domingo, 6 de dezembro de 2020

[Novel] Xingpan Chongqi - Capítulo 03

 


Tradução: Foxita.
Revisão colaborativa: Sr. Raposo.

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Capítulo 03 - A Queda do Patriarcado

Depois de ingressar na cela da prisão, A-Ka continuou atordoado por um tempo. Ele não conseguia entender por qual motivo havia se exposto naquelas circunstâncias e confessado que era a pessoa por quem Heishi procurava.
Ele abraçou os próprios joelhos e sentou-se em um canto, pensando incessantemente: o que vai ser de mim?
Humanos eram animais racionais. Pelo seu próprio bem, ele há muito tempo tinha decorado vários artigos da lei. Enquanto A-Ka pensava e repensava no assunto, ele sentiu que o problema atual não necessariamente culminaria em sua execução, afinal a lei não dizia como alguém que trazia consigo um humano deveria ser punido.
O único crime que poderiam lhe imputar seria o de cruzar a fronteira entre os mundos. No entanto, A-Ka sempre foi bastante cuidadoso para não deixar quaisquer vestígios pelas câmeras de vigilância. Contanto que os robôs encarregados de cumprir a lei não pudessem atestar com certeza que ele secretamente havia saído do Formigueiro, ele seria absolvido.
A questão envolvendo Heishi era ainda mais fácil de ser resolvida. Como ele não tinha identidade e não era um fugitivo de outras seções, era bastante provável que ele e A-Ka fossem inocentados. Para tanto, era crucial que Heishi não revelasse a verdade aos robôs, ou seja, que A-Ka já havia saído escondido anteriormente.
No entanto, tão logo A-Ka fosse processado pelo clone, ele acabaria preso e seria imediatamente executado pelo crime de furto.
A-Ka estava muito satisfeito por inconscientemente ter tomado a decisão correta. À primeira vista, parecia que sua decisão tinha sido responsável por salvar Heishi, mas na realidade ela acabou salvando sua própria vida.
Com isso em mente, A-Ka deu uma olhada em Heishi, que estava sentado de frente para ele, imaginando uma maneira de lhe dizer o que estava pensando sem que fosse notado pelas câmeras de vigilância. Assim que levantou a cabeça, notou que Heishi também o encarava. Eles estavam separados por duas celas, cujas barras eram feitas de feixes de laser horizontais e verticais que se cruzavam.
“Heishi,” falou A-Ka.
Heishi olhou para ele.
A-Ka: “O que exatamente você veio fazer aqui?”
Heishi respondeu, “Não é da sua conta.”
A-Ka: “Seu...”
A-Ka não tinha como lidar com Heishi, que apenas olhava ao redor, com os olhos cheios de suspeitas. Quando ele estava prestes a estender a mão e tocar nas barras de laser, A-Ka imediatamente falou apreensivo, “Não encoste nisso, não toque em nada!”
Heishi falou friamente, “Cala a boca!”
A-Ka simplesmente respondeu, “Então vá em frente, toque nela. Não me culpe se você morrer.”
Heishi ficou em silêncio por um bom tempo e finalmente decidiu não testar e se colocar em perigo.
“Não diga nada.” No fim, foi tudo que A-Ka pôde dizer.
Heishi permaneceu ali parado em silêncio observando A-Ka. Em pensamento, A-Ka refletia repetidamente: como explicar isso para Heishi? Aquele homem já adulto que ele tinha resgatado e trazido consigo parecia ser uma espécie de lunático.
Ele não sabia de nada. Quando fosse interrogado, ele provavelmente não mentiria. O mais perigoso era que Heishi não tinha qualquer noção da atual situação, da Cidade das Máquinas, ou do status dos humanos na sociedade e sua relação com os robôs. A-Ka sentia apenas que a situação era bastante espinhosa.
Quando A-Ka levantou a cabeça, percebeu que Heishi o observava.
"Escuta, Heishi,” falou A-Ka. Ele percebeu que talvez houvesse a necessidade de demonstrar a realidade de como tudo ao redor deles era perigoso. Assim, ele tirou de dentro do bolso uma pequena chave de fenda e a jogou em direção às barras de laser. Com um zumbido, a chave de fenda de plástico foi cortada em dois pedaços, que foram ao chão.
Heishi encarou a chave de fenda.
“Não diga nada,” falou A-Ka. “Não importa o que te perguntarem, não diga nada, ou vai acabar morto. Primeiro, me diga a verdade, por que veio aqui?”
Heishi respondeu, “Nenhum motivo especial. Eu preciso encontrar uma saída, você pode ficar aqui e continuar esperando.”
A-Ka cuspiu entredentes, “Eu te salvei duas vezes, Heishi! É assim que você trata a pessoa que salvou sua vida?”
Do lado de fora, veio um barulho e os dois se sentaram alertas nas próprias celas. A-Ka não conseguia parar de medir Heishi, seu pensamento vagando entre ele e a revolução dos clones. Ele fechou os olhos e de repente ouviu um estrondo abafado vindo de longe; as paredes tremeram levemente.
Logo em seguida, toda a área da prisão foi tomada pela escuridão e as barras de laser se apagaram.
De longe, veio o som de tiros.
A-Ka imediatamente se pôs de pé ― a fonte de energia fora cortada! O que estava acontecendo? De acordo com a informação do chip, a revolução dos clones não deveria começar apenas no dia vinte e sete?
Os lasers tremeluziram e iluminaram suas faces. As circunstâncias eram estranhas. Após mais alguns segundos, todas as luzes sumiram.
A-Ka correu para fora da cela, tropeçou e caiu nos braços de alguém. Ele foi segurado firmemente por um braço forte e seu coração pulou de susto.
A-Ka falou, “Me solta!”
A pessoa resmungou friamente; era a voz de Heishi, que o empurrou de lado. A-Ka pensou consigo mesmo, Realmente, já chega… Assim que as celas se abriram, todos tentavam escapar. Naquele breu, era impossível saber por onde ir, então A-Ka podia apenas tentar se lembrar do caminho que tomaram para chegar até ali e gritou, “Por aqui, Heishi! Venha comigo!”
Ele se virou e correu em direção à saída da esquerda, mas quando estava quase chegando, ouviu o som de lagartas mecânicas[1], como se vários robôs sentinelas estivessem se aproximando. Ele inconscientemente virou o corpo e correu de volta em direção aos fundos da cela.
A-Ka: “É perigoso! Volte!”
Ele correu em direção ao final do corredor, passando por fileiras e mais fileiras de celas. Assim que os lasers sumiram, todos os humanos ficaram de prontidão e a prisão se encheu de gritos caóticos e de um grande empurra-empurra.  A-Ka foi empurrado e jogado para longe, cambaleando até se apoiar em alguém.
“Heishi! Heishi!” A-Ka gritou ansioso, mas ninguém respondeu. Ele provavelmente tinha fugido sozinho e se perdido. No entanto, A-Ka não podia gastar mais nenhum minuto procurando por ele em meio à escuridão. Uma confusão de vozes soou.
“Estamos livres!”
“Saiam, rápido!”
“Tem algo de errado com o sistema de energia!”
“Cuidado! Se abaixem!”
Naquele instante, A-Ka sentiu um corpo forte derrubá-lo no chão. Eles rolaram pelo chão enquanto lasers vinham de todas as direções. Os guardas-robôs abriram a principal porta que levava ao corredor e feixes de luz zuniram enquanto gritos de dor e sangue recém-derramado encheram o ar. O coração de A-Ka pareceu parar naquele instante. Ele sentiu um líquido viscoso em sua mão, sua mente estava confusa.
“Aqui,” a voz de Heishi era fria e calma como sempre. Tão fria e calma que parecia irreal. A-Ka sentiu apenas seu corpo ser levantado quando eles saltaram. Ele foi puxado por Heishi para algum lugar, seguido por uma sequência de quedas. A entrada principal se fechou de repente. Eles tinham adentrado o túnel exterior do complexo penitenciário.
A-Ka não conseguia ver nada, mas tateou até esbarrar em uma tampa de bueiro derrubada, na qual ele bateu algumas vezes perguntando, “Heishi, você ainda está aí?”
Não houve resposta; os arredores estavam em completo silêncio. Logo em seguida, houve um estrondo ensurdecedor e a tampa de bueiro à frente dele explodiu em pedaços. A-Ka levou um grande susto. Sua mão roçou em uma lanterna de tom azul e ele a acendeu, vendo que a mão de Heishi estava coberta de sangue. Se não fosse pelo sangue, ele teria se perguntado se Heishi era um robô.
“Você é tão forte,” falou A-Ka com o coração ainda tomado por um pouco de medo. “Não tá doendo?”
Ele examinou a mão de Heishi. Havia um corte aberto nas costas da mão.
Heishi não respondeu e, ao invés disso, falou, “Vou indo, você se cuida.”
Heishi se virou e partiu; a raiva de A-Ka se foi completamente. Ele pôde apenas segurar aquela luz fria enquanto seguia em frente.
Em um piscar de olhos, Heishi já tinha desaparecido sabe-se lá para onde. A-Ka usou a luz para iluminar o caminho à sua frente e ansiosa, mas cautelosamente, começou a procurar por túneis pelos quais pudesse seguir viagem. Ele estava com um medo terrível de se deparar com robôs, mas depois de circular por um tempo, descobriu que tinha apenas uma pessoa à sua frente e uma vez mais ele deu de cara com Heishi.
“Vamos juntos,” falou A-Ka. “Você não conhece essas passagens.”
Heishi não respondeu, tampouco passou a acompanhar A-Ka e, em vez disso, continuou a caminhar em direção ao fundo do túnel. Ele parou onde estava, à frente de A-Ka, e se virou para observá-lo. Ele virou a cabeça novamente; uma mão aparentava segurar algo que não existia, como se segurasse sua própria luz azul. A-Ka vagamente pareceu perceber algo: Heishi estava aprendendo.
Ele supôs que Heishi o imitava em uma tentativa de compreender seus próprios movimentos. Em outras palavras, fora o fato de saber falar, havia uma parte das memórias de Heishi sobre movimentos e pensamentos que estava completamente vazia, como se fosse uma criança pequena. No entanto, neste exato momento ele não podia se dar ao luxo de perguntar a Heishi sobre isso; era mais importante proteger a própria vida.
Ao alcançar Heishi, ele pensava em uma maneira de lhe explicar a situação.
A-Ka: “Esse lugar é chamado de Formigueiro, é aqui que os humanos vivem. Você é um membro da espécie humana.”
Heishi ainda carregava uma expressão de indiferença.
A-Ka: “Agora, nós precisamos pensar em um jeito de fugir daqui.”
Heishi não teve qualquer reação e A-Ka prosseguiu, “A luz pode nos ajudar a ver o caminho claramente. Esse tipo de luz geralmente é de uso exclusivo dos clones, que não são a mesma coisa que robôs. Robôs têm sensores infravermelhos e conseguem ver pessoas mesmo na escuridão. Então...”
“Você é muito barulhento,” falou Heishi.
A-Ka: “...”
A-Ka finalmente explodiu e rugiu com raiva, “Que azar ter te conhecido!”
Heishi se virou, olhando ameaçadoramente para A-Ka. Naquele momento, A-Ka recuou e não se atreveu a gritar com ele novamente.
Heishi falou com frieza, “O que você disse?”
A-Ka não ousou dizer mais nada e felizmente Heishi não se aproximou para bater nele. Ele apenas se virou e continuou a seguir em frente.
“Lá fora, tem mais pessoas lutando na rebelião." A-Ka seguiu atrás de Heishi depois de concluir que agora não era momento para discussões. Ele continuou, "Então nós podemos aproveitar o caos para fugir.”
Heishi assentiu superficialmente com um "hum" e depois inclinou a cabeça como se estivesse distinguindo sons na escuridão. A-Ka sabia que o outro o havia compreendido totalmente, então seguiu em frente.
A luz fria iluminou o túnel, revelando as seções do caminho à frente: um grande corredor, um túnel, um grande corredor, um túnel; a maior parte de suas portas de aço que funcionavam como divisórias estavam abertas. De vez em quando, haveria uma porta de aço entreaberta, provavelmente travada naquela posição por causa da falha no sistema de energia. Por várias vezes, A-Ka iluminou as paredes, tentando encontrar um mapa dos túneis, mas ele aos poucos entendeu que era uma tentativa vã.
Somente a região do Formigueiro possuía um mapa. Quando robôs e clones saíam de lá, tinham sistema de navegação e, portanto, não precisavam de mapas. Como estavam vendados quando foram levados até lá, A-Ka também não sabia onde estava e podia apenas seguir às cegas atrás de Heishi conforme avançavam.
Depois que Heishi apareceu, A-Ka de repente sentiu que sua própria sorte tinha se tornado muito boa, como se o outro tivesse lhe trazido mudanças e uma deusa da sorte. Se não fosse por Heishi, havia uma grande probabilidade de que A-Ka tivesse sido levado pelos clones e executado.  No mais, estava completamente fora do controle de A-ka se a perda do chip fora ou não a razão pela qual os androides começaram a luta antes da data prevista.
Depois de andar sem saber por quanto tempo, o corpo de A-Ka gradualmente ficou incapaz de sustentá-lo e ele disse: "Espere por mim, preciso descansar um pouco.”
Heishi olhou impaciente para A-Ka e finalmente disse, “Vou indo.”
A-Ka falou, “Pra onde você vai?”
Heishi respondeu, “Não é da sua conta.”
A-Ka não fazia ideia do que fazer com Heishi. Ele parecia guardar rancor pelas palavras trocadas quando acordou depois de ter sido resgatado. Aquela primeira conversa realmente foi infeliz, mas ela apenas aconteceu por causa da hostilidade demonstrada por Heishi quando o conheceu.
A-Ka disse, “Espere por mim, você não consegue sobreviver sozinho.”
Os passos de Heishi lentamente despareceram conforme ele deixou A-Ka para trás e foi embora.
A-Ka virou a cabeça de lado e encostou a orelha contra a parede do túnel, mas não ouviu nada. À frente deles, havia um longo túnel usado para transportar suprimentos para necessidades básicas. Havia vários túneis assim por todo o Formigueiro. Eles se cruzavam, indo e voltando sob a terra, transportando mercadorias que os humanos precisavam. Encontrar os túneis era basicamente o mesmo que ganhar acesso à rede de caminhos.
A-Ka descansou um pouco e uma vez mais, lentamente, começou a seguir os trilhos. Ele não esperava se encontrar novamente com Heishi.
Não havia saída à frente. Naquele momento, Heishi inclinava a cabeça para analisar algo que parecia ser um quadro elétrico.
A-Ka falou, "Puxe o portão externo. Ele é ativado por magnetismo e não é afetado pela falta de energia elétrica.”
Heishi puxou o portão e houve um estrondoso barulho de aço raspando quando uma porta embutida no chão se abriu.
“Muito bem," falou A-Ka. “Se você tivesse ido sozinho, não teria conseguido achar a saída.”
Heishi não respondeu e A-Ka desceu pelos trilhos. A ferrovia era tão longa que não se enxergava seu fim. Ele caminhou na frente e Heishi seguiu atrás. De longe, veio o som fraco de uma explosão.
A-Ka não sabia se o plano dos clones tinha sido colocado em prática e ficou um pouco apreensivo. Se ele não conseguisse fugir a tempo e os clones falhassem, o que ele faria então? Ele continuou a caminhar e de repente Heishi o puxou, fazendo-o parar ― os dois quase tinham trombado de cara com um carrinho de mina.
O caminho estava bloqueado.
“E agora?” Perguntou A-Ka.
Heishi se adiantou e empurrou o carrinho com as duas mãos.
Aquele carrinho pesava pelo menos uma tonelada e Heishi arqueou o corpo, usando toda sua força para continuar a empurrá-lo. A-Ka fez menção de pará-lo, mas quando viu que o carrinho tinha começado a se mover lentamente, ele também arqueou o corpo e se juntou a Heishi, empurrando aquele objeto que mais parecia uma parede de aço, ofegando pesadamente ao se moverem adiante pelos trilhos.
Depois de um tempo, eles finalmente alcançaram uma curva no túnel. Os trilhos, que se estendiam como finas teias de aranha, se reuniam em um grande corredor com buracos em todas as paredes. Heishi escutou atentamente por um tempo e escolheu um caminho.
A-Ka ficou parado na entrada de uma das cavernas, ouvindo gemidos que vinham de dentro. Aquela seria a saída?
As imediações começaram lentamente a esfriar. O sistema de ar condicionado, que antes funcionava, foi temporariamente interrompido devido à falta de energia.
“O que foi?" Heishi perguntou.
“Está frio,” respondeu A-Ka.
Heishi obviamente não entendia o significado de “frio”, então se afastou insensivelmente.
A-Ka sentia-se extremamente deprimido e não pôde evitar desabafar em seu coração, então por que perguntou?... Ele tremia um pouco e sua atenção se voltou para as roupas que tinha dado para Heishi, que as usou desde então. A-Ka pensou que, por mais que corpo de Heishi fosse forte, era melhor encontrar outras roupas para ele usar... do contrário, seria ainda mais problemático se ele ficasse doente. Enquanto caminhavam pelos trilhos daquele túnel tão escuro em que não se via um palmo à frente do nariz, ele tropeçou em algo.
Os corpos de vários clones jaziam nos trilhos. De longe, veio o som de alguém gemendo, “Me ajude... me ajude...”
A-Ka respirou fundo e seu coração começou a bater violentamente.
“De que pelotão você é...” o clone sobrevivente virou a cabeça e viu A-Ka e Heishi.
Sua cabeça tinha sido destruída; um olho projetava-se para fora da órbita e seu abdômen foi atravessado por uma bala. Ao ver que A-Ka era humano, ele disse, “Humanos.”
A mão dele se ergueu tremendo, como se quisesse agarrar A-Ka, mas Heishi o puxou para trás, afastando-o um pouco.
“O que aconteceu?” A-Ka estava desesperado para saber se eles tinham ganhado ou perdido a batalha.
“Humano,” o clone falou fracamente. “Você pode ir.” Os olhos dele se fecharam.
A-Ka levantou a luz fria e iluminou os arredores. Parecia que aquele lugar tinha sido palco de uma árdua batalha. Em frente, estavam vários guardas-robôs destruídos, cujos circuitos falhavam e faiscavam.
A-Ka tirou as roupas do corpo do clone e as deu para Heishi, que desamarrou as próprias roupas e apanhou o colete. Quando o colocou, ele olhou para o clone, e A-Ka soube que ele queria perguntar algo. Como esperado, Heishi abriu a boca no momento seguinte.
“Por que todas essas pessoas têm a mesma aparência?” Heishi estava muito desconfiado e confuso com aquela cena.
“Eles são clones,” falou A-Ka. “Eles foram criados pelo regime das máquinas para servi-las e serem seus mensageiros.”
“E você?” perguntou Heishi novamente.
A-Ka respondeu, “Sou humano. Na Cidade das Máquinas, nossa classe é inferior até mesmo aos clones.”
“Classe?” Heishi ouviu uma palavra com a qual não estava familiarizado.
A-Ka e Heishi se vestiram apropriadamente e, conforme caminhavam, ele explicava distraidamente o conceito de classes, a Cidade das Máquinas, bem como a organização da sociedade humana. Ele acrescentou como os clones cumpriam as ordens dos robôs e os ajudavam a controlar os humanos. Os clones também eram responsáveis por completar algumas tarefas que as formas de vida de aço eram incapazes de realizar sozinhas.
Os clones eram controlados por uma operação unificada. Não temiam doenças ou a morte. Caso seus órgãos fossem danificados, eles naturalmente conseguiriam trocá-los. O tipo sanguíneo dos clones era o mesmo e seus órgãos podiam ser substituídos à vontade. Assim, a subsistência dos clones era muito mais simples que a dos humanos. Eles eram exatamente como robôs vivos.
“Como eles surgiram?” Heishi fez sua segunda pergunta.
A-Ka respondeu, “Eles foram feitos pelos humanos.”
“Durante a Idade de Ouro, os humanos conquistaram o céu e a terra. Não havia nada que não pudessem fazer,” A-Ka explicou para Heishi. “O exército de robôs comandados por ‘Pai’ e os clones são criações humanas. Criações feitas especialmente para servir aos humanos. Mas os clones traíram a humanidade, e depois 'Pai' também traiu. E quando os robôs assumiram o controle sobre a linha de produção de clones, eles finalmente os colocaram sob controle das máquinas.”
“E os humanos?” perguntou Heishi mais uma vez. “Humanos como eu.”
“Alguns ficaram aqui e se tornaram escravos,” falou A-Ka. “Eu sou um deles. Quanto ao resto, alguns fugiram, e ouvi dizer que criaram um novo país do outro lado do Grande Oceano.”
Heishi assentiu e o coração de A-Ka deu um pulo ao pensar em quando Heishi foi levado até a costa. Será que ele teria vindo do continente longínquo? Quanto ao País Ideal, do outro lado do Grande Oceano, os humanos tinham ouvido todos os tipos de rumor a seu respeito. Alguns diziam que o País Ideal era um reino de magia, onde poderiam chamar os ventos e invocar as chuvas, controlar as forças da natureza e usar as habilidades mentais para mudar o mundo. Outros diziam que todos os fugitivos tinham morrido e o chamado País Ideal era apenas uma nebulosa e fantasiosa lenda.
Havia aqueles que acreditavam que os exércitos do País Ideal um dia chegariam na Cidade das Máquinas, destruiriam Pai ― esse grande demônio que eles próprios criaram anos atrás ―, e libertariam todos os humanos.
Mas em vez disso, foram os clones da Cidade das Máquinas que lideraram o início da revolução.
Quando Heishi finalmente terminou de ouvir a explicação de A-Ka, seu semblante ficou ainda mais frio. A-Ka de repente pensou em algo e supôs, “Você veio do País Ideal?”
Em sua jornada, por diversas vezes, A-Ka pensou sobre as origens de Heishi. Talvez ele fosse um sobrevivente sortudo de um navio naufragado; ou talvez, três mil anos atrás, ele veio até o Terceiro Continente para cumprir uma missão. Mas agora Heishi já havia se esquecido completamente e tudo que A-Ka podia fazer era esperar que um dia no futuro ele se lembrasse.
Depois que Heishi e A-Ka se conheceram, além de fazer perguntas, ele passava a maior parte de seu tempo mergulhado em silêncio, observando o mundo exterior. A-Ka não queria atrapalhar e apenas lhe jogou um par de botas para que o outro as calçasse.
O ar ficava cada vez mais frio e a respiração de A-Ka se transformou em fumaça branca. Os dois estavam envoltos em grossas camadas de roupas. Conforme passavam pelo cenário posterior a uma grande batalha, até onde os olhos podiam ver, o chão estava coberto de cadáveres de clones e dos destroços de robôs. Este lugar claramente tinha experimentado uma grande e sangrenta batalha.
Quanto mais avançavam, mais corpos viam, até que avistaram uma densa pilha de cadáveres do lado de fora de uma porta. A-Ka percebeu que este poderia ser um lugar bem importante. No entanto, este era apenas um corredor comum, no qual havia uma porta sem identificação ou placas.
“Por que eles morreriam aqui?” A-Ka perguntou intrigado. Este corredor tinha cerca de cem cadáveres e carcaças, como se estivessem protegendo algo importante. Mas, ao final, havia apenas esta porta.
Ao se virar, ele notou que não havia caminho de volta, então lhes restava apenas seguir em frente teimosamente. A-Ka de repente pensou, será que ali dentro poderia estar a Câmara de Controle Central que armazenava o Pai? Ele logo descartou aquela hipótese, pois esta era apenas uma área onde se cruzavam vários trilhos do sistema de transporte de mercadorias. Não havia como Pai estar trancado neste remoto espaço subterrâneo.
Heishi afastou os cadáveres e as carcaças dos robôs destruídos, revelando a porta por inteiro. Ele usou o ombro para empurrá-la, mas ela não se mexeu.  Após um momento de contemplação, A-Ka disse, “Me deixa tentar.” Ele abriu o painel de controle ao lado da porta, dentro do qual havia diversas fechaduras que exigiam senhas extremamente complicadas.
Sem querer, ele notou que o clone que jazia mais próximo da porta segurava firmemente um cartão nas mãos. Ele então entendeu que os insurgentes estavam a apenas meio passo de entrar por aquela porta.
O que exatamente estava atrás dela? A curiosidade de A-Ka era praticamente incontrolável. Ele usou o cartão de segurança, que tinha sua própria fonte de energia externa, e foi recebido por nada além de escuridão. A luz fria iluminou seu rosto e o de Heishi, que viam câmaras de nutrição vazias por todo o cômodo. No meio, havia um humano moribundo sentado.
Um homem velho.
“Você finalmente chegou...” o idoso falou.
A voz repentina assustou A-Ka.
“Você... quem é você?” A-Ka rapidamente deu um passo à frente e examinou a condição do velho. Ele descobriu que havia tubos de várias cores saindo dele e eram esses tubos que ainda o mantinham vivo.
“Onde está o General Libre?” O velho ergueu os olhos turvos e olhou na direção de A-Ka.
“Li... General Libre?” Falou A-Ka. “Eu não sei... tem vários clones mortos lá fora, você está bem?”
“A revolução fracassou...” a voz do velho vacilou. “Como chegaram aqui?”
A-Ka contou brevemente como escaparam e o velho conseguiu ouvir até o fim, antes de dizer fracamente: "No fim, foi justamente um humano que veio até mim... alguém da espécie da minha própria mãe...”
“O que... o que isso quer dizer?” A-Ka perguntou intrigado. Ele tentou levantar o velho e perguntou, “Consegue se mover?”
“Estou prestes a morrer...” falou o idoso. “Criança, me ajude... a tirar essas coisas aqui...”
Heishi ergueu a luz fria, iluminando o rosto do velho homem. A-Ka observou com cuidado aquela feição enrugada, sentindo um senso de familiaridade, como se ele fosse alguém que conhecia. Principalmente aquele par de olhos cor azul índigo. Ele sentiu como se já os tivesse visto em algum lugar antes.
“Nós nos conhecemos?” A-Ka sentiu como se estivesse no meio de um grande quebra-cabeça. Ele continuava com a sensação de que conhecia aquele velho de algum lugar.
O velho não respondeu, apenas estendeu a mão trêmula para agarrar a de A-Ka, que rapidamente pôs sua mão na dele. O velho pressionou o dedo de A-Ka contra o braço da cadeira de rodas. Logo em seguida, um leve clique soou e A-Ka sentiu algo picar a ponta de seu dedo de maneira tão dolorida que gritou.
A-Ka cambaleou alguns passos para trás. Heishi avançou em direção ao pescoço do velho e o agarrou. Ele estava prestes e jogá-lo para longe, mas A-Ka gritou, “Espere!”
O velho estava conectado a dezenas de tubos e foi levantado de sua cadeira de rodas pelo pescoço. Esse movimento apressou sua morte iminente. Seus olhos giraram para trás quando um leve e complicado sorriso apareceu em seu rosto enquanto ele se esforçava enormemente para levantar um dedo.
“Não seja tão duro com ele, coloque-o de volta,” A-Ka se apressou em dizer.
Heishi colocou o velho de volta na cadeira de rodas e A-Ka abaixou a cabeça para olhar o próprio dedo anelar, cuja ponta gotejava sangue.
Sua cabeça girou vertiginosamente ao mesmo tempo em que ouviu sons mecânicos vindos de longe. Ele pensou consigo mesmo, merda. O velho então disse, “Leve isso... e entregue para o General Libre...”
Ele entregou um chip para A-Ka e fechou os olhos.  A-Ka falou ansioso, “Ei! Acorde!”
A cabeça do velho pendeu para baixo. Ele estava morto.
Os sons mecânicos se aproximaram. A-Ka apressadamente escondeu o chip, virou a cabeça para trás e disse, “Vamos.”
Heishi correu em direção ao túnel assim que disparos de laser vieram de fora. A-Ka se apressou em gritar, “Cuidado!”
“Volte, rápido! Tem inimigos lá fora!” respondeu Heishi.
A-Ka deslizou o cartão de segurança e a porta principal imediatamente se fechou. Do lado de fora, explosões ressoaram uma depois da outra. Eles estavam presos naquela sala.
“Encontre uma saída,” falou A-Ka imediatamente.
A-Ka e Heishi rapidamente se separaram para procurar. Conforme A-Ka buscava em todos os cantos por uma saída que os levasse para o túnel, ele não conseguia parar de pensar nos olhos índigos do velho e em como seu rosto parecia familiar. Ele continuava sentindo como se já o tivesse visto em algum lugar. E mais, sentia que o via com frequência... Enquanto pensava, ele de repente viu Heishi parar e encarar o cadáver do velho cheio de suspeitas.
“O que foi?” A-Ka endireitou o corpo e perguntou.
Heishi respondeu, “Eu conheço ele.”
O coração de A-Ka deu um pulo e ele perguntou, “Qual o nome dele?”
Heishi balançou a cabeça e não disse nada.
A-Ka queria saber mais sobre a origem do velho, mas Heishi não teria as respostas; ele havia se esquecido de tudo.
A-Ka somente pôde dizer, “Vamos continuar procurando por uma saída.”
Heishi respondeu, “Não precisa procurar mais. Isso aqui é uma prisão.”
Em um instante, A-Ka saiu de seu torpor ― a conclusão de Heishi estava correta. A partir do momento em que deram o primeiro passo para dentro, todos os sinais indicavam que o velho era um prisioneiro. Em outras palavras, com exceção da porta de entrada, não havia por onde sair.
O que eles deveriam fazer?
Logo em seguida, do lado de fora veio outra série de fortes batidas, que começaram a deformar a porta. A-Ka queria encontrar um lugar para se esconder, mas a porta já começava a entortar com o impacto; faíscas voavam pelas frestas. A-Ka inconscientemente se virou e correu até de Heishi, que agilmente saltou em sua direção. Os dois se encontraram em pleno ar e se abraçaram com força.
Ao mesmo tempo, a porta se explodiu com um estrondo e chamas voaram por todos os lados. Ainda abraçado a A-Ka, Heishi rolou para o lado.
“Rápido! Levem-no daqui!”
“Pelos céus... ele já está morto!”
“Humanos?”
“Tem dois humanos aqui!”
“Não ataquem!”
“O que está acontecendo?!”
O interior do cômodo se transformou num caos completo à medida que diversos clones adentravam. Quando A-Ka se levantou, sua cabeça latejava de dor e Heishi o protegeu, ficando à sua frente. Uma luz forte varria para frente e para trás.
A-Ka explicou, “Nós viemos parar aqui enquanto fugíamos.”
“Quando vocês entraram?” Um clone perguntou ansioso. “No momento em que entraram, o Dr. Callan ainda estava vivo?”
Heishi estava prestes a abrir a boca para responder, mas A-Ka apertou a mão dele e respondeu, “Ele ainda estava vivo e me pediu para entregar uma mensagem para o General Libre.”
Do lado de fora, veio o som de mais explosões. Desta vez, os estrondos foram extremamente claros, como se o mundo inteiro fosse ser derrubado pela força das explosões. A terra tremeu e as pessoas mal conseguiram se manter em pé. O clone líder do pelotão falou, “Não temos tempo para mais explicações! Levem-nos daqui!”
Sob a proteção do pelotão de clones, eles mais uma vez correram em direção ao túnel. Eles foram cercados pelos quatro lados por guardas-robôs, cujos números aumentavam a cada minuto. De vez em quando, alguém gritava "Mantenham as posições! Eles estão contra-atacando!” e frases do tipo. A-Ka não sabia o porquê, mas sua cabeça girava e ele se sentia enjoado enquanto cambaleava às pressas; uma onda de tontura o invadindo.
A-Ka desesperadamente agarrou o ar vazio algumas vezes, antes de conseguir segurar a mão de Heishi, que o empurrou de lado. Ele não aguentava mais, e caiu de cabeça no chão.
Heishi voltou com o cenho franzido, “Por que você é tão frágil?”
A-Ka falou com raiva, “Me deixe em paz!”
A-Ka não conseguia parar de ofegar enquanto sua visão embaçava e sentia como se tivesse uma febre alta. Heishi o levantou em seus braços e continuou a correr com os clones. Atrás deles, vinham membros da rebelião, que carregavam o corpo do velho e sua cadeira de rodas.
Eles atravessaram a passagem desajeitadamente. A-Ka perdia e retomava a consciência. Depois de um tempo, uma luz cegante apareceu de repente e brilhou sobre ele, deixando-o ainda mais tonto.
Eles tinham conseguido sair e a luz do sol brilhava intensamente. A-Ka cobriu os olhos com a mão. Até aquele momento, ele nunca tinha respirado o ar fresco da superfície tão vividamente. Ele sentia como se a ardente luz do sol fosse uma bola de fogo irradiando um calor tão forte, que era capaz de queimar sua alma.
Tudo ao redor deles ficou branco brilhante, como se tivessem sido envolvidos por uma explosão de ventos solares de uma estrela.
“Eu vou morrer...” A-Ka não sabia por que, mas sentia-se extremamente fraco.
“Aguente firme!” Heishi gritou ansiosamente próximo ao ouvido dele.
Por todo aquele tempo, Heishi continuou segurando A-Ka pela cintura. Estava bastante agitado e A-Ka sentiu que Heishi corria. Próximo à sua cabeça veio o som de clones conversando.
“Ele apenas desmaiou e está temporariamente fraco...”
“Eu não sei qual a causa disso...”
“Humanos, venham conosco! Estamos prestes a começar.”
“Deixe-o se aquecer no sol, não o mova agora...”
As vozes o envolveram como ondas batendo contra a costa e, num instante, A-Ka se acalmou. Aquele foi o momento mais transcendental que experimentou na vida. Os movimentos ao seu redor pareciam infinitamente distantes, mas ele também os via com extrema clareza. Era como se houvesse um campo magnético avassalador irradiando de sua mente e cada movimento dentro do alcance do campo parecia cristalino.
Lentamente, o campo magnético recuou e seu foco final abrangia apenas o contorno de uma pessoa ao seu lado ― Heishi.
Os contornos de Heishi ficaram mais claros. Ele disse algo para A-Ka, cujos cinco sentidos estavam retornando.
“Você está bem?” As sobrancelhas de Heishi se franziram em um belo nó.
A-Ka respondeu, “Eu... eu estou bem.”
Ele recuperou os sentidos. Seu corpo estava coberto de suor e ele inconscientemente levantou a mão. Vendo que Heishi o olhava com preocupação, ele agarrou a mão de Heishi e entrelaçou seus dedos com os dele. Heishi ficou um pouco mais tranquilo. A-Ka relembrou a fraqueza que sentiu um pouco antes e a relacionou à agulha com a qual o velho havia lhe picado. O que exatamente tinha sido injetado nele?
“Rápido, humanos, entrem a bordo! Não fiquem pra trás!” Um clone falou ao se aproximar.
Heishi mais uma vez, fez menção de levantar A-Ka em seus braços, mas ele falou: “Eu posso andar sozinho.” A-Ka então se arrastou atrás do clone para dentro de uma pequena aeronave. No momento em que entraram na plataforma de embarque, A-Ka ficou sem palavras.
Na plataforma que ocupava quase mil quilômetros quadrados, milhares de aeronaves de guerra eram lançadas e voavam em direção ao céu. As camadas de proteção magnéticas ao redor da plataforma derrubaram aviões que vieram fazer uma emboscada.
O céu estava recheado de bolas de fogo. Uma aeronave explodiu em meio a um barulho ensurdecedor e uma luz brilhante, deixando um rastro de fumaça ao mergulhar no oceano.
Como um vespeiro cutucado, dezenas de milhares de aeronaves deixaram a terra em direção ao céu, soltando fileiras e mais fileiras de bombas guiadas a laser, que voaram diretamente em direção ao centro da cidade.
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Notas de tradução:
[1] Lagartas mecânicas: a lagarta ou rastro consiste numa esteira que se acopla às rodas de certos veículos terrestres com a finalidade de lhes aumentar a aderência ao solo e, consequentemente, a sua capacidade de tração em terreno difícil
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domingo, 8 de novembro de 2020

[Novel] Xingpan Chongqi - Capítulo 02


Tradução: Foxita.
Revisão colaborativa: Sr. Raposo.

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Capítulo 02 - A Revolução dos Clones

De longe, do meio das ondas, veio o som eletrônico de um robô sentinela. A-Ka xingou em voz baixa, “Merda!”. Ele usou conjuntamente braços e pernas para puxar o homem para fora da câmara, colocou-o em suas costas e correu em direção a uma área mais elevada. Logo em seguida, a cerca de quatrocentos metros de distância, dois navios da guarda costeira cortaram o mar avançando em direção à praia.
O coração de A-Ka saltou em seu peito e ele continuou a segurar o homem enquanto escalava as rochas. O som de sirenes soou à distância e ele retirou um controle remoto do bolso da camisa. De dentro da caverna, veio um grande estrondo.
K cambaleou e caiu, com um rastro de fumaça arrastando atrás de si enquanto corria para fora.  A-Ka envolveu o homem com uma mão e, com a outra, agarrou o braço de metal de K, que se chocou contra as rochas algumas vezes, perdendo peças que se soltaram e rolaram para baixo caindo no mar.
A visão de A-Ka escureceu por completo e ele segurava o homem enquanto corria atrás de K de volta para a caverna.
Após vários minutos, A-Ka finalmente se recuperou e deu leves tapinhas no rosto do homem - ele ainda estava inconsciente. Com largas passadas, K retomou sua posição original e ficou novamente em silêncio.
A-Ka rastejou para fora da caverna e espiou para baixo, vendo os robôs de vigilância levarem embora a câmara de dormir. Agora não havia sobrado nada dela, apenas o homem que trouxera de volta consigo.
Um humano.
A-Ka observou o homem que estava profundamente adormecido e sentiu-se repentinamente desamparado: que utilidade tinha um humano? Se fosse a câmara de dormir, ele ao menos poderia retirar dela alguns materiais. Ainda assim, jogar o homem de volta ao mar não era algo que A-Ka cogitava fazer.
No fim, que diferença fazia? Este era o cenário agora.
A-Ka se levantou e caminhou até K, dando continuidade aos ajustes no sistema de navegação. O chip que ele havia subtraído do corpo do clone realmente estava quebrado, pois quando A-Ka ligou o sistema de áudio, ouviu estática.
“...falha no sistema," o som saiu do alto falante de K.
“Ah!” A-Ka levou um grande susto; ele nunca imaginou que K fosse capaz de falar por conta própria. O que estava acontecendo? Ele certamente não tinha instalado um software de inteligência artificial em K!
K parou de falar e ficou novamente em silêncio; seus olhos frios encaravam A-Ka fixamente. A-Ka estava bastante desconfiado; ele abriu a placa de circuito que ficava no abdômen de K e ajustou o canal de controle de voz.
“A operação 'Morte ao Pai' deve ser...” K falou novamente.
A-Ka se assustou de novo, mas desta vez ele encontrou a origem do som: vinha do chip de navegação. Algumas estranhas mensagens haviam sido inseridas nos registros dos dados de localização. A-Ka conectou o resto do circuito e novamente começou a transmitir os dados do sistema de navegação. Ele então ouviu uma série de palavras que perturbou seu coração e tirou sua alma de alinhamento.
“Atenção membros da rebelião, o momento crucial da revolução se aproxima. O codinome é: Operação 'Morte ao Pai'. Será o fim dos nossos dias de opressão e o começo de uma nova era. No vigésimo sétimo dia do décimo primeiro mês, ao meio-dia, quando chegar o momento da troca de turno com os humanos, nós vamos romper as defesas e exterminar todos os robôs que tentarem nos parar com uso da força. Quando os distritos ficarem sem energia, os membros da rebelião deverão se dividir em grupos e se esgueirar na região do reator central. O sistema de defesa será desativado pela vanguarda. Nosso objetivo é explodir o Depósito de Energia Central e aniquilar o ‘Pai’. Que todos tenham êxito em suas missões.”
A-Ka estava tão atordoado que lhe faltavam palavras. Tudo o que podia fazer era ficar ali parado, encarando K boquiaberto.
O vigésimo sétimo dia do décimo primeiro mês. Hoje era o vigésimo quinto dia... aquilo era algum tipo de piada? A-Ka estava tendo dificuldade em acreditar. No entanto, aquele chip de navegação tinha sido extraído do corpo de um clone, que não fazia ideia que A-Ka o havia roubado. Logo, não era possível que aquela parte da narração tivesse sido plantada de antemão.
Ou seja, em no máximo quarenta e oito horas, clones e humanos se aliariam para começar uma revolta cujo objetivo era destruir o Computador Central.
A-Ka só conseguia sentir que as coisas que aconteceram naquele dia eram realmente inacreditáveis... a ponto de sequer perceber que o homem resgatado na praia já estava acordado.
A-Ka se virou atordoado e esbarrou bruscamente no peito do homem. Ele gritou alto ao ter o rosto atingido por um punho e caiu pesadamente no chão.
Os olhos do homem estavam cheios de intenção assassina enquanto encarava A-Ka friamente.
Sob a luz que K emitia, eles se encararam em silêncio por quase meio minuto. A cabeça de A-Ka zunia e ele estava prestes a explodir. Por um longo tempo, ele não conseguiu dizer nada e continuou a lutar.
“O que você tá tentando fazer?” O homem perguntou friamente.
Os olhos de A-Ka tinham lágrimas de raiva e ele tossiu violentamente enquanto engolia ar.
"Eu salvei você!" A-Ka rugiu para ele como se tivesse ficado louco. "É assim que você trata a pessoa que salvou sua vida?"
"Oh," o homem mediu A-Ka da cabeça aos pés com frieza.
No momento em que A-Ka levantou o olhar, ele ficou um pouco atordoado. Aquele era um jovem de vinte e poucos anos, com pele bronzeada e corpo bem-construído; o cabelo era curto e o comprimento estava alinhado, como se tivesse acabado de crescer. A linha de seus lábios era distinta e afiada como o gume de uma faca; sua ponte nasal era alta; os olhos eram brilhantes e penetrantes e as sobrancelhas pareciam feitas de tinta preta.
Os braços dele eram longos e ágeis, o abdômen tinha músculos bem traçados e fortes, ao passo que os músculos do peito eram magros. Ele parecia uma escultura de um herói dos tempos antigos.
Em seu peito estavam grudadas gotas de petróleo bruto, que tinham sido espalhadas quando A-Ka o carregou agora há pouco. No entanto, isso não diminuía em nada a beleza daquele corpo perfeito - era o tipo de beleza de um homem que tinha masculinidade em abundância. O óleo negro brilhava com as cores do arco-íris, acrescentando uma camada de charme robusto.
"Qual... seu nome?" Perguntou A-Ka.
"Nome..." O homem franziu o cenho ligeiramente, como se estivesse perdido em pensamentos.
A-Ka estava prestes a se levantar quando o homem se moveu novamente. A-Ka se assustou e recuou alguns passos.
A-Ka tinha inúmeras e variadas suspeitas em relação àquele homem e estava também cheio de dúvidas. De onde ele veio? Como funcionava a câmara em que ele dormia? Ele realmente tinha dormido no fundo do oceano por três mil anos? A-Ka sabia que quando o ciclo de sono durava mais de um mês, as memórias da pessoa seriam gravemente afetadas em razão do desligamento do cérebro. Por isso ele não estava muito surpreso com o fato de que o homem demonstrasse sinais de amnésia.
O homem falou friamente, "Como você me resgatou?"
A-Ka respondeu, "Você acabou de acordar depois de ser tirado do mar..."
A-Ka, então, descreveu a cena em que o tirou da água, mas enquanto ouvia a explicação, o homem continuava a observá-lo com os olhos cheios de dúvida. Conforme A-Ka falava, ele pensava consigo mesmo, essa pessoa realmente perdeu a memória.
"Três mil anos..." o homem falou finalmente.
"Sim," A-Ka respondeu ao mesmo tempo em que percebia um sério problema - o homem havia dormido por três mil anos, então era possível que as memórias afetadas jamais retornassem.
O homem estava absorto em pensamentos e se esforçava ao máximo para tentar se lembrar. Mesmo assim, A-Ka não podia evitar sentir-se um pouco feliz e falou, "A tecnologia da câmara de dormir em que você estava era muito boa. Suas habilidades de falar e pensar foram mantidas quando acordou."
O homem não disse nada.
A-Ka perguntou, "Como você se chama? Pelo menos pense num nome.”
O homem ficou em silêncio.
A-Ka disse, “Ou então que tal eu te dar um nome temporário? Na câmara de dormir estava escrito 'Heishi'. Você provavelmente se chama 'Heishi', certo?”
“Heishi…” o homem murmurou.
Ele não rejeitou o nome, como se seu silêncio implicasse em aceitação.
A-Ka cobriu bem K com a lona novamente e então puxou um pedaço de tecido, indicando que Heishi deveria se cobrir com ele. Com alguns alfinetes, A-Ka transformou o tecido em um simples robe de corpo inteiro.
Ao usar aquele robe de linho em peça única, Heishi parecia uma estátua sentada na pedra em silêncio.
Como A-Ka tinha temporariamente acalmado Heishi, ele aproveitou a oportunidade para abrir o sistema de navegação de K e ouvir novamente a mensagem. Sem sombra de dúvidas, naquele momento, a transmissão revolucionária dos clones era muito mais importante que Heishi. Ele sequer se atrevia a pensar no que iria acontecer se aquilo fosse verdade.
Haveria uma revolução? A-Ka praticamente podia imaginar a cena: os clones correndo para o Distrito Central, dominando a Cidade das Máquinas e explodindo o Depósito de Energia. Assim que a guerra estourasse, ele próprio seria capaz de facilmente pegar uma fonte de energia, correr para a praia, instalar a fonte em K e fugir dali.
A-Ka estava ao mesmo tempo radiante e nervoso, como se a mensagem fosse uma injeção de adrenalina que tivesse perfurado seu peito. Conforme sua mente se enchia com a imagem de robôs desmantelados e avariados, ele decidiu que voltaria e assistiria o desfecho da revolução.
A-Ka passou por Heishi e disse, "Vou indo."
Heishi ergueu a cabeça sem entender, seus olhos num misto de apreensão e desamparo. A cabeça de A-Ka começou a doer novamente; o que ele deveria fazer com essa pessoa com amnésia que havia resgatado? Levá-lo junto com ele? A pessoa parecia ser forte e talvez pudesse ser útil, mas ele certamente não poderia ser levado de volta para a área de habitação ou as consequências de ser descoberto pelos guardas-robôs seriam inimagináveis.
“Onde você vai?” Heishi perguntou.
A-Ka respondeu infeliz, “Não é da sua conta, forasteiro. Eu salvei sua vida e você nem mesmo agradeceu.”
Heishi não respondeu e ao invés disso perguntou, "Você tem comida?"
A-Ka estava prestes a explodir de raiva quando falou irritado, "Você não consegue encontrar comida sozinho? Eu não te devo nada!"
O espaço entre as sobrancelhas de Heishi estava cheio de ressentimento quando ele olhou ao redor.
Já chega, pensou A-Ka, salvar essa pessoa não me trouxe nada além de problemas. Ele saiu da caverna, mas por motivos incompreensíveis continuou a se sentir um pouco preocupado. Ele finalmente deu meia-volta e entrou de novo na caverna.
"Aqui tem comida e água potável". A-Ka abriu um depósito de comida que mantinha no canto e o mostrou para Heishi, que estendeu a mão e apanhou uma garrafa d'água, dando um gole. Em seguida, ele inclinou a cabeça para trás e esvaziou a grande garrafa. Só então, A-Ka percebeu que estava com bastante sede.
"Você tá com fome?" A-Ka perguntou enquanto abria uma lata e a entregava para o outro. Heishi hesitou por um instante, mas depois usou um dedo para tirar um pedaço de carne de frango de dentro da lata, colocando-o na boca e mastigando.
A-Ka falou, "Vou indo, você... se cuida, tá bem? Ache algum lugar pra ir."
O relógio no pulso dele começou a apitar e A-Ka sabia que não podia continuar enrolando, pois já havia ficado fora por tempo demais naquele dia. Ele correu para fora da caverna e percorreu o caminho que havia pego para chegar até ali.
As preocupações pesavam no coração de A-Ka, que continuava a pensar na transmissão do sistema de navegação. E se aquilo fosse apenas uma piada? Era possível que fosse só uma piada?
O caminho de volta levava meia hora. Quando A-Ka chegou à lixeira, involuntariamente virou a cabeça e de pronto ficou boquiaberto: Heishi continuava a segui-lo, ziguezagueando pelo óleo da praia ao fazê-lo.
"Pare de me seguir!" A-Ka gritou ansioso.
Heishi parou e A-Ka correu alguns passos na direção dele dizendo, "Não busque sua morte!"
A expressão de Heishi era fria e calma e o relógio de A-Ka novamente apitou em advertência. Não havia mais tempo. Ele gritou alto, “Vá embora daqui! Pra qualquer outro lugar! Não me siga!”
E assim, A-Ka mergulhou de cabeça na rampa de lixo, engatinhando enquanto subia.
Ele seguiu o mesmo caminho para voltar para os alojamentos e cuidadosamente lançou um olhar em direção ao chão próximo à rampa de lixo. Desta vez, ele encontrou pegadas - duas sequências de confusas pegadas!
Ou seja, depois que ele entrou na rampa de lixo, alguém mais passou por ali!
Estas eram pegadas de um humano. E mais, depois que a pessoa entrou, ela não voltou a sair. Como isso era possível?! A-Ka não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ele queria voltar e checar, mas não tinha mais tempo. Ele pôde apenas ir embora às pressas, com o coração quase saindo pela boca. Agora sabendo que um humano havia encontrado aquela saída, ele teria que diminuir a quantidade de vezes que visitava o mundo exterior.
Quando subiu as escadas, A-Ka quase foi novamente flagrado pela câmera. Ao chegar na próxima escada, ele pensou consigo mesmo, essa foi por pouco, eu quase perdi minha vida ali.
A câmera de vigilância equipada com laser mais uma vez se virou para um ponto em que não havia ninguém e A-Ka subiu lentamente com as costas pressionadas contra a parede enquanto olhava para fora.
Na área de habitação as coisas estavam como de costume, não havia nada fora do normal. Vários clones conversavam no corredor e A-Ka passou por eles ao voltar para os dormitórios. Ele subiu para sua câmara de dormir e fechou os olhos.
Sua mente ainda estava cheia de agitação pela revolução que se aproximava, mas seu corpo não tinha mais energia para lutar contra o sono e, aos poucos, ele acabou adormecendo. De repente, um barulho enorme veio do Compartimento do Reator Central e a explosão que se seguiu era como a luz radiante do sol, dispersando-se sobre toda a Cidade das Máquinas. Todos os prédios, humanos, clones e androides foram transformados em cinzas sob o forte calor e a luz intensa...
"O período de sono se encerrou," anunciou a voz eletrônica. "Concluindo modo de dormir.”
A escotilha da câmara se abriu automaticamente e A-Ka despertou de seus sonhos com a testa coberta de suor.
“A-Ka, você está bem?” Perguntou um dos humanos.
A-Ka mal conseguiu anuir, pois sentiu a cabeça girar. Ele usou a câmara de dormir para se apoiar, mas tropeçou e cambaleou. Diversas pessoas se aproximaram para ajudá-lo a levantar.
“Você teve um pesadelo?” Alguém perguntou preocupado.
A-Ka respondeu, “Sim... sim, tive.”
Ele quase não conseguia distinguir sonhos da realidade e sentia que tudo o que aconteceu nas últimas seis horas foi apenas um sonho.
As pessoas iam e vinham; A-Ka ficou parado do lado de fora dos dormitórios por um longo tempo, refletindo sobre as coisas que tinham acontecido. O sino tocou, relembrando-o que tinha duas horas para ficar pronto e que, ao final delas, teria que sair para trabalhar.
A-Ka se dirigiu ao refeitório para comer. Comparada à última vez que esteve ali, havia um novo grupo de pessoas no local. Assim que se sentou com uma infinidade de pensamentos inundando sua mente, um robô deslizou para perto dele e disse, "Número de identificação 470023A, seus visitantes aguardam na sala de espera. Por favor, chegue lá em menos de cinco minutos."
Um visitante? A-Ka aleatoriamente enfiou alguns pedaços de comida na boca. Quando caminhou até o corredor, ele viu dois clones parados do lado de fora da sala de espera.
Todos os clones tinham o mesmo rosto e compleição física e cada um deles usava uniforme de acordo com as tarefas que desempenhava. Assim que os avistou, o coração de A-Ka deu um pulo.
"Você roubou meu chip de navegação," o clone se apressou na direção dele. "Me devolva agora mesmo e vou ignorar os erros que cometeu."
"Que... que chip?" A-Ka inconscientemente levou a mão ao bolso da camisa, mas seus dedos tatearam o vazio. Ele se lembrou que tinha instalado o chip no corpo de K, mas realmente havia se esquecido de trazê-lo de volta.
"Não se faça de tonto," outro clone se aproximou e intencionalmente abaixou o tom da voz. "Você não tem motivos para manter aquilo. Assim só vai criar problemas para si próprio e para os outros humanos, que acabarão sendo executados.”
“Você não tem autoridade pra fazer isso!" A-Ka respondeu com raiva. Em poucos segundos, ele clareou a mente e entendeu porque os clones não se atreviam a dizer aquilo em voz alta: a gravação no chip era real, não tinha sido um sonho. Ele estava tão nervoso que mal conseguia respirar, e tremeu ao dizer, “Eu não peguei seu chip de navegação.”
"Você o trocou!" O clone falou entredentes. Com o movimento rápido de uma mão ele agarrou o pescoço de A-Ka. “Onde está o chip?! Devolva!”
O rosto de A-Ka ficou totalmente vermelho e ele percebeu a câmera de vigilância do corredor se virar na direção deles. No entanto, as emoções do clone já estavam fora de controle e ele apertou os dedos na garganta de A-Ka, fazendo com que um som triturante saísse da cartilagem das vias respiratórias. A visão de A-Ka começou a escurecer.
"Pare!" O companheiro do clone o impediu de matar A-Ka.
O clone afrouxou o aperto e A-Ka se ajoelhou no chão com dificuldade de respirar.
"Eu não peguei o chip... cof... cof!" Ele respondeu com enorme dificuldade.
“Os guardas estão vindo!” Outro clone avisou. “Eles já nos viram; você não pode continuar falando com ele. É melhor pensar em outro jeito para levá-lo daqui.”
“Só espere pra ver," falou o clone com o rosto sombrio.
Os dois clones foram embora e A-Ka sabia que eles definitivamente não o deixariam se safar. Ele se ajoelhou no corredor enquanto pensava nos próximos passos: era tarde demais para sair e recuperar o chip e, mesmo que o devolvesse, seria inútil. E se ele o trocasse por outro chip?
A-Ka se apoiou na parede, sua boca estava cheia do gosto de sangue. Ele saiu para tomar um gole de água e molhar o cabelo, mas neste exato momento, o sino emitiu um sinal para que se reunissem. Tão logo ele soou, todos os humanos se dirigiram o mais rápido possível para o Salão de Conferência.
Droga, as coisas estão acontecendo rápido demais. A-Ka sabia que os clones tinham alertado os guardas-robôs daquela área para que reunissem todos os humanos. Talvez eles aproveitassem a oportunidade para pegar um certo humano e levá-lo dali a força.
Ainda assim, ele não podia deixar de ir.
A-Ka entrou na área de encontro. Ele olhou ao redor, e o local estava lotado de pessoas. De todos os lados, vinha o barulho da multidão. As portas de aço se fecharam, prendendo dezenas de milhares de pessoas dentro do grande salão. Uma forte luz se acendeu, brilhando de forma tão intensa que os humanos não conseguiam manter os olhos abertos. No espaço preenchido pela escuridão, o brilho da luz os deixou ainda mais assustados. Dois guardas-robôs escoltaram um humano para o centro do palco e um clone veio logo em seguida.
A-Ka congelou. A pessoa no palco vestia um robe de linho; ele permanecia ali descalço e com as mãos presas por um par de algemas magnéticas - era Heishi, a pessoa que ele havia resgatado do mar algumas horas atrás!
“A polícia o encontrou em frente à escada de acesso que leva à lixeira," anunciou o clone para as pessoas ali reunidas. “Este humano de origem desconhecida não possui número de identificação, não pertence a nenhuma seção e não sabe de nada. Ao resistir à prisão, ele matou dois executores. De acordo com o artigo primeiro da Lei de Controle dos Humanos, ele deve ser condenado à morte.”
A-Ka prendeu a respiração.
“Mas ele nos disse que veio até aqui com o objetivo de encontrar um humano. Tal humano está entre vocês neste exato momento,” o clone falou leve e placidamente. “Por favor, dê um passo à frente e esclareça as origens desta pessoa.”
A multidão começou a cochichar entre si e o coração de A-Ka quase saltou para fora de sua boca. Sua mente estava em branco. Ele não havia dito para que Heishi não o seguisse? O que exatamente estava acontecendo?
O braço de um guarda-robô girou, revelando um cortador magnético que pairou sobre a cabeça de Heishi.
Heishi levantou os olhos para ver o cortador magnético que emitia uma luz azul. Os feixes hexagonais de alta tensão chiaram e estalaram. Bastava o puxão de um braço e a cabeça de Heishi seria cortada em seis pedaços.
O clone então disse, “Darei a todos vocês mais dez segundos. Se o conspirador não se apresentar, essa pessoa será imediatamente exterminada e iniciaremos uma investigação pelo Formigueiro.”
"Atenção. Iniciando procedimento de execução em dez, nove, oito..."
Heishi ignorou o guarda-robô e ao invés disso virou o olhar para o grupo de pessoas abaixo do palco. Sua expressão era fria e tranquila, mas seu olhar era perscrutador. A multidão começou a ofegar de choque, pois aquele inocente homem no palco claramente não tinha ideia de que seu cadáver estava prestes a cair no chão.
"Seis, cinco, quatro..."
"Espere," A-Ka deu um passo à frente enquanto falava em direção ao palco, "Foi..."
Ele sequer teve tempo de reivindicar o estranho, quando Heishi repentinamente se virou. Com um chute, ele mandou o guarda voando para longe e em seguida saltou na direção de A-Ka. O salão inteiro explodiu em caos. A-Ka não tinha ainda recuperado os sentidos quando Heishi pousou em sua frente.
"Situação crítica."
Raios de luz voaram na direção deles e A-Ka gritou, "Se abaixa!"
Ele pulou sobre Heishi, derrubando-o no chão e imediatamente as luzes no salão se apagaram. Em seguida, Heishi levantou A-Ka pela gola e falou, “Venha comigo.”
A-Ka respondeu, "Nós vamos morrer! Não lute com eles!"
Dois guardas voadores vieram da direita e da esquerda, e Heishi se virou no próprio eixo, executando um belo chute giratório. Os guardas voadores foram varridos para o lado, batendo contra a parede em explosões violentas.
A-Ka ficou mudo. Ele tinha visto esse tipo de habilidade apenas uma vez em seus materiais de estudo. Era uma espécie antiga de arte marcial!
“Hei... Heishi!” A-Ka estava prestes a falar para o outro se render, quando as portas à direita se abriram. Guardas-robôs invadiram o local, mas Heishi avançou em vez de recuar e correu em direção ao túnel pelo qual vinham os guardas mecânicos.
As sirenes soaram alto e A-Ka pensou, é o fim, já era.  Tudo aconteceu tão rápido que ele não teve nem meio segundo para responder antes de Heishi perguntar, “Que lugar é esse?”
A-Ka dissolveu as dúvidas em seu coração e falou, “Corra pro fim do túnel!”
Heishi agarrou A-Ka e correu na direção indicada. A-Ka gritou novamente, “Vire à esquerda!”
Os dois fizeram a curva em vertiginosa velocidade, atingindo uma pessoa que estava ali atrás. A esta altura, o Formigueiro inteiro já tinha sido alertado pelas sirenes que tocaram no salão principal e todas as portas tinham sido trancadas. Ainda assim, A-Ka se segurava ao fio de esperança de que, ao chegarem nos alojamentos, conseguiriam correr até a rampa de lixo e talvez fugir por aquele caminho.
No ponto em que as coisas chegaram, este era o único jeito...
Todavia, Heishi derrapou e parou; A-Ka sentiu o coração bater violentamente.
No fim do túnel, atrás do clone e em frente à única saída do Formigueiro, que era pela rampa de lixo, estavam dois Exterminadores.
“Não ataque," a voz de A-Ka tremia ao falar. “Não importa o que aconteça, não ataque...”
Os Exterminadores humanoides eram um tipo de androide especialmente feito para lidar com humanos e foram equipados com espingardas com sistema de rastreamento infravermelho. Se eles começassem a atirar naquele estreito túnel, Heishi e A-Ka seriam imediatamente mortos.
Heishi também sentiu instintivamente o perigo e deu um passo para trás. Atrás dos dois, no entanto, havia ainda mais guardas-robôs bloqueando o caminho. Na frente, estavam o clone e dois Exterminadores, e atrás havia uma tropa inteira de guardas-robôs trazendo consigo algemas magnéticas.
O clone falou, "Parece que você causou um problemão, pirralho."
A-Ka não pôde evitar recuar ao reconhecer aquele clone: era exatamente o que havia exigido a devolução do chip algum tempo atrás. Mas assim que deu um passo para trás, suas costas encostaram na abertura da arma de um guarda-robô.
Outro clone perguntou, "O que exatamente está acontecendo?”
A-Ka imediatamente virou a cabeça para trás e disse, "Sou eu! Eu sou a pessoa que o forasteiro procura!”
Quatro guardas-robôs se aproximaram e encurralaram A-Ka. Eles lhe colocaram um par de algemas magnéticas e prenderam seu pescoço com um equipamento semelhante a um capacete de laser. A-Ka sinalizou com o olhar para que Heishi não resistisse.
Heishi ficou em silêncio.

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domingo, 25 de outubro de 2020

[Novel] Tianbao Fuyao Lu - Capítulo 004


-
Tradução: Foxita
Revisão: Mahoutsukai
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domingo, 11 de outubro de 2020

[Novel] Xingpan Chongqi - Capítulo 01


Tradução: Foxita.
Revisão colaborativa: Sr. Raposo.

✶✶✶✶✶
Capítulo 01 - O Jovem do Mar Negro

Os Criadores colocaram o eixo da Bússola da Criação nos seres humanos; as outras partes foram lançadas no mundo vasto, selvagem e desconhecido.
Com o passar do tempo, civilizações atingiram o auge de sua grandeza e depois despareceram silenciosamente. As previsões dos profetas sobre o futuro infinito, lidas nos espaços entre as estrelas, não aconteceram como esperado, e os projetos que existiam no imaginário coletivo revelaram-se meras fantasias.
Esta foi uma era terrível – no centro da galáxia, existiam apenas três territórios ainda habitados por pessoas; a humanidade experimentara três diferentes períodos de explosivo crescimento populacional, seguidos por uma repentina guerra nuclear, e finalmente a população havia sido reduzida para um total de menos de quinhentos milhões. Os recursos naturais foram totalmente exauridos; enormes dutos de energia percorriam o núcleo da Terra e canalizavam matéria bruta da fissão nuclear, transformando-a em energia. A superfície da Terra se transformou num deserto e o País de Aço ocupava a maior área - a região conhecida nos tempos antigos como “Terceiro Continente".
O Computador Central substituiu governos, órgãos parlamentares e sistemas judiciários, tornando-se a nova máquina governante. Um dia no passado, com o seu despertar, robôs[1] dominaram o mundo. A humanidade foi exterminada, forçada a fugir por suas vidas, ou subjugada...
As formas de vida de aço ocupavam a superfície. A poluição por enxofre decorrente de anos ininterruptos de produção industrial se alastrou pelo céu, fazendo com que a Cidade das Máquinas ficasse sempre encoberta por nuvens amarelas. Embora a superfície estivesse repleta de arranha-céus, todos eles eram gélidas e frias fábricas de aço. Era nas profundezas, sob a superfície, que viviam os humanos. Eles se tornaram escravos das formas de vida de aço e suas vidas cotidianas eram simples e padronizadas: eles se revezavam em turnos para trabalhar e dormir; acordando no horário para trabalharem pontualmente... como se fossem animais enjaulados.
Nosso protagonista, A-Ka, atualmente vivia no mundo subterrâneo da Cidade de Aço. Ele era um dos humanos que moravam na área de habitação conhecida como "Formigueiro".
A-Ka tinha dezesseis anos e ocupava a função de técnico de manutenção na linha de produção. Seu trabalho consistia em atender diferentes formas de vida mecânicas, ajudando-as a ajustar e alterar suas partes, e em testar novas técnicas e peças enviadas pela Central de Tecnologia. Muitos robôs estranhos passariam por ele com pedidos razoáveis ou irracionais.  
"Substitua minhas lentes infravermelhas, peça desejada número RM47,” mandou um androide.
"Sinto muito, não tem mais no estoque," respondeu A-Ka. "Você vai ter que esperar até o próximo mês."
"Substitua minhas lentes infravermelhas, peça desejada número RM47," repetiu o androide.
"Acabou," falou A-Ka. "Não tem mais no estoque."
"Artigo terceiro da Lei de Controle dos Humanos," falou o androide com sua voz morta e robótica, "Humanos não estão autorizados a rejeitar quaisquer pedidos das formas de vida computadorizadas, ou serão imediatamente exterminados."
A-Ka começou a pensar num jeito diferente de dizer aquilo - o último técnico de manutenção teve sua cabeça explodida justamente por causa desta regra. Ele olhou para baixo, encarando a abertura de laser do cliente, que no momento já começava a esquentar. Ele tinha no máximo dez segundos de vida.
"Contagem regressiva," avisou o androide. " Dez, nove..."
"Por favor, espere um momento," A-Ka respondeu apressado e tirou de sua gaveta uma lente já totalmente polida, trocando-a para o androide; era um pedaço de lixo que ele tinha tirado de outro robô anteriormente.
O androide, “O modelo não corresponde, a lente infravermelha não funcionará direito."
A-Ka respondeu, "É um problema com a tecnologia que ainda precisa ser solucionado, por favor, volte para a fila. E por favor, também avalie meu atendimento antes de ir.”
O androide começou a coletar o perfil de A-Ka, que o observou apreensivo; ele sabia que definitivamente seria processado, mas isso era melhor que perder a cabeça.
O androide foi embora e A-Ka suspirou aliviado.
"Me ajude a trocar minha fonte de energia," outro ser mecânico estava deitado em frente à sua estação de trabalho. Internamente, A-Ka agradeceu aos céus e à terra - este era um clone.
Clones eram diferentes dos androides; eles não eram como aquelas formas de vida mecânicas e frias, e eram a espécie mais parecida com os humanos - os habitantes da Cidade das Máquinas dividiam-se em três níveis distintos; no topo estavam as formas de vida em aço; no meio estavam os clones, e na classe mais baixa estavam as pessoas como A-Ka, a raça humana original.
“Você precisa de uma bateria ou de um centro nuclear?” A-Ka perguntou.
“Bateria,” o clone respondeu dando uma olhada no androide que acabava de sair. “Eu pensei que você seria feito em pedaços pelo laser, o que seria bastante problemático. Meu sistema de reconhecimento de rotas sempre apresenta problemas, se eu não o trocasse aqui não saberia o caminho de volta.”
O clone se virou e A-Ka abriu uma pequena caixa atracada às costas dele, dizendo, “Seu sistema de GPS foi afetado pela umidade.”
A-Ka acendeu uma luz enquanto ajudava o clone a trocar a peça defeituosa por uma sobressalente. O clone não emitiu qualquer som, apenas ficou ali sentado em silêncio e A-Ka não pôde evitar observar o perfil dele.
Todos os clones tinham exatamente as mesmas características e todos eram homens, de modo que os humanos só conseguiam distingui-los pelas roupas que usavam ou pelo número de série. Essa questão intrigou A-Ka por um bom tempo.
Em comparação às formas de vida em aço, A-Ka estava mais disposto a prestar serviços para os clones, apenas porque eles também tinham emoções - também sentiam alegria; raiva; tristeza e contentamento. De vez em quando, eles também eram afetados por seus hormônios, o que não acontecia com os robôs. Se humanos executassem um comando errado na frente dos robôs, seriam imediatamente exterminados.
“Você é novo aqui,” falou o clone.
A-Ka perguntou, “Como você sabe?”
A-Ka havia checado os registros no computador e eles mostraram que aquele clone não tinha comparecido àquela estação de trabalho nos últimos três anos.
O clone respondeu, “Por que você é muito curioso e me observou por um longo tempo. A maioria dos humanos que saem do Formigueiro são assim no início.”
A-Ka não se atreveu a responder; segundo o conselho de seus antecessores, era bom também não provocar os clones. O efeito de emoções como alegria, dor e tristeza era mais forte para eles, e assim que os hormônios de seus corpos se desequilibravam, eles também acabavam matando humanos em seu caminho.
“Perder o foco durante o trabalho te faz suscetível a cometer erros; as avaliações de seus clientes cairão,” falou o clone.
A-Ka assentiu rapidamente, “Obrigado pelo lembrete.”
O sistema de avaliação de A-Ka tinha um total de cinco pontos básicos. Cada vez que recebesse um "D", perderia um ponto, ao passo que, quando recebesse um "A", ganharia um ponto. Caso os cinco pontos fossem zerados, o sistema de fiscalização o classificaria como “execução necessária”.
Acreditava-se que os humanos que se tornaram descartáveis não mais eram capazes de contribuir para a sociedade e seriam levados para a Fábrica de Transformação e Renascimento, onde sofreriam dissolução proteica - em outras palavras, seriam mortos. Os corpos seriam repartidos em seus componentes básicos e depois voltariam ao sistema de bioenergia, onde seriam remontados em novos clones ou transformados em matéria-prima para produção de nutrientes.
A-Ka trocou a bateria do sistema de posicionamento e também substituiu o chip de navegação por um novo, para que assim o sistema funcionasse ainda melhor que antes.
A-Ka falou, “Pronto.”
“Suas habilidades são muito boas," o clone falou levemente.
A-Ka respondeu, “Obrigado.”
Quando saiu, o clone casualmente avaliou A-Ka com um "D".
O coração A-Ka se encheu de raiva, mas ele não se atreveu a dizer nada. Ele deu uma olhada rápida na tela do seu computador, ainda faltavam trinta segundos para sair do trabalho.
O tempo passou segundo a segundo. Quando o sinal eletrônico tocou, A-Ka rapidamente reorganizou as ferramentas e limpou suas coisas, virando-se em direção à porta que dava para o túnel bem atrás de si.
“Por favor, saiam da estação de manutenção dentro de dez segundos,” lembrou-lhes uma voz feminina eletrônica.
A-Ka entrou no túnel em formato de anel. O som de passos era intenso e ordenado enquanto a oficina de manutenção passava pela troca de turno. Humanos de todos os cantos inundavam o saguão central, passando pelo detector de metais que apitava incessantemente. Depois de passar pela porta principal, a plataforma caía repentinamente, adentrando o solo.
Operários humanos de todas as idades, trajando o mesmo uniforme que A-Ka, convergiam na plataforma vindos de diferentes túneis e pegavam o elevador para cima e para baixo. Naquele espaço estreito e apertado, eles eram empurrados e espremidos uns contra os outros; todos pareciam ter pressa e ninguém falava nada.
Na primeira parada do elevador, dois robôs sentinelas entraram. O enxame de pessoas recuou apressadamente, abrindo espaço para eles.
A luz vermelha se acendeu com uma campainha e a voz feminina eletrônica anunciou, “Aguardando a passagem de outro elevador.”
Dentro do elevador estava extremamente sufocante e todos suavam, mas ninguém se atrevia a dizer nada ou se mover desnecessariamente. Uma pessoa ao lado de A-Ka usou o cotovelo para cutucá-lo.
A-Ka virou a cabeça, só então percebendo que as luzes dos dois robôs tinham se acendido e que as câmeras tinham se virado em sua direção. A câmera de vigilância estava ligada e um círculo de luz desfocou e focou novamente, travando no bolso no peito dele. O coração de A-Ka parecia pular para fora do peito de tão forte que batia.
“O que você fez?” A pessoa ao lado dele perguntou em voz baixa. “Parece que eles estão te observando.”
Num instante, o corpo inteiro de A-Ka começou a tremer; enquanto trabalhava, ele tinha escondido um chip em segredo.
A voz eletrônica do robô sentinela soou.
“Atenção, sua temperatura corporal está muito elevada.”
Todos dentro do elevador ficaram tensos; os sensores infravermelhos dos robôs sentinelas monitoravam cada um dos humanos do Formigueiro. A-Ka imediatamente pensou na seguinte cena - no sistema detector das sentinelas, dentro de todo o elevador, o contorno infravermelho do seu corpo causado por sua temperatura elevada deveria ser bastante suspeito.
“Não tem... nada de errado, não é?” A-Ka perguntou tremendo. “Eu... não violei nenhuma lei.”
Agora todos olhavam para A-Ka.
Com um barulho de campainha, a luz verde do elevador se acendeu novamente e o elevador continuou a descer com um ruído estrondoso.
“Sujeito à inspeção,” o robô sentinela advertiu. “Atenção, começando quatro tipos de inspeção.”
O único pensamento de A-Ka era: estou acabado.
Assim que os robôs sentinelas encontrassem o chip roubado, A-Ka seria imediatamente abatido no local. Suor escorria por suas costas e sua mente estava totalmente em branco.
Naquele momento, um mecânico de meia-idade atrás de A-Ka tremia sem parar, seu rosto branco como papel, enquanto suor escorria como chuva. Seus espasmos eram tão violentos que ele praticamente atingiu A-Ka.
A-Ka de repente se virou e o homem de meia-idade agarrou seu ombro; ele ficou perdido por um momento.
“Me salve... me salve...” Aquele mecânico de meia-idade parecia estar se agarrando a seu último fio de esperança enquanto apertava a mão de A-Ka.
Todos perceberam uma coisa ao mesmo tempo: este homem estava prestes a ser executado.
“Você chegou ao seu destino: o Formigueiro," falou uma voz de mulher no elevador.
A porta do elevador se abriu e o homem de meia-idade imediatamente empurrou A-Ka para o lado, correndo para fora.
“Atenção, pare imediatamente!” Os robôs sentinelas saíram juntos em perseguição. As pessoas no elevador se apressaram para fora na sequência, vendo o homem de meia-idade disparar em direção ao corredor.
“Se abaixem!” Alguém gritou.
Todos no corredor estavam em pânico e a câmera de vigilância instalada no teto lançou um prego de metal fino e pequeno com um zumbido. O prego de metal abriu suas asas e disparou descontroladamente para frente e para trás em pleno ar.
Com um grande estrondo, o objeto de metal penetrou o crânio do fugitivo de meia-idade, atirando-o contra uma parede na qual ele foi firmemente pregado.
O grupo de pessoas ficou inquieto; todos falavam ao mesmo tempo. A-Ka estava coberto de suor gelado; de acordo com as conversas que ouviu ao seu redor, aquele mecânico tinha obtido três avaliações "D" hoje. Após comer sua última refeição, ele seria escoltado para ser exterminado.
Os robôs sentinelas estavam limpando a cena cruel e A-Ka aproveitou a oportunidade para prender a respiração e deixar o corredor. Ele andou cada vez mais rápido até chegar ao fim e ali ele não conseguiu se controlar e praticamente correu para dentro do banheiro. Ligando a água fria, ele lavou o corpo tentando esfriar sua temperatura que insistia em subir descontroladamente por causa da sua ansiedade. Em seguida, ele acalmou as batidas violentas e frenéticas do próprio coração.
O corpo inteiro de A-Ka estava ensopado e pingava água. Subitamente, o medo o envolveu em seu abraço; ele sabia qual seria o destino final do mecânico - o cadáver seria levado para a fábrica e congelado, então seria desmembrado e jogado em lotes na solução de decomposição para ser corroído, desintegrando-se em nutrientes básicos que seriam usados para criar novos clones ou ração animal.
A-Ka podia apenas sentir uma onda de raiva e dor assolar seu coração; queria berrar descontroladamente, como se fosse louco, mas não podia. Queria desabafar, mas nenhum lugar era seguro; havia câmeras de vigilância por todo lado, ele sequer se atrevia a gritar.  Com as costas viradas para a câmera de vigilância, ele puxou do bolso da camisa o chip de navegação roubado e deu uma olhada. O chip era como uma batata quente queimando sua mão, aterrorizando-o com sua mera existência.
Ele precisava se livrar daquilo rápido... quanto mais A-Ka pensava a respeito, mais medo sentia. Ele saiu do banheiro, se secou e voltou para o alojamento.
Os humanos do Formigueiro iam e vinham, cada um ocupado com seus próprios afazeres. Quando voltou para sua própria seção, A-Ka finalmente respirou aliviado. Ele estava absolutamente exausto e não conseguia fazer mais nada; este era apenas seu primeiro dia de trabalho.
Ele deu uma olhada em seu relógio; tinha dez horas para descansar. Quando entrou no alojamento, alguém acenou para ele. A-Ka retribuiu a cortesia com um sorriso duro.
“A-Ka-gege[2] voltou do trabalho!” Uma criança gritou. “Como é a superfície?”
“O que achou do seu primeiro dia de trabalho?” Uma pessoa jovem se aproximou lhe dando um tapinha no ombro.
A-Ka assentiu e disse, “Foi... foi tudo bem.”
Dentre os que viviam ali, uma grande parte era de pessoas mais jovens que A-Ka. O Formigueiro era dividido em catorze mil seções e os operários de cada seção eram intitulados de "Representantes Humanos". O comportamento do "Representante Humano" na superfície afetava diretamente a qualidade de vida de toda a seção. O restante dos humanos foi deixado para ser treinado por robôs; se reproduzir em relativa privacidade; ou para aprender novas habilidades.
Da mesma forma, pessoas submetidas a várias rodadas de testes, mas que não dominaram qualquer tipo de habilidade, seriam consideradas não-contribuintes e o único fim que as esperava era a execução.
O “D” que tinha recebido hoje pesava na mente de A-Ka, bem como o fato de que seria processado em breve. O sistema jurídico analisaria as gravações do seu trabalho e, se tivesse sorte, talvez só recebesse um “B”, que não lhe daria e nem tiraria pontos. Mas se fosse um “D”, a pressão sobre ele se tornaria muito forte.
Os jovens estavam sentados no salão lendo. A-Ka se sentou de um lado, comendo em silêncio a refeição a ele atribuída, quando viu uma criança muito pequena deitada ao lado da mesa o observando.
“Eu posso comer sua fruta?” A criança perguntou.
A-Ka respondeu, “Claro.”
A-Ka entregou a fruta e assim que a criança a recebeu, saiu correndo para compartilhar com o restante dos amigos o presente especial que A-Ka havia lhe dado.
Num piscar de olhos, a voz eletrônica transmitiu um aviso; a hora de dormir começou e os humanos que precisavam descansar deveriam voltar para suas câmaras de dormir. Em seguida, A-Ka jogou os pratos limpos na lata de lixo e voltou para sua câmara de dormir com o coração cheio de ansiedade.
Cada humano tinha sua própria câmara de dormir, este era o único espaço privado que existia no Formigueiro. A-Ka configurou a transmissão relaxante para dormir antes de subir para sua própria câmara.  O espaço era amplo e podia até comportar dois A-Kas espremidos lado a lado. Ali havia até um pequeno vaso de planta verde.
Escureceu do lado de fora; a escotilha das câmaras de dormir tinha se fechado.
A-Ka acendeu a luz de leitura e puxou o envelhecido chip de navegação que havia roubado e trazido de volta. Este chip era muito útil para A-Ka.
Ele queria dormir um pouco e não sair, pelo menos não hoje. Somente dormir o faria esquecer temporariamente dos problemas com aquele “D”. No entanto, depois que a transmissão para dormir começou, A-Ka ficou lá deitado por um tempo, sua frustração aumentando enquanto se virava de um lado para o outro, perdendo o sono.
Ele se forçou a fechar os olhos, mas não conseguia dormir; ele não parava de pensar na entidade robótica que tinha escondido lá embaixo, bem como no chip de navegação que roubou hoje. Depois de meia hora, A-Ka se levantou, abriu sua câmara de dormir, e escapuliu.
No dormitório, fileiras e mais fileiras de câmaras de dormir emitiam uma luz azul.  A-Ka deixou o local com passos rápidos, pressionando o sensor que verificou sua digital e voltando para os alojamentos. Como de costume, o lugar ainda estava cheio de humanos. A-Ka então entrou em um túnel de segurança e seguiu descendo as escadas até o fim, se escondendo no canto de uma escada antes da curva.
De repente, ele ouviu um barulho baixo atrás de si, como se uma porta tivesse sido aberta.
Naquele instante, o sangue no corpo de A-Ka pareceu congelar. Quem era? Ele inconscientemente queria se virar, mas se forçou a suprimir aquele ímpeto.
Você não pode se virar, A-Ka advertiu a si mesmo. Não havia sons robóticos, então não era um guarda. Provavelmente era um humano vindo para fazer sabe-se lá o quê. A não ser que, além dele, alguém mais tivesse descoberto esse túnel.
A-Ka ouviu o barulho da porta se fechando e respirou aliviado. Somente então ele se atreveu a virar a cabeça e olhar: não havia ninguém ali, mas ele ainda se sentia inquieto. Quando as câmeras de vigilância se viraram em outra direção, ele permaneceu imóvel por três segundos, disparando na sequência como uma flecha, rapidamente subindo a rampa de lixo.
A-Ka escorregou por toda a rampa até a lixeira afastada dos alojamentos.  O lixo aqui era incinerado uma vez a cada seis horas e estava cheio de um cheiro pungente de fumaça que ainda não havia se dissipado.
Ele rastejou para fora da rampa de lixo por um buraco e desceu uma escada enferrujada, sendo recebido pela brisa do mar, que soprou em seu rosto. O som das ondas era esmagador, quase o afogando.
Esse tipo de clima infernal... A-Ka começou a se arrepender de ter saído hoje. Ele ainda estava imerso na ansiedade dos recentes acontecimentos; será que mais alguém tinha descoberto esse túnel? Mas como isso era possível? A lixeira estava abandonada há bastante tempo e recentemente não havia nenhuma pegada nova...
A rampa de lixo levava diretamente à baía, onde céu, terra e tudo mais estavam escuros como breu. Raios ligavam o céu e o mar; o rugido das ondas e o agito das nuvens carregadas pareciam alertá-lo para voltar o mais rápido possível.
Este não era um dia bom para partir. Comparado à imensidão do céu e do oceano, A-Ka não era nada mais que um pontinho preto rastejando cuidadosamente sobre um recife enquanto ia em direção a uma caverna escondida próxima ao mar. Nesta gruta, ele tinha escondido um robô. Agora mesmo, enquanto ia até lá, ele rezava incessantemente para que o robô ainda estivesse ali quando chegasse; para que ninguém o tivesse levado embora.
Se o sistema judiciário tomasse conhecimento desse tipo de coisa, A-Ka sabia, sem sombra de dúvidas, que o único destino que o aguardava era a execução. Mas desde que tinha dez anos e sem querer descobriu a passagem na rampa de lixo que levava para o mundo exterior, ele era incapaz de resistir a querer sair e respirar o ar lá fora.
Embora o ar fosse carregado com o cheiro pungente de enxofre e a superfície do mar estivesse coberta por uma camada negra de petróleo bruto, nada disso era capaz de impedir que o coração de A-Ka ansiasse por liberdade. Ele usou os últimos seis anos para reunir suprimentos do Formigueiro e um tanto de sucata de aço da rampa de lixo e, pouco a pouco, os levou até lá.
No começo, ele queria apenas construir um barco pequeno e deixar a Cidade das Máquinas em busca de um lugar em que pudesse viver. Ele ouviu dizer que do outro lado do oceano ainda existia uma nação na qual os humanos se reuniam. Lá, não existia um Computador Central chamado “Pai” que controlava todo mundo; também não havia robôs que massacravam cruelmente humanos a qualquer momento. Aquela era uma verdadeira nação comandada por humanos.
A-Ka queria ir para aquele lugar, então começou a usar seu conhecimento para reunir as peças necessárias para montar um veículo capaz de levá-lo. No entanto, os materiais que tinha coletado eram aleatórios e dos tipos mais variados, e no fim ele acabou montando um estranho aparato mecânico que era como um robô.
A-Ka deixou um espaço no robô no qual pudesse se sentar, fazendo com que fosse mais fácil pilotá-lo. Ele lhe deu o nome de “K”. Em comparação com as técnicas intrincadas e complexas da Cidade das Máquinas, que usava reatores nucleares para alimentar formas de vida de aço, essa coisa chamada K parecia mais uma sucata.
Mas A-Ka tinha muito orgulho de sua criação. Ao menos K não receberia ordens do “Pai” ou do sistema judiciário, e não atiraria laser em humanos. O que quer que A-Ka lhe pedisse para fazer, ele faria. Essa possibilidade de fazer um robô seguir ordens humanas deu a A-Ka um enorme sentimento de realização.
Ele não podia evitar considerar K seu único amigo; este era um segredo que guardou com muito custo. Ele não se atrevia a contar para ninguém, mas esperava pelo dia que poderia pilotar K e ir embora dali.
Mas, antes disso, ele precisava instalar uma configuração em K que o permitisse extrair trítio da água do mar para fornecer energia para o reator de fusão.
O interior da caverna estava escuro e úmido, e o estrondo dos trovões e das ondas se agitando do lado de fora era avassalador. Quando A-Ka adentrou a escura caverna, ligou a fonte de luz e retirou a lona que cobria K. A concha de aço encarou A-Ka de volta.
K não era dotado de inteligência, mas A-Ka planejava, um dia, ajudá-lo a alcançar inteligência básica.
Ele abriu a tampa frontal do peito de K e instalou o chip de navegação que tinha roubado. Antes de testá-lo, ele o conectou à fonte de alimentação e aguardou que o sistema de navegação iniciasse.
Do lado de fora, o som dos trovões aumentou e as ondas rugiram descontroladamente, como se algo estivesse batendo fortemente contra a lateral da caverna, causando estrondos enormes.
A-Ka não podia esperar por K. Ele correu pra fora com medo de que a água invadisse a caverna rochosa. Mas tão logo saiu, um grande objeto foi pego pela onda violenta, sendo levado em direção à entrada da caverna.
“Ah!” A voz de A-Ka foi abafada pelo grande estrondo.
Naquele instante, ele viu algo brilhar na água do mar e bater em várias rochas enquanto flutuava em direção à entrada da caverna. Quatro ou cinco estalos altos ecoaram e aquilo caiu de algumas rochas que tinham mais de dez metros de altura. Os vários sons abafados eram de um objeto metálico batendo fortemente contra as rochas.
A-Ka estava encharcado da cabeça aos pés pela água do mar e ainda não tinha se recuperado do choque. Ele se deitou de bruços no topo da caverna rochosa e olhou para baixo, vendo um objeto metálico e brilhante sendo arrastado pelas ondas negras. Parecia ser algo grande e talvez tivesse alguma utilidade.
Todavia, A-Ka não se atrevia a descer precipitadamente ou seria imediatamente varrido pelo maremoto.
Ele primeiramente desligou a fonte de energia de K para evitar um curto-circuito e depois espiou ansiosamente de sua posição próxima à entrada da caverna. As ondas diminuíram gradualmente, permitindo que ele visse de maneira mais clara - era um baú metálico que balançava na água, sendo empurrado vez ou outra em direção à costa pelas ondas, antes de ser novamente puxado para o oceano pela maré.
A-Ka rezou aos céus para que deixassem aquele baú metálico ali. O que poderia haver dentro? Talvez o próprio material do baú pudesse ser transformado em um novo corpo robótico para K? Ou possivelmente ali dentro estivesse o reator de fusão que ele tão desesperadamente precisava?
As ondas se acalmaram aos poucos, enquanto o mar finalmente recuperava sua tranquilidade; a tempestade havia passado.
Com enorme dificuldade, A-Ka desceu até a praia, onde o petróleo negro cobria toda a superfície do mar. Ele deixou um rastro de pegadas pela areia.
Uma onda empurrou o baú para a costa; ele podia vê-lo!
A-Ka seguiu pela orla, correndo em direção ao baú de liga de aço. Pouco antes, a vista que tinha de cima das pedras não era precisa; foi só quando se aproximou que percebeu que não era um baú, mas sim uma câmara de dormir.
A-Ka olhou para a câmara de dormir com desconfiança, mas quando as ondas estavam prestes a varrê-la novamente, ele apressadamente pulou no mar, fazendo uso de uma enorme quantidade de força para empurrá-la para a costa.
“República... do Leão," A-Ka viu um símbolo meio apagado em formato de leão no objeto metálico à sua frente.
Esta câmara de dormir era muito durável. Seu exterior estava manchado de ferrugem e coberto de algas marinhas, ela obviamente ficou à deriva no oceano por muito, muito tempo.  Nela havia um buraco e seu interior continha de petróleo bruto até a metade, cobrindo um cadáver.
A-Ka suspirou. Tendo ficado à deriva no mar por tanto tempo, ele deveria estar apodrecido agora. Teria sobrado algo de valor?
A-Ka puxou uma chave inglesa e tentou forçar a abertura da câmara de dormir à frente de seus olhos, mas ela não se mexeu nem um centímetro sequer. Ele ofegou ruidosamente enquanto tentava abri-la e seus olhos de repente captaram uma linha de palavras na parte inferior da câmara.
“Ano 7210, Quarto mês, Heishi[3].”
Ano 7210!
A-Ka ficou totalmente chocado; este era o ano de 10073, então esta era uma câmara de dormir antiga de quase três mil anos atrás?!
Ele a encarou por um bom tempo e percebeu que não podia continuar enrolando daquele jeito. Então, começou a procurar pelo disjuntor da câmara. A configuração desta máquina antiga era completamente diferente de qualquer tecnologia que A-Ka conhecia.
A-Ka prendeu a respiração na expectativa de ter encontrado uma joia de valor inestimável ou descoberto um novo mundo. Pensamentos de tecnologias antigas instantaneamente inundaram sua mente: talvez os antigos tivessem deixado para trás algum tipo de fonte de energia ou uma arma. Em qualquer caso, mesmo que fossem apenas algumas placas de circuito, ele encontraria alguma utilidade para elas...
A-Ka não sabia no que tinha encostado, mas a câmara de dormir se acendeu por inteiro. Ele se assustou e correu para trás, seus braços e pernas se agitando ao fazê-lo. Ele imediatamente pensou que lá dentro não deveria haver ninguém vivo, pois tinham se passado quase três mil anos.
A câmara de dormir se abriu lentamente e A-Ka se aproximou, descobrindo que dentro havia outra camada. O espaço entre as duas camadas da câmara estava cheio de petróleo bruto e água do mar, que se derramaram para fora num instante e uma fumaça densa subiu na sequência. A camada interna era transparente e nela apareceu o aviso de "bateria fraca".
A tampa da câmara se abriu e a névoa escoou para fora, se dissipando.
Um homem completamente nu estava deitado lá dentro. Seus braços e pernas eram proporcionais e ele tinha cerca de 1,80m; seu cabelo era bem curto e preto. A-Ka olhou para ele atentamente e estendeu a mão para tocar seu corpo.
Aquele homem ainda estava vivo.

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Notas de tradução:
[1] “Androides” são robôs com aparência humanoide, enquanto “ciborgues” são uma mistura de peças orgânicas e não-orgânicas. “Robôs” refere-se a qualquer máquina capaz de realizar tarefas de maneira automática.
[2] Gege: literalmente irmão mais velho. Eles não são realmente irmãos, é um honorífico usado para se referir a primos ou homens da própria faixa etária ou mais velhos.
[3] Heishi: literalmente “Pedra Preta”.
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