sexta-feira, 14 de agosto de 2026

[Novel] Mingwang Huanshi Lu - Capítulo 011

 



Capítulo 11 - Mudando de Casa



Meia hora depois, o sol nasceu. Xiang Cheng puxou a corda vermelha, e Chi Xiaoduo ficou agarrado às costas dele enquanto os dois desciam lentamente em direção ao chão. Com a Corda de Amarração Yao entre os dedos, Xiang Cheng fez um movimento circular com o indicador e o médio. A corda vermelha amarrada no pescoço da estátua de Guanyin desatou-se sozinha e caiu.


As pernas de Chi Xiaoduo tremiam tanto que ele mal conseguia se manter em pé. Xiang Cheng o levou nas costas, correu em direção ao Land Rover e deu ré para recolher suas coisas, destruiu a cena do crime, pegou os guardiões de pedra e deixou o Monte Lianhua.


“Para onde estamos indo?” Chi Xiaoduo perguntou. “Por que não estamos voltando para a pousada? Não aguento mais, estou com muito sono.”


Chi Xiaoduo não perguntou mais nada; sua mente estava atordoada. Xiang Cheng disse: “Durma um pouco por enquanto; explicarei tudo quando você acordar.”


Chi Xiaoduo perguntou: “Você não vai embora, vai?”


“Não”, respondeu Xiang Cheng. “Durma.”


Xiang Cheng puxou o capuz do casaco esportivo para cobrir o rosto de Chi Xiaoduo. Exausto e morrendo de sono, Chi Xiaoduo se encostou no banco do passageiro e, de repente, lembrou-se de uma coisa: será que yao realmente existem neste mundo?


Sua avó já tinha dito isso no passado, e parecia que ele próprio, quando era bem pequeno, também tinha topado com uma criatura preta.


Era algo que ele havia encontrado por acaso na praia… transmitia uma sensação semelhante à daquele pássaro monstruoso que Xiang Cheng havia subjugado, embora um fosse um peixe e o outro, um pássaro… Com a mente atordoada, Chi Xiaoduo pensava: este mundo é mesmo fantástico; num momento é o Xiang Cheng capturando yao, no outro lembro-me daquele enorme peixe preto que encontrei quando criança… Sua mente estava uma bagunça, mas ele aos poucos adormeceu. Xiang Cheng vestia uma regata esfarrapada enquanto dirigia de volta para Guangzhou. Ele estacionou em frente ao clube, entrou para pegar o frasco de rapé, trocou de regata, voltou para o carro e fechou a porta.


Ele levantou a peça de roupa que cobria o rosto de Chi Xiaoduo.


Chi Xiaoduo dormia profundamente, com uma respiração calma e uniforme, enquanto a luz do sol iluminava seu rosto.


Xiang Cheng o observou por um momento e depois olhou para o frasco de rapé em sua mão, parecendo um pouco hesitante.


Um passarinho prateado voou até o carro, pousou junto à janela e olhou fixamente para Xiang Cheng.


Xiang Cheng disse ao pássaro: “Ele não vai sair por aí contando para ninguém — só desta vez, eu prometo; só desta vez.”


O pássaro inclinou a cabeça; seus olhos brilhantes e reluzentes refletiam o belo rosto de Xiang Cheng.


Xiang Cheng suspirou.


Ele estendeu a mão e acariciou a cabeça de Chi Xiaoduo.


“Me desculpe”, disse Xiang Cheng seriamente. Em seguida, abriu a tampa do frasco de rapé e o sacudiu levemente sobre o rosto de Chi Xiaoduo.


Chi Xiaoduo espirrou, virou a cabeça incomodado e continuou a dormir.


Xiang Cheng ficou em silêncio por um longo tempo. Ele colocou a mão no volante e encostou a cabeça nele, exausto. Um momento depois, levantou a cabeça, acendeu um cigarro, jogou a bituca pela janela e seguiu de volta para Panyu.


No caminho, enquanto aguardava na fila do pedágio, Xiang Cheng se lembrou de algo e pegou o celular de Chi Xiaoduo para dar uma olhada.


“Xiaoduo, me desculpe”, disse Xiang Cheng para si mesmo, e então apagou do celular dele o vídeo em que subjugavam o yao na noite anterior. Ao ver fotos de si mesmo, ele as analisou cuidadosamente por um tempo antes de dar uma risadinha discreta e colocar o aparelho de volta no bolso da calça de Chi Xiaoduo.


Chi Xiaoduo dormiu profundamente durante todo o trajeto. Quando chegaram à pousada, Xiang Cheng primeiro colocou a cabeça para fora para dar uma olhada ao redor e viu Wang Ren e os outros jogando mahjong no quintal. Ele então pegou Chi Xiaoduo no colo e voltou de mansinho para o quarto. Ele o ajudou a tirar o casaco, puxou o edredom para cobri-los e se acomodou — deixando Chi Xiaoduo apoiar a cabeça em seu braço e ajustando suas posições para que ficassem como na noite anterior — com Chi Xiaoduo abraçado a ele — e adormeceu.


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Dez minutos depois, Wang Ren bateu à porta.


“Chi Xiaomola!”


Chi Xiaoduo estava morrendo de dor de cabeça. Seu corpo inteiro estava enroscado em Xiang Cheng. Xiang Cheng, por sua vez, continuava deitado de braços abertos, servindo-lhe de travesseiro, dormindo profundamente. 


Do lado de fora, Wang Ren bateu à porta e gritou: “Acordem! Chega de dormir! Vamos tomar café da manhã e ir pescar!”


Xiang Cheng respondeu com um resmungo e se levantou da cama, acariciando a cabeça de Chi Xiaoduo, que continuava deitado de bruços. Em seguida, Xiang Cheng foi escovar os dentes e lavar o rosto como se nada tivesse acontecido.


Xiang Cheng perguntou: “Quer dormir mais um pouco?”


Chi Xiaoduo murmurou uma resposta, sentindo a garganta arranhar bastante e a cabeça latejar. Xiang Cheng tocou no rosto dele e sua expressão mudou na hora.


“Ficou doente?” Xiang Cheng perguntou, preocupado.


“Acho que sim.” A garganta de Chi Xiaoduo ardia dolorosamente.


Xiang Cheng não esperava nem um pouco que Chi Xiaoduo ficasse doente; desconcertado, disse apressadamente: “Tente dormir um pouco.”


Chi Xiaoduo estava doente e sua voz tinha ficado rouca. Ele imaginou que, por ter feito tanta hora extra durante uma semana, assim que relaxou depois de ficar tão cansado, acabou caindo doente. Sua garganta parecia em chamas, ele tinha pego um resfriado e seu nariz estava totalmente entupido. Lamentou em seu coração que dessa vez era realmente frustrante demais; ele finalmente tinha conseguido uma oportunidade rara de se divertir com Xiang Cheng, mas, em vez disso, acabou lhe causando transtornos.


Xiang Cheng desceu para pegar um termômetro emprestado com a dona da pousada. Ele mediu a temperatura de Chi Xiaoduo e constatou que ele realmente estava com febre — 39°C —, o que fez Xiang Cheng querer quebrar o termômetro de preocupação. 


Chi Xiaoduo disse: “Vou ficar bem se tomar um remédio para baixar a febre; não se preocupe comigo… cof! cof!


“Vou te levar para o pé da montanha para ver um médico”, respondeu Xiang Cheng.


Por sorte, um casal estava hospedado no quarto ao lado, e o homem era médico. Ele veio examinar Chi Xiaoduo e diagnosticou: “Não é nada demais, não é uma gripe viral. É só que ele gritou demais e a garganta inflamou. Ele tomou vento ou passou por algum susto recentemente?”


Xiang Cheng: “……”


Chi Xiaoduo disse fracamente: “Não, eu nunca grito.”


Xiang Cheng repreendeu: “Eu te disse para não gritar.”


Wang Ren também se aproximou e disse: "Por que sua voz está tão rouca? O que vocês dois estavam fazendo ontem à noite? Eu nem ouvi o peixinho-mola gritando no lago.”


Todos: “……”


O médico disse gentilmente: "O tempo costuma estar frio nesta época, então é melhor continuar usando roupas ao dormir à noite. Vou receitar um remédio para ele tomar; basta descansar aqui na montanha e tomar um pouco de congee.”


As lágrimas de Chi Xiaoduo rolavam pelo rosto. Por um lado, ele resmungava em pensamento: Eu estava de roupa, gente, não sejam assim, tá?; ao mesmo tempo em que sentia que realmente existia amor verdadeiro neste mundo. Ele ficou deitado na cama, doente, observando Xiang Cheng sair para comprar o remédio. Depois de tomar o medicamento, Xiang Cheng também lhe trouxe congee — e era congee de arroz branco, ainda por cima.


O dono da pousada também veio ver Chi Xiaoduo. Xiang Cheng disse a ele que os dois eram primos. Depois de cuidar de Chi Xiaoduo, pegou uma cadeira e se sentou ao lado da cama para ler um livro.


“Lady Ga-o quê?” Xiang Cheng perguntou de repente. “O que é isso?”


“Lady Ga-o quê?” Chi Xiaoduo perguntou, confuso.


Xiang Cheng acenou com a mão, deixando o assunto para lá, mas Chi Xiaoduo de repente se deu conta e disse: “Ela é uma cantora. Me dá o seu celular, vou baixar uma música dela para você.”


Xiang Cheng disse: “Não consigo ouvir música no meu celular. Fica para a próxima.”


Chi Xiaoduo sentia como se seu corpo estivesse se despedaçando; ao se coçar, notou marcas vermelhas nos braços (como se tivesse se ralado ali em algum momento) e havia alguns hematomas roxos nas pernas.


“O que foi?” Xiang Cheng perguntou.


Chi Xiaoduo respondeu: "Nada, não sei onde me bati. Às vezes aparecem uns machucadinhos inexplicáveis no meu corpo e eu nem sei de onde vêm.”


“Isso acontece com frequência?” Xiang Cheng perguntou.


Chi Xiaoduo respondeu: “Não muito.”


Os dois ficaram em silêncio por um momento, até que:


“Vá se divertir.”


“Eu não vou.”


“Vá em frente”, implorou Chi Xiaoduo.


O rosto de Xiang Cheng escureceu, e Chi Xiaoduo não teve escolha a não ser mudar de assunto.


Por dentro, Chi Xiaoduo não parava de se lamentar: Por que sou tão fraco assim? Fico só dando trabalho pros outros… Wang Ren e os demais passaram por lá para dar uma olhada nele e depois subiram a montanha por conta própria para apreciar as flores, deixando apenas Xiang Cheng sentado no quarto, distraído, olhando para ele.


A porta do quarto estava aberta e a iluminação da pequena hospedaria era excelente. A janela também se encontrava aberta, dando justamente para ver a pessegueira no quintal; uma criança deu um chute na árvore, fazendo com que as pétalas flutuassem sob a luz do sol.


Chi Xiaoduo cochilou um pouco mais antes de olhar para Xiang Cheng; ele parecia completamente exausto quando disse: “Me desculpe.”


Ao ouvir isso, Xiang Cheng ficou sem saber o que dizer, com uma expressão de quem não fazia ideia de como reagir àquela situação.


“Me desculpe”, disse Xiang Cheng. “A culpa é minha por não ter cuidado bem de você.”


“Você costuma estar muito ocupado?” Chi Xiaoduo sorriu e perguntou: “Vamos voltar aqui da próxima vez.”


“Não estou ocupado”, disse Xiang Cheng. “Da próxima vez te levo a outro lugar para compensar este passeio. Desta vez a culpa foi minha, eu é que não cuidei bem de você. Não fique se culpando.”


Chi Xiaoduo sentiu-se comovido, triste e envergonhado. Ele respondeu com um “tá bom, tá bom” e disse que definitivamente não estava pensando daquela maneira. Em certo momento, Xiang Cheng afastou-se para atender uma ligação — parecia que alguém o procurava. Suas sobrancelhas bonitas e bem definidas franziram enquanto ele respondia: “Pare de enrolar, vou desligar agora.”


Xiang Cheng não parecia muito cortês com a pessoa do outro lado da linha, e Chi Xiaoduo não pôde deixar de se preocupar. Ele sempre achara que Xiang Cheng era muito bom para ele, mas não esperava que ele pudesse ser tão sério — e ele ficava ainda mais fascinante quando estava sério.


“É algum cliente seu?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Não”, respondeu Xiang Cheng.


Chi Xiaoduo: “Se for, pode ir na frente, não tem problema.”


Xiang Cheng: “Não. É. Um. Cliente. Você está com dor de garganta; não fale.”


Chi Xiaoduo não teve escolha a não ser deixar o assunto para lá. Xiang Cheng atendeu a mais alguns telefonemas, sempre saindo do quarto para falar.


No fim, ele simplesmente desligou o celular. Chi Xiaoduo percebeu de repente que Xiang Cheng nunca parecia usar o telefone na sua frente e raramente fazia ligações; foi apenas naquele dia que o aparelho parecia tocar incessantemente.


Assim, Xiang Cheng passou o dia inteiro ao lado dele, cuidando dele. Chi Xiaoduo dormiu até perder a noção do tempo, imerso em sonhos confusos, e à noite os amigos voltaram e foram dar mais uma olhada nele.


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Ele acordou por volta do meio-dia do dia seguinte e sentiu-se um pouco melhor após tomar a medicação. No entanto, o passeio de primavera já havia acabado.


Chi Xiaoduo estava sentado no carro de Wang Ren. Quando estavam descendo a montanha, as flores de pessegueiro já tinham praticamente caído todas, e ele sentiu uma vontade enorme de dar com a cabeça na parede e morrer.


Xiang Cheng ficou parado ao lado do carro e esperou que eles fossem embora antes de entrar no dele. Tinha surgido um imprevisto, então ele precisava voltar para o clube.


Chi Xiaoduo acenou se despedindo de Xiang Cheng e não tirava os olhos do carro dele enquanto se afastavam. Wang Ren dirigia com uma cara de tédio e disse: “Exageraram na dose ao pegar um quarto juntos, né? Até pegou um resfriado e gritou até ficar rouco… Ai, ai, o que é que eu vou dizer de você, hein?”


“Não foi nada disso!” Chi Xiaoduo respondeu entre dentes. Ele colocou a mão no bolso e encontrou algo redondo e, quando tirou, viu que era um guardião de pedra de cabeça arredondada. Chi Xiaoduo olhou imediatamente para trás e viu Xiang Cheng ainda parado na beira da estrada, olhando para as marcas dos pneus deles no chão.


Com certeza era um presente de Xiang Cheng; Chi Xiaoduo voltou a ficar feliz.


Olhando a paisagem ao pé da montanha, Chi Xiaoduo pensou que talvez estivesse realmente apaixonado por ele.


Mas ele se apaixonou por um pato, e além disso, ainda não tinha dinheiro! Essa era realmente a coisa mais deprimente da sua vida; eles tinham saído para se divertir, mas praticamente não conseguiram, e isso era extremamente constrangedor. Chi Xiaoduo primeiro contou para sua melhor amiga que Xiang Cheng provavelmente nunca tinha transado com seu primo, e também não parecia ter intenção nenhuma de dar o golpe do baú nem de enganar ninguém num casamento de fachada.


Claro, ele não mencionou que eles eram “colegas”, para não gerar mais ambiguidade.


A melhor amiga dele disse: “Você é burro? Acredita em qualquer coisa que ele fala?”


“Ele é muito honesto”, disse Chi Xiaoduo. “O nome dele é até Xiang Cheng*.”


(n/t: *o caractere Cheng (诚) significa literalmente "sincero/honesto")


“Você não consegue acreditar, mas não é melhor acreditar? Às vezes as pessoas precisam ser um pouco ingênuas. Não seja tão curiosa.”


Sua amiga não teve escolha a não ser ceder. A cidade das flores ficava mais quente a cada dia, e com isso, o coração amoroso de Chi Xiaoduo também ficava inquieto e ansioso por agir.


“Você acha que seríamos felizes se eu sustentasse ele como meu sugar baby?” Chi Xiaoduo usava outro celular para conversar com a melhor amiga enquanto segurava o seu telefone e encarava a foto de perfil de Xiang Cheng, que estava com sorvete nos lábios e sorria de forma ambígua para ele. Quanto mais olhava para ele, mais gostava; sua língua estava quase esticando na direção da tela do celular.


“Se fosse eu, ficaria muito emocionada”, disse sua melhor amiga, com indiferença. “Mas você não despertaria meus sentimentos.”


“Mas ele deve estar bem cansado”, disse Chi Xiaoduo. “Ele mesmo me disse que não quer mais continuar a fazer este trabalho.”


A amiga disse: “Ah, me poupe! O cara nem gosta de você ainda. É melhor deixar alguém te apresentar a alguém e arrumar um camarada num encontro às cegas para ser um pouco mais realista.”


Chi Xiaoduo disse: “Se ele não gostar de mim, eu nunca mais vou conseguir me apaixonar por mais ninguém na vida!”


“Ah, para com esse drama!” disse a melhor amiga ao telefone. “A cara da laoniang já tá rachando de tanto falar, tchau para você!”


Chi Xiaoduo desligou o telefone e suspirou, impotente.


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Já haviam se passado tantos dias, será que ele deveria pedir a Xiang Cheng que viesse visitá-lo em casa? Mas Chi Xiaoduo não queria repetir a experiência, e não queria definir o relacionamento deles por dinheiro. Falando em dinheiro, Chi Xiaoduo não tinha muito. Aquela pequena quantia que ele havia conquistado com tanto esforço, suor e lágrimas, não era suficiente aos olhos de Xiang Cheng.


Bem no momento em que Chi Xiaoduo estava calculando quanto dinheiro podia gastar, um problema surgiu.


O proprietário queria vender a casa. Chi Xiaoduo ficou atônito; sentiu como se centenas de peixes-mola tivessem morrido dentro dele naquele instante.


“Não pode ser!”, disse Chi Xiaoduo. “Por que você está vendendo a casa?”


O proprietário respondeu: “O que eu faço com o meu imóvel não é da sua conta. Já tem gente vindo visitar a casa, então vê se se muda logo. Quando terminar de arrumar suas coisas, tira umas fotos e me manda para eu repassar para a imobiliária, obrigado.”


Chi Xiaoduo imediatamente ficou com uma dor de cabeça terrível. Desde que se formou, ele já tinha mudado de casa N vezes; não ter o próprio cantinho realmente não dava, parecia que ele vivia no limite do incerto e, bastava o proprietário abrir a boca e ele tinha que se mudar. Felizmente, não estava atarefado ultimamente; assim, Chi Xiaoduo trabalhou apenas meio período e passou o resto do dia procurando um novo apartamento.


Os aluguéis eram todos caros; e aqueles próximos ao instituto de design custavam entre três e quatro mil yuans por mês. Chi Xiaoduo ganha cerca de duzentos mil yuans por ano, mas é bastante econômico. Afinal de contas, ele não tinha carro nem casa, e o mais certo a se fazer era economizar para comprar um imóvel logo, então não podia gastar sem pensar.


Finalmente, ele encontrou um condomínio residencial que lhe agradou. Levava apenas quinze minutos para chegar ao trabalho de bicicleta e o ambiente era tranquilo, mas o preço era bem salgado. Por um apartamento totalmente mobiliado com dois quartos e uma sala, por três mil e seiscentos ao mês, com exigência de pagamento adiantado de um ano inteiro de aluguel.


Com isso, mais de quarenta mil iriam embora de uma vez. O dinheiro de Chi Xiaoduo estava quase todo investido em fundos imobiliários e renda fixa, e ele só tinha uns poucos milhares sobrando para a comida. Se gastasse tudo de uma vez no aluguel, ficaria numa situação complicada caso surgisse alguma emergência. A única saída era perguntar aos amigos se algum deles queria rachar o aluguel como colega de quarto, ou se poderia lhe emprestar algum dinheiro. Chi Xiaoduo se lembrou de um colega de faculdade chamado Wang Yong, que tinha vindo trabalhar como supervisor do metrô de superfície local e morava num alojamento improvisado no canteiro de obras. Ele vinha falando há tempos de se reunirem para comer algo, então Chi Xiaoduo podia aproveitar para perguntar se ele não queria alugar uma casa na cidade.


Os dois se conheciam muito bem e eram amigos que até copiavam as tarefas de mecânica dos fluidos um do outro, então Chi Xiaoduo não foi muito educado ao falar.


Você está aí? Vou morrer de pobreza! Estou procurando um colega de quarto para dividir um apartamento de dois quartos e uma sala. Você se interessa? Por favor, venha salvar este peixe-mola que está prestes a ser maltratado até a morte pelo proprietário! Tô sem dinheiro!】 Então, sem pensar duas vezes, Chi Xiaoduo apertou o botão de enviar e postou a mensagem no grupo.


No segundo em que se deu conta do que tinha feito, um raio caiu na cabeça dele com um estrondo.


“AHHHHHHHH——!” Chi Xiaoduo uivou na brisa da primavera.


Eu realmente mandei uma mensagem tão estúpida no grupo! Meu Deus! Chi Xiaoduo sentiu uma vontade incontrolável de bater a cabeça na parede e morrer.


Imediatamente depois, Chi Xiaoduo recebeu inúmeras mensagens de texto:


Você ainda não comprou uma casa, Chi Xiaomola?


Alugar casa pra quê? Vem morar aqui em casa, sua cunhada tava falando de você agorinha mesmo.


Foi mal aí, risos, o financiamento desta gatinha aqui ainda tem trinta e cinco anos pela frente, o engenheiro Chi vai ter que procurar outra pessoa.】


Olá, aqui é o gerente Huang da imobiliária. Aquele imóvel que o senhor viu da última vez…


Chi Xiaoduo: “……”


No meio de um mar de mensagens de texto, uma em especial se destacou, piscando na tela: “Xiang Cheng”.


Quem é?


Chi Xiaoduo respondeu imediatamente a ele, dizendo: Eu fui descuidado e mandei para a pessoa errada. Sou o Chi Xiaoduo.


Você está se sentindo melhor?


Já estou bem melhor.】O coração de Chi Xiaoduo disparou. Ele sabia que Xiang Cheng estava apenas sendo educado e prestativo, sem segundas intenções, mas mesmo assim ficou feliz em receber a mensagem.


Você está procurando alguém para dividir aluguel?


Antes que Chi Xiaoduo pudesse responder, o celular tocou: Xiang Cheng estava ligando. Chi Xiaoduo atendeu, tremendo. Do outro lado da linha estava tudo muito silencioso, e a voz de Xiang Cheng era um pouco baixa. Ele perguntou: “Você está procurando alguém para dividir o aluguel?”


Chi Xiaoduo: “Ah… Sim, mandei a mensagem para o lugar errado agora há pouco, desculpe te incomodar.”


Xiang Cheng perguntou: “Eu racho o aluguel com você. Quando você vai se mudar?”


A felicidade veio tão rápido quanto um furacão! Chi Xiaoduo ficou imediatamente fora de si de alegria e ele gaguejou: “Vo-você... você não quer ver o apartamento primeiro? Eu tô livre amanhã à tarde. Vou sair mais cedo do trabalho e te ligo, tá?”


Xiang Cheng apenas murmurou um “hum” e desligou. Chi Xiaoduo soltou um grito de comemoração na mesma hora e se jogou na cama, rolando de um lado para o outro. Bem nesse momento, o celular tocou de novo.


“Alô, Xiaoduo? É o Wang Yong!” disse a voz do outro lado. “Você tá procurando alguém pra dividir apartamento? Perfeito, eu não aguento mais morar num alojamento improvisado. No verão, isso aqui é…”


Chi Xiaoduo respondeu imediatamente, por reflexo: “Ei, dividir o quê? É tudo imaginação sua. Te convido para jantar semana que vem, ok? Vou desligar agora.”


Wang Yong: “……”


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Na tarde do dia seguinte, Xiang Cheng foi de ônibus ao encontro de Chi Xiaoduo. Os dois pegaram o metrô até o condomínio para dar uma olhada no lugar, e Xiang Cheng visivelmente ficou muito satisfeito com o apartamento.


“Onde você está morando agora?” perguntou Chi Xiaoduo.


“No alojamento da empresa”, respondeu Xiang Cheng. “É um saco; tem sempre gente perguntando sobre isso e aquilo, e também mexem nas minhas coisas. Não quero mais continuar morando lá.”


Chi Xiaoduo disse: “É verdade; eu também não gosto que invadam a minha privacidade.”


A expressão de Xiang Cheng mudou um pouco, como se estivesse refletindo sobre algo, e então perguntou: “E se eu morar com você, não vou te atrapalhar?”


O apartamento era voltado para o sul e recebia muita luz. Havia dois quartos e duas* salas; havia até um pequeno escritório em um canto da sala de estar, além de algumas plantas meio murchas cultivadas ao redor. Xiang Cheng pousou a mão no ombro de Chi Xiaoduo, e ambos olharam para fora juntos. Lá do décimo segundo andar, a luz do sol de primavera estava radiante. Chi Xiaoduo sentiu como se estivesse planejando sua vida futura com o namorado; não poderia pedir nada melhor.


(n/t: *pode ser um erro de digitação nas raws originais)


“E quanto à garagem subterrânea…” Chi Xiaoduo perguntou ao corretor.


Xiang Cheng acenou com a mão e disse: “Eu não tenho carro. Aquele que eu estava dirigindo antes era emprestado de um amigo.”


O corretor disse: “O proprietário deste imóvel é um acadêmico que trabalha na Austrália; ele só volta a cada poucos anos, então provavelmente não vai vendê-lo tão cedo.”


Chi Xiaoduo assentiu. Xiang Cheng disse: "É um ótimo apartamento. Podemos nos mudar amanhã? Vai ser muito incômodo para você?”


Chi Xiaoduo apressou-se em responder: “Não é incômodo nenhum, imagina… Vou lá assinar o contrato agora mesmo e, assim que pegar as chaves, a gente já muda para cá.”


Chi Xiaoduo foi pagar o depósito, e Xiang Cheng sentiu-se um pouco sem jeito. Após refletir um pouco, ele disse: “Espere…”


Xiang Cheng fez menção de pagar, dizendo: “Tenho quatrocentos em dinheiro.”


Chi Xiaoduo queria muito pagar tudo sozinho e apressou-se a dizer: “Não se preocupe com isso.”


Chi Xiaoduo lançou um olhar de soslaio para Xiang Cheng e sorriu alegremente. Ele sentia que o Xiang Cheng de hoje estava diferente de todas as outras vezes em que se encontraram; ele parecia estar com algo em mente, provavelmente a questão de onde morar. Poder ajudar Xiang Cheng era a melhor coisa do mundo. Depois de verem o apartamento e pagarem o sinal, combinaram de assinar o contrato depois de amanhã e foram jantar juntos; Xiang Cheng pagou um jantar com pratos salteados para Chi Xiaoduo em um restaurante.


“Você está de mau humor?” Chi Xiaoduo perguntou.


“Não”, disse Xiang Cheng. “Meu humor está ótimo, muito bom mesmo. Obrigado. Quer que eu te faça uma massagem com óleo hoje à noite?”


Chi Xiaoduo estava um pouco preocupado. Ele achava que tinha deixado a ideia de lado, mas ver Xiang Cheng fez com que quisesse colocá-la em prática novamente: e se ele simplesmente alugasse o apartamento e bancasse Xiang Cheng? Deixando todo o resto de lado, ele podia simplesmente assumir Xiang Cheng como seu namorado e dar a ele 10 ou 20 mil yuans por mês; Chi Xiaoduo ainda tinha condições de arcar com isso.


No entanto, considerando os gastos de Xiang Cheng, 20 mil yuans talvez nem fossem suficientes; afinal, o pessoal que trabalha como acompanhante parecia gastar muito.


Chi Xiaoduo, por pura curiosidade, tinha saído perguntando a um monte de amigos sobre o assunto, o que fez aquela roda de caras altos, bonitos e ricos achar que ele estava desesperado procurando um acompanhante masculino¹; eles inclusive começaram a indicar contatos com o maior entusiasmo, deixando Chi Xiaoduo completamente desorientado e sem saber onde enfiar a cara por um bom tempo. Mas, pelo que se sabia, Xiang Cheng não era do tipo que postava fotos nuas na internet para atrair clientes. O que o Wang Ren tinha falado sobre “rapidinhas” ou “programas de uma noite” não passava de uma brincadeira provocativa.


Caras com o perfil do Xiang Cheng, no máximo, só acompanhavam clientes e faziam massagens com óleo, sem contar que não ficavam se expondo todos os dias em casas de massagem masculina. Alguns rapazes mais sociáveis ​​podiam até encontrar uma pessoa rica disposta a sustentá-los por um longo período. Claro, o interesse de uma pessoa rica não durava muito, e a maioria desses rapazes apenas se divertia ocasionalmente. Quando o tempo com um cliente estava chegando ao fim, eles já faziam amizade com o próximo.


Agora parecia que Xiang Cheng estava pronto para romper com seu cliente anterior e começar uma vida nova. Chi Xiaoduo sentiu que a distância entre eles havia diminuído um pouco. No dia seguinte, ele estava tão feliz que nem sabia o próprio nome, e andava com passos tão leves que parecia flutuar enquanto dava uma geral no seu apartamento.


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No dia da mudança, o que Chi Xiaoduo mais tinha eram livros. Wang Ren veio dirigindo seu próprio carro para ajudá-lo a se mudar, e eles até escolheram um dia auspicioso no calendário para fazer a mudança.


“Olá, Peixinho-mola”, disse Wang Ren.


Wang Ren e seus amigos haviam formado uma sociedade para abrir um escritório de projetos estruturais. Ele estava vinculado a um instituto de projetos e já possuía uma fortuna de dezenas de milhões. Ele era o mais bem-sucedido entre os antigos colegas de turma e tinha postura de chefe, mas, ainda assim, arregaçou as mangas e ajudou Chi Xiaoduo a carregar as coisas, subindo e descendo escadas.


“Hã?” Chi Xiaoduo não conseguiu evitar um sorriso.


“Você tá quase virando um bobo apaixonado sem cérebro”, disse Wang Ren. “Você gosta do Xiang Cheng, né?”


Chi Xiaoduo: “……”


“Não, não… do que você está falando?” Chi Xiaoduo virou-se para sair por reflexo, mas Wang Ren o segurou e puxou de volta, dizendo com um ar de seriedade: “Ouvi do David que o Xiang Cheng vai pedir demissão. Pelo jeito que ele age… pode ser que ele goste de você.”


Chi Xiaoduo ficou tão surpreso com aquilo que perguntou: “É mesmo? É sério?! Ele falou alguma coisa pra você?”


“Você sabe como são esses acompanhantes”, disse Wang Ren. “Você acha que eles se dariam ao trabalho de agradar um cliente que não paga? No mês passado, ele foi até a Montanha Lianhua, cuidou de você por dois dias inteirinhos e não te cobrou nem um centavo. Acho que ele provavelmente queria conquistar o seu coração.”


A felicidade de Chi Xiaoduo era indescritível.


“Tá bom, tá bom, já entendi”, disse Chi Xiaoduo, com palavras que não condizem com o que sentia no coração. “Ai, na verdade, além de se apaixonar, existem muitas outras coisas importantes na vida. Pelo que você disse, parece até que só penso em arranjar um namorado… Vou nessa.”


“Você…” Sempre que Wang Ren tentava dar uma lição em Chi Xiaoduo, sentia como se estivesse lidando com um projeto arquitetônico bizarro, onde o centro de massa e o centro geométrico estavam a quilômetros de distância — ele simplesmente não conseguia encontrar um ponto de sustentação. Wang Ren disse: “Volte aqui agora! Vamos deixar uma coisa clara: divertir-se é bom, mas não leve isso tão a sério.”


“Entendido”, disse Chi Xiaoduo de forma superficial.


Wang Ren continuou: “Você realmente precisa pensar bem sobre isso…”


O chão estava coberto de caixas de papelão quando o elevador anunciou sua chegada. Xiang Cheng ficou preso na porta, e Wang Ren e Chi Xiaoduo pararam de falar imediatamente.


Xiang Cheng, Wang Ren e Chi Xiaoduo trocaram olhares em silêncio; Xiang Cheng parecia não fazer ideia de que Wang Ren viria e, recuou um passo por instinto.


Chi Xiaoduo: “……”


Wang Ren: “……”


Xiang Cheng: “……”


Chi Xiaoduo quase pensou que alguém tivesse batido na porta errada. O Xiang Cheng de hoje estava totalmente fora de suas expectativas; ele vestia roupas de operário de obra, calças camufladas e tênis Huili². Usava um colete amarelo de poliéster por cima e carregava um enorme saco de ráfia nas costas.


Chi Xiaoduo ficou de queixo caído; seu primeiro impulso foi pegar o celular e tirar uma foto.


“Você…”


“Olá”, disse Xiang Cheng.


Wang Ren: “Caramba, você acabou de voltar de um trabalho de carregar tijolos?”


Xiang Cheng pousou sua sacola de ráfia e ficou parado do lado de fora da porta. Chi Xiaoduo estava completamente atônito; ele se lembrou da foto que sua melhor amiga lhe mostrara — e ela era realmente real!!!!


Wang Ren: “Vo-vo-você…” 


Wang Ren estava completamente atônito; apertando o peito com uma mão e gesticulando com a outra, ele disse: “Deixe-me descansar um pouco…”


Xiang Cheng parou diante de Chi Xiaoduo e perguntou: “Devo tirar os sapatos?”


“Não, não, não!” Chi Xiaoduo reagiu e perguntou apressadamente: “Você já terminou a mudança?”


Chi Xiaoduo começou a empurrar e fazer força junto com Xiang Cheng, dando o seu melhor para arrastar o enorme saco de ráfia para dentro do apartamento. Xiang Cheng deu uma olhada para a montanha de caixas de papelão espalhadas pelo chão e disse: “Tem tantas… são todas suas? Ainda tem mais?”


Chi Xiaoduo disse: “As minhas já terminaram, onde estão as suas coisas? Quer que eu te ajude a trazê-las para dentro?”


Xiang Cheng respondeu: “É só isso.”


Xiang Cheng arrastou a sacola de ráfia para dentro e olhou ao redor. Chi Xiaoduo disse apressadamente: “O quarto da esquerda é o seu.”


“Fique com o quarto principal; a iluminação lá é boa”, disse Xiang Cheng, antes de arrastar sua sacola de ráfia para o segundo quarto.


Wang Ren sussurrou: “O que está acontecendo?”


“Agora entendi!” disse Chi Xiaoduo. “Ele achou que teríamos que limpar a casa nova depois da mudança, então trocou de roupa e vestiu essas roupas velhas. Na verdade, ele tem bom gosto; é estilo punk chinês!”


Wang Ren: “Hein? Então por que ele não trocou os sapatos Huili por uma bota de exército³? E ainda por cima está carregando uma sacola de palha? Essa sacola é da Louis Vuitton?”


“Não enche”, disse Chi Xiaoduo, rangendo os dentes. “Mesmo usando calças largas e carregando um saco, ele continua sendo meu deus grego!”


“Espere um minuto.” disse Wang Ren. “Retiro o que disse. Essa pessoa precisa ser investigada antes de você considerar se quer ou não namorar com ele.”


“Foi você quem me apresentou a ele”, disse Chi Xiaoduo, rangendo os dentes.


“A gente só queria que você se divertisse um pouco; ninguém imaginou que chegaria a esse ponto”, Wang Ren ameaçou: "Definitivamente não caia nessa, esse pato pode estar tramando algo. Vou voltar e perguntar ao David o que está acontecendo.”


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Notas:


1 MB (Money Boy): Money Boy (MB) é uma gíria em inglês amplamente adotada na China para se referir a garotos de programa / acompanhantes masculinos focados no público gay.


2 Huili (回力鞋 - Huílì xié) refere-se aos tradicionais tênis de lona com sola de borracha da marca chinesa Warrior (Huili).


3 解放鞋 (Jiěfàng xié) Literalmente “sapatos de libertação”. São os clássicos calçados de lona verde-militar com sola de borracha usados pelo exército chinês no passado e, hoje em dia, muito comuns em canteiros de obras.


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Flor: O Xiang Cheng sendo um mero mortal tentando sobreviver nesse mundo cruel~~


Chi Xiaoduo defenda seu futuro homem!


Senti pena do Wang Yong rs~


𓇼⋆.˚𓆉𓆝𓆡⋆.˚𓇼


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