhuhai⁴”, respondeu Xiaoduo. “Sou de Wanzai⁵. E você?”
“Eu também sou de Zhuhai”, disse Yang Xingjie com um sorriso. “Moro em Hengqin.”
“Ah!” exclamou Chi Xiaoduo. “Eu ia muito lá quando era criança! Hengqin é linda demais! A paisagem de lá parece até uma pintura.”
“Hum”, respondeu Yang Xingjie. “Mas tem realmente pouquíssima gente de Zhuhai por aqui. Você se lembra daquelas cavernas formadas pela erosão marinha ali perto da praia?”
“Lembro, lembro”, disse Chi Xiaoduo. “Eu até explorei aquelas cavernas quando era criança! Fui sozinho e fiquei morrendo de medo. Aí a maré subiu e eu não consegui sair, hahaha——”
Yang Xingjie comentou: “Ouvi dizer que, antes de desenvolverem a área, tinha algum yaoguai escondido nas cavernas. Acho que já escutei essa lenda urbana em algum lugar, você conhece?”
Chi Xiaoduo pensou um pouco, mas realmente não conseguia lembrar dos acontecimentos da sua infância.
Naquele ano, ele tinha apenas sete anos — a idade de aprontar travessuras e incomodar os outros. Ele saiu com os amiguinhos e foi se meter dentro das cavernas marinhas — o que era, de fato, extremamente perigoso. Quando a maré começou a subir, a água do mar foi infiltrando devagar, e a única opção de Chi Xiaoduo foi se enfiar cada vez mais fundo na caverna para tentar fugir dela. Para piorar, era inverno, e o vento do mar gelava até os ossos.
“Como você conseguiu sair de lá?” Yang Xingjie perguntou enquanto servia chá para Chi Xiaoduo.
“Esqueci”, respondeu Xiaoduo, intrigado. “Acho que saí no meio da noite… Mas espera aí, se a caverna marinha estava cheia por causa da maré, como foi que eu consegui sair de lá?”
Yang Xingjie comentou: “Toda aquela área nem existe mais, virou o Parque Aquático Chimelong.”
“É verdade, uma pena”, Chi Xiaoduo sorriu. “Num piscar de olhos, já se passaram mais de dez anos.”
Os dois começaram a conversar sobre as coisas de Zhuhai. Quando Chi Xiaoduo era pequeno, a cidade ainda não estava totalmente desenvolvida; agora, num piscar de olhos, ela havia passado por uma rápida transformação, e muitas memórias da infância tinham desaparecido. No entanto, Yang Xingjie ainda se lembrava daquelas coisas, como se tivessem tido a mesma infância. Ao falarem sobre essas lembranças felizes, Chi Xiaoduo não conseguia evitar gesticular com entusiasmo; e o mais surpreendente era que, não importava com o que ele mencionasse ter brincado na infância, Yang Xingjie sempre encontrava uma maneira de acompanhar o assunto.
Yang Xingjie estendeu a mão e acariciou a cabeça de Chi Xiaoduo, com um leve sorriso.
“Você se deparou com algo estranho ultimamente?” Yang Xingjie perguntou.
“O quê?” Chi Xiaoduo parecia confuso. Após pensar um momento, respondeu: “Não. Por que você continua me perguntando isso?”
“Eu não perguntei isso antes”, disse Yang Xingjie, lançando um olhar casual para o canto onde Xiang Cheng estava sentado, bebendo chá e lendo o jornal.
“Ah, então não foi você quem perguntou…” Chi Xiaoduo ponderou. “Mas sinto que já me perguntaram isso em algum lugar antes. Por que tocar nesse assunto de repente?”
O celular de Yang Xingjie tocou com uma ligação que parecia chamá-lo de volta para o plantão. Ele desligou e disse com bom humor: “Sou policial, e meu dever é me importar com a vida dos cidadãos da cidade. Tem algo de errado nisso?”
Chi Xiaoduo sorriu. Yang Xingjie disse: “Não vou mais brincar com você; se precisar de alguma coisa, é só me ligar.”
"Eu sei", respondeu Chi Xiaoduo.
Yang Xingjie continuou: “Se tiver algum problema, como uma discussão com um vizinho ou se alguém te perturbar, pode me ligar.”
Chi Xiaoduo deu uma risadinha, sentindo o coração bem aquecido com aquilo. Yang Xingjie estalou os dedos chamando alguém para pedir a conta. Xiaoduo sentiu que a proximidade entre os dois tinha aumentado mais um pouco; ao menos temporariamente, Yang Xingjie tinha conseguido um espaço no seu coração por conta de todos aqueles assuntos em comum.
“O cavalheiro da Mesa 15 já pagou a conta de vocês dois”, disse o garçom.
Uma mudança sutil passou pelo rosto de Yang Xingjie. O coração de Chi Xiaoduo disparou; ao esticar o pescoço para olhar, ele viu Xiang Cheng — sentado em um canto discreto — dobrar o jornal e levantar-se para vir até eles.
“Este é meu am… meu gege”, apresentou Chi Xiaoduo.
“Por que você não veio comer com a gente?” Yang Xingjie recuperou a postura e sorriu.
Xiang Cheng respondeu com indiferença: “Não queria incomodar vocês. Olá.”
Xiang Cheng fez um gesto que, na verdade, fez Yang Xingjie recuar um pouco; percebendo que Yang Xingjie parecia ter um certo receio de Xiang Cheng e apressou-se em dizer: “Este é o Xiang Cheng. Ele é uma ótima pessoa, nós moramos juntos.”
Xiang Cheng olhou nos olhos de Yang Xingjie, e Yang Xingjie não teve escolha a não ser cumprimentá-lo com um aperto de mão. Eles uniram as mãos esquerdas, mas a saudação pareceu estranha vinda deles. Os dois ficaram ali, apertando as mãos por mais de dez segundos, sem que nenhum dos dois se movesse.
“Já vamos indo”, disse Xiang Cheng, soltando a mão.
Yang Xingjie disse rapidamente: “Eu dou uma carona para vocês.”
“Viemos de bicicleta”, respondeu Xiang Cheng.
Yang Xingjie saiu com eles. Xiang Cheng deu um tapinha no guidão da bicicleta e, depois que Chi Xiaoduo e Yang Xingjie acenaram se despedindo, Chi Xiaoduo foi levado para casa por Xiang Cheng na brisa agradável da noite.
“Quem é ele?” Xiang Cheng perguntou de repente.
“Um funcionário público; ele tem casa própria”, respondeu Chi Xiaoduo. “Um amigo que Wang Ren me apresentou.”
“Vocês são da mesma terra natal?”, perguntou Xiang Cheng em seguida.
“Ué? Como é que você sabe disso?” Chi Xiaoduo perguntou.
Xiang Cheng respondeu: “Eu o vi acariciar sua testa.”
Chi Xiaoduo disse: “Acariciar minha testa prova que ele é da mesma terra natal?”
Xiang Cheng perguntou novamente: “Vocês se conheciam quando eram crianças?”
“Não”, respondeu Chi Xiaoduo.
Diante disso, Xiang Cheng não falou mais nada. Chi Xiaoduo perguntou: “Você já está satisfeito?” Ele havia notado que Xiang Cheng tinha comido apenas um prato de bolo de nabo⁶ mais cedo e ficou apenas sentado ali bebendo chá.
Xiang Cheng respondeu: “Claro que não; era caro demais, não ousei pedir qualquer coisa.”
Chi Xiaoduo deu uma risadinha e disse: “Vou te levar para comer uma coisa gostosa.”
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Chi Xiaoduo o levou a uma barraca de macarrão Junsheng⁷. Xiang Cheng devorou três tigelas grandes num piscar de olhos. Chi Xiaoduo perguntou: “Está gostoso?”
Xiang Cheng assentiu, e Chi Xiaoduo foi pagar a conta. Quando voltaram para casa, a encomenda dele já havia chegado, e Chi Xiaoduo foi até a portaria para retirá-la. Ele tirou as roupas da embalagem e as entregou a Xiang Cheng, uma a uma, para que as experimentasse; no instante em que Xiang Cheng vestiu as roupas, sua aparência mudou completamente. Era impossível perceber, apenas olhando para ele, que antes fora um trabalhador migrante que vivia exposto ao vento e à poeira⁸. Além das palmas das mãos um pouco calejadas, todo vestígio de pobreza e estilo de vida nômade desapareceu.
“Você precisa cortar o cabelo”, disse Chi Xiaoduo.
“De que estilo você gosta?”, perguntou Xiang Cheng.
No instante em que Xiang Cheng abriu a boca, o coração de Chi Xiaoduo disparou. Se Xiang Cheng tivesse perguntado apenas “Que estilo você acha que ficaria bom?”, Chi Xiaoduo não teria dado muita importância; mas, perguntar daquele jeito, Chi Xiaoduo sentiu o coração palpitar.
Xiang Cheng: “?”
Chi Xiaoduo respondeu: “Curto, com as laterais raspadas em degradê, algo limpo e fresco. Afinal, o verão está logo aí.”
“Hum”, concordou Xiang Cheng. “Amanhã vou procurar um barbeiro. Aqui, pega isso. A partir de agora é seu.”
Xiang Cheng entregou a Chi Xiaoduo um cartão do Banco Agrícola⁹.
“É um cartão.”
Chi Xiaoduo pensou: Claro que sei que é um cartão; será que a próxima frase vai ser ‘use como quiser’?
Chi Xiaoduo: “Você está… me pedindo para cuidar do seu dinheiro?”
Xiang Cheng respondeu: “A senha são seis zeros. Se precisar de dinheiro, saque uma quantia e use como quiser. Considere isso como o dinheiro para as minhas despesas, mas, por enquanto, ele ainda não pode ser usado; só será desbloqueado no mês que vem.”
Chi Xiaoduo já nem sabia mais o que dizer. Isso por acaso contava como entregar o cartão para a dona da casa?! Ele se apressou em dizer: “Então eu cuido do seu dinheiro, e, se precisar de alguma quantia, é só vir me procurar.”
Xiang Cheng respondeu: “Não me importo; pense nisso como eu dependendo de você.”
Chi Xiaoduo riu — haha — e seu coração transbordava de felicidade. Ele guardou o cartão e saiu saltitando, todo contente.
Xiang Cheng não disse mais nada, apenas ficou se olhando no espelho com as roupas novas, visivelmente muito satisfeito com o bom gosto de Chi Xiaoduo.
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Por dentro, o coração de Chi Xiaoduo soltava um rugido de empolgação. À noite, ele se encolheu debaixo das cobertas como uma tartaruga no casco e ligou para a melhor amiga, contando cheio de orgulho que agora havia assumido o controle das finanças de Xiang Cheng!
A amiga respondeu: “Ah, muitos homens são assim; não é nada incomum. Ele está vivendo às suas custas e comendo a sua comida — nem sequer pagou o aluguel ainda. E, como você não vai passar a perna nele, ele pode simplesmente pedir dinheiro sempre que precisar. É um sistema super prático pra ele!”
Chi Xiaoduo estava tão feliz que tremia na cama; espiando de dentro de seu cobertor (que formava um “casco de tartaruga”), com os olhos arregalados como os de um peixe-mola, enquanto dizia: “Mas é muito dinheiro, viu! Para saber se um homem é bom pra você, não é pela quantidade de dinheiro que ele te dá, mas por qual porcentagem dos bens dele ele coloca na sua mão! Pense naquele cara do ramo imobiliário que seu pai te apresentou: ele tem uma fortuna de centenas de milhões. Se ele deixasse você administrar tudo aquilo…”
Sua melhor amiga não esperava ser bombardeada daquela forma durante uma ligação tarde da noite e não estava nem um pouco disposta a ouvir Chi Xiaoduo tagarelar. Sem saída, ela acabou presa na conversa com ele por um bom tempo, antes de finalmente desligar a ligação a contragosto.
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O comportamento de Xiang Cheng nos últimos dias tinha sido exemplar; ele não havia atendido nenhum cliente. No segundo dia, no terceiro dia… ele ficou responsável por preparar o café da manhã e buscar Chi Xiaoduo. Wang Ren ainda não havia desistido de tentar convencer Chi Xiaoduo a mudar de apartamento, ir embora e parar de se envolver com Xiang Cheng, mas, é claro, Chi Xiaoduo ignorava tudo isso.
“Ele já pediu demissão”, disse Chi Xiaoduo. “Ele não trabalha mais como acompanhante masculino.”
Wang Ren respondeu: “Tá bom, tá bom… não vou mais me meter. Você vai aprender a lição rapidinho.”
No fim das contas, pensando bem, não seria o fim do mundo se Chi Xiaoduo levasse um golpe ou outro. Além disso, pelo jeito de Xiang Cheng, ele não parecia ter nenhum grande problema. Como Wang Ren tinha um amplo círculo de contatos e podia resolver praticamente qualquer pepino para Chi Xiaoduo, decidiu parar de se meter nos assuntos dele. Do começo ao fim, Chi Xiaoduo tinha um pouco de curiosidade sobre Xiang Cheng: ele não saía mais à noite, então será que estava saindo durante o dia para atender clientes?
Certa vez, ele voltou para casa ao meio-dia para pegar um livro de trabalho e encontrou Xiang Cheng limpando as janelas. A cena o comoveu profundamente, levando-o às lágrimas; talvez Xiang Cheng estivesse andando de bicicleta durante o dia à procura de emprego?
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Chi Xiaoduo aguardava ansiosamente o fim de semana; assim que ele chegava, podia voltar para casa e passar um tempo a sós com Xiang Cheng. Quando o chefe do escritório de design quis que ele fizesse hora extra para compensar a ausência de quarta-feira, Chi Xiaoduo imediatamente emanou uma aura assassina. O chefe não teve escolha a não ser recuar para manter a paz.
Depois que o escritório entregou os desenhos, todos podiam finalmente respirar aliviados — chegando mais tarde, saindo mais cedo por uma ou duas semanas sem realizar nenhum trabalho efetivo — no entanto, assim que aparecesse um novo projeto, teriam que se juntar de novo para virar noites trabalhando. Naquele momento, era final de primavera e eles tinham acabado de fechar um lote de desenhos, então todo mundo perambulava pela firma na preguiça. Chi Xiaoduo também estava tão alegre que saiu mais cedo do trabalho e ligou para Xiang Cheng às três da tarde, pedindo para ele ir buscá-lo.
Coincidentemente, Xiang Cheng estava perambulando pelo distrito de Haizhu. Toda vez que Chi Xiaoduo perguntava, ele estava só vagando por aí. No entanto, assim que completou a ligação, a chamada caiu.
Chi Xiaoduo ligou novamente; o telefone estava desligado. Ele ligou de novo, mas o telefone continuava desligado. Meia hora depois, Chi Xiaoduo se perguntou: O que exatamente você está fazendo? Não vai me dizer que tá mesmo atendendo cliente, né?!
No entanto, Xiang Cheng apareceu diretamente do lado de fora do escritório dele.
“O que foi?” Xiang Cheng perguntou.
Como os colegas de trabalho já tinham visto Xiang Cheng várias vezes, Chi Xiaoduo o puxou para saírem de fininho, dizendo: “Estou saindo mais cedo do trabalho e queria saber onde você estava. Vamos fazer compras; você pode preparar algo delicioso para mim hoje à noite.”
Xiang Cheng pegou a bolsa de Chi Xiaoduo e a colocou sobre o ombro; em seguida, os dois entraram no elevador.
“Por que a ligação ficava caindo toda hora?” Chi Xiaoduo perguntou.
“O celular pifou de vez”, disse Xiang Cheng. “Vou comprar um telefone novo mês que vem.”
Chi Xiaoduo começou a sentir que o fato de estarem ou não namorando de verdade não importava muito; se ele pudesse simplesmente continuar vivendo com Xiang Cheng daquela maneira, então amá-lo ou não, não fazia a menor diferença. Naqueles dias, sentia que a vida tinha ganhado graça em muitos aspectos, embora soubesse que Xiang Cheng talvez não tivesse outras intenções em relação a ele.
A questão é que ambos estavam muito atentos aos sentimentos um do outro; por exemplo, assim que Chi Xiaoduo mencionou o assunto, Xiang Cheng foi cortar o cabelo bem curto. Ele também pensava em muitas coisas para Chi Xiaoduo todos os dias; provavelmente era aquela amizade entre homens, em que parceiros cuidam um do outro.
“Deixa eu ver?” pediu Chi Xiaoduo.
“Deixa pra lá”, respondeu Xiang Cheng envergonhado demais para mostrar o telefone velho. “Posso solicitar uma verba de 800 yuans para comprar um celular novo?”
“Claro”, respondeu Chi Xiaoduo, sorrindo. “Compra um melhorzinho.”
Chi Xiaoduo fez as contas mentalmente: ele havia ajudado Wang Ren a revisar os projetos da empresa, então Wang Ren precisava lhe pagar 10 mil yuans. A quantia era perfeita para comprar dois celulares novos, já que o dele também estava precisando ser trocado. Com isso, ele começou a importunar Wang Ren, dizendo para ele se apressar e transferir o pagamento pelo serviço.
“É amanhã que sai o resultado?” Xiang Cheng perguntou.
“É”, disse Chi Xiaoduo. “Não sei se vou conseguir passar.”
“Você com certeza vai passar.” Xiang Cheng já tinha ouvido Chi Xiaoduo falar tantas vezes sobre sua certificação de engenheiro de abastecimento de água e drenagem que praticamente já tinha memorizado uma infinidade de coisas.
Chi Xiaoduo então disse: “Me dá seu celular para eu ver.”
“Está no bolso da minha calça, pega você mesmo.” Xiang Cheng estava voltando para casa de bicicleta com Chi Xiaoduo, sob a luz brilhante do fim de tarde.
Chi Xiaoduo estendeu a mão para trás e tateou às cegas; depois de ficar fazendo isso por um tempo, os dois paralisaram.
Xiang Cheng: “……”
Chi Xiaoduo: “……”
“No outro bolso.” Três linhas pretas surgiram na testa de Xiang Cheng.
“Desculpa.” O rosto de Chi Xiaoduo estava completamente vermelho. Xiang Cheng estava usando uma calça esportiva bem fina e, no momento em que ele colocou a mão no bolso, acabou tocando naquela parte. Ao sentir o toque, Xiang Cheng ficou duro.
Chi Xiaoduo tirou um celular Nokia antigo do bolso; a tampa traseira estava remendada com fita adesiva transparente, e a tela era uma teia de arranhões e rachaduras.
“Há quanto tempo você usa isso?!” Chi Xiaoduo ficou perplexo¹⁰.
“Doze anos”, respondeu Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo decidiu que compraria um celular novo para Xiang Cheng. Ele começou a compreender que a vida que Xiang Cheng levara anteriormente talvez tivesse sido de grande pobreza, mas não fez mais perguntas. Talvez Xiang Cheng realmente gostasse de viver daquela maneira.
“Você conseguiu emprego?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Ainda não”, respondeu Xiang Cheng. “Um velho conhecido disse que ia me indicar.”
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Os dois terminaram as compras de mercado e, como um jovem casal, foram para casa cozinhar. Xiang Cheng tirou um pote de rapé de sua bolsa esportiva e a colocou na estante de livros, antes de ir para a cozinha lavar as mãos e preparar o jantar.
“Você fez uma faxina pesada hoje?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Organizei um pouco as suas coisas, mas não ousei mudar nada de lugar aleatoriamente”, disse Xiang Cheng. “Vou varrer amanhã.”
Os livros profissionais de Chi Xiaoduo estavam todos empilhados de qualquer jeito e, depois de folheá-los, ele simplesmente os largava por ali. Xiang Cheng não ousava arrumá-los, com medo de que ainda fossem úteis. Naquela tarde de sexta-feira, Chi Xiaoduo decidiu que com certeza daria um jeito naquela bagunça, então ligou a música. Enquanto Xiang Cheng estava na cozinha preparando o jantar, Chi Xiaoduo limpava a sala de estar.
Ah! A vida é realmente maravilhosa!
Ué? O que é isso aqui? Um potinho de rapé?
Será que Xiang Cheng ainda usava rapé? Chi Xiaoduo ergueu o pote de rapé para examiná-lo; era uma bela peça de arte em lápis-lazúli, com a pintura de uma garota de orelhas de raposa, e o potinho era do tamanho da palma da sua mão.
Ele abriu a tampa e viu que o potinho estava cheio de um pó rosa. Qual será a sensação de cheirar rapé? Mas peraí, o rapé não costuma ser preto e inalado direto pelo nariz? Por que esse aqui é todo cor-de-rosa?
Chi Xiaoduo aproximou o nariz da abertura do potinho e, curioso, deu uma fungada.
“Atchim!” Chi Xiaoduo espirrou.
Chi Xiaoduo: “……”
Chi Xiaoduo: “???”
Chi Xiaoduo olhou para o potinho de rapé em sua mão.
Será que Xiang Cheng ainda usava rapé? Deveria ele experimentar?
Chi Xiaoduo aproximou o rosto da boca do pote e o cheirou com curiosidade.
“A-atchim!” Chi Xiaoduo espirrou.
Chi Xiaoduo: “……”
Chi Xiaoduo: “???”
Chi Xiaoduo olhou para o pote de rapé que segurava na mão.
Chi Xiaoduo cheirou o rapé e espirrou; depois de cheirar, esquecia completamente que tinha acabado de fazer aquilo. Aí cheirava de novo, espirrava de novo…
Cheirava e esquecia, esquecia e cheirava, cheirava e esquecia, esquecia e cheirava…
Atchim! Cheirava uma vez e atchim! Cheirava de novo e atchim! Cheirava de novo e atchim, cheirava de novo e atchim, cheirava de novo e atchim, cheirava de novo e atchim, cheirava de novo e atchim, cheirava de novo e atchim, cheirava de novo e atchim, cheirava de novo e atchim… e continuou assim em um ciclo infinito.
𓆝 𓆟 𓆞
Quinze minutos depois, a música parou de tocar automaticamente.
“Cozido no vapor ou ensopado com molho shoyu… Não mexe nisso!”
Xiang Cheng saiu da cozinha segurando um peixe, prestes a pedir a opinião de Chi Xiaoduo. Ao ver que Chi Xiaoduo segurava o potinho de rapé com uma expressão de curiosidade, ele ficou tão chocado que sua alma quase saiu do corpo; em um pulo, avançou e arrancou o pote da mão dele.
“O pote de rapé é seu?” Chi Xiaoduo perguntou. “Tá vazio? É pra colocar rapé dentro?”
Xiang Cheng: “……”
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng espiou dentro do frasco — estava completamente vazio. Ele ficou ali parado, paralisado por um momento, com uma expressão terrível de se ver.
Chi Xiaoduo: “?”
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Notas:
1 思归 (Sī Guī): Significa literalmente “pensar em voltar” ou “saudade de casa / anseio pelo regresso”.
2 普洱 (Pu'er): Chá preto fermentado muito tradicional.
菊花 (Chrysanthemum / Crisântemo): Chá de flores, leve e refrescante.
铁观音 (Tieguanyin): Uma variedade famosa de chá Oolong.
3 查户口 (chá hùkǒu): Literalmente significa “checar o registro de residência/censo”. Na China, é uma gíria popular para quando alguém faz perguntas pessoais demais, parecendo um investigador ou policial.
4 珠海 (Zhuhai): Uma famosa cidade litorânea na província de Guangdong, vizinha de Macau.
5 湾仔 (Wanzai) e 横琴 (Hengqin): Distritos/bairros costeiros famosos de Zhuhai, separados de Macau apenas por pequenos canais de água.
6 萝卜糕 (luóbo gāo): Bolo de nabo (ou pudim de radite/nabo), um prato de massa frita/cozida no vapor muito tradicional e barato servido na culinária cantonesa (dim sum).
7 竹升面 (Zhúshēng miàn): Conhecido como macarrão Junsheng (ou macarrão amassado no bambu), é uma iguaria tradicionalíssima de Guangzhou e Hong Kong. O chef usa uma grande vara de bambu para sovar a massa com o peso do próprio corpo, resultando em um macarrão extremamente fino, elástico e crocante.
8 风里来沙里去 (fēng lǐ lái shā lǐ qù): Expressão que descreve quem trabalha exposto às adversidades do tempo (“no vento e na poeira”), típica de trabalhadores da construção civil.
9 农行 (Nóngháng): Abreviação de Agricultural Bank of China (ABC / 农业银行), um dos maiores bancos estatais da China.
10 天雷滚滚 (tiān lěi gǔn gǔn): Expressão popular chinesa usada para descrever o estado de choque de alguém ao ouvir ou ver algo chocante/surreal; literalmente “como se trovões ecoassem do céu”. Deixei como perplexo mesmo.
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Flor: Esse pó é um perigo!
Chi Xiaoduo criando resistência a ele -sqn
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